Artroplastia Total do Quadril: o que é, manejo e prognóstico

Índice

A Artroplastia Total de Quadril (ATQ) é uma das cirurgias mais comuns e eficazes para tratar a dor e a limitação funcional causada por diferentes condições que afetam o quadril. Portanto, consiste em um procedimento que, além do alívio da dor, pode restaurar a função e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Esse procedimento caracteriza-se pela substituição da articulação coxofemoral comprometida por uma prótese, sendo fundamental para a recuperação das funções e para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Considerações pré-operatórias da Artroplastia Total do Quadril

A decisão de optar pela artroplastia total de quadril envolve uma análise cuidadosa dos possíveis benefícios e riscos. Portanto, compreender bem o procedimento e os resultados esperados é uma etapa essencial nesse processo de decisão.

Nesse bloco, veremos as principais indicações e contraindicações da cirurgia, bem como a avaliação pré-operatória.

Indicações da Artroplastia Total do Quadril

Indica-se a artroplastia total de quadril para pacientes que não responderam a tratamentos conservadores ou cirurgias prévias e que continuam a sofrer com dor persistente e limitante, além de enfrentar grandes restrições em suas atividades diárias. 

Além disso, considera-se para o procedimento aqueles com deformidade acentuada e restrição de movimento, caso a incapacidade resultante seja significativa, mesmo na ausência de dor. 

O quadril saudável opera como uma articulação de “bola e encaixe”, onde a cabeça femoral (bola) articula-se com o acetábulo (encaixe), permitindo movimentos suaves em diversas direções. Dessa forma, qualquer condição que afete essas estruturas pode provocar desgaste da articulação, resultando em deformidade, dor e perda de função. 

A osteoartrite, por exemplo, é a causa mais comum de desgaste da articulação do quadril.

Ademais, outras condições que podem afetar o quadril incluem:

  • Artrites inflamatórias, como artrite reumatoide, artrite psoriática e espondiloartropatias;
  • Síndrome do impacto femoroacetabular;
  • Displasia do desenvolvimento do quadril;
  • Distúrbios do quadril na infância, como doença de Legg-Calvé-Perthes e epífise femoral capital deslizada;
  • Traumas;
  • Neoplasias;
  • Osteonecrose.

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Contraindicações da Artroplastia Total do Quadril

Não se recomenda a artroplastia total de quadril em diversas situações clínicas, incluindo:

  • Infecção ativa (localizada ou sistêmica);
  • Condições médicas preexistentes graves que tornam a cirurgia arriscada, como infarto recente, angina instável, insuficiência cardíaca ou anemia grave;
  • Imaturidade esquelética;
  • Tetraplegia;
  • Fraqueza muscular irreversível ou permanente, sem presença de dor.

Ademais, entre essas contraindicações, a infecção ativa é uma das mais importantes, pois uma ATQ infectada pode gerar complicações graves.

Há ainda contraindicações relativas, como:

  • Paraplegia;
  • Incapacidade de locomoção que não esteja ligada a problemas no quadril;
  • Ausência de função no músculo abdutor do quadril;
  • Déficit neurológico progressivo;
  • Articulação neuropática (Charcot);
  • Obesidade grave.

Avaliação pré-operatória da Artroplastia Total do Quadril

Uma avaliação pré-operatória detalhada é fundamental para confirmar que a patologia no quadril é causa de sintomas e incapacidade do paciente, além de garantir a adequação da cirurgia e contribuir para o planejamento cirúrgico.

Anamnese

A maioria dos pacientes com degeneração no quadril relata dor, muitas vezes localizada no quadril anterior ou virilha, podendo irradiar para a coxa ou joelho e agravar-se com o movimento. Além disso, a dor pode ocorrer em repouso e normalmente piora com a sustentação do peso.

Dificuldade em atividades diárias, como caminhar, calçar sapatos ou subir escadas é comum e alguns pacientes podem fazer uso de dispositivos de apoio, como bengalas ou muletas.

Exame físico

Um exame musculoesquelético completo, incluindo avaliação da coluna, pelve e joelhos, ajuda a identificar se a dor é secundária a outras patologias.

Dessa forma, a avaliação no exame físico inclui:

  • Inspeção – Marcha, sinais de claudicação e discrepâncias de comprimento nas pernas, além de infecções que, caso presentes, podem adiar a cirurgia.
  • Palpação – Estruturas como espinhas ilíacas superiores anteriores e posteriores, crista ilíaca, trocanter maior, tuberosidade isquiática e articulação sacroilíacas devem ser palpadas, com  objetivo de descartar causas não articulares de dor em quadril.
  • Amplitude de movimento – Avalia-se movimentos de flexão, extensão, abdução, adução e rotação, pois a progressão da patologia do quadril geralmente limita esses movimentos.
  • Força muscular – Testa-se a força e o tônus ​​dos músculos ao redor do quadril e das pernas para documentar qualquer fraqueza.
  • Status neurovascular – Recomenda-se a realização de testes de função do nervo ciático e avaliação de pulsos arteriais. 
  • Testes especiais – Inclui a medição do comprimento das pernas, sinal de Trendelenburg (avaliação de abdutores) e o teste de elevação da perna reta (identificação de patologias radiculares).

Exames laboratoriais e de imagem

Os exames laboratoriais incluem:

  • Hemograma;
  • Coagulograma;
  • Função renal;
  • Função hepática. 

Além disso, exames adicionais, como eletrocardiograma e sumário de urina, são realizados conforme necessário.

Por fim, imagens pré-operatórias incluem radiografias do quadril e da pelve para confirmar o diagnóstico e auxiliar no planejamento cirúrgico. Indica-se a ressonância magnética em casos específicos, como suspeita de osteonecrose.

Cuidados perioperatórios

Na artroplastia total de quadril, medidas preventivas e cuidados no perioperatório são essenciais para garantir a segurança e recuperação do paciente. Dessa forma, recomenda-se:

  • Profilaxia antimicrobiana –  Pacientes submetidos à ATQ devem receber antibióticos profiláticos para prevenir infecções, conforme protocolos específicos.
  • Tromboprofilaxia – Para reduzir o risco de tromboembolismo, recomenda-se a tromboprofilaxia com medicamentos e/ou métodos mecânicos.

No que se refere à anestesia, realiza-se a ATQ com anestesia geral, regional ou neuroaxial (como raquidiana ou peridural), escolhida com base nas condições de saúde e preferências do paciente. 

A dor pós-operatória, por sua vez, é gerenciada com uma abordagem multimodal, que pode incluir anestesia regional, analgésicos simples e anti-inflamatórios não esteroides, com o objetivo de diminuir a necessidade de opióides.

Procedimento de Artroplastia Total do Quadril

O design dos implantes para artroplastia total de quadril (ATQ) inclui três componentes principais: 

  • Componente femoral;
  • Componente acetabular;
  • Superfície de apoio. 

A maioria dos sistemas é modular, permitindo que os cirurgiões façam ajustes intraoperatórios para adequarem-se às variações anatômicas dos pacientes.

A fixação dos componentes ao osso, por sua vez, pode ser feita com ou sem cimento de metilmetacrilato:

  • Sem cimento de metilmetacrilato – É a abordagem mais comum e utiliza o crescimento ósseo em torno de superfícies porosas do implante.
  • Com cimento de metilmetacrilato – É recomendada para pacientes com baixa qualidade óssea.

Além disso, o cimento pode conter antibióticos para reduzir infecções em pacientes de alto risco.

Componentes

O componente acetabular geralmente é inserido sem cimento e possui uma superfície porosa que facilita o crescimento ósseo, com variações de revestimento para promover ainda mais a adesão óssea. Implantes cimentados para o componente acetabular são menos usados ​​devido ao maior risco de afrouxamento, mas podem ser recomendados para idosos com baixa qualidade óssea.

As superfícies de apoio variam. A combinação mais comum hoje são entre cabeça femoral de cerâmica e revestimento acetabular de polietileno altamente reticulados, que oferecem menor desgaste e maior durabilidade.

O componente femoral, por sua vez, pode ser cimentado ou não, com revestimento poroso no não cimentado para aumentar a estabilidade. 

Técnica 

Realiza-se a técnica cirúrgica da ATQ através das abordagens posterolateral, lateral direta ou anterior, todas com bom resultado. Portanto, a escolha depende de qual abordagem o cirurgião se sente mais confortável. 

Para a cirurgia, os seguintes procedimentos são realizados:

  • Realiza-se uma incisão cirúrgica;
  • A articulação do quadril é exposta;
  • O colo do fêmur é seccionado (com ou sem deslocamento da cabeça femoral), e a cabeça do fêmur é removida;
  • O acetábulo é preparado para receber a prótese de encaixe;
  • O fêmur é preparado para a colocação de uma haste;
  • A cabeça esférica é introduzida na haste;
  • O quadril é reposicionado, e a incisão cirúrgica é fechada.
UpToDate, 2024

Além disso, avanços, como a navegação cirúrgica e a assistência cirúrgica robótica, têm auxiliado no posicionamento preciso do implante e redução do risco de luxação.

A perda de sangue é comum em ATQ e, consquetemente, utiliza-se o ácido tranexâmico para reduzir a necessidade de transfusões. 

Ademais, a discrepância no comprimento das pernas pós-operatória é gerenciada com diferentes métodos de medição intraoperatória, aceitando uma ligeira diferença de comprimento em prol de uma maior estrutura de articulação.

Cuidados pós-operatórios e seguimento da artroplastia total do quadril

Após a artroplastia total de quadril (ATQ), o período de internação costuma durar de um a dois dias, dependendo da condição de saúde e da idade do paciente, além do tipo de cirurgia. Entretanto, técnicas modernas e avanços em anestesia e cuidados pós-operatórios possibilitam que muitos pacientes recebam alta no mesmo dia. 

O cuidado pós-operatório envolve controle da dor, prevenção de tromboembolismo venoso, atenção às comorbidades e fisioterapia.

Reabilitação

Recomenda-se que a reabilitação seja iniciada rapidamente para facilitar a recuperação funcional e prevenir a trombose venosa profunda.

A mobilização e a fisioterapia devem iniciar no hospital e ser mantidas após a alta, com exercícios diários que auxiliam a restauração da mobilidade e força. Além disso, o uso de dispositivos auxiliares para caminhar é recomendado até que o paciente recupere o equilíbrio e a estabilidade. 

Profilaxia para ossificação heterotópica

Em pacientes de alto risco de ossificação heterotópica (OH), sugere-se o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) profiláticos ou, alternativamente, radiação externa. 

Resultados da Artroplastia Total do Quadril

Normalmente, a longevidade dos implantes é boa, com estudos demonstrando que até 60% das próteses podem durar 25 anos ou mais, variando com fatores como o tipo de implante e a técnica cirúrgica. 

A mortalidade pós-operatória é baixa, geralmente inferior a 1% em 30 a 90 dias, com uma tendência de queda ao longo das últimas décadas. Fatores como a cirurgia para fratura de quadril aumentam o risco de mortalidade em comparação com procedimentos eletivos, enquanto a anestesia raquidiana e a tromboprofilaxia foram associadas aos melhores desfechos.

Por fim, as complicações após a artroplastia total de quadril incluem aquelas comuns a qualquer cirurgia de grande porte, como complicações associadas à anestesia, perda de sangue ou reações a transfusões.

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Referências

  • ERENS, G.; CROWLEY, M. Total hip arthroplasty. UpToDate, 2024.
  • ERENS, G. Complications of total hip arthroplasty. UpToDate, 2024.
  • ZUCOLOTTO, T. E. et al. Artroplastia total de quadril: indicações e reabilitação. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 6, n. 6, p. 31221-31236, nov./dec., 2023.

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