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Defeitos septais: tipos, condução da identificação e próximos passos

Saiba quais são os defeitos septais mais comuns e como fazer o diagnóstico de cada um deles!

Defeitos septais representam uma variedade de cardiopatias congênitas caracterizadas pela presença de aberturas anormais no septo cardíaco, estrutura que separa as câmaras do coração. Estes defeitos têm importância clínica significativa, pois se não forem diagnosticados e tratados precocemente, podem levar a complicações cardiovasculares graves.

Anatomia do coração

O coração é um órgão muscular localizado na caixa torácica, ligeiramente inclinado para a esquerda. Ele é responsável por bombear sangue rico em oxigênio para todo o corpo e, ao mesmo tempo, receber o sangue venoso e pobre em oxigênio dos tecidos do corpo.

O coração tem quatro câmaras, sendo dois átrios e dois ventrículos. Possuem ainda septos cardíacos, que são paredes ou divisões dentro do coração que separam as câmaras cardíacas umas das outras. Existem três principais septos no coração:

  • Septo interatrial: Este é o septo que separa os átrios direito e esquerdo. Em condições normais, ele é fechado, o que impede que o sangue circule entre os átrios.
  • Septo interventricular: Este é o septo que separa os ventrículos direito e esquerdo. Ele é responsável por manter o sangue venoso no lado direito do coração e o sangue arterial no lado esquerdo do coração.
  • E septo atrioventricular: Embora não seja um septo completo, o septo atrioventricular é uma estrutura que separa os átrios dos ventrículos. Ele inclui as válvulas atrioventriculares, como a válvula mitral (entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo) e a válvula tricúspide (entre o átrio direito e o ventrículo direito).

Estruturas septais do coração. Fonte:(cursoenemgratuito.com.br)

Circulação sanguínea

A circulação sanguínea transporta o sangue pelo sistema circulatório do corpo humano, fornecendo oxigênio e nutrientes às células, removendo resíduos metabólicos e mantendo a homeostase corporal. Este processo complexo envolve o coração, os vasos sanguíneos e o sangue, e consiste em dois circuitos principais: a circulação sistêmica e a circulação pulmonar.

Circulação sistêmica

A circulação sistêmica transporta o sangue oxigenado do coração para todo o corpo e retorna o sangue desoxigenado de volta ao coração. Neste circuito, o sangue oxigenado é bombeado do ventrículo esquerdo do coração para a aorta, a maior artéria do corpo.

A partir da aorta, o sangue é distribuído para os vasos sanguíneos menores, como artérias, arteríolas e capilares, que irrigam os tecidos e órgãos do corpo. Nos capilares, ocorre a troca de gases, nutrientes e resíduos metabólicos entre o sangue e as células.

Em seguida, coleta-se o sangue desoxigenado pelas vênulas e veias. Ele retorna ao coração pelo átrio direito através das veias cavas superior e inferior. Finalmente, o sangue desoxigenado entra no ventrículo direito, completando o ciclo.

Circulação pulmonar

A circulação pulmonar transporta o sangue desoxigenado do coração para os pulmões, onde ocorre a troca gasosa, e retorna o sangue oxigenado de volta ao coração. Assim, neste circuito, o sangue desoxigenado é bombeado do ventrículo direito do coração para a artéria pulmonar. A artéria pulmonar se ramifica em artérias pulmonares menores, que levam o sangue aos pulmões.

Nos pulmões, o sangue passa pelos capilares pulmonares, onde ocorre a troca de dióxido de carbono por oxigênio nos alvéolos pulmonares. 

Assim, o sangue oxigenado retorna ao coração através das veias pulmonares, que desembocam no átrio esquerdo. Finalmente, bombea-se o sangue oxigenado para o ventrículo esquerdo, completando o ciclo.

Tipos de defeitos septais

Classfifica-se os defeitos septais de acordo com a localização anatômica e a natureza da abertura no septo cardíaco. Os tipos mais comuns incluem:

  • Comunicação interatrial (CIA)
  • Comunicação interventricular (CIV)
  • Defeitos do septo atrioventricular (DSAV)

Falaremos abaixo sobre cada tipo de defeitos septais separadamente. 

Comunicação interatrial (CIA)

A CIA é uma anomalia cardíaca congênita em que há uma abertura anormal no septo interatrial, permitindo a comunicação direta entre os átrios direito e esquerdo do coração. Essa abertura cria um shunt (desvio) de sangue entre os dois átrios, resultando em um aumento do fluxo sanguíneo do átrio esquerdo para o átrio direito.

Fisiopatologia 

A fisiopatologia desde defeito septal está relacionada ao fluxo sanguíneo anormal entre os átrios do coração. Em condições normais, o sangue oxigenado flui do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo e é bombeado para o corpo. No entanto, na presença de uma CIA, parte do sangue oxigenado do átrio esquerdo é desviado para o átrio direito, misturando-se com o sangue venoso. Isso pode levar a um aumento do fluxo sanguíneo pulmonar e a uma sobrecarga de volume no coração direito.

Comunicação interventricular (CIV)

A comunicação interventricular (CIV) é um dos tipos mais comuns de defeitos septais, caracterizado pela presença de uma abertura anormal no septo interventricular, que separa os ventrículos esquerdo e direito do coração. Essa abertura cria um shunt (desvio) de sangue entre os dois ventrículos, resultando em um aumento do fluxo sanguíneo do ventrículo esquerdo para o ventrículo direito.

Em condições normais, o sangue oxigenado flui do ventrículo esquerdo para a aorta e é distribuído para o corpo, enquanto o sangue venoso é bombeado pelo ventrículo direito para os pulmões para oxigenação. No entanto, na presença de uma CIV, parte do sangue oxigenado do ventrículo esquerdo é desviado para o ventrículo direito, misturando-se com o sangue venoso. Isso pode levar a um aumento do fluxo sanguíneo pulmonar e a uma sobrecarga de volume no coração direito.

Defeitos do Septo Atrioventricular (DSAV) 

Os Defeitos do Septo Atrioventricular (DSAV) são uma classe de anomalias cardíacas congênitas que envolvem anormalidades no septo que separa os átrios e os ventrículos do coração.

Caracteriza-se este tipo de defeito pela presença de uma ou mais aberturas no septo atrioventricular, resultando na comunicação anormal entre as câmaras cardíacas superiores (átrios) e inferiores (ventrículos). Dessa forma, essas aberturas podem variar em tamanho e localização e podem ocorrer tanto no septo atrioventricular como no septo interventricular.

Classificação

Classifica-se os DSAV em dois tipos principais, com base na extensão da abertura no septo atrioventricular:

Defeito do Septo Atrioventricular Completo (DSAVC)

Neste tipo de DSAV, há uma abertura grande e única que se estende por todo o septo atrioventricular, resultando na comunicação direta entre todos os quatro compartimentos cardíacos: átrios e ventrículos direito e esquerdo. 

Como resultado, o sangue oxigenado e o sangue venoso misturam-se nos ventrículos, o que pode levar a uma sobrecarga de volume no coração direito e à redução do fluxo sanguíneo para o corpo.

Defeito do Septo Atrioventricular Parcial (DSAVP)

Já neste tipo de DSAV, há uma ou mais aberturas menores no septo atrioventricular, geralmente localizadas na porção inferior do septo. 

Essas aberturas podem estar associadas a malformações das válvulas atrioventriculares (válvula mitral e válvula tricúspide), resultando em uma comunicação parcial entre os átrios e os ventrículos. 

O DSAVP pode variar em gravidade, dependendo do tamanho e da localização das aberturas, bem como da presença de outras anomalias cardíacas associadas.

Etiologias dos defeitos septais

A etiologia dos defeitos septais é multifatorial e pode envolver uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Alguns dos principais fatores associados a estas patologias incluem mutação ou alteração em genes específicos que podem predispor um indivíduo ao desenvolvimento de alguma dessas cardiopatias congênitas. 

Além disso, exposição a certos agentes teratogênicos durante a gravidez, como drogas, infecções virais ou substâncias tóxicas, pode aumentar o risco de desenvolvimento dos defeitos septais. 

Temos ainda que algumas síndromes genéticas, como a síndrome de Down, Síndrome de Marfan e Síndrome de Patau estão associadas a um maior risco de cardiopatias congênitas. 

Manifestações clínicas dos defeitos septais

As manifestações clínicas podem variar dependendo do tamanho e da localização da abertura no septo, bem como da idade do paciente. Apesar disso, muitos pacientes podem permanecer assintomáticos por muitos anos, especialmente se a abertura for pequena.

Em casos de defeitos septais significativos, especialmente quando há um grande shunt de esquerda para direita, os pacientes podem apresentar dispneia aos esforços devido à sobrecarga de volume no coração direito e ao aumento do fluxo sanguíneo pulmonar. Além disso, pode-se observar a fadiga, especialmente após atividades físicas intensas.

Pode ainda auscultar o sopro cardíaco durante o exame físico de pacientes com CIA. A causa do sopro é o fluxo turbulento de sangue através da abertura no septo. 

Em casos raros com shunt de direita para esquerda, pode ocorrer cianose, uma coloração azulada da pele e das membranas mucosas devido à falta de oxigenação adequada do sangue arterial.

Diagnóstico dos defeitos septais

Um exame físico completo, incluindo ausculta cardíaca, pode revelar sinais sugestivos de um defeito septal, como sopros cardíacos ou ritmo de galope. 

A ecocardiografia é a principal ferramenta diagnóstica para detectar defeitos septais. Esta técnica de imagem permite uma visualização detalhada das estruturas cardíacas, identificando a presença, localização e extensão do defeito.

Além deste exame, pode-se utilizar o eletrocardiograma (ECG). Embora ele não seja específico para diagnóstico de defeitos septais, pode fornecer informações sobre sobrecarga de volume ou pressão nas câmaras cardíacas.

Uma radiografia de tórax pode revelar características associadas a certos tipos de defeitos septais, como aumento do coração, dilatação vascular pulmonar e congestão pulmonar.

Próximos passos no manejo

Após o diagnóstico de um defeito septal, inicia-se o tratamento adequado e estabelece um plano de acompanhamento a longo prazo. Os próximos passos no manejo dessas condições incluem:

  1. Monitoramento clínico regular: isso envolve exames clínicos periódicos, ecocardiografias de acompanhamento e monitoramento da função cardíaca.
  2. Tratamento medicamentoso: indica-se para controlar sintomas como dispneia, fadiga ou insuficiência cardíaca. Os medicamentos comumente prescritos incluem diuréticos, inibidores da ECA e betabloqueadores.
  3. Cirurgia corretiva: Em muitos casos, a correção cirúrgica do defeito septal é necessária para prevenir complicações a longo prazo. A cirurgia pode envolver o fechamento percutâneo do defeito usando um dispositivo oclusor ou uma abordagem cirúrgica tradicional com sutura direta do septo.
  4. Acompanhamento a longo prazo: detectar complicações tardias, como arritmias cardíacas, endocardite ou disfunção ventricular.
  5. Educação do paciente e da família: orientações sobre atividade física, profilaxia antibiótica e sinais de alerta de complicações.

Atualização em Ecocardiografia Fetal

A maioria das cardiopatias congênitas podem ser visualizadas ainda na gestação através do uso da ecocardiografia, ultrassonografia morfológica com doppler e outros exames de imagens avançados. 

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Referências

  1. Diretrizes das Indicações da Ecocardiografia. Arq Bras Cardiol 2009; 93(6 Supl. 3): e265-e302
  2. RIVERA, I.R.; ANDRADE, J.L.; MENDONÇA DA SILVA, M.A. Comunicação interventricular: pequenos defeitos, grandes complicações. Rev Bras Ecocardiogr 21 (3): 41 – 45, 2008
  3. Aula-5-Defeitos-septais.pdf (nexusultrassonografia.com.br)
  4. PEDRA, S.R.F.F. et al. O papel da ecocardiografia no tratamento percutâneo dos defeitos septais. Atualização • Arq. Bras. Cardiol. 86 (2) • Fev 2006 – https://doi.org/10.1590/S0066-782X2006000200003