A dor pélvica musculoesquelética pode ser difícil de descrever e até de compreender, tanto para o paciente quanto para o profissional de saúde, já que diferentes estruturas da pelve podem estar envolvidas. Assim, entender se essa dor tem origem articular, ligamentar ou neuropática é um passo essencial para um cuidado mais direcionado.
Introdução: por que a dor pélvica musculoesquelética ainda é subdiagnosticada
A dor pélvica crônica é uma condição frequente, multifatorial e muitas vezes incapacitante, mas que ainda enfrenta dificuldades importantes no reconhecimento clínico, especialmente quando sua origem é musculoesquelética.
Isso ocorre porque a dor na pelve raramente é explicada por uma única causa, envolvendo frequentemente múltiplos sistemas ao mesmo tempo. Além disso, a presença de comorbidades, como síndromes funcionais, alterações emocionais e fenômenos de sensibilização central, pode modificar a forma como o paciente percebe e descreve a dor.
Como resultado, mesmo após investigação adequada, muitos casos permanecem sem diagnóstico definido, o que contribui para atraso no tratamento e impacto significativo na qualidade de vida.
Complexidade anatômica da pelve
A pelve é uma região anatomicamente complexa, composta por uma interação íntima entre ossos, articulações, músculos, ligamentos, vísceras e estruturas nervosas.
Essa proximidade faz com que diferentes tecidos compartilhem vias de dor semelhantes, dificultando a identificação da origem do sintoma. Além disso, alterações em uma estrutura podem repercutir em outras, gerando dor referida ou padrões clínicos pouco específicos.
Sobreposição de causas ginecológicas, urológicas e musculoesqueléticas
Outro fator que contribui para o subdiagnóstico é a grande sobreposição entre causas ginecológicas, urológicas, gastrointestinais e musculoesqueléticas da dor pélvica.
Sintomas semelhantes podem estar presentes em condições distintas, como endometriose, síndrome da bexiga dolorosa, síndrome do intestino irritável e dor miofascial pélvica. Muitas vezes, essas condições coexistem, potencializando a dor e dificultando ainda mais o raciocínio clínico.
Nesse cenário, há uma tendência inicial de priorizar causas viscerais, enquanto componentes musculoesqueléticos e neuropáticos podem passar despercebidos.
O que caracteriza a dor pélvica de origem musculoesquelética
A dor pélvica de origem musculoesquelética é, muitas vezes, silenciosa e subvalorizada, mas representa uma causa frequente de dor crônica na prática clínica.
Ela costuma surgir a partir de alterações nos músculos, fáscias, articulações ou ligamentos da pelve e regiões adjacentes, podendo manifestar-se de forma localizada ou irradiada.
Diferente de outras causas, essa dor frequentemente está relacionada a sobrecarga, postura inadequada, disfunções biomecânicas ou tensão muscular persistente. Além disso, pode coexistir com outras condições crônicas, tornando sua identificação ainda mais desafiadora e exigindo um olhar clínico atento.
Principais estruturas envolvidas
Diversas estruturas podem estar implicadas na dor musculoesquelética pélvica, incluindo:
- Músculos do assoalho pélvico, como o levantador do ânus;
- Músculos profundos, como o obturador interno e o piriforme.
- Articulações, como a sacroilíaca e a sínfise púbica;
- Ligamentos e fáscias que sustentam a pelve.
Alterações nessas estruturas, como hipertonia, inflamação ou presença de pontos-gatilho, podem gerar dor local e referida, muitas vezes confundida com dor de origem visceral.
Diferença entre dor pélvica visceral e musculoesquelética
A dor visceral geralmente é mais difusa, profunda e pode estar associada a funções orgânicas, como micção, evacuação ou ciclo menstrual.
Já a dor musculoesquelética tende a ser mais bem localizada, reproduzível à palpação e frequentemente piora com movimento ou esforço físico. Além disso, pode haver identificação de pontos dolorosos específicos e alívio com repouso ou medidas físicas, como calor local.
Principais fatores de risco
Entre os principais fatores de risco para dor pélvica musculoesquelética estão o sedentarismo, posturas inadequadas, atividades físicas repetitivas ou de alto impacto, gestação e parto, além de cirurgias pélvicas prévias.
Além disso, situações de estresse crônico e condições como fibromialgia também podem contribuir, especialmente por favorecerem a sensibilização central e a amplificação da dor.
Muitas vezes, não há um único fator desencadeante claro, o que reforça a importância de uma avaliação ampla, considerando aspectos físicos, emocionais e funcionais do paciente.
Principais causas de dor pélvica musculoesquelética
A dor pélvica de origem musculoesquelética está relacionada, principalmente, a alterações nos músculos, articulações e estruturas de suporte da pelve. Entre as causas mais frequentes estão:
- Dor miofascial;
- Fibromialgia;
- Alterações posturais;
- Condições inflamatórias como a osteíte púbica.
Muitas vezes, essa dor é persistente, pode irradiar para outras regiões e tende a ser subdiagnosticada, especialmente pela sobreposição de sintomas com outras doenças.
Disfunções musculares e articulares
A dor miofascial é uma das principais causas e ocorre quando há disfunção ou hipersensibilidade dos músculos e fáscias da pelve, abdome ou região lombar. Esses pacientes frequentemente apresentam pontos-gatilho dolorosos à palpação, que podem gerar dor local ou irradiada, além de alterações motoras.
Além disso, a contração involuntária e sustentada da musculatura do assoalho pélvico também pode causar dor persistente, piorando com esforço físico e ao longo do dia, e melhorando com repouso ou calor local.
Alterações posturais e sobrecarga mecânica
Desequilíbrios posturais podem levar a sobrecarga de diferentes grupos musculares, como abdome, lombar e quadril, contribuindo para dor pélvica. Essas alterações podem surgir por hábitos inadequados, fraqueza muscular ou compensações do corpo, resultando em dor local ou irradiada.
Condições inflamatórias e sistêmicas associadas
A osteíte púbica é um exemplo de causa inflamatória, caracterizada por dor na região pélvica anterior, geralmente agravada por movimentos como caminhar ou subir escadas.
Já a fibromialgia pode manifestar-se com dor pélvica como parte de um quadro mais amplo de dor difusa, associada a fadiga, distúrbios do sono e aumento da sensibilidade à dor.
Como diferenciar os tipos de dor pélvica na avaliação clínica
Anamnese direcionada
Na investigação da dor pélvica, a anamnese é essencial para identificar um possível componente musculoesquelético. Em geral, esse tipo de dor costuma variar com movimento, postura ou esforço físico, diferentemente das dores viscerais.
A paciente pode relatar, por exemplo, piora ao permanecer muito tempo sentada, em pé ou ao realizar atividades específicas (como subir escadas ou praticar exercício físico). Também é comum a dor melhorar com repouso ou mudanças posturais. Outro ponto importante é a reprodução da dor com determinados movimentos, o que sugere envolvimento de músculos, articulações ou fáscias.
A irradiação da dor também ajuda: dores que começam na região lombar e se estendem para nádegas, virilha ou face interna das coxas frequentemente estão relacionadas à disfunção da cintura pélvica. Além disso, a paciente pode descrever a dor como “peso”, “tensão” ou “latejamento”, diferente da cólica típica de origem ginecológica.
Exame físico musculoesquelético da pelve
O exame físico é fundamental para confirmar a suspeita clínica. Assim, a avaliação começa pela inspeção da postura e da marcha, buscando assimetrias pélvicas, desalinhamento da coluna ou alterações na marcha.
Em seguida, a palpação direcionada pode identificar pontos dolorosos, como articulações sacroilíacas, sínfise púbica, músculos paravertebrais e músculos do assoalho pélvico. A presença de pontos-gatilho miofasciais é altamente sugestiva de dor musculoesquelética.
Outro achado importante é a diferenciação entre dor visceral e da parede abdominal. O sinal de Carnett positivo (a dor piora quando a paciente contrai a musculatura abdominal) sugere origem na parede abdominal ou miofascial.
Ademais, a avaliação da mobilidade dos quadris e da força muscular pode evidenciar limitações ou assimetrias, reforçando o diagnóstico.
Testes provocativos específicos
Os testes provocativos têm como objetivo reproduzir a dor da paciente para identificar sua origem. Na prática clínica, isso pode incluir:
- Movimentos ativos ou passivos do quadril e da pelve que desencadeiam a dor;
- Palpação de pontos específicos que reproduzem exatamente o sintoma habitual;
- Contração muscular contra resistência;
- Testes funcionais, como mudança de posição (sentar-levantar, flexão do tronco).
O papel dos métodos de imagem no diagnóstico
Na dor pélvica, principalmente quando há suspeita de origem musculoesquelética, os exames de imagem entram como ferramentas direcionadas, guiadas pela história clínica e pelo exame físico.
Ultrassonografia musculoesquelética
A ultrassonografia pode ser uma aliada interessante quando se suspeita de dor de origem miofascial ou de estruturas superficiais. Ela permite avaliar:
- Espessamento ou alterações musculares;
- Alterações em tendões e inserções;
- Dinâmica do movimento.
Ressonância magnética da pelve
A ressonância magnética é um dos exames mais completos quando há suspeita de causas mais profundas, incluindo o componente musculoesquelético.
Ela é útil para avaliar músculos profundos da pelve (como obturador interno e levantador do ânus), identificar edema muscular, inflamação ou lesões e detectar alterações articulares. Além disso, contribui na diferenciação de causas musculoesqueléticas, ginecológicas ou neurológicas.
Importância do diagnóstico correto para o tratamento
Na dor pélvica, identificar corretamente a origem da dor é essencial para evitar tratamentos ineficazes. Assim, uma avaliação bem conduzida permite direcionar o tratamento de forma mais assertiva, evitando intervenções desnecessárias (como cirurgias).
Procedimentos intervencionistas guiados por imagem
Em casos selecionados, podem ser indicados procedimentos invasivos guiados por imagem. Alguns incluem:
- Infiltração de pontos-gatilho musculares;
- Bloqueios anestésicos de nervos periféricos;
- Injeções em articulações sacroilíacas ou sínfise púbica.
A utilização de métodos de imagem, como ultrassonografia, aumenta a segurança desses procedimentos, permitindo atingir exatamente a estrutura envolvida e reduzindo riscos.
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Referências
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