Manejo da cirurgia de catarata em pacientes diabéticos: desafios e cuidados essenciais

Índice

Tudo que você precisa saber sobre a cirurgia de catarata em pacientes com diabetes mellitus. Acesse e confira!

A catarata é uma das principais causas de cegueira no mundo, e sua prevalência aumenta com a idade. Pacientes com diabetes mellitus têm um risco significativamente aumentado de desenvolver catarata, além de apresentarem uma progressão mais rápida da doença. 

A cirurgia de catarata em pacientes diabéticos apresenta desafios únicos devido às alterações metabólicas e estruturais associadas à diabetes, exigindo um manejo clínico específico para garantir resultados ótimos.

Fisiopatologia da catarata em pacientes diabéticos

A catarata é caracterizada pela opacificação do cristalino, resultando em diminuição progressiva da acuidade visual. Em pacientes diabéticos, a fisiopatologia da catarata é particularmente complexa e envolve múltiplos mecanismos bioquímicos, metabólicos e estruturais que aceleram a formação e a progressão da opacidade lenticular.

Alterações bioquímicas e metabólicas

Entre a hipo e hiperglicemia, os estudos mostram que a hiperglicemia possui maior influência na catarata. 

A hiperglicemia crônica nos pacientes diabéticos provoca uma série de alterações bioquímicas no cristalino. Uma das principais vias afetadas é a via dos polióis. Sob condições de hiperglicemia, a enzima aldose redutase converte a glicose em sorbitol, que se acumula no cristalino devido à baixa difusibilidade da membrana lenticular para este composto. O sorbitol, por sua vez, é lentamente metabolizado a frutose pela sorbitol desidrogenase. Este acúmulo osmótico causa influxo de água para o interior das células do cristalino, levando à hidratação e, subsequente, à turvação do cristalino.

Paralelamente, a hiperglicemia favorece a glicação não enzimática das proteínas do cristalino, formando produtos finais de glicação avançada (AGEs). Estes AGEs alteram a estrutura e a função das proteínas, promovendo a formação de agregados insolúveis que contribuem para a opacificação do cristalino. Os AGEs também desencadeiam respostas inflamatórias e oxidativas, exacerbando o dano celular e tecidual.

Estresse oxidativo

O estresse oxidativo desempenha um papel crucial na fisiopatologia da catarata diabética. A hiperglicemia induz a produção de espécies reativas de oxigênio (ERO), que danificam lipídios, proteínas e DNA no cristalino. A capacidade antioxidante do cristalino é frequentemente insuficiente para neutralizar o aumento das ERO, resultando em danos oxidativos cumulativos que promovem a opacificação do cristalino.

A oxidação das proteínas do cristalino leva à formação de ligações cruzadas e agregados proteicos, exacerbando a opacidade. Além disso, a peroxidação lipídica induzida por ERO compromete a integridade das membranas celulares do cristalino, agravando a disfunção celular e contribuindo para a cataratogênese.

Alterações estruturais e funcionais

Os pacientes diabéticos também apresentam alterações estruturais e funcionais no cristalino. A hiperglicemia crônica pode alterar a biomecânica do cristalino, afetando sua capacidade de acomodação e transparência. A desregulação das vias de sinalização intracelular, mediada por alterações nos níveis de cálcio intracelular e proteínas de choque térmico, contribui para a instabilidade estrutural das fibras do cristalino.

A disfunção das células epiteliais do cristalino, que desempenham um papel crucial na homeostase e na regeneração do tecido lenticular, é uma característica marcante na catarata diabética. A apoptose e a desdiferenciação das células epiteliais do cristalino resultam em uma capacidade regenerativa comprometida, favorecendo a formação de opacidades lenticulares.

Influência da Retinopatia Diabética

A retinopatia diabética, uma complicação microvascular comum em pacientes diabéticos, também pode influenciar a formação de catarata. As alterações hemodinâmicas e a disfunção endotelial associadas à retinopatia diabética podem comprometer o suprimento de nutrientes e oxigênio ao cristalino, exacerbando a cataratogênese.

Além disso, o edema macular diabético e outras alterações retinianas podem afetar a função visual global, complicando a avaliação e o manejo da catarata em pacientes diabéticos.

Outros

Além disso, a diabetes está associada a distúrbios metabólicos, como disfunção endotelial, aumento da permeabilidade vascular e inflamação, que podem afetar a resposta inflamatória do olho à cirurgia de catarata e influenciar na recuperação pós-operatória.

Avaliação pré-operatória para a cirurgia de catarata

Antes da cirurgia de catarata, é essencial uma avaliação oftalmológica completa, com ênfase na avaliação do status da retina, do nervo óptico e da córnea, especialmente em pacientes diabéticos. Deve-se realizar:

  • Avaliação da acuidade visual
  • Biomicroscopia com lâmpada de fenda 
  • Tonometria
  • Fundoscopia dilatada.

A avaliação do fundo de olho para identificar retinopatia diabética e edema macular é crucial, pois essas condições podem influenciar no prognóstico visual pós-cirúrgico. 

Além disso, é importante avaliar a gravidade da catarata e determinar o melhor momento para a intervenção cirúrgica, levando em consideração a estabilidade da doença diabética e a presença de complicações oculares associadas.

Gestão da diabetes antes da cirurgia de catarata

O controle glicêmico pré e pós-operatório é fundamental para reduzir o risco de complicações intra e pós-operatórias, como edema macular cistóide e infecção ocular. É importante que o procedimento cirúrgico seja realizado no turno da manhã, de preferência logo no início do dia, para que a insulina ou hipoglicemiantes orais possam ser mantidos até depois da cirurgia. Isso é uma forma de reduzir o risco de hipoglicemia antes e durante a cirurgia. 

É importantíssimo que não exista evidência de infecção ocular ou periocular. 

Além disso, o uso de anti-inflamatórios tópicos e sistêmicos pode ser indicado para modular a resposta inflamatória e prevenir complicações.

Técnicas cirúrgicas na cirurgia de catarata

Deve-se realizar a cirurgia de catarata em pacientes diabéticos com cuidado especial devido às alterações anatômicas e metabólicas do olho. As técnicas cirúrgicas padrão, como facoemulsificação e extração extracapsular do cristalino, podem ser empregadas, mas alguns ajustes podem ser necessários.

A utilização de técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, como a incisão microcoaxial e a implantação de lentes intraoculares dobráveis, pode ser benéfica em pacientes diabéticos devido à menor indução de inflamação e astigmatismo pós-operatório.

Cirurgia de catarata: Facoemulsificação

A facoemulsificação é a técnica cirúrgica mais comum para a remoção de catarata. O procedimento envolve a criação de uma pequena incisão na córnea, geralmente entre 2,2 e 2,8 mm. Através dessa incisão, uma sonda ultrassônica é inserida para fragmentar e emulsionar o cristalino opaco. Os fragmentos resultantes são então aspirados da cápsula do cristalino, e uma lente intraocular (LIO) dobrável é implantada para substituir o cristalino natural.

Vantagens

  • Menor Incisão: A incisão pequena reduz o risco de indução de astigmatismo e promove uma recuperação mais rápida.
  • Menos Trauma: A técnica é menos traumática para o olho comparada à extração extracapsular do cristalino.
  • Rápida Recuperação: A recuperação visual é geralmente mais rápida, com menor tempo de cicatrização.
  • Menor Inflamação: A técnica minimiza a resposta inflamatória pós-operatória, crucial em pacientes diabéticos que já apresentam uma predisposição à inflamação ocular.

Desafios em pacientes diabéticos

  • Edema Macular: Pacientes diabéticos têm um risco aumentado de desenvolver edema macular cistóide pós-operatório.
  • Complicações Relacionadas ao Diabetes: A presença de retinopatia diabética pode complicar a avaliação pré-operatória e influenciar os resultados visuais.

Cirurgia de catarata: Incisão Microcoaxial

A incisão microcoaxial é uma variação da facoemulsificação que utiliza uma incisão ainda menor, tipicamente menor que 2,2 mm. Essa técnica emprega instrumentos específicos projetados para operar através de uma abertura mínima, o que reduz ainda mais o trauma cirúrgico.

Vantagens

  • Menor Indução de Astigmatismo: A incisão reduzida minimiza o risco de indução de astigmatismo pós-operatório.
  • Recuperação Acelerada: A cicatrização é mais rápida devido à menor extensão da incisão.
  • Redução da Inflamação: Menos trauma mecânico e menor resposta inflamatória, benefícios significativos para pacientes diabéticos.

Considerações em Pacientes Diabéticos

  • Estabilidade Cirúrgica: O controle intraoperatório do olho pode ser mais desafiador devido à menor manipulação permitida pela incisão reduzida, exigindo alta precisão do cirurgião.
  • Inflamação Mínima: A técnica contribui para a redução da resposta inflamatória, crucial para evitar complicações em olhos diabéticos.

Cirurgia de catarata: Extração Extracapsular do Cristalino (ECCE)

A ECCE é uma técnica cirúrgica tradicional onde uma incisão maior, geralmente entre 10 e 12 mm, é feita na córnea ou na esclera para remover o cristalino inteiro em uma única peça. Após a remoção do cristalino, implanta-se uma lente intraocular rígida ou dobrável.

Vantagens

  • Simplicidade técnica: Técnica relativamente simples que não requer equipamentos ultrassônicos avançados.
  • Adequada para cataratas muito densas: Útil em casos de cataratas extremamente densas ou maduras que podem ser difíceis de fragmentar por facoemulsificação.

Desvantagens

  • Maior Incisão: A incisão maior aumenta o risco de indução de astigmatismo e prolonga o tempo de recuperação.
  • Maior Trauma Cirúrgico: A técnica é mais invasiva e associada a uma maior resposta inflamatória.

Considerações em pacientes diabéticos

  • Risco de Inflamação: Devido à maior invasividade, há um risco aumentado de inflamação pós-operatória, o que pode ser problemático em pacientes diabéticos.
  • Complicações de Cicatrização: Pacientes diabéticos podem ter uma cicatrização comprometida, aumentando o risco de complicações pós-operatórias.

Gerenciamento perioperatório

Durante o período perioperatório, é crucial otimizar o controle glicêmico e monitorar de perto os níveis de glicose no sangue, especialmente em pacientes com diabetes descompensada. 

O controle da pressão arterial também é importante, pois a hipertensão arterial pode aumentar o risco de complicações intra e pós-operatórias, como hemorragia intraocular e edema macular.

A administração profilática de antibióticos e anti-inflamatórios tópicos é rotineiramente realizada para prevenir infecções oculares e controlar a resposta inflamatória pós-operatória. 

Em casos selecionados, administra-se corticosteroides sistêmicos ou intravítreos como indicação para prevenir o edema macular cistóide em pacientes de alto risco.

Complicações e manejo da cirurgia de catarata

Embora a cirurgia de catarata em pacientes diabéticos seja geralmente segura e eficaz, algumas complicações específicas podem surgir. O edema macular cistóide é uma das complicações mais comuns e pode resultar em comprometimento visual significativo. O tratamento inclui o uso de anti-inflamatórios tópicos, corticosteroides e, em casos refratários, injeções intravítreas de agentes anti-inflamatórios.

Outras complicações, como descolamento de retina, glaucoma neovascular e endoftalmite, também podem ocorrer em pacientes diabéticos submetidos à cirurgia de catarata. O reconhecimento precoce e o manejo adequado dessas complicações são essenciais para preservar a visão e evitar resultados adversos.

Seguimento pós-operatório da cirurgia de catarata em pacientes diabéticos

Os médicos devem acompanhar de perto os pacientes diabéticos após a cirurgia de catarata para detectar precocemente qualquer complicação e garantir uma recuperação visual adequada. Recomenda-se que os pacientes façam visitas de acompanhamento frequentes para monitorar a acuidade visual, a pressão intraocular e o status da retina.

Além disso, é importante educar os pacientes sobre a importância do controle glicêmico contínuo, do manejo da pressão arterial e do uso adequado de medicamentos oculares prescritos. A adesão ao tratamento e o estilo de vida saudável são fundamentais para prevenir complicações oculares e manter a saúde ocular a longo prazo.

Pós-graduação em Cirurgia de Catarata

O número de cirurgias de catarata no Brasil cresce significativamente. Em 2019, 601mil procedimentos cirúrgicos realizaram 601mil procedimentos cirúrgicos no país.

Com a crescente demanda, é importante é oftalmologistas estejam capacitados para suprir essa necessidade de seus pacientes.

Conheça agora o curso de Pós-Graduação em Cirurgia de Catarata para oftalmologistas do Cetrus e amplie sua área de atuação:

Referências

  1. KELKAR, Aditya et al. “Cataract surgery in diabetes mellitus: A systematic review.” Indian journal of ophthalmology. Vol. 66,10 (2018): 1401-1410. 
  2. KIZILTOPRAK, Hasan et al. “Cataract in diabetes mellitus.” World journal of diabetes.  Vol. 10,3 (2019): 140-153. 
  3. Kessel, L., Erngaard, D., Flesner, P., Andresen, J., Tendal, B., & Hjortdal, J. (2016). “Cataract Surgery and Age-Related Macular Degeneration. An Evidence-Based Update.” Acta Ophthalmologica, 94(1), 10-20.
  4. JACOBS, D.S. Cataract in adults. Uptodate, 2024. 
  5. Willoughby, C. E., & Ponzin, D. (2009). “Cataract Surgery in Diabetes Mellitus.” Eye, 23, 2037-2045.
  6. Willoughby, C.E. ; Ponzin, D. ; Ferrari, S. et al. / Anatomy and physiology of the human eye: Effects of mucopolysaccharidoses disease on structure and function – a review. In: CLINICAL AND EXPERIMENTAL OPHTHALMOLOGY. 2010 ; Vol. 38, No. SUPPL. 1. pp. 2-11.

Cite este artigo no seu trabalho

Para citar este artigo em outro texto, clique e copie a referência em formatação ABNT.

Citação copiada!
Educa Cetrus
Educa Cetrus
Educa Cetrus Redator

Compartilhe esta publicação:

Cursos, masterclasses e e-books médicos gratuitos

Fique por dentro dos temas que realmente importam na prática médica atual.

Receba informações semanais sobre carreira, formação médica e novos conteúdos gratuitos.

CONFIRA NOSSA NEWSLETTER