Fluido responsividade em cardiointensivismo: conceitos e aplicações clínicas

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Tudo que você precisa saber sobre fluido responsividade. Conheça as aplicações clínicas e mais.

A reposição de fluidos é uma das intervenções mais comuns em unidades de terapia intensiva. No entanto, pesquisas recentes destacam que a administração excessiva de fluidos de forma desnecessária pode causar danos ao paciente, tornando a avaliação da responsividade a volume um tema de grande relevância para os intensivistas.

A fluido responsividade é a capacidade do sistema cardiovascular de aumentar o débito cardíaco (DC) em resposta à administração de fluidos. Em outras palavras, um paciente é considerado fluido responsivo se, após receber uma infusão de fluidos, seu débito cardíaco aumentar de forma significativa. Este conceito é fundamental no manejo de pacientes críticos, pois ajuda a guiar a reposição volêmica, evitando a administração excessiva de fluidos em pacientes que não terão benefício com essa intervenção.

Neste texto apresentaremos a fisiopatologia da fluido responsividade, seus métodos de avaliação e as aplicações clínicas. Acesse e confira tudo sobre o assunto. 

Fisiopatologia da fluido responsividade

O metabolismo celular depende de reações químicas aeróbias para gerar energia. Em estados graves, pode ocorrer um desequilíbrio entre a oferta (DO2) e o consumo de oxigênio (VO2), levando ao metabolismo anaeróbio, que é menos eficiente e gera subprodutos prejudiciais, resultando em morte celular e tecidual. 

Imagem I: Relação entre a oferta de O2 (DO2) e consumo de O2 (VO2) em pessoas sadias e em pacientes críticos. O DO2 crítico é o ponto no qual a oferta e o consumo se igualam. Valores menores de DO2 que o consumo gera metabolismo anaeróbio e produção de lactato. DO2 – oferta de oxigênio; TeO2 – taxa de extração de oxigênio. Fonte: PEREIRA, at al, 2024.

A oferta de oxigênio é determinada pelo conteúdo arterial de oxigênio (CaO2) e pelo débito cardíaco (DC), e a reposição de fluidos busca aumentar o DO2 ao elevar a pré-carga e, consequentemente, o DC, com base na Lei de Frank-Starling

No entanto, esse mecanismo tem limites, e o excesso de fluidos pode sobrecarregar o coração, causando complicações como insuficiência renal aguda e aumento da mortalidade. Portanto, a administração de fluidos intravenosos deve ser cautelosa e baseada em métodos de monitorização que ajudem a prever a fluido responsividade para evitar complicações.

Lei de Frank-Starling e a fluido responsividade

A fluido responsividade está diretamente relacionada à Lei de Frank-Starling, que explica a resposta do coração ao aumento do volume sanguíneo que chega ao ventrículo (pré-carga). Segundo essa lei, o estiramento das fibras miocárdicas causado pela maior pré-carga resulta em contrações mais fortes, aumentando o débito cardíaco (DC). Quando o coração se encontra na parte ascendente da curva de Frank-Starling, a administração de fluidos leva a um aumento significativo do volume sistólico e, consequentemente, do DC. 

Porém, essa relação tem um limite: além de certo ponto, o coração atinge sua capacidade máxima de resposta e o aumento da pré-carga não resulta em maior débito cardíaco, podendo causar sobrecarga de volume e complicações, como edema pulmonar ou insuficiência cardíaca.

Esse mecanismo é essencial em estados de hipovolemia ou choque, onde a redução do volume intravascular compromete a perfusão tecidual e a entrega de oxigênio (DO2). A administração de fluidos visa restaurar esse equilíbrio ao aumentar o volume circulante e melhorar o débito cardíaco. Entretanto, nem todos os pacientes responderão de maneira positiva, e a administração excessiva de fluidos pode agravar o quadro clínico, evidenciando a importância de métodos para identificar a fluido responsividade antes da reposição.

Imagem II: Representação da curva de Frank-Starling em pacientes com a contratilidade normal e diminuída no contexto de hipovolemia, normovolemia e hipervolemia. ∆P – variação da pressão; ∆SV – variação do volume sistólico. Fonte: PEREIRA, at al, 2024. 

Métodos de avaliação da fluido responsividade: métodos dinâmicos e estáticos

A avaliação da fluido responsividade é necessária para guiar a terapia de reposição volêmica em pacientes críticos, uma vez que evita tanto a hipovolemia quanto a sobrecarga de fluidos. Para essa avaliação, existem dois tipos principais de métodos: métodos dinâmicos e métodos estáticos.

Métodos estáticos de avaliação

Os métodos estáticos medem parâmetros fixos relacionados ao estado hemodinâmico, como pressão arterial e parâmetros de pré-carga, mas não avaliam diretamente a resposta do sistema cardiovascular à administração de fluidos. Embora sejam amplamente utilizados, sua capacidade de prever fluido responsividade é limitada.

Estudos demonstram que esses valores nem sempre refletem a real necessidade de reposição volêmica, já que o coração pode não estar mais na fase ascendente da curva de Frank-Starling.

Exemplos de métodos estáticos incluem:

  • Pressão venosa central (PVC): A PVC reflete a pressão no átrio direito e é usada como um indicativo de pré-carga. No entanto, estudos mostram que a PVC isolada não é um bom preditor de fluido responsividade, uma vez que não reflete adequadamente a relação entre volume intravascular e débito cardíaco.
  • Volume diastólico final do ventrículo esquerdo: Avalia o volume sanguíneo presente no ventrículo esquerdo ao final da diástole. Embora seja um parâmetro de pré-carga, ele também não é um preditor confiável de fluido responsividade, pois não reflete a capacidade do coração de responder ao aumento do volume.
  • Parâmetros estáticos da ecocardiografia: através do uso do eco, principalmente na UTI, pode-se realizar a avaliação ventricular e a avaliação do diâmetro da veia cava inferior.
    • Avaliação ventricular esquerda: indica-se hipovolemia quando o VE é pequeno e hiperdinâmico. Achados como o fenômeno de “kissing-ventricles”, em que as paredes do VE se aproximam durante a sístole, sugerem hipovolemia severa. Entretanto, a hipertrofia ventricular esquerda pode dificultar essa avaliação ao diminuir visualmente a cavidade do ventrículo.
    •  Diâmetro da veia cava inferior:  A medição do diâmetro da veia cava inferior é realizada via janela subcostal, sendo <10 mm sugestivo de hipovolemia e >20 mm de hipervolemia. Contudo, essa medida perde a acurácia em pacientes ventilados mecanicamente devido ao aumento da pressão torácica, e valores estáticos, isoladamente, não são bons preditores de fluido responsividade.

Métodos dinâmicos de avaliação da fluido responsividade

Os métodos dinâmicos avaliam a fluido responsividade medindo as variações hemodinâmicas em resposta a estímulos fisiológicos ou testes específicos. Estes métodos são mais precisos e amplamente recomendados.

Esses métodos avaliam diretamente a resposta do sistema cardiovascular a um “teste de estresse”, seja por ventilação mecânica ou por manobras que simulam a administração de fluidos.

Principais métodos dinâmicos:

  • Variação da pressão de pulso (VPP) e variação do volume sistólico (VVS): Estes parâmetros são utilizados principalmente em pacientes sob ventilação mecânica. Durante a ventilação com pressão positiva, o aumento intermitente na pressão intratorácica provoca variações cíclicas no retorno venoso e na pré-carga. Se o paciente for fluido responsivo, essas variações serão mais acentuadas. Valores de PPV superiores a 12-13% indicam fluido responsividade.
  • Teste de elevação passiva das pernas (PLR): Essa manobra fisiológica simula uma expansão volêmica de aproximadamente 300 mL de sangue ao transferir volume da parte inferior do corpo para o coração. Um aumento do débito cardíaco ou do volume sistólico em resposta à elevação das pernas indica fluido responsividade. A grande vantagem desse método é que ele é reversível, não necessitando de infusão de fluidos reais.
  • Teste de volume sistólico com fluidos (Fluid Challenge): Consiste na infusão rápida de um pequeno volume de fluidos (geralmente 250-500 mL de cristalóides) e na avaliação subsequente da resposta hemodinâmica. Um aumento de 10-15% no débito cardíaco ou no volume sistólico sugere fluido responsividade.
  • Variação da velocidade de pico da artéria aorta (ΔVpeak): Medido pela ecocardiografia Doppler, avalia a variação da velocidade do fluxo sanguíneo na aorta durante o ciclo respiratório. A variação maior que 12-13% indica fluido responsividade.

Além desses, temos ainda índice de variabilidade de pulso, biorreatância elétrica, avaliação dinâmica pelo ecocardiograma e teste de oclusão expiratório final. 

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Aplicações clínicas no cardiointensivismo

No ambiente cardiointensivo, o manejo da fluido responsividade é crítico, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca, choque cardiogênico e séptico, onde o equilíbrio entre a otimização da pré-carga e a prevenção da sobrecarga de fluidos é fundamental. 

Choque séptico

No choque séptico, a reposição agressiva de fluidos é comumente necessária para manter a perfusão tecidual. No entanto, deve-se monitorar a fluido responsividade cuidadosamente, pois o excesso de fluidos pode levar a edema pulmonar e disfunção de múltiplos órgãos. Avaliar a fluido responsividade permite um uso mais preciso da terapia volêmica, maximizando os benefícios sem sobrecarregar o sistema cardiovascular.

Choque cardiogênico

Em pacientes com insuficiência cardíaca ou choque cardiogênico, o coração frequentemente não consegue aumentar o débito cardíaco em resposta a fluidos, e a administração excessiva pode piorar a função cardíaca. A avaliação cuidadosa da fluido responsividade permite distinguir entre pacientes que realmente se beneficiarão da reposição de fluidos e aqueles que necessitam de suporte inotrópico ou vasopressor.

Insuficiência cardíaca 

Em pacientes com disfunção ventricular, a capacidade do coração de responder à administração de fluidos é limitada. Nestes casos, deve-se avaliar a fluido responsividade cuidadosamente, e estratégias como o PLR ou monitorização hemodinâmica contínua podem ajudar a identificar aqueles que se beneficiariam da expansão volêmica.

Pós-operatório de cirurgia cardíaca

Após cirurgia cardíaca, a reposição volêmica deve ser feita de forma criteriosa para garantir a otimização do débito cardíaco sem sobrecarregar o coração recém-operado. O uso de PPV e SVV pode ser útil no ajuste fino da terapia de fluidos. Faz-se isso através de monitorização hemodinâmica avançada.

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Referências

  1. MELO, R.H.; CLARO DOS SANTOS, M.H.; RAMOS, F.J.S. Beyond fluid responsiveness: the concept of fluid tolerance and its potential implication in hemodynamic management. Crit Care Sci. 2023;35(2):226-229. 
  2. PEREIRA, A.J. et al. Métodos de avaliação de fluido responsividade: revisão de literatura. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 7, n. 1, p. 7341-7365, jan./feb., 2024. DOI:10.34119/bjhrv7n1-600 
  3. RAMOS, F.J.S.; AZEVEDO, L.C.P. Avaliação da responsividade a volume em pacientes sob ventilação espontânea. Rev Bras Ter Intensiva. 2009; 21(2):212-218

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