Como diferenciar lipedema, linfedema e insuficiência venosa pelo ultrassom

Profissional realiza ultrassonografia em membro inferior para avaliação de alterações vasculares e do tecido subcutâneo

Índice

A ultrassonografia no lipedema desempenha papel fundamental na avaliação diagnóstica e no diagnóstico diferencial de pacientes com aumento de volume dos membros inferiores. O ultrassom com Doppler é uma das principais ferramentas de imagem para diferenciar lipedema, linfedema e insuficiência venosa crônica, permitindo a análise detalhada da derme, hipoderme e sistema venoso.

Essas três condições frequentemente coexistem e apresentam sintomas comuns, como dor, edema e sensação de peso. Além disso, o exame físico isolado não é suficiente para um diagnóstico diferencial seguro. Nesse contexto, a ultrassonografia permite identificar alterações estruturais da derme, hipoderme e sistema venoso que orientam a conduta terapêutica correta.

Por que o diagnóstico diferencial dessas doenças é tão desafiador?

A sobreposição de sintomas entre lipedema, linfedema e insuficiência venosa é a principal causa de erros diagnósticos. Isso porque as três condições compartilham características como dor nos membros inferiores, aumento de volume progressivo e sensação de peso.

Sobreposição de sintomas

  • Lipedema: dor desproporcional ao volume, piora com palpação, poupa os pés (sinal do manguito).
  • Linfedema: edema mais consistente, dor menos intensa, acomete pés e dedos (sinal de Stemmer positivo).
  • Insuficiência venosa: dor melhora com elevação, piora no final do dia, edema maleolar que se estende proximalmente.

Impacto do diagnóstico incorreto

O diagnóstico equivocado leva a atraso no tratamento e progressão da doença. Por exemplo, pacientes com lipedema diagnosticados como linfedema podem receber terapias compressivas desnecessárias e a insuficiência venosa não tratada em pacientes com lipedema agrava o edema e a dor.

O que a ultrassonografia pode acrescentar à avaliação clínica?

A ultrassonografia fornece informações estruturais e hemodinâmicas que complementam o exame físico. Portanto, transdutores lineares de 7 a 15 MHz são necessários para visualizar derme, hipoderme e septos fibrosos.

Avaliação da derme e hipoderme

A espessura dérmica é mensurável por ultrassom de alta frequência. No lipedema, por exemplo, observa-se espessamento dérmico difuso. Já no linfedema, a derme pode estar preservada em fases iniciais.

Análise da ecotextura do tecido subcutâneo

  • Lipedema: aumento difuso da ecogenicidade do subcutâneo com áreas hipoecoicas irregulares.
  • Linfedema: ecotextura mais heterogênea, com predomínio de áreas hipoecoicas (edema intersticial).

Avaliação vascular com Doppler

O Doppler venoso é indispensável para excluir ou confirmar insuficiência venosa. Sua avaliação inclui morfologia das veias superficiais e profundas, compressibilidade venosa e detecção de refluxo após manobras de compressão e descompressão distal.

Identificação de alterações inflamatórias

Por fim, o Power Doppler pode identificar sinais de inflamação no tecido subcutâneo, mais comuns no lipedema avançado. Ademais, a presença de fluxo em áreas de espessamento sugere atividade inflamatória, achado menos frequente no linfedema puro.

Quais são os principais achados da ultrassonografia no lipedema?

Embora os achados ultrassonográficos não sejam patognomônicos, o exame auxilia na diferenciação de outras causas de aumento do volume dos membros inferiores, além de contribuir para a avaliação da gravidade e da evolução da doença. A seguir, as principais alterações visualizadas no lipedema.

Espessamento dérmico

A derme encontra-se espessada de forma difusa nas faces medial e lateral das coxas e pernas. A espessura dérmica normal varia entre 1,0 e 1,5 mm no membro inferior. Portanto, valores acima de 2,0 mm são sugestivos de lipedema.

Alterações dos septos fibrosos

Os septos fibrosos que dividem os lóbulos de gordura subcutânea apresentam-se espessados e hiperecoicos. Esse espessamento septal é um dos achados mais frequentes do lipedema.

Alterações da ecotextura subcutânea

Outra característica é a perda da ecotextura homogênea normal do tecido adiposo subcutâneo.

Observa-se aumento da ecogenicidade difusa com áreas nodulares hipoecoicas entremeadas. Ademais, essa heterogeneidade acentua-se nos estágios avançados e pode ser quantificada por análise de textura.

Achados inflamatórios e Power Doppler

Em fases mais avançadas, o Power Doppler pode demonstrar aumento da vascularização no tecido subcutâneo e ao redor dos septos fibrosos. Esse sinal inflamatório correlaciona-se, por exemplo, com a dor referida pela paciente e com a progressão da doença.

Padrões ultrassonográficos conforme o estágio da doença

O lipedema pode apresentar diferentes padrões ultrassonográficos conforme sua evolução clínica:

  • Estágio 1: pele lisa, tecido subcutâneo homogêneo, septos finos.
  • Estágio 2: pele irregular, espessamento septal difuso, heterogeneidade subcutânea.
  • Estágio 3: nódulos palpáveis, fibrose septal acentuada, sinais inflamatórios ao Doppler.

Leia também “Lipedema ou obesidade: por que tantas pacientes ainda recebem um diagnóstico incorreto?

Como o linfedema se apresenta ao ultrassom?

O linfedema possui achados ultrassonográficos distintos que permitem diferenciá-lo do lipedema na maioria dos casos.

Alterações do tecido subcutâneo

O tecido subcutâneo, por exemplo, apresenta predomínio de áreas hipoecoicas difusas, correspondentes ao acúmulo de líquido intersticial rico em proteínas. Esse padrão difere da ecogenicidade aumentada do lipedema.

Presença de edema intersticial

O edema intersticial é visualizado como faixas hipoecoicas lineares ou em rede dentro do tecido subcutâneo. O “sinal do favo de mel” no linfedema é formado por essas faixas hipoecoicas, diferente do padrão do lipedema.

Modificações da arquitetura tecidual

O linfedema causa desorganização progressiva da arquitetura tecidual. Os septos fibrosos podem estar espessados, mas de forma menos regular que no lipedema. Já a derme geralmente permanece de espessura normal nas fases iniciais.

Diferenças em relação ao lipedema

No linfedema, o espessamento dérmico é menos pronunciado, o tecido subcutâneo é mais hipoecoico, e o edema intersticial é mais evidente. Além disso, o linfedema acomete uniformemente todo o membro, incluindo pés e dedos, ao contrário do lipedema que poupa essas regiões.

Como identificar insuficiência venosa utilizando ultrassonografia e Doppler?

A insuficiência venosa crônica é diagnosticada pela presença de refluxo venoso patológico nas veias superficiais ou profundas. Portanto, a ultrassonografia Doppler é o método padrão-ouro para essa avaliação.

Anatomia venosa superficial e profunda

O mapeamento venoso completo inclui a avaliação das veias safenas magnas e parvas, suas tributárias e o sistema venoso profundo (femoral, poplítea, tibiais). Ademais, a identificação de veias perfurantes incompetentes é igualmente importante.

Avaliação hemodinâmica venosa

A hemodinâmica venosa é avaliada com Doppler pulsado e colorido durante manobras de compressão distal e liberação. Por exemplo, valores de refluxo acima de 0,5 segundo para veias superficiais e 1,0 segundo para veias profundas são considerados patológicos.

Pesquisa de refluxo venoso

O refluxo venoso é identificado pelo fluxo retrógrado durante a descompressão e a quantificação inclui duração, velocidade e diâmetro venoso. Refluxos prolongados e com alta velocidade estão associados a sintomas mais graves.

Quando a insuficiência venosa coexistente deve ser suspeitada

Deve-se suspeitar de insuficiência venosa associada ao lipedema quando:

  • O edema acentua-se ao final do dia;
  • Há telangiectasias ou varizes visíveis;
  • O refluxo venoso é confirmado ao Doppler.

Estima-se que 30% a 40% das pacientes com lipedema apresentem algum grau de insuficiência venosa e essa condição pode estar subdiagnosticada se a avaliação Doppler não for realizada.

Lipedema, linfedema e insuficiência venosa: quadro comparativo dos principais achados ultrassonográficos

CaracterísticaLipedemaLinfedemaInsuficiência Venosa
Espessamento dérmicoDifuso e acentuadoLeve ou ausente nas fases iniciaisLeve, geralmente distal
Septos fibrososEspessados e hiperecoicos, regularesEspessamento irregular, menos evidentePreservados ou discretamente alterados
Edema intersticialAusente ou discretoEvidente, faixas hipoecoicasLeve, dependente e distal
Refluxo venosoAusenteAusentePresente ao Doppler
Achados DopplerPower Doppler positivo em estágios avançadosPower Doppler negativoRefluxo venoso, veias dilatadas
Distribuição das alteraçõesFace medial de coxas e pernas, poupa pésDifusa, incluindo pés e dedosDistribuição venosa, predominância distal

Quais são as limitações da ultrassonografia no lipedema?

A ultrassonografia para avaliação do lipedema exige treinamento específico. Isso porque a experiência do examinador influencia diretamente a acurácia do diagnóstico, especialmente na diferenciação entre o espessamento septal do lipedema e as alterações do linfedema.

Além disso, não existe um protocolo ultrassonográfico universalmente aceito para o diagnóstico do lipedema. Os critérios variam entre serviços e publicações, o que dificulta a comparação de resultados e a reprodutibilidade dos achados.

Como padronizar o exame de ultrassonografia no lipedema?

A padronização do exame é essencial para garantir reprodutibilidade e comparabilidade dos achados. A seguir, veremos os principais pontos a serem considerados para a padronização do exame.

Posicionamento da paciente

  • Decúbito dorsal: membros inferiores ligeiramente abduzidos e relaxados.
  • Decúbito ventral ou lateral: para avaliação posterior.
  • Posição ortostática: reservada para avaliação venosa com Doppler.

Pontos anatômicos de avaliação

Os pontos de corte padronizados incluem:

  • Face medial e lateral da coxa (terço médio).
  • Face medial e lateral da perna (terço médio).
  • Dorso do pé.

Marcadores anatômicos como a borda patelar e o maléolo medial servem como referência para medidas seriadas.

Controle da compressão do transdutor

A compressão excessiva pelo transdutor pode subestimar a espessura do tecido subcutâneo e ocultar alterações. Portanto, deve-se utilizar gel abundante e apoiar o transdutor com leve contato.

Registro fotográfico e documentação

A documentação padronizada inclui imagens em cortes transversais e longitudinais em cada ponto anatômico. Portanto, as imagens devem ser arquivadas com identificação do paciente, data, posição e ponto anatômico. Esse registro permite o acompanhamento evolutivo e a comparação entre exames.

Perguntas frequentes sobre ultrassonografia no lipedema

O ultrassom confirma sozinho o diagnóstico de lipedema?

Não. O diagnóstico de lipedema é clínico, baseado em história, exame físico e exclusão de outras causas. A ultrassonografia fornece achados sugestivos e auxilia no diagnóstico diferencial, mas não é suficiente isoladamente.

Como diferenciar lipedema e linfedema pelo ultrassom?

No lipedema, o espessamento dérmico é mais acentuado, os septos fibrosos são espessados e hiperecoicos, e o tecido subcutâneo tem ecogenicidade aumentada. No linfedema, o edema intersticial hipoecoico é predominante, a derme é menos espessada, e as alterações acometem inclusive pés e dedos.

O Doppler é recomendado na avaliação do lipedema?

Sim. O Doppler venoso é fortemente recomendado, especialmente quando há suspeita de insuficiência venosa associada. Assim, a exclusão de refluxo venoso patológico é indispensável para o planejamento terapêutico.

Pacientes com lipedema podem apresentar insuficiência venosa associada?

Sim, a associação é frequente. Estima-se que 30% a 40% das pacientes com lipedema apresentem algum grau de insuficiência venosa. Portanto, essa condição pode estar subdiagnosticada se a avaliação Doppler não for realizada.

Quais especialidades utilizam ultrassonografia para avaliar o lipedema?

Angiologistas e cirurgiões vasculares são os especialistas que mais frequentemente realizam essa avaliação. Além disso, radiologistas e ultrassonografistas com treinamento em partes moles também podem executar o exame. Por fim, a abordagem multidisciplinar envolve ainda dermatologistas e fisiatras.

Pontos-chave

  • A ultrassonografia com Doppler é ferramenta essencial para o diagnóstico diferencial entre lipedema, linfedema e insuficiência venosa
  • O lipedema apresenta espessamento dérmico difuso, septos fibrosos espessados e ecogenicidade subcutânea aumentada
  • O linfedema caracteriza-se por edema intersticial hipoecoico e menos espessamento dérmico
  • A insuficiência venosa é confirmada pela presença de refluxo venoso patológico ao Doppler
  • A avaliação padronizada com pontos anatômicos definidos e controle de compressão do transdutor melhora a reprodutibilidade
  • O Power Doppler pode identificar sinais inflamatórios no lipedema avançado
  • A correlação clínico-imagem permanece indispensável para o diagnóstico definitivo
  • A associação entre lipedema e insuficiência venosa exige investigação Doppler rotineira

Referências

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