Doença renal crônica: Como a ultrassonografia contribui no diagnóstico e tratamento

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A doença renal crônica (DRC) é uma condição progressiva caracterizada por alterações estruturais e funcionais nos rins que persistem por mais de três meses. Considerada um problema global de saúde pública, está associada a elevada morbimortalidade, principalmente cardiovascular, além de representar um desafio econômico para os sistemas de saúde devido à progressão para estágios avançados que requerem terapia renal substitutiva.

A ultrassonografia, como modalidade de imagem não invasiva, desempenha um papel crucial no manejo da DRC, desde o diagnóstico inicial até a monitorização do tratamento e identificação de complicações.

Definição e classificação

A doença renal crônica é definida pela presença de uma taxa de filtração glomerular (TFG) reduzida (<60 mL/min/1,73 m²) ou marcadores de dano renal, como:

  • Albuminúria, que reflete o aumento da permeabilidade glomerular a macromoléculas;
  • Hematúria persistente microscópica ou macroscópica;
  • Alterações estruturais evidenciadas em exames de imagem (ultrassonografia, principalmente): podem identificar rins policísticos, hidronefrose, rins pequenos e ecogênicos. 

A principal classificação é feita em estágios, que vai do 1 ao 5, de acordo com a TFG e a presença de outros marcadores, sendo o estágio 5 caracterizado como insuficiência renal terminal.  Essa classificação, amplamente utilizada pela Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO), é essencial para orientar o diagnóstico, o prognóstico e o manejo clínico:

Imagem I: A TFG é dividida em cinco estágios principais, que refletem a gravidade da perda de função renal. 

Os estágios G3a e G3b são subdivididos para refinar o risco e o manejo, uma vez que complicações metabólicas tornam-se mais prevalentes em TFG < 45 mL/min/1,73 m².

Além dessa classificação, há uma outra abordagem baseada na albumina como um marcador de dano renal e prognóstico, classificada em três categorias: 

Imagem II: Classificação da função renal pela albumina. 

Uma tabela combinada de TFG e albuminúria auxilia na identificação do risco de progressão para insuficiência renal terminal e complicações cardiovasculares. Essa abordagem integrada é amplamente adotada para guiar decisões terapêuticas e monitoramento clínico.

Imagem III: Associação entre albuminúria e a taxa de filtração glomerular.

Etiologia e fatores de risco da doença renal crônica

A etiologia da DRC é multifatorial e varia entre populações, mas as principais causas incluem:

  • Diabetes mellitus: É a principal causa de DRC em todo o mundo, responsável por cerca de 40% dos casos. A nefropatia diabética resulta da hiperglicemia crônica e da ativação de vias inflamatórias e de fibrose renal.
  • Hipertensão arterial: A hipertensão crônica lesa os glomérulos e promove esclerose renal.
  • Doenças glomerulares: As glomerulonefrites podem ser primárias ou secundárias a condições autoimunes, como o lúpus eritematoso sistêmico.
  • Doença renal policística autossômica dominante (DRPAD): Uma das principais causas hereditárias de DRC.
  • Obstrução do trato urinário: Litíase, hiperplasia prostática benigna e estenoses são causas comuns de obstrução e dano renal.

Os principais fatores de risco incluem:

  • Idade avançada
  • História familiar de DRC
  • Uso prolongado de medicamentos nefrotóxicos, como anti-inflamatórios não esteroides
  • Tabagismo
  • Doenças cardiovasculares preexistentes

Manifestações clínicas

A doença renal crônica é frequentemente assintomática em seus estágios iniciais, sendo detectada apenas por alterações laboratoriais. Com a progressão da doença, os sinais e sintomas podem incluir alterações urinárias, como a proteinúria, hematúria ou redução do volume urinário. 

Paciente pode apresentar ainda com sintomas de uremia, como fadiga, náuseas, anorexia, prurido e hálito urêmico são comuns nos estágios avançados. Edema em membros inferiores e face também pode ser um achado, decorrente de retenção de sódio e água.

Além disso, a doença renal crônica também pode se manifestar com hipertensão arterial, presente em grande parte dos pacientes devido à hiperativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Complicações metabólicas como acidose metabólica, hipocalcemia e hiperfosfatemia, contribuindo para a doença óssea metabólica, podem ser encontradas. 

Diagnóstico da doença renal crônica

O diagnóstico da DRC baseia-se em uma combinação de critérios clínicos, laboratoriais e de imagem.

  • Exames laboratoriais: creatinina sérica, taxa de filtração glomerular, albuminúria, ureia, eletrólitos. 
  • Exames de imagem:
    Ultrassonografia renal: Útil para identificar alterações anatômicas, como redução do tamanho renal ou presença de cistos.
    Tomografia computadorizada ou ressonância magnética: Indicadas em casos complexos para avaliação detalhada de obstruções ou massas.
  • Biópsia renal: Indicada em casos de etiologia incerta ou suspeita de glomerulonefrite ou outras doenças específicas.

Ultrassonografia na doença renal crônica: do diagnóstico ao tratamento

A ultrassonografia é uma ferramenta indispensável no manejo da DRC, fornecendo informações essenciais desde o diagnóstico até o acompanhamento terapêutico. Sua natureza não invasiva, acessibilidade e ausência de radiação tornam-na ideal para a avaliação contínua desses pacientes. 

A ultrassonografia modo B é a modalidade de imagem mais apropriada para avaliação de doença renal crônica e deve fazer parte do exame inicial.

Ultrassonografia na avaliação inicial da doença renal crônica

A ultrassonografia é a modalidade de escolha para a avaliação anatômica dos rins, pois permite identificar alterações estruturais associadas à DRC, incluindo:

  • Tamanho renal: A redução do tamanho renal (<8 cm em adultos) é um marcador clássico de DRC avançada, embora tamanhos normais possam ser observados em nefropatias diabéticas ou amiloidose.
  • Ecogenicidade cortical: Aumentos na ecogenicidade cortical sugerem fibrose e perda de néfrons funcionais. Comparar a ecogenicidade renal à do fígado ou baço pode ajudar na avaliação qualitativa.
  • Espessura cortical: O afinamento cortical é um indicativo de doença renal crônica progressiva.

Avaliação de obstrução, hidronefrose e doença parenquimatosa 

Além de analisar a anatomia do rim, a ultrassonografia é sensível para identificar dilatação do sistema coletor renal, que pode indicar obstrução urinária, um diagnóstico diferencial importante na insuficiência renal aguda e em pacientes com fatores de risco para doença renal crônica.

Imagem IV: Ultrassonografia de rim com hidronefrose. (A) Hidronefrose do rim direito, vista longitudinal. (B) Uma visão diferente mostrando um ureter proximal dilatado (seta). Fonte: Uptodate, 2024. 
Imagem V: Ultrassonografia de um rim normal e ultrassonografia de um paciente com doença renal crônica. Fonte: Uptodate, 2024.

Na imagem (A) acima temos uma imagem longitudinal de um rim direito normal. O comprimento é de 10,4 cm com espessura cortical normal e com ecogenicidade menor que a do fígado (L). Já na figura (B), temos uma imagem longitudinal de um rim direito de um paciente com DRC avançada. O comprimento é de 8,4 cm e o córtex é mais ecogênico que o fígado, misturando-se com o tecido circundante.

Identificação de anomalias congênitas e adquiridas

Podemos utilizar o ultrassom ainda na identificação de anomalias congênitas e adquiridas, como:

  • Doença renal policística autossômica dominante (DRPAD): Cistos renais bilaterais, frequentemente detectados na ultrassonografia, são um achado diagnóstico típico.
  • Cistos simples e complexos: Diferenciar entre cistos benignos e lesões malignas é fundamental para o manejo.

Ultrassonografia na progressão da DRC

A ultrassonografia Doppler é útil para avaliar o fluxo sanguíneo renal e a resistência vascular. O índice de resistência (IR), calculado pela fórmula [(velocidade sistólica máxima – velocidade diastólica final) / velocidade sistólica máxima], reflete alterações na perfusão renal associadas à DRC. Um IR elevado está associado à progressão da doença e à presença de comorbidades cardiovasculares.

Além disso, auxilia no monitoramento de complicações como:

  • Hipertrofia do trato urinário: A detecção precoce de obstrução urinária é essencial para evitar danos renais adicionais.
  • Doença óssea metabólica: A ultrassonografia pode identificar calcificações vasculares associadas ao hiperparatireoidismo secundário na DRC.

A USG também é bastante útil na avaliação da resposta ao tratamento. Pacientes em terapia conservadora ou substitutiva (hemodiálise ou diálise peritoneal) podem ser monitorados por ultrassonografia para avaliar a função residual, a presença de derrame pleural ou pericárdico e complicações relacionadas ao acesso vascular.

Ultrassonografia com contraste

O uso de microbolhas de contraste melhora a visualização da microvascularização renal, permitindo a avaliação detalhada de lesões focais e da perfusão renal global, especialmente em pacientes com contraindicações para tomografia ou ressonância magnética.

Ultrassonografia na intervenção terapêutica

Durante o manejo do paciente, podemos utilizar a ultrassonografia para as seguintes ações:

Auxílio na realização da fístula arteriovenosa

O ultrassom dá suporte à criação de uma fístula arteriovenosa (FAV), essencial para a hemodiálise. É possível realizar o mapeamento vascular, identificando e avaliando a anatomia das artérias e veias, incluindo diâmetro, profundidade e fluxo sanguíneo. Com isso, há uma maior facilidade na seleção do sítio vascular mais adequado, geralmente na extremidade superior, priorizando a fístula radiocefálica ou braquiocefálica.

Auxílio na biópsia renal

A ultrassonografia guiada é amplamente utilizada para realizar biópsias renais, especialmente em casos de glomerulonefrite ou proteinúria inexplicada. A imagem em tempo real aumenta a precisão e reduz complicações, como hematoma perirrenal.

Avaliação pré-transplante renal

Pacientes candidatos ao transplante renal passam por uma avaliação ultrassonográfica detalhada para determinar a viabilidade do enxerto e identificar anormalidades anatômicas ou vasculares.

Monitoramento pós-transplante

A ultrassonografia é essencial na detecção precoce de complicações pós-transplante, como rejeição aguda, trombose vascular, hematomas perirrenais e estenose de artéria renal.

Curso intensivo: Ultrassonografia em Medicina Interna

Apesar de suas inúmeras vantagens, a ultrassonografia apresenta limitações, como a dependência do operador e a dificuldade em avaliar pacientes obesos ou com excesso de gases intestinais. Além disso, é menos precisa na avaliação de lesões pequenas ou de alterações funcionais em estágios iniciais de DRC.

Para que se possa evitar o máximo de erro, é fundamental que o médico se capacite em cursos reconhecidos pelo MEC. 

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Referências

  1. FETEHI, P.; HSU, CHI-YUAN. Chronic kidney disease (newly identified): Clinical presentation and diagnostic approach in adults. Uptodate, 2024.
  2. LEVEY, A.S.; INKER, L.A. Definition and staging of chronic kidney disease in adults. Uptodate, 2024.
  3. O’NEILL, C. Avaliação radiológica da doença renal. Uptodate, 2024. 
  4. ROSENBERG, M. Overview of the management of chronic kidney disease in adults. Uptodate, 2024.

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