Conheça a Radiologia Intervencionista: Conceito, possibilidades e inovações na área

Índice

A Radiologia Intervencionista (RI) é uma especialidade médica que combina o uso de técnicas de imagem com procedimentos minimamente invasivos, permitindo diagnósticos e tratamentos de diversas condições clínicas.

A RI destaca-se por sua abordagem minimamente invasiva, o que proporciona benefícios como menor tempo de recuperação, menos dor e risco reduzido de complicações em comparação com cirurgias tradicionais. Além disso, é uma área que evoluiu significativamente com o passar dos anos, tornando-se uma parte essencial da prática médica moderna. 

Histórico da Radiologia Intervencionista

A radiologia intervencionista evoluiu de forma significativa desde a descoberta dos raios X por Wilhelm Conrad Röntgen em 1895. Embora a anamnese e o exame físico sejam essenciais para o diagnóstico, a medicina moderna depende de técnicas diagnósticas e terapêuticas guiadas por imagem. 

Os pioneiros do início do século XX, como o médico português Egaz Moniz, que desenvolveu a angiografia em 1927, foram fundamentais para o avanço dessa especialidade. Em 1929, Reynaldo Cid dos Santos realizou a primeira aortografia translombar, e o médico alemão Werner Forssmann fez o cateterismo do átrio direito de forma inovadora, através de um cateter inserido em uma veia do próprio braço e guiado por fluoroscopia.

Posteriormente, na década de 1940, André Cournand e Dickinson Richards Jr. realizaram medições hemodinâmicas do coração e, devido ao trabalho na descoberta do cateterismo cardíaco, ganharam o Prêmio Nobel de 1956. 

Até meados do século XX, o acesso vascular era feito por dissecção, mas em 1953, Sven-Ivar Seldinger descreveu uma técnica percutânea para acesso vascular. Melvin Judkins desenvolveu cateteres moldados para angiografia coronária no final da década de 1960, que permanecem em uso até hoje. 

Charles Dotter, considerado o “Pai da Radiologia Intervencionista”, foi o primeiro a usar cateteres para dilatar obstruções arteriais em 1964 criando, portanto, novas abordagens para o tratamento de doenças vasculares.

Nos anos seguintes, a colaboração entre cirurgiões e radiologistas intervencionistas se fortaleceu, especialmente após a introdução da angioplastia transluminal percutânea por Andreas Gruntzig em 1974. 

A inovação não parou, com o surgimento de técnicas como a embolização intra-arterial para tratar malformações e tumores, desenvolvimento de intervenções nas vias biliares e dos stents vasculares, além de novas ferramentas para intervenções.

Princípios básicos da Radiologia Intervencionista

O princípio central da radiologia intervencionista é diagnosticar e/ou tratar doenças utilizando técnicas minimamente invasivas. Embora esses procedimentos não sejam completamente isentos de riscos, ao reduzir o trauma físico, as intervenções periféricas diminuem as taxas de infecção e o tempo de recuperação, resultando em hospitalizações mais curtas. 

Além do desenvolvimento contínuo das técnicas, os radiologistas intervencionistas também buscam incorporar práticas que reduzam a exposição à radiação ionizante, utilizando conhecimentos de física biomédica e medidas de segurança no ambiente de trabalho.

Principais procedimentos da Radiologia Intervencionista

Apesar de os procedimentos intervencionistas terem surgido na área das doenças cardiovasculares, atualmente eles são usados ​​em quase todas as especialidades médicas, como, oncologia, hemodiálise, ginecologia e obstetrícia, nefrologia, transplantes, pediatria, neurologia e no trato gastrointestinal. Entre os procedimentos mais frequentes na Radiologia Intervencionista, destaca-se:

  • Angiografia por subtração digital;
  • Angioplastia transluminal percutânea;
  • Embolização;
  • Correção endovascular  de  aneurismas periféricos;
  • Embolização de aneurismas intracranianos;
  • Quimioembolização intra-arterial;
  • Embolização de artérias uterinas;
  • Colecistostomia, nefrostomia e gastrostomia percutânea;
  • Drenagem de abscesso;
  • Trombólise;
  • Tromboaspirção;
  • Biópsias;
  • Ablação por radiofrequência;
  • Crioablação;
  • Acessos vasculares;
  • Filtros de veia cava inferior;
  • Vertebroplastia percutânea;
  • Diálise;
  • TIPS (shunt porto-sistêmico transjugular intrahepático);
  • Intervenção biliar;
  • Tratamento por laser endovenoso de veias varicosas;
  • Radioembolização.

Nos próximos tópicos, veremos as principais características de alguns desses procedimentos.

Angiografia por subtração digital

É um exame de imagem vascular realizado com o uso de contraste, como iodado, gadolínio ou CO2. A técnica utiliza processamento digitalzados para remover estruturas ósseas e tecidos moles ao redor, melhorando a visualização dos vasos sanguíneos. Embora tenha sido amplamente utilizado no passado, hoje é mais comum em confirmações diagnósticas, após exames não invasivos, como ultrassonografia Doppler, tomografia ou ressonância magnética, ou durante cirurgias propriamente ditas.

Angioplastia transluminal percutânea

Refere-se a um procedimento utilizado para dilatar artérias ou veias estreitas ou ocluídas, utilizando um balão especializado. Esses balões são ajustados em diâmetro e comprimento para se adequarem ao vaso-alvo, que podem variar desde as coronárias até vasos periféricos, como as artérias ilíacas, dos membros inferiores, carótidas e até artérias intracranianas delicadas. Em alguns casos, realiza-se o implante de stents metálicos dentro do vaso, proporcionando suporte e melhorando o fluxo sanguíneo.

Embolização

É um procedimento que visa interromper o fluxo sanguíneo nas artérias, como no controle de hemorragias, ou em órgãos doentes, como no caso de embolização das artérias esplênicas para tratar o hiperesplenismo. Para isso, utiliza-se diversos tipos de agentes embolizantes, incluindo álcool, cola, molas metálicas, gelfoam, partículas de polivinilálcool e microesferas de gelatina.

Correção  endovascular de aneurismas periféricos

Envolve o fechamento de um aneurisma arterial por meio da implantação de um stent revestido com material impermeável, conhecido como endoprótese. 

Esse procedimento era reservado a pacientes de alto risco que não pudessem passar por uma cirurgia aberta convencional, porém, atualmente, ele se tornou o tratamento preferido na maioria dos casos devido à menor taxa de complicações, recuperação mais rápida e ótimos resultados obtidos com as endopróteses modernas.

Embolização de aneurismas intracranianos

Ocorre através da inserção de filamentos de platina (micromolas destacáveis) no interior dos aneurismas, provocando sua trombose. Esse procedimento elimina a necessidade de craniotomia e da clipagem tradicional dos aneurismas. 

Além disso, permite tratar aneurismas que não podem ser acessados por técnicas cirúrgicas e oferecem um tempo de recuperação mais curto.

Quimioembolização intra-arterial

Consiste na aplicação de quimioterápico diretamente no tumor por meio de sua irrigação arterial, enquanto a artéria está bloqueada com agentes embolizantes. 

Esse procedimento diminui o fluxo sanguíneo para o tumor e impede que o quimioterápico se espalhe pela circulação sistêmica, evitando os efeitos colaterais. Embora não seja considerada uma técnica curativa, ela pode prolongar a vida do paciente e ajudar no manejo de portadores de hepatocarcinoma que estão na lista de espera para transplante hepático.

Embolização de artérias uterinas

Indica-se para o tratamento de miomas sintomáticos, visando a preservação do útero, especialmente em pacientes que apresentam alto risco para uma miomectomia segura ou até mesmo para uma histerectomia. 

Colecistostomia, nefrostomia e gastrostomia percutânea

São procedimentos intervencionistas realizados para drenar fluidos ou fornecer acesso a diferentes órgãos do corpo.

Trombólise

Refere-se a um procedimento utilizado para dissolver coágulos sanguíneos, como êmbolos pulmonares, trombose venosa profunda extensa, trombos em acessos de hemodiálise e oclusões arteriais agudas. 

Ademais, uma das principais vantagens da trombólise realizada por cateter é que o medicamento trombolítico é administrado diretamente no coágulo, resultando em um impacto mínimo sistêmico quando comparado à trombólise endovenosa. 

Biópsia

Envolve a retirada de um fragmento de tecido para análise anatomo-patológica, realizada por meio de acesso percutâneo ou transjugular. 

A biópsia hepática ou renal feita via transjugular é especialmente indicada para pacientes que apresentam dificuldades técnicas para a punção percutânea ou que possuem distúrbios de coagulação.

Saiba mais: Biópsia Guiada por Ultrassonografia: técnicas e procedimentos!

Ablação por radio-frequência

Consiste na destruição localizada de tecidos tumorais por meio da aplicação de calor direto, podendo ser realizada no fígado, nos rins ou nos pulmões. 

É considerado um procedimento curativo, com indicação para tumores de pequeno porte. Além disso, pode ser combinado com a quimioembolização hepática para melhorar os resultados na redução da massa tumoral.

TIPS (shunt porto-sistêmico transjugular intrahepático)

É um procedimento indicado para pacientes com hipertensão portal e insuficiência hepática terminal. Caracteriza-se por permitir uma conexão direta entre a veia porta e a veia cava inferior por meio da colocação de um stent no tecido hepático. 

Este tratamento é frequentemente indicado para casos de ascite que não respondem ao tratamento clínico ou para o manejo de hemorragias digestivas causadas por varizes esofágicas.

Fonte: American Liver Foundation

Intervenção biliar

O implante de drenos na árvore biliar visa descomprimir a bile em situações de obstruções, sejam malignas ou benignas, especialmente em pacientes que não são elegíveis para cirurgia ou que apresentam alto risco cirúrgico. 

Em determinadas situações de obstruções malignas, é viável a colocação de stents metálicos, permitindo, portanto, que o paciente não necessite do uso de drenos.

Benefícios da Radiologia Intervencionista

Os benefícios da radiologia intervencionista são significativos. Como é uma técnica minimamente invasiva, a RI geralmente resulta em:

  • Menor tempo de internação hospitalar;
  • Recuperação mais rápida;
  • Redução da dor pós-operatória;
  • Menor risco de complicações;
  • Procedimentos realizados em ambiente ambulatorial na maioria das vezes, o que reduz os custos gerais.

Inovações tecnológicas da Radiologia Intervencionista

Nos últimos anos, a radiologia intervencionista tem se beneficiado de inovações tecnológicas que melhoram os resultados e a segurança dos procedimentos. 

Tecnologias como a robótica, a imagem em tempo real e a navegação assistida por computador, por exemplo, foram incorporadas à prática do RI, permitindo operações mais complexas com um maior nível de precisão. 

Além disso, o desenvolvimento de novos materiais e dispositivos, como stents bioabsorvíveis e agentes de contraste mais seguros, também tem ampliado as possibilidades de tratamento.

Áreas emergentes na Radiologia Intervencionista

A radiologia intervencionista está se expandindo para novas áreas, como a intervenção em doenças neurovasculares e o tratamento de condições ortopédicas.

Além disso, procedimentos para tratamento de varizes, ablações para dor crônica e intervenções em oncologia estão se tornando cada vez mais comuns, refletindo a evolução da especialidade.

Importância e desafios da Radiologia Intervencionista

A radiologia intervencionista desempenha um papel fundamental na medicina moderna, oferecendo opções de tratamento menos invasivas e frequentemente mais eficazes do que as cirurgias tradicionais. 

Contudo, a especialidade enfrenta desafios, como a necessidade de formação contínua para os profissionais e de adaptação a um ambiente de saúde em constante mudança. 

Além disso, a acessibilidade de novas tecnologias e abordagens de tratamento exige evidências robustas de eficácia e segurança.

Em suma, a radiologia intervencionista representa uma área dinâmica e inovadora na medicina, com um impacto significativo na melhoria do atendimento ao paciente e na evolução das práticas clínicas.

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Referências

  • Nasser, F. et al. Radiologia Intervencionista: Passado, Presente e Futuro. Revista Ciências em Saúde V1, N1 abr 2011.

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