Facoemulsificação ou Femtolaser? Com o avanço das tecnologias em cirurgia oftalmológica, essa é uma pergunta cada vez mais presente na prática clínica.
A catarata, uma das principais causas de perda visual evitável no mundo, é tratada cirurgicamente por meio da remoção do cristalino opacificado e substituição por uma lente intraocular. Atualmente, duas técnicas destacam-se nesse cenário: a facoemulsificação, método tradicional amplamente utilizado, e a cirurgia assistida por laser de femtosegundo, também conhecida como femtolaser.
Neste contexto, compreender as indicações, limitações e benefícios de cada técnica é essencial para uma decisão cirúrgica individualizada e baseada em evidências.
Principais técnicas da cirurgia de catarata
Entre as principais técnicas de extração da catarata, destacam-se:
- Facoemulsificação;
- Extração extracapsular (ECCE);
- Extração intracapsular (ICCE);
- Cirurgia manual por pequena incisão (MSICS ou SICS);
Facoemulsificação
É a técnica mais amplamente utilizada em países com mais recursos. Consiste na fragmentação do cristalino por meio de ultrassom, utilizando uma pequena sonda inserida por uma incisão de 1 a 3 mm. Durante o procedimento, aspira-se o fragmento e implanta-se uma lente intraocular dobrável.
A recuperação tende a ser mais rápida e o risco de astigmatismo induzido é menor devido à pequena incisão que, muitas vezes, não necessita de sutura.
Extração extracapsular (ECCE)
Envolve a retirada do núcleo do cristalino inteiro por uma incisão maior. Apesar de ser menos moderna, é uma alternativa válida, especialmente em cataratas muito densas ou quando a facoemulsificação não está disponível.
Extração intracapsular (ICCE)
Técnica mais antiga, na qual retira-se todo o cristalino, incluindo sua cápsula. Quando realizada, geralmente é seguido por implante de LIO secundária.
Cirurgia manual por pequena incisão (MSICS ou SICS)
Alternativa de baixo custo à facoemulsificação, principalmente em países com menos recursos.
Nesse método, divide-se a lente manualmente, que é retirada por uma incisão pequena, geralmente sem necessidade de sutura. Embora ofereça bons resultados visuais, embora seja alternativa eficaz, alguns estudos sugerem maior taxa de complicações em contextos específicos
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Entendendo a Facoemulsificação: evolução e fundamentos
A facoemulsificação é a técnica mais utilizada atualmente para cirurgia de catarata, permitindo a recuperação da visão em pacientes com opacificação do cristalino.
Introduzida por Charles D. Kelman, a técnica inspirou-se no uso de energia ultrassônica por dentistas e passou a ser aceita em 1967. No período, Kelman utilizou uma agulha de titânio de 1 mm com vibração ultrassônica de 40.000 ciclos por segundo para fragmentar e remover o cristalino afetado.
Inicialmente, houve resistência à técnica devido às complicações frequentes e à necessidade de incisões maiores para implantar lentes intraoculares rígidas. No entanto, a técnica ganhou aceitação na década de 1980 graças a avanços como o uso de dispositivos viscocirúrgicos, lentes dobráveis, capsulorrexe contínua e melhorias tecnológicas nos equipamentos de facoemulsificação.
Fundamentos e técnica
A facoemulsificação consiste na fragmentação do cristalino opaco por meio de ultrassom. A seguir, revisaremos o passo a passo do procedimento.
- Anestesia local: o procedimento começa com a aplicação de anestesia tópica para garantir que o paciente não sinta dor durante a cirurgia.
- Incisão corneana: realiza-se uma pequena incisão na córnea, suficiente para a introdução dos instrumentos cirúrgicos. Essa incisão é auto selante, dispensando suturas.
- Capsulorrexe: faz-se uma abertura circular na cápsula anterior do cristalino, permitindo o acesso ao núcleo opaco da catarata.
- Hidrodissecção: injeta-se uma solução salina para separar o córtex da cápsula posterior, facilitando o seu deslocamento e posterior fragmentação.
- Facoemulsificação: utiliza-se uma sonda ultrassônica que fragmenta o núcleo da catarata em pequenos pedaços e os aspira simultaneamente, minimizando o trauma e permitindo a remoção eficiente do cristalino opaco.
- Aspiração cortical: após a retirada do núcleo, a camada cortical remanescente é aspirada cuidadosamente, preservando a integridade da cápsula posterior.
- Implante da lente intraocular (LIO): por fim, uma lente intraocular dobrável é inserida através da incisão e posicionada dentro da cápsula posterior, substituindo o cristalino removido.
Esse método é reconhecido por sua segurança, rápida recuperação visual e menor risco de complicações.
Indicações
A facoemulsificação é recomendada quando o cristalino apresenta catarata que compromete a visão. Portanto, entre as principais indicações estão:
- Dificuldade para realizar tarefas cotidianas;
- Queda na acuidade visual tanto para longe quanto para perto;
- Presença de halos ao redor das luzes;
- Sensibilidade aumentada à luz (fotofobia);
- Visão dupla em apenas um olho (diplopia monocular);
- Redução da capacidade de distinguir contrastes;
- Presença de reflexo esbranquiçado na pupila.
Contraindicações
As principais contraindicações para a facoemulsificação incluem situações em que a cirurgia não é apropriada ou viável. Por exemplo, quando o paciente não deseja se submeter ao procedimento, está satisfeito com sua visão atual usando óculos ou quando não se espera melhora visual com a cirurgia.
Além disso, a presença de várias comorbidades sistêmicas que elevam o risco cirúrgico, a impossibilidade de obter o consentimento informado ou de garantir os cuidados pós-operatórios adequados também são fatores que contraindicam a realização da cirurgia.
Cirurgia de catarata com Femtolaser
O femtolaser, também chamado de laser de femtosegundo, recebe esse nome por emitir pulsos com duração extremamente curta, na ordem de 10⁻¹⁵ segundos.
Operando na faixa do infravermelho próximo (em torno de 1053 nm), esse laser tem a capacidade de causar fotodisrupção nos tecidos-alvo, minimizando efeitos térmicos indesejados comuns em tecnologias a laser anteriores. A fotodisrupção ocorre em três etapas principais: formação de plasma, onda de choque e cavitação.
O laser de femtosegundo promove a separação do tecido através de processos de ablação e clivagem, sendo que a energia do pulso determina a predominância de cada um.
Para que a fotodisrupção aconteça, é necessário ultrapassar um limite de energia, que varia conforme o tipo de tecido e características do laser. Pulsos com maior energia geram maior ablação do tecido por expansão de bolhas de gás, enquanto pulsos com energia mais baixa promovem uma separação baseada principalmente na clivagem, favorecendo frequências de pulso elevadas e feixes mais finos.
Indicações
Indica-se o femtolaser principalmente para:
- Cirurgias refrativas de catarata ou cristalino com implante de lentes intraoculares (LIO) premium: possibilita uma capsulotomia altamente precisa, reprodutível e personalizável, favorecendo a centralização ideal da LIO e melhor desempenho das lentes.
- Cataratas duras ou densas: a fragmentação a laser do núcleo do cristalino reduz o tempo e a energia de facoemulsificação, diminuindo o risco de perda de células endoteliais e acelerando a recuperação visual.
- Casos complexos, como cataratas subluxadas traumáticas, instabilidade zonular, cataratas intumescentes e síndrome de pseudoexfoliação.
Contraindicações
Por outro lado, as contraindicações do femtolaser envolvem tanto limitações anatômicas que impedem o encaixe adequado do equipamento quanto condições que dificultam a obtenção de imagens precisas do segmento anterior.
Dessa forma, as principais contraindicações incluem:
- Características anatômicas que dificultam o encaixe do equipamento, como globo ocular profundo, fissura palpebral estreita, nariz ou sobrancelha proeminentes e incapacidade de deitar em decúbito dorsal.
- Condições que comprometem a obtenção de imagens do segmento anterior, como cirurgia prévia de adição corneana (ex.: implantes de anel ou inlay), opacidade corneana grave ou edema corneano severo.
Além disso, outras condições podem dificultar a realização da cirurgia de catarata assistida por laser de femtossegundo e, por isso, podem ser vistas como contraindicações relativas e incluem:
- Dilatação pupilar deficiente (< 6 mm);
- Cirurgias prévias, como ceratoplastia e cirurgia de glaucoma;
- Catarata branca;
- Cicatrizes leves na córnea;
- Edema corneano leve.
Facoemulsificação ou Femtolaser: comparativo clínico e técnico
A facoemulsificação e o femtolaser, ou cirurgia assistida por laser de femtossegundo, destacam-se como métodos amplamente utilizados no tratamento da catarata.
A comparação entre essas técnicas é fundamental para entender suas características clínicas e técnicas, possibilitando uma escolha mais adequada para cada caso, considerando fatores como segurança, precisão, custo e recuperação do paciente.
A seguir, apresentamos uma tabela comparativa que resume os principais aspectos dessas duas abordagens.
| Aspecto | Facoemulsificação | Femtolaser |
|---|---|---|
| Tecnologia utilizada | Ultrassom para fragmentação do cristalino | Laser de femtossegundo para incisões, capsulorrexe e pré-fragmentação |
| Incisão | Manual | Automatizada pelo laser |
| Capsulorrexe | Manual | Guiada por imagem e executada pelo laser |
| Fragmentação do cristalino | Ultrassônica | Pré-fragmentação a laser, reduzindo necessidade de energia ultrassônica |
| Custo | Mais acessível e amplamente disponível | Mais caro, devido ao uso de tecnologia avançada |
| Resultados visuais | Excelentes em geral | Resultados semelhantes em longo prazo, com possível recuperação inicial mais rápida |
| Indicações específicas | Técnica padrão, boa para a maioria dos casos | Preferida em casos complexos (córneas frágeis, cataratas densas, olhos com anatomia irregular) |
Facoemulsificação ou Femtolaser: quando indicar cada técnica?
A escolha entre facoemulsificação convencional e femtolaser deve considerar o perfil individual do paciente, incluindo:
- Características da catarata;
- Condições oculares associadas;
- Recursos disponíveis.
A facoemulsificação é amplamente indicada em pacientes com cataratas de diversos graus, especialmente quando há limitação no acesso a tecnologias avançadas, por ser um método consolidado e efetivo.
Entretanto, pacientes com cataratas densas podem demandar maior energia ultrassônica, o que pode aumentar o risco de danos à córnea. Nesse contexto, a cirurgia assistida por femtolaser pode ser uma opção, pois reduz a necessidade de energia ultrassônica.
Além disso, o femtolaser apresenta benefícios significativos para casos que exigem maior precisão e pode ser preferido em pacientes que beneficiam-se de uma capsulotomia mais centrada e estável, favorecendo o posicionamento da lente intraocular.
Todavia, apesar de seus benefícios, limitações econômicas e disponibilidade tecnológica podem restringir o uso do femtolaser, tornando a facoemulsificação a técnica padrão em muitos contextos.
Ademais, a experiência do cirurgião é fundamental para o sucesso em ambas as abordagens.
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Referências
- GURNANI, B.; KAUR, K. Phacoemulsification. National Library of Medicine, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK576419/. Acesso em: 24 mai 2025.
- JACOBS, D. S. Cataract in adults. UpToDate, 2025.
- SALGADO, R. M.; TORRES, P. F.; MARINHO, A. A. Update on Femtosecond Laser-Assisted Cataract Surgery: A Review. Clinical Ophthalmology, 2024.






