Avaliação morfológica do coração fetal no 2º trimestre: principais cortes e detecção de malformações

Médico realizando ultrassonografia em gestante deitada, utilizando transdutor no abdome para avaliação fetal no segundo trimestre.

Índice

A avaliação morfológica do coração fetal no 2º trimestre da gestação é uma etapa fundamental do exame ultrassonográfico, uma vez que permite a identificação precoce de malformações cardíacas congênitas, que estão entre as anomalias estruturais mais comuns e com maior impacto prognóstico.

Importância da avaliação morfológica do coração fetal

A avaliação morfológica do coração fetal representa um marco essencial no diagnóstico precoce das cardiopatias congênitas, que antes passavam despercebidas até o período neonatal.

A incorporação progressiva da Cardiologia Fetal à prática da Cardiologia Pediátrica possibilitou não apenas a compreensão detalhada da anatomia e fisiologia cardíaca intrauterina, mas também o conhecimento da história natural das anomalias.

Além disso, o uso da ecocardiografia fetal ampliou as taxas de detecção pré-natal, transformando-se em ferramenta decisiva não só para identificar malformações, mas também para orientar condutas terapêuticas, planejar o parto e definir estratégias de manejo neonatal.

Assim, o diagnóstico realizado ainda na vida intrauterina trouxe impactos diretos na sobrevida e no cuidado de crianças com cardiopatias complexas, consolidando a avaliação morfológica do coração fetal como prática indispensável na medicina moderna.

Técnica de exame e posicionamento na avaliação do coração fetal

A metodologia proposta para a avaliação do coração fetal é simples e sistematizada, permitindo a obtenção de imagens diagnósticas sem a necessidade de cortes complexos ou manobras difíceis com o transdutor.

Para tanto, o exame inicia-se a partir de um corte transversal do abdome fetal, progredindo em direção cefálica até o mediastino superior, em seis etapas sequenciais. Essa abordagem facilita o rastreamento das principais cardiopatias congênitas e aumenta a padronização do exame na prática obstétrica.

Leia também:Como fazer avaliação cardíaca fetal?

Principais etapas

Padronização do rastreamento do coração fetal: O exame é realizado por meio de uma varredura em corte transversal, iniciando-se na região infradiafragmática e avançando em direção cefálica. São avaliados seis etapas: na 1º, identifica-se o situs cardiovisceral a partir da região abdominal; na 2º, obtém-se a projeção das quatro câmaras cardíacas; na 3º, visualiza-se a via de saída do ventrículo esquerdo; na 4º, a via de saída do ventrículo direito; na 5º, a imagem dos três vasos; e na 6º, o plano dos três vasos associado à traqueia. Fonte: Pedra, 2019.

Organiza-se a avaliação morfológica em seis etapas fundamentais, cada uma oferecendo informações específicas sobre a anatomia cardíaca e sua relação com outras estruturas torácicas.

Etapa 1 – Situs cardiovisceral

Realizada em corte transverso do abdome, permite determinar a lateralidade dos órgãos (estômago à esquerda, fígado à direita, aorta descendente posterior à esquerda e veia cava inferior anterior à direita).

Etapa 2 – Projeção de quatro câmaras

Obtida no corte transversal do tórax logo acima do diafragma, possibilita avaliar o posicionamento do coração, a simetria entre câmaras, a integridade dos septos, a inserção das valvas atrioventriculares e o retorno venoso pulmonar. É a base do rastreamento inicial, embora não identifique todas as cardiopatias.

Etapa 3 – Via de saída do ventrículo esquerdo

Permite visualizar a aorta ascendente em continuidade com o septo interventricular, sendo fundamental para descartar anomalias como cavalgamento da aorta e tronco arterioso.

Etapa 4 – Via de saída do ventrículo direito

Evidencia a artéria pulmonar cruzando a aorta em sua emergência, importante para avaliar a relação entre os grandes vasos.

Etapa 5 – Projeção dos três vasos

Demonstra a disposição da veia cava superior, aorta e artéria pulmonar, além de permitir avaliar o alinhamento desses vasos e proporções relativas.

Etapa 6 – Projeção dos três vasos e traqueia

Destaca a configuração em “V” formada pelo arco aórtico e canal arterial conectando-se à aorta descendente, com a traqueia como referência anatômica. Essa etapa é fundamental para avaliar alterações do arco aórtico e conexões anômalas.

Malformações cardíacas mais comuns

A seguir, serão apresentadas as malformações cardíacas mais comuns, destacando seus achados ecocardiográficos fetais e características relevantes.

Comunicação interventricular (CIV)

A comunicação interventricular (CIV) corresponde a um defeito no septo que separa os ventrículos, podendo localizar-se na porção muscular, que representa os dois terços inferiores, ou na região membranosa, situada próxima às valvas aórtica, mitral e tricúspide (cúspide septal).

O diagnóstico de CIV é feito principalmente pela ecocardiografia fetal, sendo a visão de quatro câmaras útil para identificar o shunt bidirecional e a de cinco câmaras para avaliar defeitos de saída, especialmente os membranosos. A visão em eixo curto das grandes artérias auxilia na identificação dos subarteriais, e defeitos grandes são definidos quando superam o diâmetro da aorta. Além disso, recursos avançados, como ultrassonografia 3D e 4D com fluxo, podem ajudar a detectar defeitos pequenos.

Comunicação interventricular (CIV) com desalinhamento na projeção de quatro câmaras. Fonte: Bravo-Valenzuela et al, 2017.

Comunicação interatrial (CIA)

A comunicação interatrial (CIA) é um defeito no septo que separa os átrios direito e esquerdo, sendo uma das cardiopatias congênitas mais comuns. Ela pode ocorrer isoladamente ou como parte de cardiopatias mais complexas e geralmente apresenta bom prognóstico durante a vida fetal, com shunt da direita para a esquerda através do forame oval.

A CIA apresenta achados ecocardiográficos que variam conforme o tipo:

  • A CIA ostium secundum localiza-se no centro do septo, correspondendo ao forame oval fetal. O diagnóstico pré-natal é difícil, mas a suspeita surge diante de forame oval aumentado, ausência de retalho ou fluxo restritivo no Doppler. Após o nascimento, defeitos pequenos tendem a fechar espontaneamente, enquanto os maiores exigem intervenção.
  • A CIA tipo primum associa-se a defeitos das válvulas atrioventriculares, integrando o espectro do defeito do septo atrioventricular (DSAV).
  • As CIAs do seio venoso e do seio coronário são menos frequentes, geralmente associadas a anomalias venosas, não se fecham espontaneamente e requerem correção cirúrgica.
Comunicação interatrial (CIA). Fonte: Bravo-valenzuela et al, 2017.

Anomalia de Ebstein e displasia tricúspide

A anomalia de Ebstein é uma malformação congênita rara da valva tricúspide, caracterizada pelo deslocamento apical das cúspides septal e posterior, resultando em aumento do átrio direito e redução da área funcional do ventrículo direito.

Na avaliação fetal, o diagnóstico pode ser suspeitado na visão de quatro câmaras quando observa-se o átrio direito dilatado e cúspides espessadas e fixadas. A gravidade da doença varia conforme o grau de deslocamento da valva, podendo levar a insuficiência tricúspide, disfunção ventricular e risco fetal aumentado, especialmente em presença de regurgitação pulmonar, que causa derivação circular e diminuição da perfusão sistêmica.

A displasia tricúspide, por sua vez, apresenta inserção valvar normal, mas também provoca regurgitação tricúspide e ecogenicidade aumentada das cúspides na ecocardiografia, podendo ser isolada ou associada a síndromes genéticas.

Imagem evidenciando displasia da valva tricúspide com inserção normal (a) e presença de regurgitação tricúspide intensa (b). Fonte: Bravo-valenzuela et al, 2017.

Tetralogia de Fallot

Na avaliação do coração fetal, a Tetralogia de Fallot caracteriza-se por:

  • Presença de um defeito do septo ventricular.
  • Aorta sobreposta.
  • Estenose pulmonar.

A hipertrofia ventricular direita, típica no pós-natal, geralmente não está presente intraútero. Assim, a visão de quatro câmaras costuma parecer normal, e o diagnóstico depende de cortes específicos:

  • A visão de cinco câmaras e o eixo curto basal permitem observar o DSV e a sobreposição da aorta.
  • A visão 3VT evidencia desproporção entre grandes vasos.
Tetralogia de Fallot. (a) Corte em cinco câmaras evidenciando a sobreposição da aorta associada a um DSV de via de saída. (b) Imagem na visão dos três vasos demonstrando aorta dilatada e artéria pulmonar de menor calibre. Fonte: Bravo-valenzuela et al, 2017.

Leia Também:Tetralogia de Fallot: o que é e seus quatro componentes

Transposição das grandes artérias

A transposição das grandes artérias (TGA) é uma cardiopatia cianótica que caracteriza-se pela conexão ventrículo-arterial discordante, em que a aorta origina-se do ventrículo direito e a artéria pulmonar do ventrículo esquerdo.

A TGA-D (dextro) geralmente apresenta situs atrial solitus, alça ventricular normal e quatro câmaras de aparência normal, mas as vias de saída são anormais, com artérias paralelas e disposição alterada na visão 3VT, frequentemente mostrando apenas a aorta e a veia cava superior.

Já a TGA-L (levo) apresenta alça ventricular em L e discordância atrioventricular e ventrículo-arterial, resultando em coração congenitamente corrigido. Além disso, a projeção de quatro câmaras é anormal, com morfologia de ventrículo direito no VE e aorta anterior à esquerda da artéria pulmonar.

Ecocardiograficamente, a avaliação fetal deve considerar essas alterações anatômicas, incluindo a relação e trajetória das grandes artérias, associação com comunicação interventricular, estenose ou atresia pulmonar, e possíveis defeitos valvares ou bloqueios cardíacos.

Limitações e complementação com outros exames

Embora a ecocardiografia fetal seja essencial para o diagnóstico das cardiopatias congênitas, ela possui limitações técnicas e operacionais. Por exemplo, a qualidade do exame pode ser comprometida por fatores como a posição fetal, obesidade materna e a experiência do profissional. Além disso, algumas anomalias cardíacas podem não ser detectadas em estágios iniciais da gestação.

Diante dessas limitações, torna-se importante a complementação com outros exames, como ecocardiografias fetais especializadas em gestantes com fatores de risco para cardiopatias congênitas, como histórico familiar ou anomalias cromossômicas. Ademais, a integração de diferentes modalidades de imagem e a colaboração multidisciplinar são fundamentais para aprimorar a detecção precoce e o manejo adequado das cardiopatias fetais.

Conheça o curso de Ultrassonografia Obstétrica Morfológica de 2º Trimestre do Cetrus

Domine a avaliação morfológica fetal do 2º trimestre com o curso do Cetrus! Aprenda os principais cortes, identifique malformações precocemente e fortaleça sua prática clínica com técnicas modernas.

Referências

  • Bravo-valenzuela, N. J. et al. Prenatal diagnosis of congenital heart disease: A review of current knowledge. Indian Heart J, 2017.
  • Pedra, S. R. F. et al. Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019.

Cite este artigo no seu trabalho

Para citar este artigo em outro texto, clique e copie a referência em formatação ABNT.

Citação copiada!

Compartilhe esta publicação:

CONFIRA NOSSA NEWSLETTER