A cerclagem uterina é uma intervenção essencial no contexto do pré-natal de alto risco, especialmente indicada para gestantes com insuficiência istmocervical ou histórico obstétrico sugestivo de incompetência cervical. Seu objetivo principal é reforçar mecanicamente o colo do útero, prevenindo o encurtamento e a dilatação prematura que podem levar ao parto pré-termo.
Nesse contexto, a compreensão adequada de suas indicações, das técnicas disponíveis e do manejo clínico antes e após o procedimento é fundamental para otimizar desfechos maternos e neonatais, garantindo uma assistência segura e baseada em evidências às pacientes de maior vulnerabilidade obstétrica.
O que é cerclagem uterina?
A cerclagem uterina é um procedimento cirúrgico utilizado para ajudar a prolongar a gestação em mulheres com risco aumentado de parto prematuro devido à insuficiência cervical. Nessa condição, o colo do útero não consegue permanecer fechado e firme até o final da gravidez, podendo se encurtar ou dilatar precocemente, o que leva a perdas gestacionais tardias ou partos prematuros.
A cerclagem consiste na colocação de pontos ao redor do colo para reforçar sua estrutura, sendo indicada com base no histórico obstétrico da paciente, em achados clínicos ou ultrassonográficos durante a gestação atual.
Indicações da cerclagem uterina
Recomenda-se a cerclagem uterina em situações bem definidas, especialmente quando há risco real de insuficiência cervical e, consequentemente, de parto prematuro.
Insuficiência istmocervical confirmada
Indica-se o procedimento quando há evidências claras de que o colo do útero não consegue manter-se fechado e resistente durante a gestação, levando à dilatação indolor e precoce, geralmente associada a perdas do segundo trimestre sem sinais de trabalho de parto.
Histórico obstétrico sugestivo
Realiza-se a cerclagem de forma profilática em mulheres que já tiveram um ou mais episódios de perda gestacional tardia ou parto extremamente precoce relacionados à incompetência cervical, ou naquelas que já fizeram cerclagem prévia pelo mesmo motivo.
Achados ultrassonográficos
Em gestantes com antecedente de parto prematuro ou aborto espontâneo antes de 34 semanas, o encurtamento do colo do útero para menos de 25 mm antes de 24 semanas pode justificar a cerclagem guiada por ultrassom. Essa indicação depende da presença do histórico, não sendo válida isoladamente.
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Cerclagem de emergência (resgate)
Considera-se a cerclagem de emergência quando, antes das 24 semanas, há dilatação cervical avançada detectada no exame físico, mas sem contrações, infecção ou descolamento prematuro da placenta. Trata-se de uma medida de último recurso para tentar prolongar a gestação em cenários críticos.
Tipos de cerclagem uterina
Realiza-se a cerclagem uterina por diferentes abordagens, escolhidas de acordo com a história obstétrica da paciente, a anatomia cervical e o momento da gestação. Cada tipo apresenta indicações específicas e níveis distintos de complexidade, variando desde procedimentos eletivos realizados precocemente até intervenções de urgência em cenários mais delicados.
A seguir, são descritos os principais tipos de cerclagem utilizados no manejo da insuficiência istmocervical.
Cerclagem transvaginal
A cerclagem transvaginal é a abordagem mais utilizada no manejo da insuficiência istmocervical, sendo considerada o padrão inicial quando o colo uterino é acessível e não há alterações anatômicas importantes.
Esse método engloba diferentes técnicas cirúrgicas que variam na forma de posicionar a sutura ao redor do colo, mas todas têm como objetivo principal reforçar sua estrutura e prevenir a dilatação precoce.
Geralmente, indica-se em gestantes com história obstétrica sugestiva de insuficiência cervical, encurtamento do colo identificado por ultrassonografia ou alterações detectadas no exame físico antes de 24 semanas.
Ademais, é um procedimento amplamente difundido, com boa taxa de sucesso e perfil de segurança favorável quando realizado em casos adequadamente selecionados.
Cerclagem de urgência (resgate)
Indicada quando há dilatação cervical precoce, porém sem sinais de trabalho de parto, ruptura de membranas ou suspeita de infecção.
Devido à protrusão das membranas, o procedimento costuma ser tecnicamente mais delicado e pode exigir técnicas para recolocá-las na cavidade uterina, como uso de gaze, balão de Foley ou amniodrenagem guiada por ultrassom.
Apesar de poder prolongar a gestação por algumas semanas, o benefício global ainda é incerto, exigindo consentimento esclarecido.
Cerclagem gestacional via abdominal
Utilizada quando a abordagem vaginal não é possível ou foi ineficaz. Dessa forma, é indicada em situações como colo muito curto de origem congênita, amputação prévia, deformações significativas, cicatrização extensa ou lacerações profundas.
Dessa forma, pode ser realizada por via aberta ou laparoscópica, oferecendo um ponto de sustentação mais alto e estável, embora exija parto cesáreo para remoção.
Cerclagem pré-gestacional
Executada antes da concepção, por via vaginal ou abdominal. Reserva-se esse tipo para pacientes com falhas em cerclagens anteriores ou para aquelas submetidas à traquelectomia que desejam preservar a capacidade reprodutiva.
Realização da cerclagem uterina
A realização da cerclagem uterina envolve uma sequência de etapas cuidadosamente planejadas, que visam garantir a segurança materno-fetal e otimizar os resultados do procedimento.
Desde a avaliação pré-operatória até o seguimento após a colocação da sutura, cada fase possui orientações específicas para reduzir riscos, identificar possíveis contraindicações e assegurar que o colo uterino receba o suporte necessário ao longo da gestação.
Avaliação pré-operatória
Antes da realização da cerclagem, a paciente passa por uma avaliação completa para garantir que não haja infecções ou condições que contraindiquem o procedimento.
Geralmente são solicitadas ultrassonografia obstétrica com medida do comprimento cervical e avaliação fetal, exames para rastreio e tratamento de vaginites, cervicites e infecções urinárias, além de testes sorológicos, como HIV.
Essa etapa assegura que a gestação esteja em condições adequadas para a intervenção e reduz o risco de complicações.
Técnicas mais utilizadas (McDonald e Shirodkar)
As técnicas de McDonald e Shirodkar são as mais empregadas na cerclagem transvaginal. Ambas têm eficácia semelhante, sendo escolhidas de acordo com a anatomia da paciente e preferência do cirurgião.
A técnica de McDonald, considerada a mais simples e frequentemente utilizada, consiste em colocar uma sutura em bolsa ao redor do colo, sem necessidade de incisões extensas ou mobilização de estruturas adjacentes.
Já a técnica de Shirodkar envolve um maior grau de dissecção, com mobilização da bexiga e criação de pequenos retalhos para posicionar a sutura mais próxima ao óstio cervical interno.
Seguimento pós-cerclagem
Após a cerclagem, não há indicação de monitorização rotineira do comprimento cervical, pois isso não se associou a benefícios clínicos.
A remoção da sutura costuma ser feita entre 36 e 38 semanas, ou antecipadamente caso haja trabalho de parto prematuro. Na maioria dos casos, a retirada pode ser realizada em consultório. Em gestações planejadas para cesariana, a remoção pode ocorrer durante o procedimento cirúrgico.
O acompanhamento inclui atenção a sinais de infecção, trabalho de parto ou ruptura de membranas, garantindo segurança materno-fetal até o término da gestação.
Contraindicações e possíveis complicações
A indicação da cerclagem uterina deve sempre considerar a relação entre benefícios e riscos, já que determinadas condições maternas ou fetais podem comprometer a segurança do procedimento.
Assim, antes de realizá-lo, é fundamental avaliar possíveis situações que contraindicam a intervenção, bem como reconhecer as complicações que podem surgir durante ou após a sua execução.
Contraindicações
Embora o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) não estabeleça contraindicações totalmente rígidas, evita-se a cerclagem quando há:
- Sinais de trabalho de parto ativo;
- Infecção intra-amniótica;
- Sangramento significativo;
- Ruptura de membranas.
Possíveis complicações
Apesar de ser um procedimento relativamente seguro, a cerclagem pode gerar eventos adversos. Entre os mais comuns estão:
- Ruptura das membranas;
- Sangramento;
- Infecção intrauterina;
- Lacerações cervicais profunda.
Em técnicas transabdominais (abertas ou laparoscópicas) pode ocorrer sangramento proveniente das artérias uterinas, embora geralmente controlável. Cerclagens guiadas por ultrassom ou feitas em caráter emergencial tendem a apresentar maior taxa de complicações quando comparadas às profiláticas e dilatações cervicais superiores a 4 cm antes do procedimento estão associadas a piores desfechos.
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Conclusão: quando considerar a cerclagem uterina na prática clínica?
A cerclagem uterina deve ser considerada na prática clínica quando a avaliação cuidadosa da gestante indica risco real de insuficiência cervical e, consequentemente, de parto prematuro.
Evidências mostram que, em populações selecionadas, especialmente aquelas com histórico de parto prematuro, achados ultrassonográficos de encurtamento cervical ou alterações detectadas no exame físico, o procedimento pode prolongar a gestação e reduzir desfechos adversos neonatais.
No entanto, sua eficácia varia conforme a indicação e o momento da intervenção, sendo mais favorável em cerclagens eletivas do que em situações emergenciais. Assim, a decisão deve resultar da integração entre anamnese detalhada, exame físico criterioso e avaliação ultrassonográfica adequada, sempre conduzida por equipe experiente.
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Referências
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- Pilio TPS et al. Cerclage uterine: technique, effectiveness, indications – Narrative review. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v.4, n.2, p. 4647-4660 mar./apr. 2021.
- Universidade Estadual de Campinas. Protocolo de atendimento a gestantes com Insuficiência Istmo Cervical. 2020. Disponível em: https://www.caism.unicamp.br/download/protocolos/obstetricia/Insufici%C3%AAnincia%20Istmo%20Cervical.pdf. Acesso em 15 nov 2025.






