Doenças inflamatórias intestinais (DII): manejo clínico e recomendações

doenças inflamatórias intestinais

Índice

As doenças inflamatórias intestinais (DII) constituem um grupo de condições médicas crônicas que afetam o trato gastrointestinal, com dois principais representantes: a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.

A incidência das DII tem aumentado nas últimas décadas em muitas partes do mundo, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Estima-se que haja entre 0,3 e 16 novos casos de DII por 100.000 pessoas a cada ano, com variações regionais significativas.

Doença de Crohn e retocolite ulcerativa

Essas duas doenças compartilham muitas semelhanças e, por vezes, podem ser difíceis de distinguir entre si. No entanto, existem várias diferenças distintas entre elas.

Por exemplo, a doença de Crohn tem o potencial de afetar praticamente qualquer parte do trato digestivo, enquanto a colite ulcerativa quase sempre se limita ao intestino grosso.

Na literatura ainda não compreende-se a causa exata das doenças intestinais inflamatórias, porém há evidências sugerindo que as bactérias normais do intestino possam desencadear uma resposta imunológica inadequada em indivíduos com predisposição genética.

Manifestações clínicas das doenças inflamatórias intestinais

As manifestações clínicas podem variar amplamente de pessoa para pessoa e dependem da localização e gravidade da inflamação. Alguns dos sintomas mais comuns incluem:

  • Diarreia
  • Dor abdominal: dor abdominal recorrente, muitas vezes na região inferior direita do abdômen, é comum.
  • Perda ponderal: devido à má absorção de nutrientes e à diminuição do apetite, os pacientes com doença de crohn muitas vezes experimentam perda de peso não intencional
  • Fadiga: persistente, afetando a qualidade de vida
  • Febre: febre é um sintoma comum durante os surtos da Doença de Crohn, indicando inflamação e possível infecção
  • Sangramento retal: em casos em que o cólon está envolvido, sangramento retal pode ocorrer, acompanhado de urgência para evacuar.

Doença de Crohn

Nas últimas décadas, houve um aumento na incidência da doença de Crohn em todo o mundo. Geralmente, os sintomas da doença de Crohn se manifestam antes dos 30 anos, comumente entre os 14 e os 24 anos de idade.

A doença de Crohn tende a se desenvolver mais frequentemente na última parte do intestino delgado (íleo) e no intestino grosso, embora possa ocorrer em qualquer lugar do trato digestivo, desde a boca até o ânus, incluindo a pele ao redor do ânus. Quando a inflamação afeta o íleo, denomina-se ileíte. Já quando a doença de Crohn afeta o cólon, chama-se colite de Crohn.

Esta condição pode afetar apenas certos segmentos do trato intestinal, deixando áreas normais intercaladas entre as regiões afetadas. Quando a doença de Crohn está ativa, geralmente toda a espessura do intestino é comprometida.

Diagnóstico da doença de Crohn

O diagnóstico da doença de Crohn pode ser desafiador devido à diversidade de seus sintomas e à sua sobreposição com outras condições gastrointestinais. O médico pode suspeitar da presença da doença em uma pessoa com sintomas caracterísiticos, especialmente se houver antecedentes familiares da doença ou histórico de problemas perianais.

Além disso, durante o exame físico, pode-se palpar uma massa na parte inferior do abdômen, geralmente no lado direito.

Exames laboratoriais

Os exames de sangue podem ser realizados para verificar os níveis de inflamação no corpo, como a velocidade de hemossedimentação (VHS) e a proteína C reativa (PCR). Além disso, os exames de sangue podem identificar anemia, deficiências nutricionais e outras condições que podem estar associadas à doença de Crohn.

Colonoscopia

Pessoas com sintomas como diarreia recorrente podem ser submetidas a uma colonoscopia, um exame do intestino grosso com um tubo flexível, para visualizar qualquer inflamação ou lesões.

Durante a colonoscopia, realiza-se biópsias, onde retira-se pequenas amostras de tecido para exame microscópico. Caso a doença de Crohn esteja limitada ao intestino delgado, a colonoscopia pode não detectá-la, a menos que se avance o colonoscópio até a última parte do intestino delgado, onde a inflamação é mais comum.

Durante a colonoscopia, as lesões ulceradas são a característica principal que encontramos. Na imagem A, observa-se úlceras aftosas, vistas como lesões precoces. Já na imagem B, encontra-se grandes úlceras intercaladas com mucosa normal, características da distribuição segmentar típica da doença de Crohn. Na imagem C, visualiza-se um aspecto de pedras de calçamento causado pelo espessamento nodular com úlceras lineares ou serpiginosas. Por fim, na imagem D, temos estenoses por fibrose.

Fonte: James B McGee, MD- UpToDate.

Tratamento da doença de Crohn

Para pacientes que não apresentam sintomas ou estão em remissão e nunca passaram por tratamento cirúrgico, não há necessidade de qualquer tipo de tratamento. As recomendações para intervenção medicamentosa ou cirúrgica dependem da localização da doença, gravidade dos sintomas, resposta a tratamentos anteriores e presença de complicações.

O objetivo inicial do tratamento clínico é alcançar a remissão da doença. Assim, quando o pacientes não alcança a remissão deve-se incluí-lo na terapia de manutenção. Pacientes sintomáticos, em corticoterapia, com sintomas como febre, vômitos, dor abdominal, suspeita de obstrução intestinal ou desnutrição evidente precisam de tratamento hospitalar.

Recomenda-se o tratamento cirúrgico da doença de Crohn, através de ressecção ou enteroplastia, para complicações ou quando a doença é clinicamente intratável ou refratária. Em pacientes com doença perianal, indica-se a drenagem de abscessos, assim como a realização de fistulotomia ou drenagem com seton nos casos mais sintomáticos. A proctectomia é indicada para casos graves de supuração associada à retite e incontinência anal.

Retocolite ulcerativa

A colite ulcerativa pode se manifestar em qualquer faixa etária, embora seja mais comum iniciar antes dos 30 anos, tipicamente entre os 14 e os 24 anos. Entretanto, há também um pequeno contingente de indivíduos que experimentam seu primeiro episódio entre os 50 e 70 anos de idade.

Embora a causa exata da colite ulcerativa permaneça desconhecida, parece haver uma influência significativa de fatores genéticos e de uma resposta imunológica intensificada no intestino que contribuem para seu desenvolvimento.

Diagnóstico da retocolite ulcerativa

O diagnóstico da retocolite ulcerativa geralmente envolve uma combinação de histórico médico detalhado, exame físico e testes diagnósticos.

Exames laboratoriais e de imagem podem ser reaalizados, mas o padrão ouro é a colonoscopia.

Colonoscopia

É o exame padrão de ouro para o diagnóstico de colite ulcerativa. Os achados colonoscópicos na doença incluem:

  • Perda de marcações vasculares
  • Granularidade difusa na mucosa
  • Edema
  • Eritema
  • Exsudato mucopurulento
  • Friabilidade observada por sangramento ou toque.
  • Na imagem abaixo é possível visualizar uma perda do padrão vascular típico e ulcerações em mucosa. 

Fonte: James B McGee, MD- UpToDate.

Tratamento da retocolite ulcerativa

O tratamento da retocolite ulcerativa geralmente envolve uma múltipla abordagem para controlar os sintomas, induzir e manter a remissão da doença, além de prevenir complicações. Uma das principais linhas de tratamento consiste no uso de medicamentos anti-inflamatórios, como:

  • Aminossalicilatos: mesalamina
  • Corticosteroides: prednisona
  • Imunomoduladores: azatioprina e 6-mercaptopurina, que ajudam a reduzir a inflamação e controlar os sintomas.

Além disso, a terapia biológica, que inclui medicamentos como os inibidores do fator de necrose tumoral (TNF), como infliximabe e adalimumabe, pode ser prescrita em casos de doença mais grave ou quando os tratamentos convencionais não são eficazes. Esses medicamentos visam suprimir a resposta imunológica exacerbada que caracteriza a retocolite ulcerativa.

Suplementos de ferro e vitaminas também são frequentemente recomendados, pois a perda de sangue e a má absorção de nutrientes podem levar à deficiência desses elementos essenciais. Os pacientes podem precisar de suplementação de ferro, ácido fólico, vitamina B12 e vitamina D para ajudar a manter um estado nutricional adequado.

Em situações graves ou quando outras formas de tratamento não são eficazes, a cirurgia para remover o cólon (colectomia) pode ser necessária. Isso pode resultar em remissão duradoura da doença, embora os pacientes devam discutir os riscos e benefícios dessa abordagem com seus médicos.

Principais diferenças entre as doenças inflamatórias intestinais

As principais diferenças entre a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa incluem:

Doenças inflamatórias intestinais e localização no trato gastrointestinal

A doença de Crohn pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal, desde a boca até o ânus, com áreas de inflamação intercaladas com tecido saudável.

Por outro lado, a retocolite ulcerativa está limitada ao cólon e ao reto, com inflamação contínua ao longo da mucosa intestinal.

Padrão de inflamação

Na doença de Crohn, a inflamação pode ocorrer em todas as camadas da parede intestinal, desde a mucosa até a serosa. Já na retocolite ulcerativa, a inflamação afeta principalmente a camada mais superficial da mucosa.

Distribuição das lesões

A doença de Crohn frequentemente apresenta lesões que são segmentares e podem pular áreas saudáveis do intestino (fenômeno conhecido como “skip lesions”). Contudo, a retocolite ulcerativa geralmente mostra uma distribuição contínua e uniforme das lesões ao longo do cólon.

Sintomas adicionais das doenças inflamatórias intestinais

Os pacientes com doença de Crohn podem apresentar uma ampla gama de sintomas extraintestinais, como:

  • Artrite
  • Inflamação ocular
  • Erupções cutâneas
  • Complicações no trato biliar.

Enquanto isso, os sintomas extraintestinais na retocolite ulcerativa são menos comuns e geralmente menos variados.

Referências bibliográficas

  • SANTOS, A. L. C.; DIAS, B. C. de O. .; SILVA, K. A. da .; FERREIRA, J. C. de S. . Terapia nutricionais nas doenças inflamatórias intestinais: Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa. Research, Society and Development, [S. l.], v. 10, n. 7, p. e11410716660, 2021. DOI: 10.33448/rsd-v10i7.16600. Disponível em: https://www.rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/16600.
  • ORDAS et al. Ulcerative colitis. The Lancet 2012; 380: 1606-1619.

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