Ultrassonografia na alopecia e em doenças do couro cabeludo

Índice

Avaliação ultrassonográfica do couro cabeludo: diagnóstico de alopecias e inflamações

A ultrassonografia na alopecia e em doenças do couro cabeludo tem se consolidado como uma ferramenta complementar valiosa, permitindo uma análise não invasiva, rápida e detalhada das estruturas cutâneas e subcutâneas.

Essa abordagem diagnóstica auxilia na diferenciação entre os diversos tipos de alopecia, como a alopecia areata, androgenética e cicatricial, além de contribuir na identificação de sinais inflamatórios, alterações vasculares e espessamento dérmico. Dessa forma, ao fornecer informações precisas sobre a morfologia folicular e o padrão de vascularização, a ultrassonografia possibilita uma conduta clínica mais direcionada e eficaz no manejo das doenças do couro cabeludo.

Uso do ultrassom na dermatologia

Desde a década de 1970, o ultrassom vem sendo empregado na dermatologia, especialmente para analisar o espessamento da pele.

Com o avanço tecnológico e a introdução de equipamentos que operam com frequências superiores a 15 MHz, tornou-se possível diferenciar com maior precisão as camadas da pele e seus anexos, o que expandiu significativamente sua aplicação clínica.

No caso do couro cabeludo, os aparelhos de alta frequência oferecem excelente resolução para a visualização de estruturas superficiais, como folículos pilosos, permitindo uma avaliação detalhada das alterações inflamatórias e dos padrões de alopecia.

Aspectos anatômicos e ultrassonográficos do couro cabeludo e folículo piloso

O couro cabeludo é uma região complexa, cuja estrutura anatômica influencia diretamente a saúde e o crescimento dos cabelos.

Portanto, entender a composição histológica e o padrão ultrassonográfico dessas estruturas é fundamental para o diagnóstico e acompanhamento de diversas condições capilares.

A seguir, veja os principais aspectos anatômicos e ultrassonográficos do couro cabeludo e do folículo piloso.

Estrutura da pele e suas camadas

A pele é constituída basicamente por duas camadas principais, epiderme e derme, sendo que o tecido subcutâneo, por sua interação com processos patológicos, é por vezes considerado como uma terceira camada funcional.

A epiderme, predominantemente composta por queratinócitos, organiza-se em quatro camadas (basal, espinhosa, granulosa e córnea) e contém ainda melanócitos, células de Langerhans e de Merkel.

A derme, por outro lado, é rica em fibroblastos, mastócitos, macrófagos e fibras colágenas, estando dividida em derme papilar (com fibras finas) e reticular (com feixes mais espessos). Entre epiderme e derme, encontra-se a zona da membrana basal, que conecta essas estruturas.

O tecido subcutâneo, por sua vez, forma-se principalmente por adipócitos.

Padrão ecográfico das camadas cutâneas

A ecogenicidade das diferentes camadas da pele varia de acordo com o principal constituinte: a queratina na epiderme, o colágeno na derme e os lóbulos de gordura no tecido subcutâneo. Portanto, no ultrassom:

  • A epiderme surge como uma linha hiperecoica;
  • A derme como uma faixa hiperecoica menos intensa;
  • O subcutâneo como uma região hipoecoica com septos hiperecoicos.

Corte histológico da pele humana ao lado de uma imagem de ultrassonografia de alta frequência (USAF). A imagem histológica mostra as camadas da epiderme (e), derme (d) e tecido subcutâneo (sc). A imagem ultrassonográfica, em corte transversal, evidencia as mesmas camadas, com destaque para os septos fibrosos no subcutâneo.
A: Representação da histologia normal da pele. B: Imagem obtida por ultrassonografia de alta frequência (USAF), em corte transversal, evidenciando a epiderme (e), derme (d) e o tecido subcutâneo (sc), onde se observam os septos fibrosos (seta). Fonte: Barcaui et al., 2015.

Folículo piloso: estrutura e ciclo de crescimento

O folículo piloso é um anexo cutâneo responsável pela formação dos pelos e caracterizado por um contínuo processo de autorrenovação. Portanto, apresenta um ciclo contínuo de crescimento (fase anágena), regressão (fase catágena) e repouso (fase telógena), que pode ser analisado por ultrassonografia de alta frequência.

Ultrassonografia do couro cabeludo e dos folículos

Na ultrassonografia de alta frequência (USAF), as camadas da pele do couro cabeludo apresentam aparência semelhante à observada em outras regiões do corpo. Em planos mais profundos, é possível identificar a gálea como uma faixa hipoecoica e, logo abaixo, a calota craniana representada por uma linha fortemente hiperecoica.

Durante o exame, observam-se também estruturas alongadas e hipoecoicas que correspondem aos folículos pilosos. A posição dessas estruturas varia conforme a fase do ciclo capilar:

  • Na fase telógena, o bulbo localiza-se na derme.
  • Na fase anágena encontra-se no subcutâneo.

 Comparação entre histologia e ultrassonografia de alta frequência (USAF) do couro cabeludo. À esquerda, corte histológico mostrando a epiderme (e), derme (d) e folículos pilosos (indicados por setas). À direita, imagem ultrassonográfica longitudinal evidenciando as mesmas estruturas: epiderme, derme e os folículos pilosos como áreas hipoecoicas alongadas.
Couro cabeludo. A: Corte longitudinal da histologia da pele. B: Imagem longitudinal obtida por ultrassonografia de alta frequência (USAF), mostrando a epiderme (e), a derme (d) e estruturas oblíquas hipoecoicas que correspondem aos folículos pilosos (setas). Fonte: Barcaui et al., 2015.

Além disso, a espessura da pele do couro cabeludo difere por região, sendo mais fina na área frontal do que na occipital, assim como a densidade dos folículos, que também é variável.

Por fim, a haste do pelo terminal, formada na fase anágena, é composta por três camadas principais: cutícula, córtex e medula. Na visão longitudinal do USAF, essa estrutura aparece como uma formação trilaminar hiperecoica, refletindo a organização das camadas de queratina que a compõem.

Imagem de ultrassom em corte longitudinal demonstrando um fio de cabelo saudável no couro cabeludo. Visualiza-se claramente a estrutura trilaminar hiperecóica correspondente às camadas de queratina: complexo córtex-cutícula e medula.
Ultrassom demonstrando cabelo saudável do couro cabeludo em corte longitudinal, evidenciando a estrutura trilaminar hiperecoica correspondente às camadas de queratina. Fonte: Wortsman et al., 2012.

Ultrassonografia dermatológica: equipamento, frequências e considerações técnicas

Na prática da ultrassonografia dermatológica, especialmente na avaliação do couro cabeludo, é essencial seguir protocolos técnicos padronizados para garantir imagens de alta qualidade e diagnósticos precisos.

Posicionamento do paciente

Portanto, o operador deve posicionar-se de frente para a área a ser examinada, com o paciente em decúbito dorsal.

Em seguida, aplica-se generosa quantidade de gel diretamente sobre o couro cabeludo e entre os fios, facilitando o acoplamento da sonda à pele.

Os exames são realizados nos planos transversal e longitudinal, com acompanhamento dos folículos capilares ao longo de seu eixo principal e em dois planos perpendiculares, para melhor visualização das estruturas.

Equipamentos e frequências

Equipamentos com sondas de alta frequência são fundamentais para esse tipo de exame. Por exemplo, sistemas como Philips HDI 5000 e IU 22 e Esaote Gold MyLab 70 XVG e Twice.

Além disso, as frequências ideais para o estudo da pele e de estruturas anexas variam de 7–15 MHz, sendo utilizadas também sondas com Doppler entre 7–14 MHz para avaliação da vascularização.

Protocolo

O protocolo inclui avaliação inicial em escala de cinza (modo B), seguida por Doppler colorido com análise espectral do fluxo sanguíneo, sem necessidade de dispositivos stand-off ou meio de contraste.

Por que usar a ultrassonografia no couro cabeludo

A ultrassonografia é uma ferramenta valiosa para avaliação do couro cabeludo, pois permite identificar alterações morfológicas nos folículos capilares e estimar qualitativamente a quantidade de folículos presentes, desde a ausência total, característica da alopecia, até a redução no número desses anexos.

Além disso, a capacidade de detectar as diferentes fases do ciclo capilar (anágena, catágena e telógena) torna o exame uma ferramenta útil para o monitoramento dinâmico da resposta aos tratamentos contra a calvície.

A ultrassonografia ainda oferece a vantagem de ser um método não invasivo, acessível e capaz de fornecer imagens em tempo real, permitindo a avaliação não apenas dos folículos, mas também das estruturas cutâneas adjacentes, como a derme e o tecido subcutâneo, além da avaliação vascular pela técnica Doppler, que pode identificar processos inflamatórios ou alterações na perfusão local associadas às doenças do couro cabeludo.

Ultrassonografia na alopecia e em outras doenças do couro cabeludo

As doenças do couro cabeludo abrangem uma variedade de condições que podem afetar os folículos pilosos, o tecido dérmico e as camadas subcutâneas, resultando em diferentes padrões de perda capilar e alterações estruturais.

A seguir, abordaremos alguns dos principais quadros clínicos relacionados à inflamação do folículo piloso e suas características ultrassonográficas.

Inflamação do folículo piloso

A presença de inflamação ativa no folículo piloso pode ser indicada por mudanças no seu tamanho e ecogenicidade, com aspecto de inchaço e área marcadamente hipoecoica ao ultrassom.

Além disso, o uso do Doppler colorido pode revelar um aumento característico do fluxo sanguíneo, reforçando o diagnóstico de processo inflamatório.

Imagens ultrassonográficas transversais mostrando um folículo piloso inflamado. Na primeira (a), observa-se aumento do tamanho do folículo e redução da ecogenicidade, além de diminuição da ecogenicidade na derme adjacente. Na segunda (b), o contorno do folículo piloso está demarcado, destacando o processo inflamatório.
Folículo piloso inflamado. (a) Imagem ultrassonográfica em corte transversal mostrando aumento do tamanho do folículo e redução da ecogenicidade; observa-se também diminuição da ecogenicidade na derme. (b) Contorno do folículo piloso evidenciado.

Ultrassonografia na alopecia

A ultrassonografia de alta frequência aplicada ao couro cabeludo permite diferenciar tipos de alopecia por meio da avaliação das características dos folículos pilosos e das estruturas adjacentes.

Alopecia androgenética

A alopecia androgenética, que causa a queda de cabelo com padrão masculino e feminino, geralmente começa após a puberdade e pode variar em intensidade e evolução. Enquanto o papel dos hormônios androgênicos na calvície masculina está bem definido, sua influência nas mulheres ainda não é totalmente clara.

Os achados ultrassonográficos incluem redução do número e do diâmetro dos folículos pilosos, caracterizando a miniaturização folicular.

Observa-se também diminuição da espessura da derme e presença de folículos em fase telógena, que são mais superficiais. Além disso, a ecogenicidade da pele pode estar normal ou levemente reduzida.

Alopecia areata

A alopecia areata é uma doença imunomediada crônica que provoca perda de cabelo rápida ou prolongada, com encurtamento significativo da fase anágena durante episódios agudos.

Nesta condição, os folículos pilosos aparecem aumentados de tamanho devido ao edema folicular, apresentando muitas vezes hipoecogenicidade causada pela inflamação. Há aumento da vascularização ao Doppler, reflexo do processo inflamatório ativo. Também pode ser observada alteração do padrão folicular, com folículos irregulares e áreas com ausência parcial dos folículos.

Alopecia cicatricial

As alopecias cicatriciais são marcadas por inflamação que causa dano irreversível às células-tronco na região da protuberância do folículo piloso, resultando na perda permanente dos folículos.

Diferentemente da alopecia areata, onde a inflamação intensa pode atingir o bulbo sem destruir o folículo, na alopecia cicatricial infiltrados inflamatórios mesmo discretos ao redor da protuberância provocam a destruição definitiva dos folículos. Essa destruição é seguida pela substituição dos folículos por tecido fibroso esclerótico, evidenciando a cicatrização e ausência dos folículos nas fases normais do ciclo capilar.

A inflamação na derme e no tecido subcutâneo aparece como áreas hipoecoicas na derme e hipercoicas no subcutâneo, geralmente acompanhadas de um aumento do fluxo sanguíneo nas regiões afetadas.

Leia também sobre “Transplante capilar: como manejar os desafios do pré e pós-operatório“.

Alterações benignas do couro cabeludo e cabelo

  • Cistos triquilemais: Cistos firmes do istmo folicular, comuns no couro cabeludo. Aparecem na ultrassonografia como estruturas anecóicas com ecos internos de queratina e colesterol.
  • Pilomatricoma: Tumor benigno da matriz folicular em crianças e jovens, com imagem ultrassonográfica em “alvo” e pontos hiperecoicos que correspondem a depósitos de cálcio.
  • Hemangioma: Tumor benigno infantil da cabeça e pescoço, ultrassonograficamente heterogêneo (hipoecoica ou hiper-hipoecoica combinada).
  • Acne queloidal da nuca: Foliculite cicatricial em homens jovens. Na ultrassonografia, observa-se inflamação que compromete toda a espessura da pele, com trajetos fistulosos pouco ecogênicos e folículos capilares aumentados.
  • Perifoliculite capitis abscedens et suffodiens: Doença grave com abscessos e múltiplos trajetos fistulosos, causando alopecia cicatricial. A ultrassonografia evidencia acúmulos de líquido contendo detritos e/ou abscessos, acompanhados por múltiplos trajetos fistulosos hipoecoicos interligados que alcançam o bulbo capilar, provocando edema nos folículos.
  • Foliculite decalvante: Inflamação recorrente com pústulas e alopecia, evidenciada por espessamento folicular sem fístulas na ultrassonografia, além de espessamento folicular local.
  • Pseudolinfomas: Distúrbios linfoproliferativos benignos, simulando linfomas, com espessamento e hipoecogenicidade da derme, além de vascularização aumentada no exame.

Domine a Ultrassonografia na Avaliação da Alopecia e Doenças do Couro Cabeludo

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Referências

  • ABOUD, A. M.; SYED, H. A.; ZITO, P. M. Alopecia. National Library of Medicine, 2024.
  • BARCAUI, E. O. et al. Estudo da anatomia cutânea com ultrassom de alta frequência (22 MHz) e sua correlação histológica. Radiol Bras. 2015.
  • WORTSMAN, X. et al. Sonografia em patologias do couro cabeludo e cabelos. Br J Radiol. 2012.

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Educa Cetrus Redator

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