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Você conhece a história das hepatites?

A palavra Hepatite vem do Grego “HEPAR”, que significa “fígado”, associado à terminação “ITIS”, que originalmente quer dizer “relativo a”, mas acabou sendo absorvida pelo linguajar médico para designar “doença inflamatória”.

Informações contidas na literatura chinesa já faziam referência à ocorrência de icterícia na sua população há mais de cinco mil anos. Há cerca de 2500 anos os Babilônios já faziam referências a surtos epidêmicos de icterícia entre o seu povo, e já no século IV a.C., Hipócrates também relatou quadros de icterícia epidêmica, sem qualquer ideia de agente causal ou formas de transmissibilidade. Dessa forma, por muitos anos a hepatite permaneceu uma incógnita para os médicos, até que em 1865, Virchow descreveu um doente com icterícia, que apresentava obstrução do colédoco terminal por uma rolha de muco, e assim surgiu o conceito de “icterícia catarral”, que foi perpetuado ao longo de muitas gerações.

Quadros de icterícia epidêmica ocorreram por séculos e foram marcantes, sobretudo, nos períodos de guerra e catástrofes humanas, especialmente na Idade Média, quando ocorria piora das condições sócio higiênicas locais. Daí vem a origem das designações de “icterícia de campanha” e de “doença do soldado”.

A primeira epidemia descrita ocorreu em Bremen, na Alemanha, envolvendo trabalhadores de um estaleiro naval em 1885. Observou-se que após 2 a 6 meses da inoculação da vacina contra a varíola, derivada da linfa humana, em cerca de 1300 trabalhadores, 200 deles desenvolveram quadro de icterícia, enquanto naqueles que não foram vacinados não houve nenhum caso.

São conhecidas as epidemias de icterícia durante a guerra da Sucessão Austríaca (1743), de Napoleão no Egito (1798), Franco-Prussiana (1870) e Secessão Americana (1861-1865). Durante a guerra da Secessão Americana, mais de 40.000 soldados dos exércitos da União foram atingidos.Outra ocasião de guerra com números marcantes de hepatite foi a Segunda Grande Guerra, durante a qual estima-se que cerca de 16 milhões de pessoas contraíram a doença pela via fecal-oral.

O primeiro teste de função hepática foi descrito por Higman van den Berg, em 1918, e trata-se de uma reação química usada para medir os níveis de bilirrubina no sangue. A partir de 1940 as opiniões começaram a inclinar-se a favor da lesão hepática como evento primário no desenvolvimento da icterícia epidêmica.

Em 1942, a primeira transmissão voluntária da hepatite infecciosa ocorreu entre um médico austríaco e três estudantes de medicina da Universidade de Viena. Eles ingeriram suco duodenal de um doente com hepatite e cerca de três a quatro semanas depois todos contraíram a doença.

Durante os anos de 1956 e 1972 muitos estudos em humanos foram realizados pelo Dr. Saul Krugman. A comunidade cientifica na época exaltava tais estudos, mas em contrapartida, as pressões sociais que se mobilizaram para cobrar uma postura ética, ocasionaram uma nova era de estabelecimento de princípios morais para o desenvolvimento de pesquisas cientificas.

Baruch Blumberg

Na década de 1960, Baruch Blumberg, ganhador do premio nobel de medicina em 1976, descobriu no soro de um aborígine australiano um antígeno que reagia com o soro de dois doentes hemofílicos poli transfundidos, ao qual foi atribuído o nome de antígeno Austrália(AgAu). Este achado ocasional representou um marco no estudo das hepatites virais. Por alguns anos Blumberg e sua equipe sugeriram que a alta frequência deste antígeno no soro de pacientes com hepatite aguda poderia estar relacionada com um suposto vírus introduzido entre humanos através de hemotransfusões. Tal pensamento não foi aprovado inicialmente pela comunidade, mas após intensa revisão terminou por ser aceito entre os revisores. O vírus B foi o primeiro vírus humano patogênico a ser sequenciado. Ao se conseguir tais informações, juntamente com o conhecimento da sua forma de transmissão, estratégias para a prevenção da disseminação deste vírus foram desenvolvidas e resultaram em um grande impacto na evolução da cirrose e do carcinoma hepatocelular.

Essas descobertas possibilitaram a criação de vacinas e testes para evitar a propagação da doença através de transfusões sanguíneas. A primeira vacina contra a hepatite B foi aprovada nos Estados Unidos em 1981.

Fontes:
http://sbhepatologia.org.br/pdf/historia.pdf
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86822010000300022


Dr. João Fidêncio Barreto Campos
Médico Ultrassonografista Geral;
Membro do Núcleo Técnico de Conteúdo do Cetrus.

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