Prolapso de órgãos pélvicos: diagnóstico por imagem e atualizações do POP-Q

Mulher com as mãos sobre a região inferior do abdome, demonstrando desconforto ou dor pélvica, vestindo blusa branca e calça escura, em fundo neutro.

Índice

O prolapso de órgãos pélvicos (POP) é uma condição prevalente, especialmente em mulheres multíparas e no climatério, caracterizada pelo deslocamento das estruturas pélvicas em decorrência da falha dos mecanismos de suporte do assoalho pélvico.

O diagnóstico baseia-se fundamentalmente na avaliação clínica, sendo o sistema POP-Q (Pelvic Organ Prolapse Quantification) o método padronizado e internacionalmente aceito para a quantificação objetiva da gravidade do prolapso. Nas últimas décadas, os métodos de imagem ganharam destaque como ferramentas complementares, permitindo melhor compreensão anatômica e funcional, identificação de defeitos complexos e refinamento do planejamento terapêutico.

O que é prolapso de órgãos pélvicos?

O prolapso de órgãos pélvicos corresponde à descida anormal de estruturas pélvicas, como bexiga, reto, útero, colo uterino ou ápice vaginal, em direção ao interior ou além do canal vaginal, decorrente da falha dos mecanismos de sustentação do assoalho pélvico. O enfraquecimento de músculos, fáscia e ligamentos permite a herniação de órgãos adjacentes, originando quadros como cistocele, retocele, enterocele ou prolapso uterino.

Embora formas leves possam ser assintomáticas e dentro de limites fisiológicos, o POP torna-se clinicamente relevante quando provoca sintomas como sensação de peso ou abaulamento vaginal, disfunções urinárias ou intestinais e impacto na função sexual.

O POP tem etiologia multifatorial, sendo o parto vaginal o principal fator de risco, especialmente quando associado à multiparidade, recém-nascido de alto peso, uso de fórceps ou trabalho de parto prolongado, situações que favorecem trauma do assoalho pélvico.

Outros fatores relevantes incluem envelhecimento, obesidade, predisposição genética e doenças do tecido conjuntivo, que comprometem a integridade do suporte pélvico. Além disso, condições que aumentam cronicamente a pressão intra-abdominal, como tosse persistente, constipação e esforços físicos repetitivos, e antecedentes de cirurgias pélvicas ou histerectomia contribuem para o desenvolvimento e a progressão do prolapso.

Classificação atual do prolapso de órgãos pélvicos

A classificação do prolapso de órgãos pélvicos evoluiu a partir de sistemas essencialmente descritivos e subjetivos para modelos mais objetivos e reprodutíveis. As classificações tradicionais baseavam-se na identificação da víscera supostamente envolvida (como cistocele ou retocele) e na extensão do prolapso. Entretanto, apresentavam elevada variabilidade inter e intraobservador, além de limitações na comparação longitudinal e entre diferentes examinadores.

O desenvolvimento do sistema POP-Q (Pelvic Organ Prolapse Quantification) marcou uma mudança significativa na abordagem do estadiamento do POP. Ao introduzir um método padronizado, mensurável e internacionalmente validado, passou a permitir avaliação mais objetiva e reprodutível do prolapso.

Atualmente, considera-se o POP-Q o sistema de referência para a classificação do prolapso de órgãos pélvicos. Dessa forma, ele é amplamente adotado em pesquisas científicas e recomendado por sociedades internacionais.

O que é o sistema POP-Q?

O POP-Q é um sistema objetivo de quantificação do prolapso de órgãos pélvicos que utiliza medições anatômicas padronizadas para descrever o grau de suporte vaginal. Seu objetivo é documentar com precisão a posição dos compartimentos vaginais em relação a um ponto fixo. Portanto, permite avaliação reprodutível, comparação entre exames e acompanhamento evolutivo das pacientes.

Parâmetros avaliados

O POP-Q baseia-se na mensuração do posicionamento de pontos específicos da vagina em relação ao plano do hímen, considerado o ponto de referência fixo (zero). As medidas são registradas como valores negativos quando os pontos estão acima do hímen e positivos quando estão abaixo. A partir dessas mensurações, classifica-se o prolapso em cinco estágios (0 a IV). Assim, essa classificação reflete a extensão do descenso vaginal e permite uma graduação precisa da gravidade do prolapso.

Pontos anatômicos utilizados

O sistema utiliza nove parâmetros anatômicos padronizados:

  • Seis pontos vaginais: Aa, Ba e C na parede anterior e ápice; Ap, Bp e D na parede posterior e fórnix posterior, quando presente.
  • Três medidas complementares: hiato genital (gh), corpo perineal (pb) e comprimento vaginal total.

Portanto, essa abordagem evita pressupor qual órgão está associado ao prolapso, focando exclusivamente na posição vaginal, o que aumenta a acurácia e a reprodutibilidade do exame.

Referências e marcos anatômicos utilizados na avaliação pelo sistema POP-Q. Fonte: Persu et al, 2011.

Mudanças recentes e atualizações do POP-Q

As atualizações mais recentes do POP-Q não alteram sua estrutura conceitual, mas reforçam sua aplicabilidade clínica, a padronização da técnica de exame e o estímulo ao uso rotineiro, inclusive em cenários ambulatoriais.

Destaca-se a validação de versões simplificadas do POP-Q, com menor número de pontos mensurados, mantendo boa correlação com o sistema completo e facilitando sua incorporação na prática diária. Além disso, estudos recentes confirmam a confiabilidade do POP-Q em diferentes posições de exame e sua utilidade no seguimento longitudinal e na avaliação de resultados cirúrgicos.

Na prática, as atualizações favorecem maior adesão ao POP-Q, redução do tempo de exame com a experiência do examinador e melhor comunicação entre profissionais e serviços. O uso sistemático do POP-Q permite documentação mais precisa, acompanhamento evolutivo padronizado e melhor planejamento terapêutico, especialmente em pacientes candidatas a tratamento cirúrgico ou em seguimento pós-operatório.

Diagnóstico de prolapso de órgãos pélvicos

A principal queixa referida por mulheres com prolapso dos órgãos pélvicos é a sensação de peso ou de “bola na vagina”, sintoma que orienta a suspeita clínica inicial.

Assim, o diagnóstico do POP é predominantemente clínico e baseia-se no exame ginecológico. Realiza-se esse exame com a paciente em posição ginecológica e durante a manobra de Valsalva, a fim de evidenciar o descenso dos compartimentos pélvicos.

Para o estadiamento, utilizam-se principalmente o sistema de Baden-Walker, de caráter mais subjetivo, e o sistema POP-Q (Pelvic Organ Prolapse Quantification), que oferece mensuração objetiva, padronizada e menor variabilidade interobservador, sendo atualmente o método mais empregado na prática clínica e em pesquisas.

Os métodos de imagem atuam como ferramentas complementares, especialmente em casos complexos ou quando há planejamento terapêutico.

Leia também “Como realizar o diagnóstico diferencial da dor pélvica crônica: guia para médicos“!

Como integrar POP-Q e imagem no diagnóstico?

A avaliação do prolapso dos órgãos pélvicos (POP) pode ser aprimorada com o uso de técnicas de imagem associadas ao sistema de quantificação POP-Q.

O diagnóstico inicial é frequentemente confirmado por exame físico, realizado com a paciente em posição ginecológica e durante a manobra de Valsalva. No entanto, a ultrassonografia bidimensional pode ser útil para avaliar aspectos como o descenso do colo vesical, afunilamento uretral, anormalidades na bexiga ou uretra, além da mobilidade dos órgãos pélvicos. A ultrassonografia também permite observar a integridade dos músculos do assoalho pélvico e detectar a avulsão do levantador do ânus, que pode ser um preditor do surgimento de prolapsos.

Além disso, a ressonância magnética (RM) oferece uma visão detalhada das estruturas ligamentares e musculares do assoalho pélvico, sem o uso de radiação ionizante. A RM dinâmica, ao possibilitar a avaliação da posição das vísceras pélvicas durante o esforço, proporciona informações mais precisas, complementando os dados obtidos pelo POP-Q.

Quando encaminhar para avaliação especializada?

Indica-se o encaminhamento para avaliação especializada quando o prolapso dos órgãos pélvicos torna-se sintomático, impactando a qualidade de vida da paciente, especialmente diante de queixas como sensação de abaulamento vaginal, disfunções urinárias, intestinais ou sexuais. Casos em que os sintomas são moderados a graves, progressivos ou refratários às medidas conservadoras também justificam avaliação por especialista.

A necessidade de avaliação especializada é reforçada quando há falha na adaptação ou intolerância ao pessário, presença de comorbidades relevantes, anatomia vaginal desfavorável ou histórico de cirurgias pélvicas prévias.

Além disso, o encaminhamento também é essencial quando há desejo de preservação da função sexual, reprodutiva ou do útero, exigindo discussão detalhada sobre técnicas cirúrgicas reconstrutivas ou preservadoras.

Por fim, mulheres candidatas a tratamento cirúrgico devem ser avaliadas por equipe especializada para a individualização da abordagem. Essa avaliação permite a escolha da técnica mais apropriada, além de uma orientação adequada quanto às expectativas terapêuticas e aos possíveis riscos e complicações.

Curso de Ultrassonografia Avançada do Assoalho Pélvico e Canal Anal do Cetrus

Domine a avaliação funcional e anatômica do assoalho pélvico com um dos métodos de imagem mais precisos e em crescente valorização clínica!

O Curso de Ultrassonografia Avançada do Assoalho Pélvico e Canal Anal foi desenvolvido para profissionais que desejam ir além do exame básico, integrando conhecimento anatômico, correlação clínica e interpretação avançada de achados ultrassonográficos.

Aprenda a identificar defeitos musculares e fasciais, avulsões do músculo levantador do ânus e disfunções associadas aos prolapsos dos órgãos pélvicos. O curso aborda as principais vias de acesso, além da aplicação da ultrassonografia bidimensional e tridimensional na avaliação dinâmica do assoalho pélvico.

Referências

  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Prolapso dos órgãos pélvicos. São Paulo: FEBRASGO; 2021 (Protocolo FEBRASGO-Ginecologia, n. 51/ Comissão Nacional Especializada em Uroginecologia e Cirurgia Vaginal).
  • Kuo CH, Martingano DJ, Mikes BA. Prolapso de órgãos pélvicos. [Atualizado em 21 de setembro de 2025]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; janeiro de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK563229/
  • Persu C, Chapple CR, Cauni V, Gutue S, Geavlete P. Pelvic Organ Prolapse Quantification System (POP-Q) – a new era in pelvic prolapse staging. J Med Life. 2011 Jan-Mar;4(1):75-81. Epub 2011 Feb 25. PMID: 21505577; PMCID: PMC3056425.
  • Yoon I, Gupta N. Imagem do Prolapso Pélvico. [Atualizado em 1 de maio de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; janeiro de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK551513/

Cite este artigo no seu trabalho

Para citar este artigo em outro texto, clique e copie a referência em formatação ABNT.

Citação copiada!

Compartilhe esta publicação: