Toxina botulínica na intervenção de cefaleias: o que preciso saber?

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Tudo que você precisa saber sobre o uso da toxina botulínica do tratamento de cefaleias. Continue a leitura e fique por dentro do assunto.

A cefaleia, termo aplicado para todas as síndromes dolorosas localizadas na cabeça, é uma das queixas mais comuns nos consultórios médicos, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes. 

Entre as diversas abordagens terapêuticas, a toxina botulínica tem emergido como uma opção promissora no tratamento de cefaleias, oferecendo alívio para pacientes que muitas vezes enfrentam desafios persistentes. 

Este artigo explora os tipos de cefaleia, diferenciação entre primárias e secundárias, tratamentos gerais para cefaleias primárias e o papel da toxina botulínica nesse contexto.

Tipos de Cefaleia

A cefaleia é classificada em primária e secundária. A cefaleia primária ocorre como uma condição independente, não sendo resultado de outra condição médica subjacente. Já a cefaleia secundária é um sintoma de outra condição médica, como uma infecção, trauma ou tumor.

Cefaleias Primárias

As cefaleias primárias são os tipos de cefaleia mais comuns nas queixas dos pacientes em consultórios médicos. Elas não tem uma causa identificável, sendo os mecanismos etiopatogênicos pouco conhecidos. 

A sua queixa principal é a dor de cabeça. Este tipo de cefaleia possui caráter benigno e o seu diagnóstico é feito por critérios clínicos. 

Seus principais tipos são:

Enxaqueca

A enxaqueca é uma das formas mais comuns de cefaleia primária. Ela é caracterizada por episódios recorrentes de dor intensa, geralmente acompanhada de náuseas, vômitos, e sensibilidade à luz e ao som. Os ataques podem durar de algumas horas a vários dias.

Cefaleia Tensional

Esta é caracterizada por dor em pressão ou aperto na cabeça, a cefaleia tensional é frequentemente associada ao estresse e tensão muscular. Ela pode ser episódica ou crônica, afetando, assim a qualidade de vida dos pacientes.

Cefaleia em Salvas

Esta é uma forma rara, mas extremamente intensa de cefaleia primária. Os episódios ocorrem em clusters, com dores intensas e frequentes em um lado da cabeça, geralmente ao redor do olho.

Cefaleias secundárias

São sintomas dependentes de enfermidades do SNC ou sistêmicas – tem uma causa definida. Elas, infelizmente, nem sempre são benignas. 

As principais causas das cefaleias secundárias são: 

  • AVC hemorrágico
  • Trauma Craniano: Lesões na cabeça, como concussões ou fraturas cranianas, podem desencadear cefaleias secundárias.
  • Infecções: Infecções do sistema nervoso central, como meningite ou encefalite, podem causar cefaleias secundárias.
  • Transtornos Vasculares: Aneurismas ou malformações vasculares podem resultar em cefaleias secundárias devido ao aumento da pressão intracraniana.
  • Tumores Cerebrais: Tumores no cérebro podem causar cefaleias secundárias devido à compressão de estruturas nervosas.
  • Uso de drogas.

Quando investigar uma cefaleia? 

É fundamental adotar uma abordagem científica e minuciosa no diagnóstico e tratamento da cefaleia para assegurar o alívio dos sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Assim, diante de um quadro de queixa de dor de cabeça, é sempre importante distinguir se esta se trata de uma cefaleia primária ou secundária. 

Vale ressaltar que a presença de cefaleia, especialmente quando acompanhada de outros sintomas neurológicos, pode indicar condições sérias, como aneurismas cerebrais, tumores intracranianos ou outras doenças neurológicas. Assim, deve-se estar atento aos sinais de alarme ou os chamados reds-flags

Sinais de alarme

Os sinais de alarme associados à cefaleia são indicativos de que a dor de cabeça pode ser causada por condições médicas subjacentes mais graves. Alguns desses sinais incluem:

Cefaleia súbita e intensa

Uma dor de cabeça repentina e severa, muitas vezes descrita como “a pior dor de cabeça da vida”, pode ser um sinal de alerta para condições como hemorragia subaracnoide ou enxaqueca complicada.

Alterações na intensidade e padrão

Mudanças significativas na intensidade, duração ou padrão das cefaleias podem ser preocupantes e exigem avaliação médica.

Cefaleias associadas a trauma

Dor de cabeça após um trauma na cabeça, como um acidente de carro, queda ou golpe na cabeça, merece atenção, pois pode indicar lesões cerebrais. 

Agravamento com a idade

Se a cefaleia piorar com o tempo, especialmente em pessoas mais velhas, pode ser necessário investigar possíveis causas subjacentes, como tumores ou problemas vasculares.

Presença de sintomas neurológicos adicionais

A cefaleia acompanhada por sintomas neurológicos, como visão turva, fraqueza, dormência ou dificuldades na fala, pode indicar condições graves, incluindo acidente vascular cerebral (AVC).

Cefaleia com febre e rigidez do pescoço

Cefaleia associada a febre e rigidez do pescoço pode ser um sinal de meningite, uma infecção grave das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal.

Histórico de Câncer

Pessoas com histórico de câncer podem ter cefaleias relacionadas a metástases cerebrais, tornando a avaliação médica essencial.

Padrão novo em pacientes com HIV ou outras doenças imunossupressoras: 

Pacientes com HIV ou outras condições imunossupressoras podem desenvolver cefaleias como resultado de infecções oportunistas, exigindo investigação.

Portanto, é crucial que qualquer pessoa que experimente cefaleias com esses sinais de alarme procure atendimento médico imediatamente para uma avaliação detalhada e diagnóstico preciso. O reconhecimento precoce de condições subjacentes pode levar a intervenções mais eficazes e melhor prognóstico.

Tratamentos para cefaleias primárias

O tratamento da cefaleia varia conforme o histórico médico, tipo e intensidade da dor. Este envolve o uso de diversos medicamentos, como antieméticos, analgésicos, anti-inflamatórios, corticoides, ergotamínicos, triptanos, neurolépticos e opiáceos. Em situações de cefaleias primárias persistentes, recomenda-se tratamento preventivo.

Nos casos leves, recomenda-se algumas medidas não farmacológicas, como:

  • Compressão da artéria temporal
  • Aplicação de compressa de gelo na têmpora
  • Indução não-farmacológica do sono
  • Biofeedback e Terapias Comportamentais: Técnicas de relaxamento, biofeedback e terapias comportamentais são eficazes no manejo da cefaleia tensional, abordando fatores desencadeantes relacionados ao estresse.
  • Tratamentos Alternativos: Acupuntura e massoterapia têm sido exploradas como opções complementares no tratamento de cefaleias.

Já nos episódios de moderada a grande intensidade, deve ser feito uso de fármacos:

  • Medicamentos Analgésicos: Para muitos pacientes, analgésicos comuns podem proporcionar alívio temporário. No entanto, seu uso excessivo pode levar a cefaleias de rebote.
  • Medicamentos Preventivos: Em casos de cefaleias frequentes, medicamentos preventivos, como betabloqueadores ou anticonvulsivantes, prescreve-se para reduzir a frequência e intensidade dos episódios.

Toxina Botulínica: uma abordagem emergente no tratamento de cefaleias

A toxina botulínica, popularmente conhecida pelo seu uso em procedimentos estéticos, tem ganhado reconhecimento como uma intervenção eficaz para cefaleias crônicas, especialmente enxaquecas.

Esta substância é uma neurotoxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum. Ela é composta por sete toxinas distintas, porém apenas duas são utilizadas comercialmente para o tratamento (toxinas A e B). O tipo A é a empregada na profilaxia da enxaqueca. 

Evolução histórica do uso clínico 


Em 2010, nos Estados Unidos, autorizou-se a toxina botulínica do tipo A para uso no tratamento da enxaqueca crônica, embora estudos já estivessem sendo conduzidos desde os anos 90. Posteriormente, em 2011, a mesma autorização ocorreu no Canadá. 

No Brasil, recentemente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) também aprovou o seu uso. 

Mecanismo de ação da Toxina Botulínica

A toxina botulínica age inibindo a liberação de acetilcolina nas junções neuromusculares, resultando em relaxamento muscular. 

Quando a toxina botulínica tipo A é injetada no espaço extracelular, a sua cadeia pesada se conecta aos receptores no final nervoso da fibra C. A toxina então é então endocitada, entrando no terminal nervoso envolvida em uma vesícula.

 A cadeia leve se separa da cadeia pesada e penetra no citoplasma da célula, onde corta a SNAP-25, uma proteína crucial para a fusão de vesículas contendo neuropeptídeos com a membrana do terminal nervoso. O resultado disso é a incapacidade de liberar CGRP e outros neuropeptídeos. Além disso, a inserção de alguns receptores na membrana celular, é bloqueada.

Quando as terminações nervosas sensoriais nas meninges são ativadas, liberam neuropeptídeos, incluindo CGRP. A capacidade da toxina de bloquear a liberação de CGRP das terminações nervosas periféricas das fibras C é fundamental para seu papel terapêutico na enxaqueca. 

Embora a inibição da liberação de neuropeptídeos e neurotransmissores no gânglio trigêmeo e possivelmente nos terminais centrais dos neurônios sensoriais periféricos também possa desempenhar um papel. Além disso, a obstrução da inserção de certos receptores, nas membranas celulares dos nociceptores, também pode ser relevante.

No contexto das cefaleias, acredita-se que a toxina botulínica possa reduzir a sensibilidade à dor e modular as vias neurogênicas envolvidas na enxaqueca crônica. Assim, seu efeito no músculo inicia-se entre 2 a 5 dias após a aplicação e pode durar até 2 semanas, com uma média de 4 meses

Indicações e administração da Toxina Botulínica na Cefaleia

A administração de Toxina Botulínica é aprovada como tratamento preventivo para enxaquecas crônicas em adultos. O procedimento envolve a aplicação de injeções em pontos específicos da cabeça e pescoço (nas regiões glabelar, frontal, temporal, occipital, cervical superior e trapézio) a cada três meses.

Geralmente, os profissionais realizam este procedimento em ambiente ambulatorial, e ele é relativamente seguro e bem tolerado.

Critérios diagnósticos para a enxaqueca crônica

Indica-se o tratamento com toxina botulínica para pacientes com enxaqueca crônica que não responderam adequadamente a outras terapias preventivas.

Os critérios diagnósticos para a enxaqueca crônica incluem: 

  • Dor de cabeça em pelo menos 15 dias por mês, e oito desses dias de dor de cabeça devem ser enxaquecas ou aliviados por um triptano ou derivado de ergot. 
  • Devem afetar a produtividade e qualidade de vida do paciente. 

Riscos de efeitos colaterais 

A toxina botulínica, quando não aplicada corretamente, pode causar efeitos colaterais temporários, embora geralmente seja segura. Alguns efeitos colaterais locais que podem ocorrer são: 

  • Ptose palpebral;
  • Ptose frontal;
  • Dor no pescoço;
  • Fraqueza no pescoço e ombro. 

Além disso, é preciso analisar mais de perto o uso em pacientes grávidas, lactantes ou com doenças neuromusculares. Estas podem ter contraindicações ao uso da toxina.

Usos da toxina botulínica para além da enxaqueca

Alguns estudos já têm mostrado eficácia do uso da toxina botulínica A para muitos distúrbios de cefaleia, além da enxaqueca crônica. Segue abaixo algumas situações em que seu uso mostrou ser positivo:

  • Cefaleias autonômicas trigeminais e cefaleia numular 
  • Neuralgia trigeminal 
  • Dor de cabeça persistente atribuída a lesão traumática na cabeça
  • Disfunção Temporomandibular

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Referências

  1. ADRETTA, J. et al. Uso da Toxina Botulínica para Tratamento de Cefaleia Crônica. Revista do Centro Universitário FAI – UCEFF Itapiranga –SC ISSN 2965-0232 Centro de Ciências da Saúde V. 2, N.1 (2023). 
  2. MAY, A. Cluster headache: Treatment and prognosis. UpToDate, 2024.
  3. OKAMOTO, A. M.; CARIA, P.H.F. Guia de Aplicação de Toxina Botulínica para o Tratamento de Cefaleia Tensional.  Rev trab. Iniciaç. Cient. UNICAMP, Campinas, SP, n.26, p. out. 2018. DOI:10.20396/revpibic.v0i0.id 
  4. SILVA, E. A. R.; SUGUIHARA, R.T.; MUKNICKA, D. P. Toxina botulínica como modalidade terapêutica na cefaleia. Research, Society and Development, v. 12, n. 12, e52121243898, 2023 (CC BY 4.0) | ISSN 2525-3409 | DOI: http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i12.43898 
  5. TAYLOR, F. R. Tension-type headache in adults: Acute treatment. UpToDate, 2023. 

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