A cirurgia robótica vem ganhando espaço rapidamente, inclusive no Brasil. Enquanto o número de procedimentos aumenta ano após ano, a formação dos cirurgiões ainda acontece de forma bastante heterogênea. Não existe um currículo único para residentes nem para especialistas que desejam incorporar a tecnologia à prática, e cada instituição acaba definindo seu próprio modelo de treinamento. Como consequência, muitos profissionais percorrem a curva de aprendizado sem uma sequência estruturada de simulação, prática supervisionada e avaliação objetiva.
A curva de aprendizado que ninguém deveria enfrentar sozinho
O número de cirurgias “robô-assistidas” realizadas por cirurgiões gerais aumenta todos os anos, mas ainda não existe um currículo padronizado nem uma curva de aprendizado formalmente definida para a especialidade. Isso não significa que a curva não exista — significa que cada cirurgião tende a percorrê-la de forma isolada, o que aumenta o risco de erros evitáveis justamente na fase mais delicada do aprendizado.
A literatura traz números que deveriam ser conhecidos por qualquer cirurgião que pensa em migrar para a robótica: quem realiza apenas 1 caso nos primeiros 90 dias após o treinamento básico tem 70% de chance de estagnar ou abandonar a tecnologia; quem realiza 22 casos no mesmo período tem 95% de chance de consolidar o uso da plataforma a longo prazo. Esses dados mostram que o sucesso na adoção da cirurgia robótica depende não apenas do treinamento inicial, mas da continuidade da prática. Manter uma frequência mínima de aproximadamente um caso por semana nas primeiras doze semanas parece ser um dos fatores mais importantes para consolidar o aprendizado.
Além disso, a curva de aprendizado não é só técnica. Habilidades não técnicas — comunicação com o auxiliar em campo cirúrgico, tomada de decisão, trabalho em equipe — são apontadas na literatura como determinantes da segurança do procedimento, já que o cirurgião fica fisicamente afastado da mesa cirúrgica durante boa parte do procedimento cirúrgico.
Um treinamento em camadas: da simulação ao console
Programas de treinamento robótico bem estruturados seguem uma progressão em camadas, descrita em detalhe no capítulo “Teaching Robotic Surgery”, do Atlas of Robotic General Surgery. Essa progressão inclui, em ordem:
- Módulos on-line e treinamento cognitivo, cobrindo desde a montagem do sistema até o manejo de erros do robô;
- Simulador com exercícios de dissecção, sutura, controle da câmera e dos múltiplos braços;
- Discussões de casos clínicos, “tips and tricks”;
- Treinamento em bancada (dry lab), com posicionamento de portais, docking e manuseio de instrumentos;
- Treinamento participando de cirurgias robóticas como espectador, até o cirurgião realizar com segurança pelo menos cinco casos nessa função;
- Treinamento em console do cirurgião para simulação de cenários realistas, exercitando todas as funções cirúrgicas da plataforma robótica;
- Execução dos primeiros procedimentos sob supervisão de um instrutor experiente, que é chamado de “proctor”.
Essa lógica de progressão, do simulador ao paciente real, sempre sob supervisão, é o que separa um treinamento robusto de um curso de fim de semana. É também exatamente o tipo de estrutura que, segundo a literatura, reduz a curva de aprendizado sem comprometer a segurança do paciente.

Equipe em treinamento na plataforma robótica da Vinci Xi, durante simulação de posicionamento e docking — etapa prática do treinamento avançado descrito nesta seção.
Leia também: “Cirurgia robótica: como conseguir experiência prática com segurança“
Avaliação de verdade: por que “saber operar” não basta
Ferramentas como o GEARS (Global Evaluative Assessment of Robotic Skills) hoje permitem diferenciar, de forma objetiva, um cirurgião novato de um proficiente — algo que antes dependia exclusivamente da opinião pessoal de um proctor.
Isso importa porque revela uma verdade desconfortável: é possível operar no robô há anos e nunca ter sido avaliado de forma estruturada. Programas de formação que incorporam essas ferramentas entregam algo que a experiência isolada não entrega — a certeza mensurável de que a competência foi, de fato, atingida.
Resolução Conselho Federal de Medicina Nº 2.311/2022
No Brasil, o ensino em cirurgia robótica deixou de ser apenas uma boa prática recomendada pela literatura internacional: desde 2022, ele é exigência formal do Conselho Federal de Medicina. A Resolução CFM nº 2.311/2022, publicada no Diário Oficial da União em 28 de março daquele ano, regulamenta a cirurgia robótica no país e classifica o procedimento como de alta complexidade, exigindo do cirurgião responsável Registro de Qualificação de Especialista (RQE) na área cirúrgica correspondente.
A norma detalha, em seu Anexo 2, um treinamento estruturado em duas etapas. Na Etapa 1 (treinamento básico), exige-se conhecimento teórico sobre a plataforma, cursos on-line de fundamentos, acompanhamento presencial de 10 cirurgias robóticas (sendo ao menos 3 na especialidade pretendida), mínimo de 20 horas em simulador validado e 2 horas de simulação no console. Na Etapa 2 (treinamento avançado), o cirurgião principal deve realizar pelo menos 10 cirurgias robóticas na especialidade sob supervisão direta de um cirurgião-instrutor — profissional que, por sua vez, só pode assumir essa função após comprovar 50 cirurgias robóticas como cirurgião principal.
Ou seja: a curva de aprendizado estruturada, discutida ao longo deste artigo, deixou de ser apenas recomendação de boas práticas e passou a ser norma ética obrigatória. Cirurgiões que pretendem incorporar a robótica à sua prática no Brasil precisam comprovar documentalmente cada etapa desse treinamento perante a direção técnica do hospital onde atuam.
Conclusão
O ensino em cirurgia robótica precisa amadurecer para sair do modelo de “aprender fazendo, sozinho” para currículos estruturados, com simulação de alta fidelidade. Para que o cirurgião atue com segurança e domínio real da plataforma, e não apenas “saiba mexer” no robô, a escolha do programa de formação é tão relevante quanto a decisão de aprender a técnica.
Gostaria de se formar com essa estrutura, prática real e mentoria direta?
A Pós-Graduação Lato Sensu em Cirurgia Geral Robótica do Dr. Fernando Bray, desenvolvida em parceria entre o Cetrus e o Hospital Santa Catarina Paulista, foi criada para oferecer uma formação alinhada às recomendações atuais para o ensino em cirurgia robótica. O lançamento do programa foi destaque na imprensa especializada, reforçando a importância dessa iniciativa para a formação de novos cirurgiões robóticos.
Leia a matéria completa: Hospital Santa Catarina – Paulista e Cetrus lançam pós-graduação em cirurgia robótica para formação de especialistas
A pós-graduação lato sensu é ofertada por instituição credenciada pelo MEC, com duração de 3 a 6 meses e treinamento prático no Hospital Santa Catarina Paulista, em São Paulo.
Referências
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PAKULA, A. Achieving Proficiency: Mastering the Learning Curve. In: NOVITSKY, Y. W. (ed.). Atlas of Robotic General Surgery. Elsevier, 2022, p. 17–21.
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