Avaliação da reserva ovariana: limitações dos marcadores isolados na tomada de decisão

Médica explicando o modelo do sistema reprodutor feminino durante consulta com paciente em consultório.

Índice

A avaliação da reserva ovariana é um componente fundamental na prática da reprodução assistida, pois orienta o prognóstico reprodutivo e a escolha das estratégias terapêuticas mais adequadas.

Entretanto, a utilização isolada de marcadores como o hormônio anti-mülleriano (AMH), o FSH basal ou a contagem de folículos antrais apresenta limitações importantes. Esses parâmetros refletem principalmente aspectos quantitativos da reserva de folículos ovarianos. Além disso, não capturam de forma completa a qualidade oocitária, a variabilidade individual e o contexto clínico da paciente.

Nesse sentido, a tomada de decisão baseada em um único marcador pode levar a interpretações simplificadas e potencialmente equivocadas. Por isso, recomenda-se uma abordagem integrada, que considere outras questões, como idade, histórico reprodutivo e resposta prévia à estimulação ovariana.

Importância da reserva ovariana na prática clínica

A reserva ovariana representa o conjunto de folículos disponíveis nos ovários ao longo da vida da mulher. Esse estoque sofre redução progressiva desde o período fetal até a menopausa, com aceleração desse declínio após os 35 anos.

Embora a idade seja o principal marcador do potencial reprodutivo, existe ampla variabilidade individual. Isso dificulta a identificação das mulheres com maior ou menor chance de concepção apenas com base na faixa etária.

Na prática clínica, a avaliação da reserva ovariana tem como principal finalidade orientar o manejo da infertilidade, sobretudo em pacientes candidatas à reprodução assistida.

Entretanto, os testes disponíveis não permitem prever com precisão individual a fertilidade natural, a chance real de gravidez espontânea ou o momento da menopausa. Eles permitem apenas estimar a resposta ovariana à estimulação, auxiliando na individualização de protocolos e na prevenção de respostas insuficientes ou excessivas.

Entre os marcadores atuais, o hormônio anti-mülleriano e a contagem de folículos antrais são os mais úteis para prever a quantidade de oócitos que podem ser obtidos em ciclos de fertilização in vitro. Já o FSH basal, embora amplamente utilizado, apresenta grande variabilidade e baixo valor preditivo em níveis normais, sendo mais informativo apenas quando claramente elevado.

Ademais, a reserva ovariana deve ser interpretada como uma medida do estado funcional do ovário no momento da avaliação, e não como um indicador definitivo do futuro reprodutivo. Assim, testes alterados não significam incapacidade de engravidar, bem como resultados normais não garantem sucesso reprodutivo, reforçando a importância de integrar esses marcadores ao contexto clínico individual.

Principais marcadores de reserva ovariana

A avaliação da reserva ovariana baseia-se em diferentes marcadores que buscam estimar o número de folículos disponíveis. Esses testes também avaliam a capacidade de resposta do ovário à estimulação.

Entre esses indicadores, destacam-se o hormônio anti-mülleriano, a contagem de folículos antrais, a idade reprodutiva e o FSH basal, cada um com utilidades, limitações e valores preditivos distintos.

Esses marcadores não permitem prever com precisão a chance de gravidez espontânea, mas são fundamentais para o planejamento e a individualização dos tratamentos em reprodução assistida.

Hormônio anti-mülleriano (AMH)

O hormônio anti-mülleriano é atualmente considerado um dos principais marcadores quantitativos da reserva ovariana, por refletir diretamente o estoque folicular em crescimento inicial.

Seus níveis apresentam baixa variação ao longo do ciclo menstrual e independem da fase em que realiza-se a dosagem, o que facilita sua aplicação clínica.

Além disso, o AMH mostra boa correlação com a resposta à estimulação ovariana, sendo útil para prever tanto respostas insuficientes quanto risco de hiperestimulação. Todavia, não é um marcador confiável da qualidade oocitária ou da probabilidade de gestação.

Contagem de folículos antrais

A contagem de folículos antrais, obtida por meio da ultrassonografia transvaginal, fornece uma estimativa direta do número de folículos recrutáveis em cada ciclo.

Esse método apresenta boa correlação com o número de oócitos recuperados em ciclos de fertilização in vitro e é amplamente utilizado para estratificar pacientes segundo o potencial de resposta ovariana.

No entanto, sua acurácia depende da experiência do examinador e da padronização da técnica.

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Idade reprodutiva e FSH basal

A idade reprodutiva permanece como o principal determinante do potencial fértil feminino, por refletir tanto a quantidade quanto a qualidade dos oócitos.

O FSH basal, tradicionalmente utilizado na avaliação inicial, possui valor limitado quando encontra-se dentro da faixa normal, sendo mais informativo apenas quando claramente elevado.

Além disso, esse marcador apresenta alta variabilidade interindivdual e intraindividual. Isso reduz sua sensibilidade para detectar precocemente a diminuição da reserva ovariana, reforçando a necessidade de interpretá-lo em conjunto com outros parâmetros clínicos e laboratoriais.

Limitações da análise isolada dos marcadores

A interpretação isolada dos marcadores de reserva ovariana apresenta importantes limitações e não permite estimar com precisão o potencial reprodutivo individual.

Embora esses testes forneçam informações sobre a quantidade de folículos disponíveis e a provável resposta à estimulação ovariana, eles não são capazes de predizer de forma confiável a chance de gravidez espontânea, a qualidade oocitária ou o tempo até a menopausa. Dessa forma, resultados alterados não devem ser interpretados como sinônimo de infertilidade definitiva.

Além disso, existe considerável variabilidade biológica e metodológica entre os diferentes marcadores, o que reduz sua sensibilidade para identificar precocemente o declínio da reserva ovariana. Valores normais podem coexistir com redução progressiva da fertilidade, enquanto resultados diminuídos podem ser encontrados em mulheres que ainda apresentam bom potencial reprodutivo.

Outro aspecto relevante é que a utilidade clínica dos marcadores é maior na previsão da resposta ovariana à estimulação do que na predição dos desfechos reprodutivos finais. Assim, sua aplicação deve estar restrita principalmente ao planejamento de protocolos em reprodução assistida, evitando interpretações alarmistas quando utilizados fora desse contexto.

Por fim, a avaliação da reserva ovariana deve ser sempre integrada à idade da paciente, ao histórico reprodutivo e ao contexto clínico global. A análise isolada de um único marcador pode levar a conclusões imprecisas e decisões inadequadas, reforçando a necessidade de uma abordagem multidimensional na avaliação da fertilidade feminina.

Integração clínica dos dados hormonais e ultrassonográficos

A integração dos dados hormonais e ultrassonográficos constitui o princípio fundamental da avaliação adequada da reserva ovariana na prática clínica.

Como já mencionado, isoladamente, nenhum marcador é capaz de fornecer uma estimativa confiável do potencial reprodutivo ou da evolução futura da função ovariana.

Portanto, a combinação entre dosagens hormonais, como o hormônio anti-mülleriano e o FSH basal, e a contagem de folículos antrais permite uma interpretação mais abrangente do estado funcional do ovário no momento da avaliação.

Essa abordagem integrada melhora a estratificação das pacientes quanto ao perfil de resposta à estimulação ovariana, possibilitando a individualização dos protocolos em reprodução assistida. Por exemplo, a correlação entre baixos níveis de AMH, redução da contagem de folículos antrais e idade reprodutiva avançada fornece informações mais consistentes sobre o risco de resposta inadequada.

Além disso, a análise conjunta reduz o impacto das limitações inerentes a cada marcador isolado. Assim, variações metodológicas, flutuações hormonais e dependência do examinador na ultrassonografia podem ser parcialmente compensadas quando os resultados são interpretados de forma combinada.

Portanto, essa abordagem multidimensional permite que os dados laboratoriais e ultrassonográficos sejam utilizados como ferramentas de apoio à decisão clínica, e não como determinantes absolutos do prognóstico reprodutivo.

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Impacto da interpretação da reserva ovariana na tomada de decisão

A interpretação adequada da reserva ovariana exerce influência direta sobre a tomada de decisão clínica, especialmente no contexto da infertilidade e da reprodução assistida.

Os marcadores disponíveis permitem estimar o potencial de resposta à estimulação ovariana e auxiliam na definição de estratégias terapêuticas mais eficazes. Dessa forma, a avaliação da reserva ovariana orienta a escolha do tipo de protocolo, das doses de gonadotrofinas e da necessidade de medidas preventivas contra respostas extremas.

Entretanto, decisões baseadas exclusivamente em valores laboratoriais podem levar a condutas inadequadas. Assim, resultados indicativos de baixa reserva ovariana não devem ser interpretados como contraindicação absoluta ao tratamento, assim como valores considerados normais não garantem sucesso reprodutivo.

Além disso, a reserva ovariana tem maior impacto na previsão da resposta quantitativa do ovário do que nos desfechos clínicos finais, como taxa de gravidez ou nascimento vivo.

Portanto, seu principal papel na tomada de decisão está relacionado ao planejamento do tratamento e à adequação das expectativas, e não à definição isolada do prognóstico reprodutivo.

Quando a avaliação da reserva ovariana exige abordagem especializada

A avaliação da reserva ovariana exige abordagem especializada principalmente em situações nas quais os resultados dos marcadores podem modificar de forma significativa a conduta clínica. Por exemplo, mulheres com história de infertilidade, idade reprodutiva avançada, ciclos irregulares ou antecedentes de cirurgia ovariana, quimioterapia ou radioterapia constituem grupos nos quais a interpretação dos testes requer maior cautela e experiência clínica.

Além disso, a presença de discordância entre os parâmetros hormonais e ultrassonográficos, como níveis reduzidos de AMH associados a contagem de folículos preservada, ou o inverso, demanda análise especializada para evitar conclusões precipitadas e condutas inadequadas.

Ademais, a abordagem especializada é fundamental quando os resultados indicam risco elevado de resposta extrema à estimulação ovariana. Nesses casos, a definição de protocolos individualizados, a escolha de doses mais seguras e a adoção de estratégias preventivas dependem de avaliação técnica especializada.

Por fim, a indicação de avaliação da reserva ovariana fora do contexto de infertilidade, como em mulheres jovens assintomáticas ou em situações de aconselhamento reprodutivo, também requer critério especializado.

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Referências

  • Rosa e Silva AC, Carvalho BR, Nácul AP, Pinto CL, Yela DA, Maciel GA, Soares-Júnior JM, Costa LO, Medeiros SF, Maranhão TM. Avaliação da reserva ovariana: aspectos clínicos e laboratoriais. Femina. 2018;46(3):144-152. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/02/1050117/femina-2018-463-144-152.pdf
  • Ulrich ND, Marsh EE. Ovarian Reserve Testing: A Review of the Options, Their Applications, and Their Limitations. Clin Obstet Gynecol. 2019 Jun;62(2):228-237. doi: 10.1097/GRF.0000000000000445. PMID: 30998601; PMCID: PMC6505459.

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Dra. Michelle Vilas Boas
Dra. Michelle Vilas Boas

Médica graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), atualmente dedica-se à elaboração de textos informativos, contribuindo para a divulgação de informações confiáveis e para o fortalecimento da presença de profissionais da área da saúde no cenário digital.

CRM-BA: 49687

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