Doença inflamatória intestinal na infância: quando suspeitar e quais sinais pediátricos exigem investigação imediata

Menina sentada no sofá, segurando o abdômen e demonstrando dor intensa, sugerindo desconforto ou dor abdominal.

Índice

A doença inflamatória intestinal (DII) na infância, embora menos comum que em adultos, merece atenção redobrada devido à sua apresentação frequentemente insidiosa e ao risco de impactos significativos no crescimento e no desenvolvimento.

Em pediatria, sinais como dor abdominal persistente, diarreia crônica, perda ponderal, baixa estatura, anemia inexplicada e manifestações perianais devem acender o alerta clínico. Portanto, reconhecer precocemente esses sintomas é fundamental para indicar uma investigação imediata. Isso porque o diagnóstico e o manejo oportunos podem evitar complicações, melhorar a qualidade de vida e preservar o potencial de crescimento da criança.

Epidemiologia e impacto da doença inflamatória intestinal pediátrica

A doença inflamatória intestinal na infância e adolescência, embora menos frequente do que em adultos, tem mostrado aumento progressivo em sua incidência.

O diagnóstico de DII costuma ocorrer por volta dos 10 anos, com parte significativa dos casos concentrando-se entre 6 e 17 anos, e maior predomínio de acometimento colônico nas crianças mais novas.

Além disso, em comparação com adultos, os pacientes pediátricos tendem a apresentar formas mais extensas e de evolução rápida, além de maior frequência de antecedentes familiares, o que reforça o papel genético na manifestação precoce. Nas faixas etárias mais baixas, especialmente antes dos seis anos, pode ocorrer a chamada DII monogênica, caracterizada por alterações genéticas únicas que comprometem a função imune ou a integridade da barreira intestinal.

Sinais gastrointestinais que levantam suspeita de doença inflamatória intestinal

Os sinais gastrointestinais que sugerem doença inflamatória intestinal em crianças geralmente envolvem alterações persistentes do hábito intestinal e sintomas inflamatórios.

A diarreia contínua, frequentemente acompanhada de sangue, a dor abdominal recorrente, o tenesmo e a presença de sangue oculto nas fezes estão entre as manifestações mais típicas.

Além disso, achados como sensibilidade abdominal, massas palpáveis (especialmente no quadrante inferior direito) e lesões perianais, incluindo fissuras, plicomas, fístulas ou abscessos, reforçam ainda mais a suspeita clínica. Em crianças com doença de Crohn, a dor abdominal tende a ser mais localizada e, muitas vezes, difícil de distinguir de causas comuns de dor funcional.

Ademais, em casos em que há comprometimento colônico, o quadro costuma ser subagudo, marcado por diarreia sanguinolenta, anemia, fadiga e perda de peso, podendo evoluir para formas graves com febre, dor intensa e marcadores inflamatórios elevados.

A combinação desses sintomas, sobretudo quando associada a perda ponderal, atraso no crescimento ou histórico familiar de DII, deve motivar investigação imediata para diagnóstico precoce.

Avaliação da criança com suspeita de doença inflamatória intestinal

A investigação da doença inflamatória intestinal na infância parte sempre da junção entre achados clínicos, alterações laboratoriais e exames complementares. Nesse contexto, crianças com diarreia sanguinolenta, dor abdominal crônica, perda ponderal, atraso no crescimento ou sinais perianais devem ser avaliadas com prioridade.

A análise inicial inclui exames de fezes para descartar infecções entéricas e testes laboratoriais que podem revelar anemia, inflamação sistêmica (VHS e PCR), plaquetose ou hipoalbuminemia. No entanto, resultados normais não excluem DII, especialmente em fases iniciais ou apresentações leves.

Quando a suspeita clínica é consistente, recomenda-se o encaminhamento precoce ao gastroenterologista pediátrico para condução da investigação definitiva.

Exames de fezes e exclusão de causas infecciosas

A avaliação fecal é uma etapa essencial e envolve a pesquisa de sangue visível ou oculto. Além disso, a calprotectina fecal é um marcador útil para diferenciar processos inflamatórios de quadros funcionais gastrointestinais. Entretanto, embora tenha alta sensibilidade para DII, sua especificidade é limitada, podendo elevar-se em outras condições inflamatórias ou infecciosas.

Ademais, pacientes com diarreia, principalmente com sangue, devem realizar cultura de fezes e testes para toxina de Clostridioides difficile. Todavia, a presença de patógenos não descarta DII, já que infecções podem coexistir ou até precipitar a doença.

Papel da endoscopia no diagnóstico

Considera-se a endoscopia digestiva alta combinada com colonoscopia o padrão-ouro na investigação de DII pediátrica.

O procedimento permite avaliação direta da mucosa, definição da extensão da doença e diferenciação entre colite ulcerativa e doença de Crohn. Biópsias múltiplas, coletadas sistematicamente do íleo terminal e de cada segmento colônico, são fundamentais para confirmar inflamação crônica e descartar outras etiologias.

Exames de imagem complementares

A avaliação por imagem é indicada especialmente para investigar o intestino delgado, região muitas vezes inacessível por endoscopia.

A enterografia por ressonância magnética é o método preferido na pediatria, por não expor à radiação e apresentar alta acurácia para detectar inflamação, estenoses e complicações como fístulas e abscessos.

A tomografia computadorizada, embora envolva radiação, pode ser útil em situações agudas ou quando a ressonância não é viável.

Ademais, outras técnicas, como ultrassonografia intestinal e endoscopia por cápsula, têm papel complementar, particularmente na avaliação de segmentos proximais do delgado ou no monitoramento da atividade inflamatória.

Critérios diagnósticos e integração dos achados

Não há critérios únicos e universais para confirmar DII. Assim, o diagnóstico resulta da combinação estruturada entre sintomas compatíveis, alterações laboratoriais sugestivas, achados endoscópicos e evidências radiológicas, sempre apoiados pela análise histopatológica das biópsias.

Além de confirmar a presença de inflamação crônica, essa abordagem integrada permite distinguir entre colite ulcerativa e doença de Crohn, orientar decisões terapêuticas e descartar diagnósticos diferenciais que podem mimetizar a apresentação da DII.

Diferenciais importantes na infância

O diagnóstico diferencial da doença Inflamatória Intestinal em crianças varia conforme o sintoma predominante.

Quando o quadro se apresenta com sangramento retal isolado, causas benignas e frequentes como fissuras anais, hemorroidas, pólipos e divertículo de Meckel devem ser priorizadas, além da proctocolite induzida por proteína do leite em lactentes.

Já quando o sangramento aparece associado a diarreia, dor abdominal ou febre, é essencial considerar infecções entéricas, incluindo Salmonella, Shigella, Yersinia, Campylobacter, Aeromonas, E. coli enterohemorrágica, parasitoses e Clostridioides difficile. Em quadros graves e refratários ao uso de corticoide, especialmente com colite acentuada, deve-se investigar colite por citomegalovírus, que pode complicar ou simular a doença.

Outras condições que entram no diferencial são a invaginação intestinal, marcada por dor abdominal súbita, vômitos e possível sangramento, e a vasculite por IgA (Púrpura de Henoch-Schönlein), reconhecida pela combinação de dor abdominal e lesões purpúricas típicas na pele.

Quando predominam retardo no crescimento e diarreia sem sangue, a doença celíaca deve ser investigada com testes sorológicos apropriados.

Por fim, quadros de dor abdominal difusa frequentemente têm origem funcional, como síndrome do intestino irritável ou constipação, sendo a DII diferenciada pela presença de sinais de alarme e alterações laboratoriais.

Complicações da doença inflamatória intestinal

Crianças com doença inflamatória intestinal apresentam risco aumentado de diversas complicações nutricionais, hematológicas, ósseas, infecciosas e psicossociais, que podem comprometer o crescimento, o desenvolvimento e a segurança clínica.

Complicações nutricionais

A desnutrição e as deficiências de macro e micronutrientes são frequentes, sobretudo na doença de Crohn ativa, levando à perda de peso importante, carência de vitaminas (como vitamina D e B12) e piora da saúde óssea.

Alterações no crescimento e desenvolvimento

Além disso, falha de crescimento e puberdade tardia são sinais marcantes, resultantes tanto da inflamação crônica quanto da má absorção e do uso prolongado de corticoides. Esses achados exigem investigação imediata, já que atraso estatural acentuado pode indicar doença descontrolada.

Complicações hematológicas

A anemia persistente, muitas vezes multifatorial, também requer atenção, especialmente quando acompanhada de fadiga intensa, taquicardia ou sinais de má absorção, pois pode refletir atividade inflamatória elevada ou deficiência de ferro que necessita de reposição intravenosa.

Deficiência de vitamina D

Outro ponto crítico é a deficiência grave de vitamina D, que não só compromete a saúde óssea, mas pode estar associada à maior gravidade da doença.

Impacto psicossocial

Do ponto de vista psicossocial, crianças e adolescentes podem apresentar depressão, retraimento social ou queda no desempenho escolar, o que deve ser prontamente avaliado para prevenir impacto funcional significativo.

Megacólon tóxico

Entre as complicações mais severas da DII, algumas configuram sinais de alerta que exigem investigação imediata em ambiente hospitalar. O megacólon tóxico, por exemplo, manifesta-se com febre alta, dor abdominal intensa, distensão acentuada, diarreia volumosa e sinais sistêmicos de toxemia (taquicardia, alteração de consciência). Além disso, é uma emergência que pode levar a perfuração e necessidade de colectomia.

Complicações infecciosas

Complicações infecciosas também são críticas. Exacerbações súbitas da colite podem estar associadas à infecção por Clostridioides difficile ou citomegalovírus, especialmente em pacientes em uso de imunossupressores, sendo obrigatória a investigação nesses cenários.

Doença fistulizante ou penetrante

Nas formas fistulizantes ou penetrantes da doença de Crohn, surgimento de dor súbita, febre, tumorações dolorosas ou drenagem perianal pode indicar abscesso ou fístula complexa, necessitando de avaliação cirúrgica imediata.

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Referências

  • Higuchi LM, Bousvaros A. Clinical presentation and diagnosis of inflammatory bowel disease in children. UpToDate, 2025.
  • Oliveira SB, Monteiro IM. Diagnosis and management of inflammatory bowel disease in children. BMJ. 2017 May 31;357:j2083. doi: 10.1136/bmj.j2083. PMID: 28566467; PMCID: PMC6888256.

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