Crianças e adolescentes costumam procurar atendimento por queixas gastrointestinais que vão desde dor abdominal e refluxo até diarreia, perda ponderal e sangramento. Como esses sinais surgem em diferentes combinações, deve-se estruturar a avaliação, priorizar diagnósticos prováveis e, sobretudo, diferenciar quadros funcionais daqueles orgânicos. Além disso, ao longo da consulta, vale explorar fatores alimentares, uso de medicamentos, alergias, história familiar e contexto psicossocial. Em paralelo, uma anamnese objetiva e um exame físico completo direcionam a necessidade e o timing de exames complementares.
Para facilitar sua prática, este guia técnico apresenta as 10 doenças gastrointestinais mais frequentes na faixa etária pediátrica, com foco em clínica, gatilhos diagnósticos, red flags e linhas de tratamento.
Doenças gastrointestinais: refluxo gastroesofágico
O refluxo gastroesofágico (RGE) aparece com pirose, regurgitação, dor retroesternal, tosse crônica, halitose e hipersalivação. Em adolescentes, a queixa de pirose ganha destaque; em crianças menores, a recusa alimentar, o choro após as mamadas e o ganho ponderal inadequado chamam atenção. Entretanto, sintomas extraesofágicos, como piora de asma, laringite e dor torácica, também podem ocorrer.
Assim, diante de sinais de alarme (disfagia, odinofagia, hematêmese, perda ponderal, anemia), deve-se ampliar a investigação. Em quadros não complicados, medidas comportamentais e ajustes dietéticos costumam aliviar:
- Fracionamento alimentar
- Evitar refeições volumosas à noite
- Reduzir bebidas cafeinadas
- E alimentos muito gordurosos.
Quando necessário, terapias farmacológicas com inibidores da bomba de prótons (IBP) entram de forma criteriosa, por tempo limitado e com revisão de resposta clínica.
Doenças gastrointestinais: esofagite eosinofílica
A esofagite eosinofílica (EoE) resulta de processo imunomediado com eosinofilia esofágica e sintomas de disfunção do órgão. Crianças pequenas apresentam vômitos, irritabilidade e recusa alimentar; adolescentes relatam disfagia e impactação alimentar. Pensa-se em EoE quando o paciente não responde de forma sustentada à supressão ácida e mantém sintomas mecânicos. O diagnóstico depende de endoscopia digestiva alta com biópsias esofágicas, já que o aspecto pode variar entre anéis traqueais, exsudatos, estrias e fragilidade mucosa.
Em relação ao tratamento, três pilares costumam se combinar:
- Dieta de eliminação guiada (empírica ou orientada)
- Corticoide tópico esofágico
- E manejo de comorbidades alérgicas.
Acompanhamento regular com reavaliação clínica e, quando indicado, histológica, reduz o risco de remodelamento e estenoses.
Gastrite e úlcera péptica
Dor epigástrica, náuseas, plenitude precoce e dor noturna sugerem doença ácido-péptica. Em pediatria, fatores como uso de AINEs, infecção por Helicobacter pylori, estresse fisiológico grave e doenças sistêmicas influenciam risco. Diante de red flags (hematêmese, melena, perda ponderal, anemia), você deve investigar com endoscopia e biópsias.
Além do controle ácido com IBP, a erradicação do H. pylori, quando presente, muda o curso da doença. Vale lembrar que você precisa individualizar escolhas de antibióticos conforme a resistência local, além de reforçar adesão e checar a cura com teste não invasivo após 4 a 8 semanas sem IBP.
Doenças gastrointestinais: doença celíaca
A doença celíaca causa enteropatia autoimune induzida pelo glúten em indivíduos geneticamente suscetíveis. Em bebês e pré-escolares, diarreia crônica, distensão, irritabilidade bem como atraso de crescimento aparecem com frequência; em adolescentes, anemia ferropriva, baixa estatura, constipação, dor abdominal e queixas de fadiga predominam.
Para investigar, solicita-se IgA total e IgA anti-transglutaminase (TGA-IgA) como teste inicial (em caso de IgA baixa, use testes IgG). Em crianças com TGA-IgA ≥10x o limite superior e EMA-IgA positivo em amostra separada, diretrizes europeias permitem diagnóstico sem biópsia, após decisão compartilhada com a família. Contudo, em situações atípicas, na presença de comorbidades ou em centros sem padronização laboratorial, a endoscopia com biópsias duodenais mantém importância. Depois do diagnóstico, a dieta isenta de glúten, com educação nutricional intensiva, reduz sintomas, reverte carências e previne complicações. Além disso, o seguimento programado avalia crescimento, sorologia e adesão.
Intolerância à lactose
A hipolactasia do tipo adulto surge com maior prevalência em adolescentes, embora lactentes possam apresentar quadros secundários após enterites. Dor abdominal tipo cólica, distensão, flatulência e diarreia osmótica após ingestão de lácteos sugerem o diagnóstico.
Na prática, um teste terapêutico curto com redução de lactose costuma esclarecer; quando necessário, o teste do hidrogênio expirado auxilia. Orienta-se substituições equilibradas, evitando déficits de cálcio e vitamina D, e reavaliar a tolerância conforme a mucosa intestinal se recupera em casos secundários.
Doença inflamatória intestinal (DII)
A DII pediátrica engloba doença de Crohn (DC) e retocolite ulcerativa (RCU), com impacto sobre crescimento, puberdade e qualidade de vida. Você precisa valorizar diarreia crônica, dor abdominal recorrente, sangramento nas fezes, perda de peso, fadiga e manifestações extraintestinais (artralgia, aftas, alterações cutâneas). A investigação inicial inclui:
- Hemograma
- PCR/VHS
- Ferro
- Albumina
- Vitamina D
- E calprotectina fecal.
Em seguida, siga critérios diagnósticos robustos: endoscopia alta e ileocolonoscopia com biópsias, além de avaliação de intestino delgado por enterografia por RM ou cápsula, conforme as Diretrizes de Porto revisadas. Essas recomendações padronizam a avaliação e aumentam a acurácia na distinção entre DC e RCU, inclusive nas formas indeterminadas.
Doença de Crohn
A DC pode acometer todo o trato gastrointestinal, com predileção por íleo terminal e colon direito. Dor no quadrante inferior direito, diarreia, perda ponderal e atraso puberal surgem com frequência. Além disso, a doença perianal (fístulas, fissuras, abscessos) funciona como pista valiosa.
O tratamento combina indução e manutenção com corticosteroides, imunomoduladores (como azatioprina ou metotrexato) e terapias biológicas (anti-TNF, anti-integrina, anti-IL-12/23), de acordo com gravidade, localização e risco de complicações. Além disso, deve-se otimizar estado nutricional e vacinas, além de monitorar densidade mineral óssea, ferro e crescimento.
Retocolite ulcerativa
A RCU restringe-se ao cólon, com padrão contínuo que inicia no reto. Sangramento retal, urgência evacuatória e tenesmo predominam. Por isso, a colonoscopia com biópsias define extensão e gravidade.
Para indução, aminosalicilatos e corticoterapia sistêmica auxiliam conforme a atividade; para manutenção, 5-ASA e imunobiológicos reduzem recidivas e hospitalizações. Em casos fulminantes, deve-se instituir terapia intensiva e discutir alternativas cirúrgicas oportunamente, sempre em conjunto com equipe multidisciplinar.
Síndrome do intestino irritável (SII)
A SII pediátrica integra os distúrbios de interação intestino-cérebro. Dor abdominal recorrente relacionada a mudanças do hábito intestinal e alívio após evacuação compõem o quadro típico. Critérios de Roma (versões pediátricas) norteiam a classificação, enquanto sinais de alarme afastam doença orgânica.
O tratamento envolve educação do paciente e da família, modulação dietética (por exemplo, teste estruturado de FODMAPs com supervisão), probióticos selecionados, manejo do estresse, higiene do sono e, quando indicado, terapias psicológicas como TCC. Em casos refratários, diretrizes conjuntas europeias e norte-americanas orientam opções farmacológicas e intervenções complementares.
Constipação intestinal crônica
A constipação funcional representa grande parte dos atendimentos, com dor à evacuação, fezes ressecadas, retenção voluntária, escape fecal e distensão. A história detalhada identifica gatilhos comportamentais e alimentares; o exame físico avalia tônus, fissuras e distensão. Para tratar, combine desimpactação (oral com polietilenoglicol ou retal, conforme o caso), manutenção com laxantes osmóticos em doses ajustadas, rotina de toalete posprandial e reforço positivo.
Além disso, a hidratação adequada, o aumento gradual de fibras e a abordagem das comorbidades psicossociais melhoram adesão. Diretrizes de ESPGHAN/NASPGHAN apresentam algoritmos práticos para lactentes e crianças maiores, com foco em segurança e eficácia das opções farmacológicas.
Infecções gastrointestinais
As enteroinfecções virais, bacterianas e parasitárias respondem por parcela expressiva de diarreia aguda e dor abdominal. Deve-se avaliar sinais de desidratação, sangue nas fezes, febre alta persistente, perda ponderal e risco epidemiológico (alimentos de risco, contato com doentes, viagens). Assim, em quadros leves, a reidratação oral, a manutenção precoce da dieta e o zinco (em populações selecionadas) bastam. Dessa forma, diante de sinais de gravidade, exames laboratoriais e coprocológicos direcionam antibioticoterapia específica. Vale reforçar que vacinação, higiene das mãos e segurança alimentar reduzem recorrência e complicações.
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Alergias alimentares com manifestações gastrointestinais
As alergias alimentares envolvem mecanismos IgE e não IgE mediados. Em lactentes, proctocolite alérgica com sangue vivo nas fezes e boa aparência geral aparece com frequência. Já em crianças maiores, dor abdominal, vômitos, diarreia crônica, perda ponderal e anemia chamam atenção. Assim, deve-se faz uma triagem com história dirigida, diário alimentar e, quando indicado, testes cutâneos ou IgE específica ajudam.
Além disso, dietas de exclusão com reintrodução supervisionada confirmam o diagnóstico. Em quadros graves, você precisa estruturar plano de ação para anafilaxia e garantir educação familiar. Assim, quando a alergia coexiste com EoE, coordene condutas com alergologia para definir estratégias dietéticas e farmacológicas complementares.
Estratégias diagnósticas
Para otimizar tempo e recursos, estruture o raciocínio em camadas:
- Anamnese e exame físico direcionados: mapeie padrão de dor, relação com evacuação, febre, perda ponderal, sangue oculto/visível, sintomas extraintestinais e histórico familiar (DII, celíaca, alergias)
- Estratificação de risco: diferencie quadros funcionais (SII, constipação) daqueles com red flags (sangramento, falha de crescimento, atraso puberal, disfagia, vômitos biliosos, dor noturna persistente)
- Biomarcadores e testes não invasivos: utilize hemograma, PCR/VHS, ferro, albumina, TGA-IgA e IgA total (suspeita de celíaca), calprotectina fecal (triagem para inflamação), testes respiratórios (intolerâncias)
- Métodos endoscópicos e de imagem: indique endoscopia com biópsias para EoE, doença ácido-péptica complicada, celíaca com apresentações atípicas e investigação de DII; para avaliação do delgado na DC, prefira enterografia por RM ou cápsula, conforme as Diretrizes de Porto
- Abordagem step-up: comece por medidas de baixo risco e alta relação custo-benefício, reavalie resposta clínica em prazos definidos e avance somente quando necessário.
Condutas terapêuticas e acompanhamento
Como regra, combina-se educação, intervenções de estilo de vida e farmacoterapia baseada em evidências:
- RGE: ajuste alimentar e comportamental; IBP por janela limitada quando indicado; reavaliação programada para evitar uso crônico desnecessário
- EoE: dieta de eliminação estruturada, corticoide tópico esofágico e seguimento endoscópico individualizado para prevenir estenoses.
- Doença ácido-péptica/H. pylori: erradicação guiada por protocolos atualizados; controle ácido por curto prazo; teste de cura após suspensão de IBP
- Doença celíaca: dieta isenta de glúten sob orientação nutricional; monitoramento sorológico e de crescimento; revisão de deficiências
- SII: educação, manejo de estresse, modulação dietética e, quando necessário, suporte psicológico e terapias alvo-sintoma
- Constipação funcional: desimpactação, manutenção com laxantes osmóticos, rotina de toalete e medidas comportamentais; acompanhamento prolongado reduz recaídas
- DII: estratégia treat-to-target voltada a remissão clínica e mucosa; uso criterioso de imunomoduladores e biológicos; vigilância de crescimento, nutrição e imunizações.
- Alergias alimentares: plano nutricional de exclusão com reintrodução supervisionada; educação sobre anafilaxia; coordenação com alergologia.
Além disso, o médico deve trabalhar com metas claras de desfecho (remissão clínica, normalização de marcadores, recuperação ponderoestatural), além disso, deve-se definir pontos de reavaliação. Em adolescentes, converse sobre autonomia terapêutica, adesão, transição para o cuidado do adulto e saúde mental.
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Referências
- WINTER, Harland S. Gastroesophageal reflux disease in children and adolescents: Management. UpToDate, 22 jan. 2024. Disponível em UpToDate. Acesso em: 5 out. 2025.
- BONIS, Peter A. L.; GUPTA, Sandeep K. Clinical manifestations and diagnosis of eosinophilic esophagitis (EoE). UpToDate, 28 ago. 2025. Disponível em UpToDate. Acesso em: 5 out. 2025.
- VAKIL, Nimish B. Peptic ulcer disease: Epidemiology, etiology, and pathogenesis. UpToDate, 6 jan. 2025. Disponível em UpToDate. Acesso em: 5 out. 2025.






