A cirurgia de catarata é amplamente reconhecida como um procedimento seguro e eficaz, com altas taxas de sucesso na restauração da visão.
Todavia, como em qualquer intervenção cirúrgica, existem riscos de complicações que, embora raras, podem impactar significativamente o resultado visual e a qualidade de vida do paciente.
Portanto, a prevenção e o manejo dessas complicações exigem uma abordagem abrangente que inclui avaliação pré-operatória detalhada, técnicas cirúrgicas precisas e cuidados pós-operatórios rigorosos.
Complicações da cirurgia de catarata
A cirurgia de catarata, apesar de ser considerada um procedimento de baixo risco, é amplamente realizada em pacientes idosos, que frequentemente apresentam múltiplas comorbidades, o que pode elevar os riscos associados à operação.
Embora complicações graves sejam incomuns, a alta frequência da cirurgia faz com que mesmo eventos raros afetem um número significativo de pessoas. Por isso, torna-se essencial que os profissionais de saúde estejam preparados para reconhecer precocemente possíveis intercorrências, adotar medidas eficazes de prevenção e aplicar estratégias adequadas de manejo.
Dividem-se as complicações em três períodos:
- Intraoperatório;
- Pós-operatório precoce;
- Pós-operatório tardio.
Nos próximos tópicos, revisaremos sobre as complicações mais comuns em cada um desses períodos.
Complicações intraoperatórias da cirurgia de catarata
Entre as complicações mais frequentes durante a cirurgia de catarata estão:
- Ruptura da cápsula posterior, que ocorre em cerca de 0,5% a 5,2% dos casos.
- Síndrome da íris flácida intraoperatória, com incidência entre 0,5% e 2,0%.
- Lesões na íris ou no corpo ciliar, observadas em 0,6% a 1,2% das cirurgias.
Ruptura da cápsula posterior
A ruptura da cápsula posterior, em especial, pode resultar em consequências significativas, como a permanência de fragmentos do cristalino dentro do olho, edema corneano e edema macular cistoide.
Além disso, essa complicação está associada a um risco maior de endoftalmite e pode elevar a probabilidade de descolamento de retina, tornando seu reconhecimento e manejo adequado essenciais para a preservação da saúde ocular do paciente.
Síndrome da íris flácida
A síndrome da íris flácida intraoperatória, por sua vez, é uma condição observada durante a cirurgia de catarata, considerada uma variação da síndrome da pupila pequena.
Caracteriza-se por uma tríade clínica:
- Miose intraoperatória resistente aos colírios midriáticos usuais;
- Movimento ondulatório do estroma da íris (descrito como “mugido”);
- Propensão da íris a prolapsar através das incisões cirúrgicas.
Os pacientes com síndrome da íris flácida intraoperatória frequentemente apresentam dilatação pupilar insuficiente e baixa resposta ao alongamento mecânico da pupila, o que dificulta a visualização adequada do campo cirúrgico e compromete a remoção segura da catarata. Essa dificuldade pode aumentar o risco de complicações, como a ruptura da cápsula posterior.
Ademais, algumas medicações associadas à síndrome incluem tansulosina, alfuzosina e a doxazosina.
Complicações pós-operatórias da cirurgia de catarata
Como já mencionado, dividem-se as complicações pós-operatórias da cirurgia de catarata em:
- Complicações pós-operatórias precoces: ocorrem entre o primeiro e o terceiro mês da cirurgia.
- Complicações pós-operatórias tardias: ocorrem após o terceiro mês de cirurgia.
Complicações pós-operatórias precoces
Dentre as complicações pós-operatórias precoces mais frequentes da cirurgia de catarata estão:
- Elevação transitória da pressão intraocular (PIO);
- Edema de córnea;
- Síndrome do segmento anterior tóxico;
- Endoftalmite.
Elevação transitória da pressão intraocular (PIO)
Embora pacientes com glaucoma possam apresentar PIO elevada no pós-operatório imediato, a maioria alcança controle adequado após um ano, muitas vezes com menor necessidade de medicação.
Edema de córnea
O edema de córnea caracteriza-se pelo acúmulo de fluido na córnea, o que pode levar à redução da acuidade visual e causar desconforto ou dor ocular.
Esse quadro geralmente ocorre devido a danos nas células endoteliais da córnea durante o procedimento, comprometendo a sua capacidade de manter o equilíbrio hídrico.
Embora em muitos casos o edema seja transitório e responda bem ao tratamento clínico, como o uso de colírios anti-inflamatórios, a persistência do quadro pode exigir abordagens mais específicas para preservar a transparência corneana e a função visual do paciente.
Síndrome do segmento anterior tóxico
A síndrome do segmento anterior tóxico é uma reação inflamatória aguda que afeta o segmento anterior do olho, geralmente surgindo nas primeiras 24 horas após a cirurgia ocular, como a de catarata.
Diferente de infecções, é causada por contaminantes não infecciosos presentes em instrumentos, soluções ou materiais utilizados durante o procedimento.
Portanto, fatores como a limpeza inadequada ou a preparação incorreta de equipamentos de esterilização têm sido associados a surtos dessa condição.
Endoftalmite
A endoftalmite, apesar de ser rara devido ao uso profilático de antibióticos intracamerais, continua sendo uma das complicações mais graves.
Seu risco é maior em indivíduos com diabetes mellitus, idade avançada (acima de 80 anos), presença de comunicação vítrea ou quando é realizada a extração extracapsular do cristalino (ECCE) com incisão ampla.
Os sinais clínicos geralmente surgem nas duas primeiras semanas após a cirurgia, com queixas de dor ocular, vermelhidão e redução da acuidade visual. Além disso, em cerca de 80% dos casos, observa-se a presença de hipoópio.
As bactérias mais frequentemente envolvidas são estafilococos coagulase-negativos e Staphylococcus aureus, responsáveis por aproximadamente 80% das infecções.
O tratamento envolve a coleta de amostras do humor vítreo e a administração intravítrea de antibióticos de amplo espectro, como vancomicina associada a amicacina ou ceftazidima. Mesmo com terapia adequada, as consequências podem ser severas, incluindo perda visual significativa ou até ausência total de percepção luminosa, sendo o desfecho amplamente influenciado pelo agente infeccioso envolvido.
Complemente a leitura com o artigo “Endoftalmite pós-catarata: diagnóstico precoce e protocolos de tratamento”.
Complicações pós-operatórias tardias
Complicações tardias após a cirurgia de catarata, embora menos frequentes que as precoces, podem comprometer significativamente a visão do paciente. Entre as mais comuns estão:
- Opacificação da cápsula posterior;
- Edema macular cistoide;
- Descolamento de retina.
Opacificação da cápsula posterior
A opacificação da cápsula posterior é a complicação tardia mais prevalente, podendo afetar até 20% dos olhos nos três anos após a cirurgia, com incidência crescente ao longo do tempo.
Essa condição ocorre devido à migração de células epiteliais remanescentes do cristalino, que depositam-se na cápsula posterior, levando à redução da acuidade visual e sintomas como visão embaçada e ofuscamento.
Realiza-se o tratamento com capsulotomia por laser YAG, que, embora eficaz, pode causar efeitos adversos como danos à lente intraocular (LIO), aumento temporário da pressão intraocular, edema macular cistoide e até descolamento de retina.
Edema macular cistoide
O edema macular cistoide resulta de vazamento dos capilares perifoveais causado por citocinas pró-inflamatórias, provocando sintomas como visão central embaçada, distorcida ou reduzida.
O tratamento consiste no uso de colírios com corticosteroides e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs).
Descolamento de retina
O descolamento de retina, embora raro, representa uma complicação grave. Seu risco é maior em pacientes jovens, do sexo masculino, e em olhos com características anatômicas como comprimento axial aumentado ou presença de descolamento do vítreo posterior.
Os sintomas, por sua vez, incluem: luzes piscantes, moscas volantes e perda progressiva da visão periférica. Realiza-se o diagnóstico por meio de exame oftalmoscópico, que pode revelar dobras retinianas edematosas com perda de transparência.
Por fim, o tratamento depende do tipo e extensão do descolamento, podendo incluir procedimentos como:
- Fotocoagulação a laser;
- Retinopexia pneumática;
- Vitrectomia da pars plana;
- Fivela escleral.
Como prevenir complicações da cirurgia de catarata
A prevenção de complicações na cirurgia de catarata envolve uma abordagem abrangente que começa no pré-operatório e estende-se até o acompanhamento pós-cirúrgico.
Portanto, uma preparação cuidadosa inclui a identificação e o controle de comorbidades como hipertensão, diabetes e doenças cardíacas, que podem aumentar o risco de eventos adversos. Além disso, a comunicação clara entre paciente e cirurgião sobre o uso de medicamentos, especialmente os antagonistas do receptor adrenérgico α1, é fundamental para evitar a síndrome da íris flácida intraoperatória.
Leia mais sobre a preparação de pacientes com diabetes em “Manejo da cirurgia de catarata em pacientes diabéticos: desafios e cuidados essenciais”.
Além disso, durante a cirurgia, o uso de técnicas modernas como a facoemulsificação, o manejo cuidadoso da pressão intraocular e a adoção de medidas assépticas rigorosas — como a aplicação de iodopovidona e o uso de antibióticos intracamerais — são essenciais para reduzir o risco de infecções graves, como a endoftalmite.
No pós-operatório, por sua vez, a prescrição de colírios anti-inflamatórios, o monitoramento da recuperação visual e o acompanhamento em consultas programadas ajudam a detectar precocemente complicações.
Portanto, a combinação entre avaliação clínica criteriosa, técnicas cirúrgicas adequadas e seguimento eficaz contribui para minimizar riscos e otimizar os resultados visuais da cirurgia de catarata
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Embora seja um dos procedimentos mais realizados e seguros da oftalmologia, a cirurgia de catarata pode apresentar desafios sérios: ruptura de cápsula posterior, edema macular, endoftalmite e até descolamento de retina.
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Referências
- JACOBS, D. S. Cataract in adults. UpToDate, 2025.
- MOSHIRFAR, M.; MILNER, D.; PATEL, B. C. Cataract Surgery. National Library of Medicine, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK559253/. Acesso em: 24 mai 2025.
- ZAMAN, F. et al. The Floppy Iris Syndrome – What Urologists and Ophthalmologists Need to Know. Current Urology, 2012







