O uso de hialuronidase na prática médica remonta a 1949 e, atualmente, essa enzima tem sido empregada em diversas especialidades, como anestesiologia, cardiologia, radiologia, oncologia, oftalmologia e cirurgia plástica.
Nos últimos 15 anos, a hialuronidase ganhou destaque na medicina estética, principalmente para dissolver preenchimentos de ácido hialurônico reticulado.
Sua ampla gama de aplicações clínicas deve-se à habilidade de facilitar a dispersão e a absorção de fluidos e medicamentos. Além disso, é utilizada em casos específicos, como no tratamento de queloides em substituição aos esteroides, na redução de hematomas e no manejo do linfedema.
O que é hialuronidase e para que serve na estética?
A hialuronidase é uma proteína solúvel que atua como uma enzima, sendo aplicada tanto em procedimentos médicos estéticos quanto em situações de emergência.
Essa proteína promove a degradação de polissacarídeos complexos, como os glicosaminoglicanos de hialuronano, através de uma reação de hidrólise. Portanto, sua ação ocorre através da quebra das ligações C1 e C4 entre glucosamina e ácido glucurônico, resultando na fragmentação da molécula.
Quando administrada por via subcutânea, apresenta início de ação imediato, com redução perceptível do inchaço geralmente entre 15 a 30 minutos após a aplicação, especialmente em casos de extravasamento de fluidos. Sua duração de efeito é variável, geralmente entre 24 a 48 horas.
Indicações gerais da hialuronidase
A hialuronidase tem demonstrado ser eficaz na melhoria da administração de medicamentos injetáveis e na obtenção de melhores resultados terapêuticos para pacientes com doenças crônicas.
Ela facilita a distribuição sistêmica de substâncias injetáveis, sendo utilizada em combinação com diversos medicamentos, como insulina para diabetes, interferons beta para esclerose múltipla, biológicos para artrite reumatoide, terapia de reposição de imunoglobulina em imunodeficiências primárias e anticorpos monoclonais no tratamento de câncer.
Indicações da hialuronidase na prática estética
A hialuronidase é uma enzima utilizada na medicina estética principalmente para dissolver o ácido hialurônico em situações de complicações ou resultados estéticos indesejados. Abaixo, seguem os principais usos da hialuronidase na estética.
Tratamento de Oclusão Vascular
A oclusão Vascular (OV) é uma complicação grave que ocorre quando o ácido hialurônico é acidentalmente injetado em um vaso sanguíneo. Nesse contexto, a hialuronidase é fundamental para dissolver o ácido hialurônico, evitando danos graves como necrose tecidual, cegueira ou acidente vascular cerebral, quando o tratamento é rápido.
Correção do Efeito Tyndall
O efeito Tyndall ocorre quando aplica-se o preenchedor de ácido hialurônico superficialmente, causando uma aparência azulada na pele devido à dispersão da luz. Portanto, utiliza-se a hialuronidase para corrigir esse fenômeno, dissolvendo o ácido hialurônico em excesso e evitando a dispersão anômala da luz no tecido.
Tratamento de nódulos de início tardio
Nódulos tardios podem se formar semanas ou meses após a aplicação do ácido hialurônico. Estes nódulos podem ser causados por reações inflamatórias, granulomas ou até infecções.
Nesse contexto, quando os nódulos são formados por ácido hialurônico, utiliza-se a hialuronidase para dissolver o preenchedor e reduzir a inflamação.
Todavia, se houver suspeita de infecção, o uso da hialuronidase deve ser acompanhado por antibióticos para evitar complicações graves.
Correção de resultados estéticos insatisfatórios
Em casos onde o ácido hialurônico foi mal posicionado, injetado em excesso ou migrou para áreas indesejadas, aplica-se a hialuronidase para corrigir o resultado.
Saiba mais sobre Complicações em procedimentos estéticos: como prevenir, diagnosticar e agir.
Quando utilizar a hialuronidase para reverter preenchimentos?
A reversão segura dos preenchedores dérmicos é fundamental na medicina estética, especialmente em casos de complicações ou insatisfação com os resultados. A principal técnica utilizada atualmente é a aplicação de hialuronidase.
Portanto, para garantir a segurança do procedimento, é importante que ele seja realizado por profissionais qualificados, com dosagem e técnicas adequadas, de forma a evitar efeitos colaterais ou danos à estrutura da pele.
Sensibilização
É importante destacar que a hialuronidase pode causar sensibilização em alguns pacientes. Dessa forma, para identificar possíveis reações alérgicas, realiza-se um teste cutâneo, administrando 0,02 mL de hialuronidase por via intradérmica.
Uma reação positiva caracteriza-se pelo surgimento de uma pápula com pseudópodes em 5 minutos, que persiste por 20 a 30 minutos, acompanhada de prurido localizado. Caso ocorra sensibilização, a administração da hialuronidase deve ser suspensa.
Administração
Ademais, outro cuidado refere-se à administração da enzima, que não deve ser injetada em áreas infectadas ou inflamadas, uma vez que pode disseminar infecção localizada.
Efeitos adversos
Em relação a efeitos adversos, deve-se monitorar a hipersensibilidade, especialmente em pacientes com histórico de alergia à picada de abelha, já que a hialuronidase está presente no veneno de abelha, o que pode justificar reações cruzadas em pacientes alérgicos, embora a versão usada clinicamente seja geralmente de origem bovina ou recombinante.
Por que utilizar o ultrassom como guia de aplicação da hialuronidase?
A ultrassonografia tem desempenhado um papel fundamental na redução dos riscos de intercorrências associadas a procedimentos estéticos.
Esse recurso contribui para o mapeamento da anatomia vascular, a identificação de substâncias exógenas já presentes, além de realizar o direcionamento seguro da aplicação de preenchedores dérmicos e de hialuronidase.
Nos próximos tópicos, veremos porque utilizar o ultrassom como técnica de reversão de preenchimentos.
Identificação anatômica
O domínio preciso da anatomia é fundamental para prevenir complicações indesejadas durante procedimentos estéticos. Entretanto, como há diversas variações anatômicas, não é suficiente apenas supor a localização das estruturas, é essencial identificar com precisão onde elas realmente se encontram.
Nesse contexto, o uso do ultrassom como guia é fundamental, visto que ele representa uma técnica não invasiva, útil para examinar a anatomia vascular em procedimentos estéticos, especialmente naqueles considerados de alto risco.
Identificação de preenchedores aplicados previamente
Além de permitir o mapeamento dos vasos sanguíneos e de outras estruturas anatômicas, o ultrassom também desempenha um papel fundamental na identificação de preenchedores aplicados previamente. O ácido hialurônico, por exemplo, caracteriza-se por uma imagem anecóica, geralmente de aspecto globular.
Portanto, a visualização e interpretação adequada das imagens possibilitam um planejamento de tratamento mais seguro e eficaz para a remoção de materiais preenchedores previamente aplicados.
Identificação de compressão vascular por preenchedores
Considera-se a orientação por ultrassonografia uma ferramenta valiosa para documentar a compressão vascular provocada por preenchedores.
De acordo com a literatura, esse exame auxilia na detecção de áreas sem fluxo sanguíneo ou com fluxo alterado devido a obstruções, servindo assim como um guia para a remoção do material preenchedor.
Melhor eficácia na correção de complicações
Em situações de complicações decorrentes da aplicação anterior de ácido hialurônico, o uso da hialuronidase sob orientação ultrassonográfica associa-se a ajustes mais precisos de dosagem, permitindo orientar com mais precisão o uso da enzima e prevenindo a aplicação de quantidades excessivas e desnecessárias.
Além disso, proporciona maior conforto para o paciente, diminuição das complicações e, por consequência, redução de sequelas.
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Técnica de aplicação da hialuronidase guiada por ultrassom
A técnica de aplicação da hialuronidase guiada por ultrassom inclui:
- Preparação: Antes de realizar a injeção, limpa-se e desinfecta-se a área adequadamente com uma solução antibacteriana. Além disso, a área de aplicação é palpeada e marcada.
- Uso do ultrassom: Utiliza-se o ultrassom para guiar a localização exata do ácido hialurônico reticulado ou nódulos, permitindo que o profissional visualize as estruturas e determine a profundidade necessária para a aplicação da hialuronidase. Isso facilita o acesso ao material problemático, especialmente quando há resistência à penetração da cânula ou agulha. O dispositivo mais recomendado para identificar as estruturas é o de alta frequência, variando entre 7 e 20 MHz.
- Injeção de hialuronidase: Injeta-se a hialuronidase diretamente na área afetada com uma cânula ou agulha, e o ultrassom ajuda a garantir que o medicamento atinja a profundidade e o local corretos. Em casos de nódulos, a aplicação é feita diretamente sobre eles, mesmo que haja resistência à injeção.
- Massagem pós-injeção: Após a injeção, massageia-se a área firmemente para ajudar a quebrar o ácido hialurônico reticulado, acelerando a dissolução.
Além disso, destaca-se que em situações de oclusão vascular, o ultrassom permite monitorar a dispersão da hialuronidase pelos tecidos e vasos sanguíneos, aumentando a eficácia do tratamento.
Evidências e respaldo científico
De acordo com a literatura, o uso de hialuronidase orientado por ultrassom foi fundamental para o mapeamento facial e a aplicação precisa da substância, permitindo a preservação das estruturas importantes e assegurando tanto a segurança quanto a assertividade no procedimento para o profissional e a paciente.
Ainda segundo a literatura, após a administração da hialuronidase guiada por ultrassom, foi possível observar a ampliação do lúmen vascular e a preservação da permeabilidade de artérias e veias faciais na maioria dos casos. Além disso, outros estudos demonstraram a baixa frequência de complicações em procedimentos realizados com o auxílio do ultrassom em comparação com a técnica cega.
Vantagens e limitações da aplicação de hialuronidase guiada por ultrassom
O ultrassom é uma técnica segura, eficaz e não invasiva, que tem sido utilizado na prática estética para identificação de materiais injetados, análise de efeitos adversos e, finalmente, para orientação de aplicações de hialuronidase.
Como já mencionado, a orientação de aplicações de hialuronidase através do ultrassom, tem como principais vantagens:
- Controle mais preciso da dosagem da substância;
- Maior conforto ao paciente;
- Redução das complicações;
- Diminuição do risco de sequelas.
Por outro lado, uma das principais limitações da técnica envolve a necessidade de conhecimento e prática para a correta interpretação das imagens.
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Referências
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