Pericardiopatias referem-se a um conjunto de doenças que afetam o pericárdio, uma membrana fina e dupla que envolve o coração, protegendo-o e facilitando seus movimentos no mediastino. Essa camada serosa é composta por duas partes: o pericárdio visceral, que reveste diretamente o coração, e o pericárdio parietal, que envolve o coração de forma mais externa. Entre essas duas camadas, há uma pequena quantidade de líquido que serve para lubrificar e reduzir o atrito durante o batimento cardíaco.
As pericardiopatias incluem condições que variam desde pericardite aguda (inflamação do pericárdio) até condições mais crônicas e potencialmente fatais, como pericardite constritiva e tamponamento cardíaco. Essas doenças são clinicamente significativas porque podem afetar diretamente a função cardíaca, comprometer a circulação e, em casos mais graves, ser fatais se não forem diagnosticadas e tratadas prontamente.
Epidemiologia e impacto clínico das pericardiopatias
As pericardiopatias são menos comuns que outras doenças cardíacas, mas sua prevalência varia de acordo com a condição específica e a etiologia. Por exemplo, a pericardite aguda tem uma incidência de 27,7 casos por 100.000 habitantes por ano. Além disso, representa cerca de 5% dos casos de dor torácica que chegam ao pronto-socorro, sendo frequentemente confundida com infarto agudo do miocárdio, dada a semelhança entre os sintomas de ambas as condições.
Os derrames pericárdicos são uma das manifestações mais comuns das pericardiopatias, sendo frequentemente encontrados em pacientes com doenças autoimunes, insuficiência renal, infecções (como tuberculose) ou neoplasias. O tamponamento cardíaco, uma complicação grave dos derrames pericárdicos, ocorre com menos frequência, mas tem um impacto significativo na prática clínica, pois é uma emergência médica que requer intervenção imediata.
Pericardite constritiva, embora rara, é uma doença crônica que se desenvolve quando o pericárdio sofre um espessamento e endurecimento, limitando a expansão do coração e levando a sinais de insuficiência cardíaca. O tratamento dessa condição é complexo, frequentemente necessitando de intervenção cirúrgica.
Fisiopatologia das pericardiopatias
A fisiopatologia das pericardiopatias varia dependendo da condição específica.
Na pericardite aguda, a inflamação é o principal mecanismo fisiopatológico, desencadeada por uma resposta do pericárdio a um estímulo agressor, que pode ser infeccioso (principalmente viral), autoimune (como em casos de lúpus eritematoso sistêmico) ou traumático. Essa inflamação resulta em edema, infiltração de células inflamatórias e formação de exsudato no espaço pericárdico.
Nos derrames pericárdicos, o líquido se acumula no espaço pericárdico, podendo variar em quantidade e composição (transudato ou exsudato). Quando o líquido se acumula de forma lenta e gradual, o pericárdio pode se adaptar e acomodar grandes volumes sem causar grandes prejuízos à função cardíaca. No entanto, um acúmulo rápido de líquido, como em traumas ou ruptura de vasos coronarianos, pode levar a tamponamento cardíaco, no qual a pressão no pericárdio impede o enchimento adequado das câmaras cardíacas, resultando em um quadro de choque cardiogênico.
A pericardite constritiva ocorre após inflamações crônicas ou recorrentes do pericárdio, levando à fibrose e ao espessamento da membrana. Isso cria uma restrição mecânica durante a diástole ventricular, afetando a capacidade do coração de se encher adequadamente, resultando em sinais de insuficiência cardíaca direita, como edema periférico, ascite e turgência jugular.
Classificação das pericardiopatias
As pericardiopatias podem ser classificadas de diversas maneiras, de acordo com o tempo de evolução, a apresentação clínica e os mecanismos fisiopatológicos subjacentes. Uma classificação comum é baseada no curso clínico e na gravidade da doença:
Pericardite aguda
É uma inflamação súbita do pericárdio, a membrana que envolve o coração. Seus sintomas típicos incluem dor torácica aguda e pleurítica, que se agrava com a respiração profunda e a posição supina, além de alívio quando o paciente se inclina para frente. A causa mais comum é viral, embora também possa ser desencadeada por infecções bacterianas, doenças autoimunes, traumas ou cirurgias cardíacas. O diagnóstico baseia-se em achados clínicos e exames complementares, como eletrocardiograma e ecocardiograma.
O tratamento geralmente envolve anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), colchicina e, em casos mais graves, corticosteroides.
Pericardite crônica
A pericardite crônica é uma inflamação persistente do pericárdio, que se estende por mais de três meses. Diferente da forma aguda, essa condição pode resultar em fibrose e espessamento da membrana pericárdica, comprometendo a função cardíaca, especialmente durante a diástole.
A principal complicação da pericardite crônica é a pericardite constritiva, na qual o pericárdio espessado impede o coração de se expandir adequadamente, levando a sintomas de insuficiência cardíaca, como edema periférico e turgência jugular.
Pericardite constritiva
Forma crônica da doença, em que o pericárdio espesso e fibrosado impede a expansão adequada do coração, limitando a capacidade de enchimento durante a diástole. Isso resulta em sintomas de insuficiência cardíaca, como congestão venosa sistêmica.
Derrame pericárdico
Acúmulo de líquido no espaço pericárdico, que pode ser seroso (transudato), hemorrágico ou purulento, dependendo da etiologia.
Em muitos casos, os derrames pericárdicos são assintomáticos, mas grandes acúmulos de líquido podem levar a tamponamento
Tamponamento cardíaco
Condição grave em que o acúmulo de líquido exerce pressão sobre o coração, impedindo seu enchimento adequado durante a diástole e resultando em queda no débito cardíaco.
É uma emergência clínica que requer drenagem imediata do líquido pericárdico.
Diagnóstico
O diagnóstico das pericardiopatias é baseado em uma combinação de anamnese, exame físico e exames complementares.
Anamnese das pericardiopatias
A pericardite aguda geralmente se apresenta com dor torácica pleurítica, que piora com a inspiração profunda e em decúbito dorsal, mas alivia quando o paciente se inclina para frente.
Essa dor é muitas vezes acompanhada de febre e sintomas sistêmicos. No caso de tamponamento, o paciente pode apresentar dispneia progressiva, hipotensão e sintomas de insuficiência cardíaca.
Exame físico
O atrito pericárdico é um sinal clínico típico da pericardite aguda, descrito como um som rugoso que pode ser auscultado na borda inferior do esterno. Na pericardite constritiva, podem-se observar sinais de congestão venosa sistêmica, como:
- Turgência jugular
- Hepatomegalia
- Edema periférico.
Em pacientes com tamponamento cardíaco, a tríade de Beck (hipotensão, abafamento dos sons cardíacos e turgência jugular) é um achado clássico.
Exames de imagem na pericardite
O ecocardiograma é o exame de escolha para avaliar derrame pericárdico e tamponamento, fornecendo informações sobre a quantidade de líquido no pericárdio e seu impacto na função cardíaca. Na pericardite constritiva, pode-se observar o espessamento pericárdico e o padrão diastólico restritivo.
Indica-se a tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) para avaliar a espessura pericárdica e confirmar o diagnóstico de pericardite constritiva. Portanto, a RM cardíaca também é útil para caracterizar a composição do derrame pericárdico.
Assim, as técnicas de caracterização tecidual são fundamentais para identificar processos inflamatórios tanto no pericárdio quanto no miocárdio, que frequentemente ocorrem em conjunto. A utilização de imagens cine em tempo real, combinada com a análise de fluxo por contraste de fase, permite uma avaliação detalhada do acoplamento ventricular, além dos fluxos venosos e transvalvares. Essa abordagem é importante para diferenciar síndromes restritivas de constritivas. Ademais, essa técnica também se mostra útil na análise de massas, tumores e malformações congênitas no pericárdio.
Além disso, segundo as diretrizes brasileiras para Miocardite e Pericardite, a ressonância magnética cardíaca (RMC) possui recomendação classe IIA (com nível de evidência B) para a avaliação tanto de pericardite aguda quanto crônica, além de pericardite constritiva, independentemente da presença de calcificações pericárdicas.
Além disso, na pericardite aguda, o ECG pode mostrar elevações difusas do segmento ST e depressão do segmento PR. Em casos de tamponamento, o ECG pode mostrar alternância elétrica, um achado característico. Portanto, a elevação de marcadores inflamatórios, como a proteína C reativa (PCR) e a velocidade de hemossedimentação (VHS), é comum na pericardite aguda. Exames de sangue adicionais podem ajudar a identificar causas específicas, como infecções, insuficiência renal ou doenças autoimunes.
Manejo clínico e tratamento
O manejo das pericardiopatias depende da gravidade da doença e da apresentação clínica.
Pericardite aguda
O tratamento inicial inclui anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como ibuprofeno ou aspirina, para reduzir a dor e a inflamação.
A colchicina é frequentemente adicionada para reduzir o risco de recorrência. Em casos mais graves, especialmente em pacientes com doenças autoimunes ou pericardite idiopática refratária, pode ser necessário o uso de corticosteroides ou imunossupressores.
Derrame pericárdico
Pode-se monitorar clinicamente derrames pequenos e assintomáticos, enquanto grandes derrames ou aqueles que causam sinais de tamponamento requerem pericardiocentese, um procedimento para drenar o líquido pericárdico e aliviar a pressão no coração.
Tamponamento cardíaco
É uma emergência médica que exige intervenção imediata. A pericardiocentese é o tratamento de escolha para aliviar a pressão e restaurar o enchimento cardíaco normal.
Em alguns casos, pode ser necessária a criação de uma janela pericárdica cirúrgica para evitar recorrências.
Pericardite constritiva
O tratamento inicial visa controlar os sintomas de insuficiência cardíaca, frequentemente com o uso de diuréticos. No entanto, a cura definitiva geralmente requer uma pericardiectomia, uma cirurgia para remover o pericárdio fibrosado e restaurar a função diastólica normal.
Prognóstico
O prognóstico das pericardiopatias varia de acordo com a gravidade e a causa subjacente. A pericardite aguda geralmente responde bem ao tratamento com AINEs e colchicina, embora recidivas sejam comuns.
A pericardite constritiva, se não tratada adequadamente, pode evoluir para insuficiência cardíaca crônica, com piora progressiva dos sintomas bem como o tamponamento cardíaco, que se não tratado rapidamente, pode ser fatal, mas a intervenção precoce, especialmente por meio de pericardiocentese, leva a uma melhora significativa.
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Referências
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