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Como conduzir o tratamento de cicatriz hipertrófica e retrações cicatriciais?

Cicatriz hipertrófica e retrações cicatriciais: como manejar o paciente?

As cicatrizes são parte integrante do processo de cura da pele após uma lesão ou cirurgia. Entre as diversas formas de cicatrização, duas condições comuns que podem surgir são as cicatrizes hipertróficas e as retrações cicatriciais.

Ambos os fenômenos podem afetar a estética e a funcionalidade da pele, exigindo, em alguns casos, intervenções médicas específicas para minimizar seus efeitos. Assim, é necessário compreender essas condições para um tratamento adequado e uma recuperação eficaz do paciente.

O que é um cicatriz hipertrófica?

As cicatrizes hipertróficas caracterizam-se por uma elevação e espessamento notáveis, resultando de uma produção excessiva de colágeno durante o processo de cicatrização. Essas cicatrizes, muitas vezes, apresentam-se como protuberâncias vermelhas ou rosadas e podem ser mais evidentes nos primeiros meses pós-lesão.

Fonte:https://www.cirurgiaestetica.com.br/

A frequência de cicatrizes hipertróficas varia de 32% a 72% em pacientes após queimaduras, e entre 39% a 68% após procedimentos cirúrgicos.

Quais os fatores de risco para o desenvolviemento de cicatriz hipertrófica?

Diversos fatores têm sido associados à ocorrência de cicatrizes hipertróficas. São eles:

  • A coloração escura da pele
  • Gênero feminino
  • Idade jovem (especificamente, a segunda década de vida)
  • Localização da queimadura ou lesão (como na região cervical e membros superiores)
  • Gravidade.

Além disso, estudos indicam que o gênero feminino está relacionado a uma maior prevalência de cicatrizes hipertróficas, assim como ocorre em várias doenças autoimunes.

Do mesmo modo, a idade jovem é considerada um possível fator de risco. Acredita-se que o envelhecimento torna o sistema imunológico menos funcional, o que poderia explicar a menor incidência de cicatrizes hipertróficas em idosos. Além disso, estudos indicam que jovens não fumantes têm um risco aumentado de desenvolver cicatrizes hipertróficas, sugerindo um efeito “protetor” do tabaco. Este efeito pode estar relacionado ao estímulo da angiogênese e à redução da resposta inflamatória sistêmica causados por pequenas concentrações de nicotina.

Manifestações clínicas da cicatriz hipertrófica

As cicatrizes hipertróficas, em estágios iniciais, manifestam-se com uma coloração eritematosa. Ao longo do tempo, essa tonalidade evolui de vermelho claro para vermelho escuro, até alcançar uma coloração violeta. À medida que o tecido cicatricial amadurece, a cor tende a tornar-se progressivamente mais pálida. Esse processo acompanha a maturação do tecido cicatricial.

Essas cicatrizes se destacam pelo seu surgimento em um curto período após traumatismos na pele, decorrentes de inflamação, cirurgia ou queimaduras. É importante notar que as cicatrizes hipertróficas não extrapolam os contornos da lesão e têm uma predileção por surgir em áreas articulares, possivelmente relacionadas às constantes pressões a que essas regiões são submetidas. Em geral, ao longo do tempo, observa-se uma melhora na aparência das cicatrizes hipertróficas.

Os principais sintomas relatados pelos pacientes são:

  • Dor
  • Prurido
  • Contratilidade
  • Disestesias
  • Restrição de movimento
  • Interrupção das atividades diárias.

Como diagnosticar a cicatriz hipertrófica?

A observação clínica serve como base para diagnosticar a cicatriz hipertrófica. Os médico deve examinar a cicatriz visualmente, observando características como elevação, espessura, coloração e a presença de prurido.

Além disso, pode-se excluir outras condições de cicatrização anormal, como queloide, através da observação de características específicas.

A escala de cicatrização de vancouver foi concebida e validada com foco especial na avaliação dos aspectos funcional e estético das cicatrizes. Portnato, ela abrange critérios relacionados à pigmentação, vascularização, maleabilidade e altura da cicatriz, atribuindo uma pontuação final que varia de 0 a 13, sendo que uma pontuação mais baixa corresponde a um resultado mais favorável.

Fonte: http://www.rbqueimaduras.com.br/

Qual a diferença entre cicatriz hipertrófica e queloide?

A principal diferença é que a cicatriz hipertrófica permanece dentro dos limites da ferida original. Já a queloide estende-se além dos limites da ferida original, formando uma elevação maior e mais proeminente. Possui uma aparência mais densa e muitas vezes tem uma coloração mais escura que a pele circundante.

Fonte:bbetaclin.com.br/

Como conduzir o tratamento da cicatriz hipertrófica?

Ao considerar o tratamento, diversas opções estão disponíveis, e a escolha dependerá da gravidade da cicatriz e das preferências do paciente.

Silicone em folha e gel tópico

A utilização de elastômeros de silicone representa um método não invasivo amplamente estudado para a prevenção e tratamento de cicatrizes hipertróficas. As folhas de silicone, em particular, exercem efeitos positivos ao elevar a temperatura, melhorar a hidratação (especialmente no estrato córneo), e possivelmente aumentar a pressão de oxigênio na cicatriz. Esses efeitos combinados contribuem para tornar a cicatriz mais suave e plana. Além disso, a aplicação de silicone reduz os níveis de TGF-β e a quantidade de mastócitos na área.

Vale ressaltar que este método deve ser evitado em lesões ainda abertas, sendo mais apropriado quando aplicado logo após o fechamento da lesão. No mercado, existem mais de 60 produtos disponíveis, incluindo folhas, tiras, géis, sprays e espumas de silicone.

Recomenda-se o uso das folhas de silicone por mais de 12 horas diárias, ao longo de um período mínimo de 2 meses, iniciando aproximadamente 2 semanas após o encerramento da lesão. Essas diretrizes visam otimizar os benefícios do tratamento e melhorar a aparência final da cicatriz.

Terapia compressiva

O tratamento compressivo tem sido utilizado desde a década de 70 e, desde então, se estabeleceu como o padrão para o manejo de cicatrizes hipertróficas, sendo ainda a opção de primeira linha em muitos centros. Este método tem demonstrado ser efetivo tanto no tratamento quanto na prevenção de cicatrizes hipertróficas.

Para obter resultados efetivos, é necessário manter continuamente uma pressão recomendada entre 24 e 30 mmHg por seis a doze meses, podendo aplicar esse efeito compressivo por meio do uso de malhas compressivas.

Laserterapia

Além disso, é possível explorar terapias a laser para remodelar o colágeno na cicatriz, proporcionando melhorias visíveis na textura e aparência. Injeções de corticosteroides, administradas diretamente na cicatriz, são outra opção para diminuir a inflamação e reduzir seu tamanho.

Cirurgia de excisão

A cirurgia de excisão é uma abordagem que pode ser considerada no tratamento de cicatrizes hipertróficas. Este procedimento envolve a remoção cirúrgica da cicatriz indesejada, seguida por técnicas cuidadosas de fechamento da ferida para minimizar a formação de uma nova cicatriz.

A cirurgia de excisão é geralmente considerada em casos em que a cicatriz hipertrófica é proeminente, afeta a função ou causa desconforto significativo.

O que são retrações cicatriciais?

Retrações cicatriciais referem-se à contração anormal do tecido cicatricial que ocorre durante o processo de cicatrização. Essa contração pode levar a deformidades na pele, resultando em retração e redução da flexibilidade na área afetada. As retrações cicatriciais são mais comuns em cicatrizes extensas ou profundas e podem afetar tanto a estética quanto a funcionalidade da pele.

Durante a cicatrização normal, o organismo produz fibras de colágeno para reparar a lesão na pele. No entanto, em casos de retrações cicatriciais, a produção excessiva de colágeno ou a falta de coordenação no processo de cicatrização pode resultar em uma contração mais intensa do tecido cicatricial.

Os locais mais propensos a retrações cicatriciais são geralmente áreas de movimento frequente, como articulações, onde a tensão na pele é maior. Isso pode levar a limitações na amplitude de movimento e, em alguns casos, causar desconforto ou dor. Veja nas imagens abaixo retrações cicatriciais:

Fonte: Sociedade brasileira de cirurgia plástica, 2017.

Quais os fatores de risco para retrações cicatriciais?

Vários fatores podem contribuir para o desenvolvimento de retrações cicatriciais. Alguns dos fatores de risco mais comuns incluem:

  • Localização da cicatriz: áreas do corpo sujeitas a movimentos frequentes, como articulações, são mais propensas a retrações cicatriciais devido à constante tensão na pele
  • Gravidade da lesão: lesões mais extensas, profundas ou traumáticas têm maior probabilidade de resultar em retrações cicatriciais
  • Tipo de lesão: queimaduras, cortes extensos e lacerações são exemplos de lesões que podem aumentar o risco de retrações cicatriciais
  • Genética: predisposição genética pode influenciar a forma como o corpo responde ao processo de cicatrização, tornando algumas pessoas mais propensas a desenvolver retrações cicatriciais
  • Idade: crianças e adolescentes têm um risco aumentado de retrações cicatriciais
  • Tipo de pele: indivíduos com certos tipos de pele, como pele mais tensa ou com menor elasticidade, podem estar mais suscetíveis a retrações cicatriciais
  • Infecções: infecções durante o processo de cicatrização podem aumentar o risco de formação de retrações cicatriciais
  • Complicações na cicatrização: qualquer condição ou fator que comprometa a cicatrização adequada da pele pode aumentar o risco de retrações cicatriciais.

Como tratar pacientes com retrações cicatriciais?

A remoção cirúrgica de parte do tecido cicatricial pode ajudar a liberar a tensão e melhorar a flexibilidade da pele. Em alguns casos, pode ser necessário realizar enxertos de pele. Além disso, a aplicação de corticosteroides diretamente na cicatriz pode ajudar a reduzir a inflamação e a promover a suavização da pele.

Gel de silicone ou pomadas específicas podem ser aplicados para ajudar a amaciar e hidratar a cicatriz, reduzindo assim a rigidez. A aplicação de curativos compressivos pode ajudar a reduzir a elevação da cicatriz e minimizar a formação de tecido cicatricial excessivo.

Como prevenir cicatrizes patológicas?

A prevenção de cicatrizes patológicas envolve cuidados adequados durante o processo de cicatrização para minimizar o risco de formação de cicatrizes anormais. Algumas medidas eficazes são:

  • Limpeza adequada da cicatriz com água e sabão neutro para evitar infecções
  • Proteção contra traumas na área ferida para prevenir a irritação e agravamento da cicatrização
  • Proteção solar na área cicatrizada para evitar a hiperpigmentação e reduzir o risco de formação de queloides
  • Evitar movimentos repetitivos ou excessivos na área da cicatriz, especialmente em articulações.

O acompanhamento cuidadoso e a adoção de práticas preventivas podem ajudar a minimizar o impacto estético e funcional das cicatrizes.

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Referência bibliográfica

  • Bloemen MC, van der Veer WM, Ulrich MM, van Zuijlen PP, Niessen FB, Middelkoop E. Prevention and curative management of hypertrophic scar formation. Burns : journal of the International Society for Burn Injuries. 2009;35(4):463-75.
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  • Robbins SL, Cotran RS, Kumar V, Abbas AK, Fausto N. Tecido de renovaçao e reparaçao: regeneraçao, cicatrizaçao e fibrose.In: Robbins e Cotran. Patologia: bases patológicas das doenças. 7ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005. p.91-124.