Técnicas de osteotomia calcâneo e medial no pé plano

Profissional da saúde analisa radiografia de pé com paciente engessado, em avaliação pré ou pós-operatória de osteotomia.

Índice

A correção cirúrgica do pé plano representa um desafio frequente para ortopedistas que atuam no tratamento de patologias do retropé. Entre as opções de tratamento, as osteotomias do calcâneo e osteotomias mediais, como a do cuneiforme medial, destacam-se por permitirem o realinhamento eficaz das estruturas do pé.

Dessa forma, essas técnicas, quando bem indicadas e executadas, promovem melhora funcional, alívio da dor e prevenção de deformidades progressivas.

Indicações cirúrgicas para correção do pé plano

O pé plano adquirido do adulto costuma decorrer da insuficiência do tendão tibial posterior e está associado à sobrecarga no mediopé, dor ao caminhar e colapso do arco longitudinal medial. Assim, o tratamento conservador é sempre a primeira linha de manejo. Contudo, quando há falha do tratamento clínico, dor persistente, deformidade rígida ou perda funcional significativa, a abordagem cirúrgica se torna necessária.

Fonte: PUBMED, 2025.

As osteotomias do calcâneo e as realizadas no cuneiforme medial estão entre as principais técnicas para reposicionamento mecânico e correção angular do pé plano. Desse modo, elas são especialmente úteis em estágios iniciais da disfunção do tibial posterior (Johnson e Strom tipo II) e em casos de deformidade flexível. Dessa forma, é importante frisar que a seleção adequada dos procedimentos deve considerar a presença de instabilidade subtalar, ângulo de Meary alterado, e grau de rigidez da articulação.

Anatomia funcional do retropé e mediopé

A compreensão da biomecânica do retropé e do mediopé é essencial para o sucesso cirúrgico. O retropé, composto pelo tálus e calcâneo, é responsável pela mobilidade subtalar bem como pela distribuição de cargas durante a marcha. Já o mediopé, com destaque para o navicular e os cuneiformes, contribui para a formação e sustentação do arco plantar medial.

Fonte: PUBMED, 2025.

No pé plano adquirido, observa-se uma combinação de eversão do calcâneo, abdução do antepé e colapso do arco medial. Dessa forma, a instabilidade subtalar e a rotação do tálus resultam em sobrecarga no cuneiforme medial e no tendão tibial posterior. Com o tempo, essas alterações levam à deformidade progressiva e ao comprometimento funcional do pé.

Portanto, as técnicas de osteotomia visam reverter essas alterações estruturais, proporcionando alívio da dor e restauração da biomecânica normal.

Técnicas de osteotomia do calcâneo

A osteotomia do calcâneo é uma das estratégias mais utilizadas na reconstrução do pé plano. Ela tem como objetivo principal a realocação do calcâneo para restaurar o alinhamento do retropé. Existem variações importantes dessa técnica, cada uma com indicações específicas:

Osteotomia de medialização do calcâneo

É indicada principalmente quando há valgismo do retropé. O procedimento consiste em realizar um corte oblíquo na tuberosidade do calcâneo e transladar o fragmento posterior medialmente. Esse deslocamento corrige o desvio em valgo e melhora a sustentação do arco medial.

A fixação geralmente é realizada com parafusos canulados. A correção angular deve ser feita com cautela, respeitando o eixo mecânico do tornozelo. Essa osteotomia pode ser associada à reconstrução do tendão tibial posterior ou à transferência do flexor longo dos dedos.

Osteotomia de deslizamento lateral

A osteotomia de deslizamento lateral do calcâneo é indicada principalmente em casos de varo do retropé, condição menos frequente no contexto do pé plano adquirido. No entanto, torna-se relevante quando há deformidades combinadas ou situações de sobrecorreção medial prévia, como após procedimentos inadequadamente indicados.

A técnica consiste na realização de uma osteotomia oblíqua no calcâneo, com posterior translação lateral da tuberosidade calcaneana, buscando realinhar o eixo do retropé e distribuir melhor as cargas durante a marcha. Essa correção promove alívio da sobrecarga lateral e contribui para a restauração da biomecânica normal do pé. Pode ser utilizada isoladamente ou em associação a outras técnicas reconstrutivas, dependendo da complexidade do caso. A fixação geralmente é feita com parafusos canulados e, em mãos experientes, oferece bons resultados funcionais.

Com isso, embora menos frequente, a osteotomia de deslizamento lateral mantém seu papel importante em situações específicas e bem indicadas dentro da cirurgia reconstrutiva do pé.

Osteotomia em “Z” (Evans modificada)

Essa técnica é utilizada em casos em que há abdução importante do antepé. A osteotomia é realizada na porção anterior do calcâneo, próxima à articulação calcaneocuboide. Portanto, o enxerto ósseo interposto promove alargamento lateral e melhora da cobertura da cabeça do tálus.

Associação com procedimentos percutâneos

A evolução das técnicas minimamente invasivas permite, hoje, realizar osteotomias do calcâneo por via percutânea com menor agressão tecidual.

O domínio dessas abordagens exige treinamento específico.

Osteotomia medial do cuneiforme: aplicação e variações

A osteotomia do cuneiforme medial é uma ferramenta importante para correção do colapso do arco medial, sendo frequentemente indicada como complemento à osteotomia do calcâneo. Sua função é plantarflexionar o antepé e restaurar a concavidade do arco longitudinal.

Técnica clássica de Cotton

A osteotomia de Cotton é a forma mais consagrada. Nela, realiza-se um corte no cuneiforme medial e introduz-se um enxerto ósseo em forma de cunha na porção plantar. Isso promove a abertura da osteotomia e leva à elevação do arco, sem comprometer a articulação cuneonavicular.

Essa técnica é útil nos casos em que há dorsiflexão excessiva do primeiro raio especialmente quando associada a colapso do arco medial e sobrecarga plantar. Além disso, em situações mais complexas, pode ser associada à tenoplastia, reconstrução ligamentar e alongamento do gastrocnêmio.

Outras variações

Dependendo da rigidez da deformidade e da presença de alterações degenerativas, pode-se utilizar outras abordagens:

  • Osteotomia em cunha de fechamento dorsal
  • Osteotomia de distração com espaçador sintético
  • Técnica percutânea com suporte radiológico intraoperatório

Assim, cada técnica exige conhecimento anatômico preciso e planejamento individualizado. O domínio dessas abordagens contribui significativamente para o sucesso cirúrgico e a satisfação do paciente.

Cuidados pós-operatórios e reabilitação funcional

O sucesso das osteotomias depende, além da execução técnica, de um protocolo adequado de cuidados pós-operatórios. Deve-se personalizar a reabilitação em fases.

Imobilização e carga

Inicialmente, o paciente deve permanecer com imobilização rígida e descarga total de peso por 4 a 6 semanas. Esse período é fundamental para consolidação óssea e prevenção de deslocamento dos fragmentos.

Dessa forma, a progressão para carga parcial e total depende da estabilidade da fixação e da avaliação clínica e radiológica. Em geral, a carga total é liberada entre 8 a 10 semanas, com suporte de órtese funcional.

Fisioterapia e retorno à função

A reabilitação fisioterápica deve incluir:

  • Fortalecimento da musculatura intrínseca do pé
  • Mobilização articular do tornozelo e mediopé
  • Propriocepção e equilíbrio
  • Reeducação da marcha

A recuperação funcional completa pode levar até 6 meses podendo variar conforme fatores individuais do paciente e complexidade do procedimento. Portanto, o seguimento ambulatorial frequente é essencial para ajustes no plano de tratamento e detecção precoce de complicações.

Avanço técnico e formação cirúrgica continuada

O constante avanço das técnicas ortopédicas tem ampliado significativamente as possibilidades terapêuticas no manejo das deformidades complexas do pé. Dessa forma, entre as inovações mais relevantes, destacam-se as abordagens artroscópicas e percutâneas, que vêm ganhando espaço por proporcionarem menor morbidade e recuperação mais rápida, sem comprometer os resultados funcionais.

Assim, diante desse cenário em evolução, torna-se importante que o ortopedista mantenha-se em constante atualização, com ênfase em treinamentos práticos supervisionados, que asseguram domínio técnico e maior segurança na aplicação cirúrgica.

Leia também: Artroscopia de tornozelo: o que preciso saber?

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Referências bibliográficas

  • HADDAD, Sami L.; MYERSON, Mark S. Adult acquired flatfoot deformity. Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, v. 7, n. 2, p. 66–75, 1999. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21288442/. Acesso em: 13 jul. 2025.
  • HINTERMANN, Beat; VALDER, Christophe; LEONHARDT, Douglas; BERGHAUSEN, Karsten. The role of osteotomies for correcting adult flatfoot deformity. Foot and Ankle Clinics, v. 6, n. 1, p. 11–33, 2001. Disponível em: https://www.foot.theclinics.com/article/S1083-7515(03)00010-X/pdf. Acesso em: 13 jul. 2025.

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