Endoftalmite é uma infecção ocular, de origem bacteriana ou fúngica, que acomete o humor vítreo e/ou o humor aquoso e que pode surgir como complicação de uma cirurgia de catarata.
Apesar de ser uma complicação rara da cirurgia de catarata, pode levar a uma perda visual significativa, o que evidencia a importância do diagnóstico e do tratamento precoces.
Sua incidência varia entre 0,04% e 0,1% e o risco eleva-se em pacientes com determinadas características, como idade mais avançada e sexo masculino, além de realização de cirurgias oftálmicas combinadas, vitrectomia anterior e presença de comorbidades.
Fisiopatologia e fatores de risco da endoftalmite após cirurgia de catarata
Divide-se o olho humano em dois segmentos principais:
- Anterior, preenchido pelo humor aquoso;
- Posterior, ocupado pelo corpo vítreo.
O humor aquoso é continuamente produzido e reabsorvido, com um tempo de renovação estimado em cerca de 100 minutos. Já o vítreo, por não ser renovado, é mais vulnerável a infecções exógenas, como as causadas por bactérias, o que contribui para sua maior suscetibilidade à infecção.
Durante a cirurgia de catarata, que é realizada através do segmento anterior, pode ocorrer contaminação transitória do humor aquoso por bactérias da flora conjuntival do próprio paciente. Todavia, o desenvolvimento de endoftalmite é raro.
A possibilidade de comunicação acidental com o vítreo, como ocorre em casos de ruptura da cápsula posterior durante a cirurgia de catarata, eleva significativamente o risco de endoftalmite. Além disso, procedimentos combinados, como a cirurgia simultânea de catarata e retina, que envolvem manipulação dos segmentos anterior e posterior, também elevam o risco de infecção.
Ademais, outros fatores associados ao aumento do risco incluem:
- Idade avançada;
- Diabetes;
- Insuficiência renal;
- Deiscência ou vazamento da ferida cirúrgica.
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Principais agentes etiológicos
Os estafilococos coagulase-negativos representam os principais agentes causadores de endoftalmite após cirurgias de catarata. Isso se deve ao fato de que a infecção, na maioria das vezes, é provocada pela flora conjuntival do próprio paciente, sendo os estafilococos coagulase-negativos os microrganismos mais comuns nessa região.
Outros agentes etiológicos envolvidos nos quadros de endoftalmite após cirurgia de catarata incluem:
- Staphylococcus aureus;
- Estreptococos;
- Outros organismos Gram-positivos;
- Organismos Gram-negativos.
Classificação da endoftalmite
Classifica-se a endoftalmite em dois grupos principais: exógena e endógena.
A endoftalmite exógena inclui subcategorias como:
- Pós-operatória aguda;
- Pós-operatória crônica;
- Relacionada a úlcera de córnea;
- Após injeções intravítreas;
- Traumática.
Já a endoftalmite endógena divide-se em:
- Coriorretinite endógena fúngica, com ou sem vitrite;
- Coriorretinite endógena bacteriana, também com ou sem vitrite.
Por sua vez, a endoftalmite pós-operatória classifica-se em aguda e crônica, sendo as diferenças demonstradas na tabela abaixo.
| Características | Endoftalmite aguda | Endoftalmite crônica |
|---|---|---|
| Tempo | Até 6 semanas após a cirurgia | A partir de 6 semanas após a cirurgia |
| Agente etiológico | Estreptococos do grupo B | Propionibacterium acnes, Aspergillus, Candida |
| Sintomas | Dor, visão reduzida, vermelhidão conjuntival, secreção lacrimal excessiva e fotofobia | Dor leve e perda visual gradual e progressiva |
Quadro clínico da endoftalmite após cirurgia de catarata
Na maior parte dos casos, os sintomas de endoftalmite manifestam-se na primeira semana após a cirurgia.
Os pacientes costumam relatar uma piora repentina da visão e desconforto ocular, embora alguns não descrevam claramente a presença de dor. Além disso, geralmente não apresentam outros sintomas sistêmicos, como febre.
Ao exame físico, os sinais restringem-se ao olho acometido e incluem:
- Pálpebras: normalmente apresentam aspecto preservado, podendo, ocasionalmente, estar levemente edemaciadas.
- Conjuntiva: pode demonstrar sinais de hiperemia ou apresentar edema, o que também pode ser confundido com alterações normais do pós-operatório.
- Acuidade visual: encontra-se reduzida, sendo comum a presença de hipópio.
- Retina: sua visualização costuma ser dificultada, e em aproximadamente 80% dos casos não identificam-se vasos retinianos.
Ademais, na avaliação com lâmpada de fenda, observam-se células inflamatórias (glóbulos brancos) e proteínas flutuando no humor aquoso, conhecidas entre oftalmologistas como “células” e “flare”, respectivamente.
Diagnóstico de endoftalmite após cirurgia de catarata
Realiza-se o diagnóstico da endoftalmite com base em sinais e sintomas, sendo confirmada, quando possível, por cultura positiva do humor aquoso ou vítreo. Contudo, a ausência de crescimento microbiológico não descarta o diagnóstico.
Para coleta de material para cultura, o oftalmologista pode realizar a aspiração do humor aquoso (aproximadamente 0,1 mL) ou do vítreo (cerca de 0,2 a 0,3 mL) utilizando uma agulha em ambiente ambulatorial, ou optar por uma vitrectomia pars plana em centro cirúrgico.
Além disso, técnicas moleculares, como a PCR (reação em cadeia da polimerase), têm potencial para aprimorar o diagnóstico da endoftalmite, embora ainda não sejam amplamente acessíveis.
Por fim, a ultrassonografia ocular do tipo “B-scan” costuma revelar um aumento da ecogenicidade do vítreo em casos de inflamação intraocular. Esse exame é especialmente útil quando alterações no segmento anterior dificultam a visualização direta do vítreo.
Para saber mais sobre ultrassonografia ocular, recomendamos o conteúdo “Ultrassonografia ocular na avaliação de infecções e inflamações oftalmológicas“.
Tratamento da endoftalmite após cirurgia de catarata
A endoftalmite aguda representa uma emergência médica oftalmológica e requer intervenção imediata. A seguir, está uma abordagem baseada em evidências para casos de endoftalmite após cirurgia de catarata.
Injeção intravítrea de antibióticos
O passo terapêutico mais importante é a administração direta de antibióticos no vítreo. Portanto, realiza-se essa injeção o mais rápido possível após a suspeita clínica e a coleta das culturas.
A terapia empírica inicial geralmente inclui vancomicina (1 mg) combinada com ceftazidima (2,25 mg).
Utiliza-se a amicacina (0,4 mg), por sua vez, como alternativa à ceftazidima. Todavia, raramente opta-se por essa medicação devido ao risco de toxicidade ocular.
Vitrectomia
Indica-se a vitrectomia em casos mais graves, especialmente quando a acuidade visual no momento da avaliação limita-se à percepção luminosa. Também considera-se a cirurgia em casos com inflamação severa ou deterioração rápida do quadro, mesmo quando a visão inicial é melhor.
Além disso, se não houver melhora clínica após 24 a 48 horas de tratamento com antibióticos intravítreos isolados, a vitrectomia passa a ser uma opção terapêutica viável.
Remoção de implantes intraoculares
A retirada do implante intraocular não é necessária na maioria dos casos, exceto quando há infecção fúngica ou endoftalmite crônica.
Casos refratários
Se após 48 horas não houver melhora clínica, deve-se considerar uma nova injeção intravítrea de antibióticos ou vitrectomia, caso ainda não tenha sido feita. Essa nova intervenção pode ser antecipada para 24 horas em casos fulminantes.
A escolha dos antibióticos para a segunda injeção deve ser guiada pelos resultados da cultura.
Prognóstico visual
Aproximadamente 50% dos casos de endoftalmite pós-cirurgia de catarata recuperam visão de 20/40 ou melhor, enquanto 10% evoluem com acuidade visual severamente comprometida (≤20/800). O prognóstico depende principalmente da virulência do agente infeccioso.
Além disso, pacientes com infecção por estreptococos tendem a ter piores resultados, enquanto aqueles com estafilococos coagulase-negativos ou culturas negativas têm prognósticos mais favoráveis.
Prevenção da endoftalmite após cirurgia de catarata
Realiza-se a prevenção da endoftalmite após a cirurgia de catarata por meio da utilização de uma solução de iodopovidona a 5%. Além disso, também é indicada a profilaxia com antimicrobianos.
Ademais, para a realização da cirurgia, é essencial que o paciente esteja clinicamente estável e sem sinais de infecção em outras regiões do corpo.
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Referências
- DURAND, M. L. Bacterial endophthalmitis. UpToDate, 2025.
- WADBUDHE, A. M.; TIDKE, S. C.; TIDAKE, P. K. Endophthalmitis After Cataract Surgery: A Postoperative Complication. Cureus, 2022.






