Atraso no Desenvolvimento Neuropsicomotor Infantil: identificação e tratamento

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Atraso no Desenvolvimento Neuropsicomotor Infantil: saiba como identificar e tratar essa condição!

O desenvolvimento neuropsicomotor infantil é um processo que envolve diversas aquisições, como maturação neurológica e habilidades de comportamento, cognitiva, social e afetiva. Diversos fatores podem influenciar nesse processo e causar atrasos no desenvolvimento da criança, sendo importante, portanto, a detecção e o tratamento precoces, de forma a minimizar prejuízos.

Neste texto, iremos abordar as definições de desenvolvimento neuropsicomotor e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, além de fatores de risco associados, apresentação clínica, importância da detecção e estimulação precoce, métodos de avaliação e intervenções terapêuticas.

Definições

O desenvolvimento neuropsicomotor corresponde à aquisição progressiva de habilidades pela criança durante o seu crescimento. Consiste em um processo complexo e dinâmico, que sofre influências de diversos fatores, como os fatores genéticos, os fatores ambientais e os fatores sociais. Seu objetivo é tornar a criança capaz de responder às próprias necessidades e às necessidades do meio.

A aquisição de marcos de desenvolvimento neuropsicomotor depende não só do adequado funcionamento do Sistema Nervoso Central, mas também da quantidade e qualidade de estímulos e das relações vivenciadas pela criança.  Ou seja, existem três aspectos relacionados ao desenvolvimento de uma criança: herança genética, meio em que está exposta e vínculos afetivos.

Fonte: Observatório da Saúde da Criança e do Adolescente

Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor

Existem margens de normalidade esperadas para cada fase do desenvolvimento neuropsicomotor, podendo haver variação entre os indivíduos. Todavia, cada marco possui um tempo máximo para ser atingido e, quando esse tempo é ultrapassado, há um atraso.

O atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, portanto, ocorre quando a criança não alcança determinada habilidade no tempo esperado, podendo se apresentar de duas formas:

  • Atraso isolado, que compromete apenas uma das áreas do desenvolvimento.
  • Atraso global, que compromete duas ou mais áreas do desenvolvimento. 

Tal condição pode ser temporária, sendo recomendado realizar acompanhamento da criança para vigilância e tratamento. 

Transtornos do neurodesenvolvimento

Os transtornos do neurodesenvolvimento são condições que se apresentam com alterações no cérebro imaturo e acontecem desde a concepção até os 6 anos. Nesses casos, a criança não acompanha a sequência de marcos esperados para a sua idade, sendo recomendada a realização de intervenções necessárias.

Estima-se que indivíduos com transtorno do desenvolvimento correspondem a cerca de 10% da população, sendo 4 a 5% constituída por crianças com menos de 6 anos.

Diversas doenças e condições de saúde podem levar aos transtornos do neurodesenvolvimento, entre elas:

  • Paralisia cerebral;
  • Síndrome do vírus zika;
  • Epilepsia;
  • Transtorno do Espectro Autista (TEA);
  • Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH);
  • Trissomia do cromossomo 21 (Síndrome de Down).

Dos transtornos citados, a paralisia cerebral e a síndrome do zika vírus são secundárias à presença de lesão encefálica. A epilepsia, por sua vez, se não tratada e controlada de forma adequada, também podem causar lesões estruturais, com evolução para uma paralisia cerebral. 

O Transtorno do Espectro Autista e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, por sua vez, correspondem a transtornos neurobiológicos, enquanto que a Síndrome de Down consiste numa condição congênita.

Fatores de risco para atraso no desenvolvimento neuropsicomotor

O atraso no desenvolvimento neuropsicomotor pode ter relação com diversos fatores e, na maioria das vezes, não é possível estabelecer uma causa única, mas uma associação de diversos fatores associados a tal condição. 

Os fatores de risco podem ser biológicos e ambientais, sendo os biológicos divididos em pré, peri e pós-natais: 

  • Os fatores pré-natais consistem em prejuízos que podem ocorrer durante a vida intrauterina e condições congênitas, como as síndromes genéticas, por exemplo;
  • Os fatores perinatais são referentes à hora do parto, como é o caso da hipóxia grave. 
  • Os fatores pós-natais são relativos a condições que podem interferir no sistema nervoso imaturo após o nascimento, como traumas, hipoglicemia e infecções. 

Alguns autores dividem os riscos biológicos dos riscos estabelecidos. Nesse contexto, entre os fatores de risco biológicos, estão prematuridade, hipóxia cerebral grave, meningites e encefalites. Os riscos estabelecidos, por sua vez, são os erros inatos do metabolismo, as malformações congênitas e as síndromes genéticas.

Os fatores de riscos ambientais também podem exercer influência no desenvolvimento neuropsicomotor. Entre os principais estão:

  • Condições de saúde precárias;
  • Educação materna;
  • Estresse intra-familiar, como violência, abuso, maus-tratos;
  • Problemas de saúde mental do cuidador;
  • Práticas inadequadas de cuidado e educação.

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Apresentação clínica do atraso no desenvolvimento neuropsicomotor

A apresentação clínica do atraso no desenvolvimento neuropsicomotor varia quanto ao tipo e a intensidade do atraso, podendo se apresentar de diversas formas, como alterações no desenvolvimento motor, desenvolvimento cognitivo, linguagem, interação pessoal-social, entre outras. 

Crianças com paralisia cerebral, por exemplo, normalmente apresentam alterações no desenvolvimento motor, mas podem apresentar também alterações na linguagem e na cognição. Já as crianças com surdez, geralmente apresentam problemas na linguagem, enquanto que as crianças autistas possuem comprometimento na interação pessoal-social e na linguagem.

Algumas crianças não apresentam manifestações de atraso no desenvolvimento, mas podem não alcançar seu potencial pleno devido a falta de estímulo.

Importância da detecção e estimulação precoce

Os primeiros três anos de vida são críticos para o desenvolvimento neuropsicomotor, visto que é nesse período que acontece o processo de maturação do sistema nervoso central. Nessa fase, são desenvolvidas as áreas relacionadas à emoção e ao afeto, assim como estruturas associadas à funcionalidade, personalidade, caráter e habilidades de aprendizado e memória.

Além disso, esses primeiros anos de vida correspondem a uma boa fase da plasticidade neuronal, visto que o indivíduo está mais suscetível às transformações causadas pelo ambiente externo.

Dessa forma, tanto a detecção quanto a estimulação precoce são importantes para a minimização de prejuízos no desenvolvimento neuropsicomotor. 

A estimulação precoce utiliza técnicas e recursos capazes de estimular os domínios relacionados à maturação da criança, favorecendo o desenvolvimento motor, linguístico, cognitivo, sensorial e social. Tem como meta aproveitar o período de maturação e de maior suscetibilidade às transformações para promover as competências da criança e reduzir os os impactos dos transtornos do neurodesenvolvimento.

Métodos de avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor

Existem diversas estratégias que podem ser utilizadas na identificação de problemas no desenvolvimento neuropsicomotor, entre elas:

  • Questionários para cuidadores;
  • Anotações dos cuidadores sobre o comportamento da criança;
  • Vigilância do desenvolvimento por profissionais da área da saúde.
  • Instrumentos de triagem;

Durante as consultas pediátricas, é importante questionar os cuidadores sobre fatores de risco que podem interferir no desenvolvimento da criança, além de realizar exame físico completo e identificar a presença de marcos do desenvolvimento para cada faixa etária. 

Com relação aos instrumentos de triagem, existem diversos testes desenvolvidos com o objetivo de identificar crianças de risco, que facilitam tanto o diagnóstico quanto o planejamento e a progressão do tratamento. Entre os principais instrumentos, é possível citar o Teste de Denver, a Escala de Desenvolvimento Infantil de Bayley e o Teste de Gesell.

Teste de Denver

O teste de Denver é o instrumento mais utilizado para triagem de crianças com risco para atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, podendo ser aplicado por profissionais da área da saúde em crianças entre 0 e 6 anos. 

Ele se baseia na execução de alguns itens e relatos dos pais, com posterior comparação do desempenho da criança submetida ao teste com o desempenho de outras crianças com a mesma idade.

O instrumento é composto por 125 itens que avaliam as seguintes áreas: 

  • Motricidade ampla;
  • Motricidade fina-adaptativa;
  • Comportamento pessoal-social;
  • Linguagem.

Tais itens são observados diretamente ou através de informações coletadas do cuidador e, ao final, a criança é classificada como em risco ou normal.

Escala de Desenvolvimento Infantil de Bayley 

É uma escala para avaliação de habilidades mentais e motoras de crianças entre dois meses e três anos, cujos aspectos avaliados são:

  • Funcionamento das capacidades sensoriais e perceptivas (sub-escala mental).
  • Motricidade fina e ampla (sub-escala motora).
  • Avaliação quantitativa da interação da criança com objetos e pessoas (sub-escala comportamental.

Teste de Gesell

É um teste que pode ser aplicado em crianças entre 4 semanas e 36 meses. Envolve avaliação direta e observação de parâmetros como qualidade e integração de comportamentos. Tem como categorias de análise as seguintes áreas:

  • Comportamento adaptativo (organização e adaptação sensório-motora e cognição).
  • Comportamento motor grosseiro e delicado (sustentação da cabeça, capacidade de sentar, engatinhar, andar e manipular objetos com as mãos).
  • Comportamento de linguagem (expressiva ou receptiva).
  • Comportamento pessoal-social (interação com o meio ambiente).

As idades chave para observação desses parâmetros são 4, 16, 28 e 40 semanas, 12, 18, 24 e 36 meses, sendo o resultado expresso pelo quociente de desenvolvimento. Os dados obtidos no teste são comparados a uma escala elaborada com comportamentos padrão de crianças em diferentes faixas etárias.

Intervenções terapêuticas

As intervenções em crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor depende da causa do problema. Dessa forma, se a causa do atraso é um problema ambiental, como a falta de estímulo, o tratamento consiste em orientações aos cuidadores quanto à importância da interação com a criança. Por outro lado, se existir uma patologia responsável pelo atraso, é necessário tratar a patologia o mais rápido possível.

Além da intervenção direcionada para a causa do problema, todas as crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor devem ser acompanhadas por equipe multidisciplinar (neuropediatria, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, ortopedia, oftalmologia e terapia ocupacional), de modo que sejam realizados estímulos para o desenvolvimento de habilidades.

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Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Desenvolvimento neuropsicomotor, sinais de alerta e estimulação precoce: um guia para pais e cuidadores primários [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada, Hospital da Criança de Brasília José Alencar. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes de estimulação precoce : crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.
  3. MARTINA, E.B. et al. Principais instrumentos de avaliação do desenvolvimento da criança de zero a dois anos. Revista Movimenta; Vol 2, N1, 2009.
  4. Observatório da Saúde da Criança e do Adolescente. Atraso do Desenvolvimento Neuropsicomotor (ADNPM). Disponível aqui.
  5. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Manual para vigilância do desenvolvimento infantil no contexto da AIDPI. Washington, D.C.: OPAS, 2005.

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Educa Cetrus Redator

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