Ácido hialurônico, PRP ou células-tronco: qual escolher na infiltração articular?

Pessoa sentada segurando o joelho com as duas mãos, demonstrando dor ou desconforto na articulação.

Índice

A infiltração articular tem se consolidado como uma alternativa terapêutica relevante no manejo das doenças osteoarticulares, especialmente da osteoartrite, ao oferecer alívio da dor, melhora funcional e em alguns casos, potencial regenerativo.

Entre as principais modalidades disponíveis, destacam-se o ácido hialurônico, o plasma rico em plaquetas (PRP) e as células-tronco, cada qual com mecanismos de ação, indicações e evidências científicas distintas.

Mecanismo de ação de cada tratamento

Ácido hialurônico

O ácido hialurônico (AH) é um polissacarídeo natural encontrado no líquido sinovial, onde desempenha papel fundamental na manutenção da viscosidade e elasticidade desse fluido. Estruturalmente, trata-se de um glicosaminoglicano formado por cadeias longas de dissacarídeos repetidos de ácido glucurônico e N-acetilglucosamina, que compõem a matriz extracelular da cartilagem.

Quando administrado por meio de infiltração articular, o AH atua como um lubrificante e amortecedor mecânico, reduzindo o atrito durante o movimento e protegendo a superfície articular contra sobrecarga. Além disso, exerce um efeito condroprotetor, contribuindo para a preservação da cartilagem e, consequentemente, para a melhora da dor e da função articular em pacientes com osteoartrite.

Plasma rico em plaquetas (PRP)

O plasma rico em plaquetas (PRP) é obtido do sangue autólogo do paciente por centrifugação, resultando em uma concentração de plaquetas de 2 a 10 vezes superior ao nível basal. Essas plaquetas armazenam proteínas bioativas em grânulos α e densos, incluindo fatores de crescimento como PDGF, TGF-β, VEGF, IGF-1 e FGF, além de substâncias como cálcio, serotonina e dopamina, que participam de processos de reparo tecidual.

O mecanismo pelo qual o PRP atua ainda não é totalmente elucidado, mas entende-se que ele disponibiliza uma grande quantidade de fatores de crescimento, capazes de estimular a proliferação de células-tronco mesenquimais e favorecer tanto a produção de matriz extracelular quanto a síntese de colágeno. Além disso, acredita-se que o PRP seja capaz de modular a inflamação ao reduzir a ativação da via NF-κB.

Dessa forma, o PRP promove angiogênese, quimiotaxia celular e regeneração tecidual, atuando tanto na cartilagem quanto em tecidos moles e no osso.

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Células-tronco

O mecanismo de ação das células-tronco na infiltração articular ainda não é totalmente esclarecido, mas acredita-se que sua eficácia possa estar relacionada a diferentes processos:

  • Regeneração direta da cartilagem, pela diferenciação em condrócitos e restauração parcial do tecido perdido;
  • Estimulação dos mecanismos endógenos de reparo, por meio da secreção de fatores de crescimento que apoiam células locais de regeneração;
  • Modulação imunológica e anti-inflamatória, interferindo em vias que perpetuam o dano articular.

Além disso, as células-tronco parecem exercer um papel importante não apenas como precursoras de cartilagem, mas também como reguladoras do microambiente articular, com capacidade de reduzir a inflamação e favorecer a homeostase tecidual.

Indicações, contraindicações e limitações

Ácido hialurônico

O ácido hialurônico intra-articular tem sido utilizado como estratégia terapêutica na osteoartrite do joelho, com o objetivo de reduzir a dor e melhorar a função articular. Sua principal indicação é a viscossuplementação, especialmente em pacientes que não obtêm alívio satisfatório apenas com medidas conservadoras, como analgésicos, fisioterapia ou anti-inflamatórios.

Entre as limitações, destaca-se o alto custo. Além disso, existe a possibilidade de efeitos adversos, como crises de dor pós-infiltração e, mais raramente, infecção articular. Assim, a indicação deve ser criteriosa, considerando o perfil do paciente e a ausência de resposta a outras terapias.

Plasma rico em plaquetas (PRP)

O PRP tem sido utilizado principalmente em condições musculoesqueléticas, com destaque para patologias tendíneas, além de estudos em osteoartrite de joelho, quadril e tornozelo. Alguns ensaios indicam melhora sintomática de curto prazo em casos de osteoartrite, embora estudos recentes ressaltem a necessidade de mais pesquisas para confirmar de forma consistente os benefícios em comparação ao placebo, especialmente a longo prazo.

Do ponto de vista da segurança, o PRP apresenta um bom perfil, com efeitos adversos geralmente leves e transitórios, como dor, inchaço, hematomas e sensibilidade no local da aplicação. Além disso, complicações graves são incomuns, mas, como em qualquer injeção intra-articular, há risco potencial de infecção.

Assim, o PRP pode ser uma opção em casos de dor articular ou tendinopatias que não respondem a tratamentos convencionais, com protocolos ainda em desenvolvimento para otimizar sua aplicação na osteoartrite.

Células-tronco

As células-tronco vêm sendo estudadas como uma possível alternativa terapêutica para distúrbios articulares, especialmente pela sua capacidade potencial de regenerar cartilagem, modular a inflamação e estimular fatores de reparo.

Ensaios clínicos já demonstraram boa tolerabilidade da injeção intra-articular, com relatos de melhora da dor e função em alguns grupos de pacientes. Contudo, os protocolos ainda estão em desenvolvimento, com ajustes em dose, frequência e origem das células sendo investigados, o que limita a definição de indicações claras. Além disso, não há consenso sobre o estágio mais adequado da doença para seu uso.

Comparativo de eficácia e durabilidade dos resultados

Tratamentos intra-articulares com ácido hialurônico, plasma rico em plaquetas (PRP) e células-tronco apresentam perfis distintos de eficácia e duração dos efeitos.

O ácido hialurônico, por exemplo, oferece alívio sintomático modesto, funcionando como lubrificante e amortecedor. Entretanto, seu benefício clínico comparado ao placebo é frequentemente considerado pequeno e de curta duração.

O plasma rico em plaquetas (PRP) pode oferecer melhora sintomática temporária em algumas articulações, embora os resultados variem conforme o protocolo utilizado e a composição da preparação, ressaltando a importância de estudos adicionais para definir seu benefício de forma mais consistente.

Por fim, o uso de células-tronco apresenta potencial regenerativo, com estudos relatando melhora em dor e função, especialmente em pacientes com osteoartrite moderada do joelho. A durabilidade dos efeitos pode variar de acordo com fatores como origem das células, dose e técnicas de injeção, indicando a necessidade de investigação contínua.

Evidências científicas e diretrizes clínicas

A literatura sugere que a viscossuplementação com ácido hialurônico oferece benefícios modestos, sendo recomendada quando utilizada com critério clínico, especialmente em pacientes que não obtêm alívio suficiente com medidas conservadoras.

No caso do plasma rico em plaquetas (PRP), embora estudos iniciais sugiram alívio sintomático de curto prazo, ensaios randomizados indicam resultados variáveis, e estudos adicionais são importantes para esclarecer plenamente o potencial benefício do PRP em diferentes articulações.

Já as células-tronco têm demonstrado boa tolerabilidade e potencial para melhora funcional, representando uma área promissora na pesquisa clínica em osteoartrite. No entanto, devido à heterogeneidade dos estudos, ao tamanho limitado das amostras e à falta de acompanhamento de longo prazo, são necessários estudos adicionais para consolidar recomendações mais precisas.

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Referências

  • Arlani, G. G. et al. Infiltração intra-articular de plasma rico em plaquetas versus ácido hialurônico em pacientes com osteoartrite primária do joelho: resultados preliminares de um ensaio clínico randomizado. Rev Bras Ortop (São Paulo), 2021.
  • Clazzer, R. et al. Efeitos da infiltração intra-articular de aspirado de medula óssea no tratamento da osteoartrite de joelho: Estudo clínico comparando BMA versus corticosteroide e bloqueio genicular. Rev Bras Ortop (Sao Paulo), 2025.
  • Deveza, L A.; Bennell, K. Management of knee osteoarthritis. UpToDate, 2025.
  • Saturveithan, C. et al. Intra-articular Hyaluronic Acid (HA) and Platelet Rich Plasma (PRP) injection versus Hyaluronic acid (HA) injection alone in Patients with Grade III and IV Knee Osteoarthritis (OA): A Retrospective Study on Functional Outcome. Malays Orthop J., 2016.
  • Whittle, S. L. et al. Stem cell injections for osteoarthritis of the knee. Cochrane Database Syst Rev, 2019.
  • Yu, S. Investigational approaches to the management of osteoarthritis. UpToDate, 2025.

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