Síndrome geniturinária na menopausa: como diagnosticar e tratar?

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A síndrome geniturinária é um quadro crônico caracterizado por mudanças nos tecidos da região, o que ocorre em resposta à perda de estrogênio, que é mais comum após a menopausa, mas pode acometer mulheres em outras situações de hipoestrogenismo.

Continue a leitura e aprenda como manejar o quadro desta síndrome, proporcionando um melhor atendimento e acompanhamento à sua paciente. 

Menopausa

A menopausa, um marco fisiológico na vida da mulher, é definida como o encerramento permanente da menstruação, indicando o fim da fase reprodutiva. Em geral, a idade que a mulher entra nesta fase é em torno dos 50 anos. 

Este período natural ocorre devido à diminuição progressiva da função ovariana e está associado a uma série de mudanças hormonais e sintomas que afetam diversos sistemas do corpo feminino.

Para algumas mulheres, esta fase é marcada como o início do “declínio” da vida e representa um desafio emocional, associado a sintomas como ondas de calor, alterações no sono e flutuações de humor. 

Fisiologia da menopausa

O declínio gradual da função ovariana é marcado pela diminuição dos níveis de estrogênio e progesterona. Essas mudanças hormonais desencadeiam uma série de efeitos no sistema reprodutivo e em outros órgãos.

A diminuição dos estrogênios, em particular, está associada a alterações na mucosa genital, causando atrofia e tornando-a mais vulnerável a infecções. Além disso, há impactos sobre o sistema esquelético, cardiovascular e neurológico, contribuindo para uma variedade de sintomas que caracterizam a menopausa.

Síndrome Geniturinária (SGU) na Menopausa

A síndrome geniturinária na menopausa, que já foi chamada de atrofia vulvovaginal (AVV), é uma condição multifacetada que engloba uma série de sinais e sintomas relacionados ao trato geniturinário, resultantes da atrofia e da diminuição da elasticidade dos tecidos vulvovaginais, que são decorrentes da deficiência de estrógeno na vagina, lábios maiores e menores, clítoris, vestibulo/introito, uretra e bexiga. 

Essa síndrome pode ter um impacto significativo na qualidade de vida das mulheres, afetando não apenas a esfera sexual, mas também a saúde urinária e o bem-estar emocional.

Estima-se que o quadro afete entre 36% a quase 90% das mulheres. Em mulheres na pré-menopausa (entre 40 e 45%), sua prevalência é de 19%.

Fisiopatologia da Síndrome Geniturinária

Os sintomas e sinais apresentados pelas mulheres na SGU resultam da diminuição dos níveis de estrogênio. Isso porque os receptores de estrogênio estão presentes em várias áreas, como vagina, vulva, musculatura do assoalho pélvico, uretra e trígono da bexiga e as estimulam a:

  • Manter o conteúdo de colágeno do epitélio, o que afeta sua espessura e elasticidade
  • Manter mucopolissacarídeos ácidos e ácido hialurônico, que mantém as superfícies epiteliais úmidas
  • Manter o fluxo sanguíneo genital ideal
  • Mantenha um microbioma vaginal saudável 

Em decorrência da ação do estrogênio, o epitélio da vagina, que é escamoso estratificado não queratinizado, torna-se espesso, rugoso e com alto teor de glicogênio. O glicogênio proveniente das células descamadas serve como substrato para os lactobacilos os quais transformam a glicose em ácido lático, resultando em um ambiente vaginal ácido. A acidez vaginal contribui para manter a flora vaginal saudável e protege a região urogenital contra infecções tanto vaginais quanto do trato urinário.

A deficiência do estrógeno

A deficiência de estrogênio causa alterações histológicas e anatômicas nos tecidos urogenitais, levando à perda de elasticidade vaginal, aumento do pH, mudanças na flora vaginal, diminuição da lubrificação e maior vulnerabilidade a irritações e traumas físicos. Consequentemente, com o envelhecimento, essas mulheres se tornam mais propensas a experimentar sintomas geniturinários.

Apesar de ser mais comum de ocorrer na menopausa natural, é relatado ainda em casos de insuficiência ovariana prematura ou temporariamente durante o período pós-parto ou lactação, ou devido à amenorreia hipotalâmica ou medicamentos antiestrogênicos como os inibidores de aromatase e tamoxifeno, por exemplo. 

Manifestações clínicas

As manifestações clínicas são percebidas  na esfera dos sintomas urinários e sexuais: 

  • Secura, queimação e irritação vaginal
  • Disúria, noctúria, urgências e infecções do trato urinário
  • Dispareunias e diminuição de lubrificação
  • Prurido vulvovaginal
  • Corrimento vaginal anormal
  • Sangramento pós-coito
  • Espasmos elevados
  • Diminuição da excitação, orgasmo ou desejo sexual. 

Essas manifestações, diferentes das outras encontradas no climatério, como o fogacho, por exemplo, não vão melhorando. Pelo contrário, tendem a ser agravar com o tempo. 

Diagnóstico da Síndrome Geniturinária (SGU) na Menopausa

O diagnóstico da síndrome geniturinária na menopausa envolve uma abordagem clínica completa. A história clínica detalhada, incluindo a descrição dos sintomas e seu impacto na qualidade de vida, é essencial. 

Além disso, é importante questionar sobre a história menstrual, uso de medicamentos e de produtos na vagina (como lubrificantes, perfume, sabonetes íntimos, protetores diários), relação sexual (questionar história prévia de trauma), idade da menopausa, cirurgias ginecológicas e urológicas prévias, parto e alguma patologia endocrinológica. 

É importante que o médico faça perguntas ativamente sobre os sintomas. Uma pesquisa realizada pela FEBRASGO mostrou que mais de 70% das pacientes não relatam esses sintomas aos seus médicos devido ao constrangimento, crenças culturais, religiosas ou sociais ou até mesmo por falta de conhecimento sobre a possibilidade de tratamento, deixando passar ou retardando o diagnóstico.

Dos sintomas relatados, os mais comuns são: 

  • Ressecamento vaginal (55%)
  • Dispareunia (44%)
  • Irritação genital (37%). 

Apesar de pouco expressarem, 59% de mulheres questionadas afirmam ter impacto negativo na vida sexual. 

Exame físico

Exames físicos e ginecológicos, como a avaliação da mucosa vaginal, também desempenham um papel importante. É possível ainda observar alguns sinais como os demonstrados abaixo, que podem levar a suspeita da SGU: 

  • Escassez de pelos pubianos;
  • Fusão dos lábios menores ou sinéquias;
  • Sinéquia do prepúcio do clitóris;
  • Estenose do intróito vaginal;
  • Paredes vaginais com mucosa pálida, perda da rugosidade e elasticidade, muitas vezes friável e com petéquias que sangram facilmente ao exame especular ou coleta do Papanicolaou;
  • Colo do útero encurtado;
  • Difícil visualização do orifício cervical;
  • Vagina encurtada e às vezes com estenose;
  • Epitélio vaginal pálido, ressecado, adelgaçado;
  • Corrimento vaginal: fluido aquoso ou purulento;
  • Eritema irregular;
  • Petéquias vaginais;
  • pH vaginal ≥ 5;
  • Eversão ou prolapso uretral;
  • Proeminência do meato uretral.

Exames complementares

Testes laboratoriais, como a medição dos níveis hormonais, podem auxiliar no diagnóstico diferencial e na compreensão da fisiopatologia subjacente. Deve-se medir o pH da vagina, uma vez que sabemos que pacientes nesses casos podem ter um pH mais alto. 

Além disso, exames de imagem, como a ultrassonografia, podem ser úteis para avaliar possíveis alterações estruturais no trato geniturinário.

Diagnóstico diferencial 

É importante sempre se atentar a outras causas possíveis e descartá-las, para não cometer erros diagnósticos e retardar o tratamento. 

Como diagnóstico diferencial da SGU temos: 

  • Vaginite e vaginose
  • Dermatite vulvar
  • Líquen escleroso vulvar
  • Líquen plano vulvovaginal
  • Úlceras ou fissuras causadas por Herpes ou doenças sistêmicas, como Doença de Crohn
  • Trauma 
  • Vulvodínia.

Tratamento da Síndrome Geniturinária

O tratamento da síndrome geniturinária na menopausa é multifacetado e visa aliviar os sintomas, melhorar a qualidade de vida e prevenir complicações a longo prazo. Abordagens não farmacológicas, como a terapia comportamental e modificações no estilo de vida, podem ser recomendadas.

Primeira linha de tratamento

O tratamento inicial para esse tipo de sintomas é o uso de lubrificantes e hidratantes não hormonais. Os primeiros devem ser usados durante a relação sexual, enquanto os últimos podem ser aplicados duas a três vezes na semana. 

Tratamento para sintomas persistentes

Caso a paciente não sinta melhora, deve-se utilizar terapia com estrogênio vaginal ou outros medicamentos hormonais. 

O estrogênio vaginal é um tratamento eficaz para sintomas de secura ou desconforto vulvovaginal (ardor, coceira, irritação), fragilidade dos tecidos (isso pode resultar em sangramento ou fissuras pós-coito) ou dispareunia.

Existem alguns tipos de formulação do estrogênio vaginal, como comprido ou cápsula, anel viginal e ainda cremes. A paciente deve escolher levando em consideração a disponibilidade, custo e melhor forma de uso. 

Dentre as opções disponíveis no Brasil temos o TE vaginal como o 17-β-estradiol, o promestrieno e o estriol, com aplicação intravaginal inicial à noite, durante 14 dias, e posterior manutenção duas a três vezes por semana enquanto persistirem os sintomas.

Tratamento com laser e radiofrequência

Recentemente tem se empregado o uso de laser, radiofrequência e outros dispositivos que são baseados em energia. 

A terapia a laser normalmente consiste em três a quatro sessões de tratamento durante um período de tempo especificado (geralmente uma sessão a cada quatro a seis semanas), de forma ambulatorial. Os efeitos benéficos parecem resultar da remodelação do tecido vaginal. 

Os tipos de laser mais comuns utilizados são os laser de CO2 fracionado microablativo ou o laser YAG Erbium vaginal não ablativo (LEV). 

Outras opções terapêuticas

Em algumas mulheres que são refratárias aos tratamentos disponíveis, é possível associar fisioterapia pélvica  e ainda pode-se lançar mão do uso de dilatadores vaginais. 

Considerações finais

Sabemos que as questões da saúde da mulher, principalmente as associadas às questões sexuais, ainda é um tabu na nossa sociedade. É preciso que o médico esteja sempre atento e aberto ao diálogo, deixando sempre a paciente confortável para que se possa conversar sobre situações que impactam na qualidade de vida da mulher. 

O tratamento personalizado, considerando as necessidades e preferências de cada paciente, é essencial para otimizar os resultados. A colaboração entre médicos e pacientes desempenha um papel crucial na gestão dessa síndrome, proporcionando uma abordagem aberta e informada sobre as opções terapêuticas disponíveis.

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Referências

  1. BACHMANN, G.; PINKERTON, J.V. Genitourinary syndrome of menopause (vulvovaginal atrophy): Treatment. UpToDate, 2023
  2. BACHMANN, G.; PINKERTON, J.V. Genitourinary syndrome of menopause (vulvovaginal atrophy): Clinical manifestations and diagnosis. UpToDate, 2023
  3. RODRIGUES, B.K.; DUARTE, C.V; GUIMARÃES, A.C.P. Síndrome Geniturinária da Menopausa: conceito, atuais Possibilidades e novas perspectivas do tratamento. e-Scientia, Belo Horizonte, v. 12, n. 2, p. 65-69 (2019). Editora UniBH. 
  4. Valadares AL, Kulak Junior J, Paiva LH, Nasser EJ, Silva CR, Nahas EA, et al. FREBRASGO. Síndrome Geniturinária da Menopausa. Março, 2022

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