Novo rastreamento para prevenção do câncer do colo uterino

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O câncer do colo do útero é uma das principais causas de mortalidade entre mulheres no Brasil. Segundo o INCA, trata-se de um câncer altamente prevenível, principalmente quando detectado em estágios iniciais.

A detecção precoce é fundamental, e os métodos de rastreamento passaram por mudanças significativas nos últimos anos. O avanço nas tecnologias diagnósticas trouxe mais precisão e abriu novas perspectivas para a prevenção do câncer cervical, tornando os exames mais sensíveis e com menor chance de falhas.

Como é feito o rastreamento atualmente

No Brasil, conforme as Diretrizes do INCA (2016), o rastreamento ainda é realizado por meio da citologia oncótica (conhecida como Papanicolau). Esse exame pode ser feito de duas formas:

  • Esfregaço em lâmina: é o método tradicional, de menor custo, mas com limitações importantes. Pode apresentar até 20% de resultados falsos negativos, e sua análise é frequentemente prejudicada por fatores como presença de sangue, esperma ou resíduos de pomadas.
  • Coleta em meio líquido: vem sendo adotada em diversos serviços, oferecendo mais qualidade e permitindo a realização de exames complementares, como a pesquisa de HPV de alto risco e de outras ISTs. A análise é feita em monocamada, com auxílio de máquina, o que facilita a leitura e aumenta a confiabilidade.

Citologia oncótica x Teste de HPV

Diversos estudos compararam a citologia oncótica com os testes de detecção do DNA do HPV. Os achados são claros:

  • Citologia oncótica: possui maior especificidade, ou seja, é mais precisa para confirmar casos suspeitos.
  • Detecção do DNA do HPV: apresenta maior sensibilidade, identificando precocemente mulheres que podem desenvolver lesões precursoras do câncer.

As principais técnicas utilizadas para a detecção do DNA viral são

  • PCR (Polimerase Chain Reaction): método altamente sensível, capaz de identificar a presença do vírus em pequenas quantidades.
  • Captura Híbrida: técnica consolidada em programas de rastreamento, utilizada em diversos países.

Ambas permitem identificar o vírus antes que ele cause alterações celulares visíveis, o que possibilita um acompanhamento mais preventivo.

A nova fase do rastreamento

O Brasil passa agora a adotar uma nova etapa no rastreamento do câncer do colo do útero. Seguindo as orientações do Ministério da Saúde, da FEBRASGO e do INCA, o teste de HPV de alto risco será o exame de escolha inicial.

Esse tipo de exame tem como foco os subtipos HPV 16 e 18, responsáveis por cerca de 80% dos casos de câncer cervical.

O que cada resultado significa?

  • Citologia oncótica positiva: indica que a célula analisada já apresenta sinais de infecção viral.
  • PCR/genotipagem positiva: mostra apenas a presença do vírus, sem necessariamente indicar doença.
  • HPV positivo: não é diagnóstico de câncer, mas sim um marcador de risco aumentado.

Essa distinção é essencial para médicos e pacientes compreenderem que o novo rastreamento tem como foco avaliar o risco, e não apenas identificar lesões já existentes.

HPV e risco de câncer cervical

O HPV (Papilomavírus humano) é a infecção sexualmente transmissível viral mais comum no mundo. Alguns pontos são fundamentais para entender sua relação com o câncer cervical:

  • Aproximadamente 80% das mulheres sexualmente ativas terão contato com o HPV ao longo da vida.
  • O HPV de alto risco está diretamente associado ao câncer do colo do útero.
  • A presença do vírus não significa obrigatoriamente doença: em muitos casos, a infecção é transitória.
  • Vírus de baixo risco costumam desaparecer em até 6 meses, enquanto os de alto risco podem ser eliminados naturalmente em cerca de 12 meses, dependendo da imunidade da paciente.

No entanto, quando o vírus persiste, aumenta o risco de evolução para lesões precursoras e, posteriormente, para o câncer.

Novas estratégias: auto coleta e impacto no rastreamento

Uma inovação que vem ganhando espaço é a auto coleta para HPV, já testada em cidades como Recife (PE) e São Paulo (SP).

Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a auto coleta pode reduzir em até 46% os casos de câncer do colo do útero, ampliando o acesso de mulheres que, por diversos motivos, não realizam os exames de rotina nos serviços de saúde.

Além de facilitar o rastreamento em áreas remotas e entre populações vulneráveis, a estratégia fortalece a autonomia da mulher no cuidado com sua saúde.

Impacto na demanda por exames complementares

Com a adoção do teste de HPV como método principal de rastreamento, estima-se um aumento de cerca de 20% na demanda por colposcopia. Esse exame é essencial para a investigação detalhada de lesões suspeitas, permitindo definir condutas específicas e iniciar o tratamento precoce quando necessário.

Essa maior procura por colposcopias exige também investimentos em infraestrutura e capacitação de profissionais de saúde, garantindo que o sistema esteja preparado para absorver essa demanda.

Fluxograma de rastreamento

As Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero estabelecem um fluxograma de condutas para mulheres de risco padrão, que pode ser seguido pelos profissionais de saúde para tomada de decisão.

Fluxograma do rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil, mostrando a conduta a partir da detecção de HPV oncogênico e os próximos passos de acompanhamento.
Diretrizes brasileiras: condutas recomendadas para mulheres de risco padrão no rastreamento do câncer do colo do útero.

Conclusão

O novo rastreamento do câncer do colo do útero representa um marco na saúde pública brasileira. A mudança do enfoque, de simplesmente identificar lesões já instaladas para avaliar o risco a partir do HPV, amplia as possibilidades de prevenção.

Essa abordagem permite detectar precocemente mulheres em maior risco, orientar condutas personalizadas e reduzir significativamente os casos avançados da doença.

A combinação entre testes de HPV, citologia em meio líquido e estratégias como a auto coleta fortalece o combate ao câncer cervical, uma doença que, com prevenção adequada, pode ser em grande parte evitada.

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Dr. Flávio Zucchi
Dr. Flávio Zucchi
Ginecologia e Obstetrícia

Doutor em Medicina pela EPM-Unifesp, com títulos em Colposcopia e Patologia do Trato Genital Inferior. Membro da Febrasgo, Sogesp e Sociedade Brasileira de Laser. Coordenador dos cursos de Colposcopia do Cetrus.

CRM: 27311/SP – RQE: 44390

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