Comunicação Interventricular (CIV): o guia definitivo de classificação e fechamento

Profissional de saúde com jaleco segurando um modelo anatômico do coração em sala de aula, destacando o septo e grandes vasos para explicar comunicação Interventricular.

Índice

A Comunicação Interventricular (CIV) ocupa lugar central entre as cardiopatias congênitas. Você encontra esse defeito desde o período neonatal até a vida adulta, com apresentações clínicas e hemodinâmicas muito distintas. Por isso, você precisa dominar a anatomia, a classificação e as indicações de fechamento.

Além disso, a ecocardiografia oferece informações essenciais para o manejo, enquanto as estratégias de tratamento, cirúrgicas e percutâneas, evoluem rapidamente. Assim, este guia reúne, de forma prática e objetiva, o conhecimento que todo médico deve aplicar no consultório, na enfermaria e no centro cirúrgico.

O que é Comunicação Interventricular (CIV)?

A CIV corresponde a um defeito no septo ventricular que permite o fluxo de sangue entre os ventrículos. Em recém-nascidos e lactentes, você observa desde pequenos orifícios com repercussão mínima até grandes defeitos com sobrecarga volumétrica importante do ventrículo esquerdo e circulação pulmonar.

Como resultado, surgem taquipneia, dificuldade para ganho ponderal e sinais de insuficiência cardíaca nos quadros significativos. Em contrapartida, CIVs pequenas, em geral, não geram sintomas relevantes e podem fechar espontaneamente.

Epidemiologia e importância clínica da CIV

Entre as malformações cardíacas congênitas, a CIV aparece com alta frequência e representa um dos diagnósticos mais comuns identificados ao nascimento. Clinicamente, você precisa reconhecer que defeitos pequenos costumam evoluir sem intervenção, enquanto defeitos moderados a grandes exigem avaliação precoce para evitar hipertensão pulmonar e outras complicações.

Além disso, a CIV em adultos pode manter repercussão hemodinâmica, associar-se a endocardite, regurgitação aórtica (em defeitos de via de saída) e arritmias, o que reforça o acompanhamento a longo prazo.

Classificação da Comunicação Interventricular

A classificação anatômica direciona a conduta. Você deve identificar a relação do orifício com as estruturas valvares e o septo. Em linhas gerais, adotamos quatro grupos: perimembranosa, muscular, de entrada e de saída. Essa nomenclatura orienta o risco de regurgitação aórtica, bloqueio de condução e a viabilidade de fechamento percutâneo.

Além disso, a ecocardiografia com mapeamento de fluxo colorido facilita a localização precisa. Na imagem abaixo observa-se um ecocardiograma transtorácico bidimensional, com e sem mapeamento de fluxo em cores. No painel esquerdo, o mapeamento em cores demonstra o jato de fluxo esquerdo-direito atravessando o septo, logo apical ao anel aórtico. No painel direito, o defeito do septo ventricular (DSV/CIV) é mostrado sem mapeamento de fluxo em cores (seta).

Fonte: UpToDate, 2025.

CIV perimembranosa

A CIV perimembranosa se localiza próxima ao septo membranoso, junto ao anel tricúspide e às estruturas do feixe de His. Clinicamente, você fica atento ao risco de distúrbios de condução, sobretudo quando considera dispositivo percutâneo ou suturas próximas ao sistema de condução.

Ademais, defeitos perimembranosos com prolapso de cúspide aórtica podem evoluir com insuficiência aórtica progressiva, o que antecipa a indicação de fechamento.

Fonte: UpToDate, 2025.

CIV muscular

A CIV muscular envolve o septo trabeculado e pode ser única ou múltipla (“em peneira”). Em recém-nascidos, você observa altas taxas de fechamento espontâneo, especialmente em defeitos pequenos.

Além disso, a anatomia frequentemente favorece o fechamento percutâneo com dispositivos específicos, quando a repercussão justifica intervenção e a borda muscular oferece ancoragem segura.

CIV de entrada

Localizada próxima às valvas atrioventriculares, a CIV de entrada pode integrar espectros de defeitos do canal atrioventricular. Aqui, você avalia cuidadosamente as valvas mitral e tricúspide, porque alterações de coaptação ou fendas associadas mudam o planejamento cirúrgico.

Assim, a decisão de fechar isola o defeito e, muitas vezes, corrige lesões valvares no mesmo tempo operatório.

CIV de saída

A CIV de saída (ou supracristal/doubly committed) situa-se sob a valva pulmonar e próxima à cúspide aórtica direita. Essa topografia predispõe ao prolapso de cúspide aórtica e à regurgitação aórtica progressiva.

Portanto, você considera fechamento mais precoce quando identifica prolapso ou jato regurgitante, mesmo em defeitos de tamanho moderado.

Diagnóstico da CIV: papel da ecocardiografia

A ecocardiografia transtorácica define o diagnóstico, a localização e o tamanho do defeito, além de estimar o gradiente e a repercussão hemodinâmica. Você deve quantificar dilatação de câmaras esquerdas, pressão pulmonar e relação Qp:Qs de forma integrada com dados clínicos e laboratoriais.

Em lactentes com jato de alta velocidade e câmaras não dilatadas, o achado sugere defeito pequeno com repercussão mínima. Em contrapartida, jato amplo, velocidade menor e sinais de sobrecarga de volume apontam para CIV moderada a grande. Quando necessário, a ecocardiografia transesofágica, a ressonância cardíaca e o cateterismo complementam a avaliação para planejamento terapêutico.

Abaixo, observa-se eletrocardiograma obtido em uma criança com CIV moderada, associada a shunt esquerda-para-direita clinicamente significativo. Observam-se ondas R altas (>25 mm) nas derivações V5 e V6, compatíveis com hipertrofia ventricular esquerda. Além disso, há padrão de bloqueio de ramo direito (Rsr’) nas derivações V1 e V2, sugerindo atraso de condução intraventricular.

Fonte: UpToDate, 2025.

Indicações de fechamento da CIV

Você indica fechamento quando a CIV gera sobrecarga de volume significativa, sintomas persistentes apesar de tratamento clínico otimizado, hipertensão pulmonar em progressão ou complicações específicas como regurgitação aórtica associada a defeitos de via de saída.

Além disso, defeitos moderados a grandes com Qp:Qs elevado, falha de crescimento e infecções respiratórias recorrentes reforçam a necessidade de intervenção. Já no adulto, você considera fatores adicionais: sintomas, repercussão hemodinâmica residual, arritmias e risco de endocardite.

Fechamento cirúrgico

O fechamento cirúrgico permanece como padrão para muitos cenários, sobretudo em defeitos perimembranosos com risco de bloqueio por dispositivo, CIVs de entrada com acometimento valvar e defeitos múltiplos musculares não adequados a dispositivos. Em geral, você realiza a correção com circulação extracorpórea e patch, buscando bordas firmes e distância segura do sistema de condução.

Além disso, o reparo concomitante de regurgitação aórtica, quando presente, evita progressão de lesão valvar. As séries cirúrgicas modernas mostram baixas taxas de mortalidade e bons resultados a longo prazo quando você indica no tempo adequado.

Fechamento percutâneo

O fechamento percutâneo evoluiu e hoje você considera a técnica em CIVs musculares e em alguns perimembranosos selecionados. Como regra, bordas adequadas, distância do aparelho valvar e ausência de prolapso aórtico aumentam a segurança do implante. Além disso, a literatura aponta bons desfechos com dispositivos dedicados, embora você precise ficar atento ao risco de bloqueio AV em perimembranosas e à possibilidade de hemólise ou embolização do dispositivo.

Dessa forma, a seleção criteriosa do caso e a experiência da equipe determinam os resultados.

Quando optar por conduta expectante

Você pode observar defeitos pequenos e assintomáticos porque muitos fecham espontaneamente nos primeiros anos de vida. Nesses casos, o seguimento clínico-ecocardiográfico periódico garante segurança.

Contudo, qualquer sinal de sobrecarga hemodinâmica, dificuldade de ganho ponderal, aumento da pressão pulmonar, prolapso de cúspide aórtica ou infecções de repetição muda a conduta. Assim, você mantém vigilância ativa e define o momento de intervir com precisão.

Prognóstico e acompanhamento a longo prazo

O prognóstico depende do tamanho da CIV, do leito vascular pulmonar e do timing da intervenção. Em crianças, você observa excelente evolução após fechamento adequado, com regressão de dilatação das câmaras esquerdas e retorno da capacidade funcional. Já no adulto com CIV residual ou não tratada, surgem desafios como regurgitação aórtica, arritmias e endocardite. Portanto, o seguimento inclui avaliação clínica, ECG, ecocardiografia seriada e, quando indicado, testes funcionais.

Além disso, você reforça medidas preventivas de endocardite conforme recomendações vigentes para cada perfil de risco.

Considerações finais para a prática clínica

Em resumo, deve-se:

  • Localizar anatomicamente a CIV e estimar repercussão hemodinâmica com ecocardiografia de boa qualidade. Além disso, integre dados clínicos e laboratoriais para calibrar a decisão
  • Reconhecer quando o defeito ameaça a valva aórtica (particularmente nas CIVs de saída) e antecipar o fechamento para evitar lesão valvar irreversível
  • Preferir cirurgia quando a anatomia aumenta o risco de bloqueio de condução com dispositivo, quando há lesão valvar associada ou quando múltiplos orifícios limitam a ancoragem percutânea
  • Considerar fechamento percutâneo em CIV muscular com bordas adequadas e repercussão significativa, desde que a equipe domine a técnica e avalie criteriosamente o risco-benefício
  • Optar por observação ativa em defeitos pequenos e assintomáticos, com seguimento programado e orientação clara à família/paciente.

Além disso, o diálogo entre cardiologia pediátrica, cardiologia de adultos com cardiopatia congênita, cirurgia e hemodinâmica torna o cuidado consistente ao longo da vida.

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Referências

  • FULTON, David R. Isolated ventricular septal defects (VSDs) in infants and children: anatomy, clinical features, and diagnosis. Waltham, MA: UpToDate, [s.d.]. Disponível em UpToDate. Acesso em: 5 out. 2025.
  • CONNOLLY, Heidi M.; AMMASH, Naser M. Management and prognosis of congenital ventricular septal defect in adults. Waltham, MA: UpToDate, 7 fev. 2023. Disponível em UpToDate. Acesso em: 5 out. 2025.
  • CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). About ventricular septal defect. Atlanta, GA: CDC, 19 out. 2024. Disponível em: https://www.cdc.gov/heart-defects/about/ventricular-septal-defect.html. Acesso em: 5 out. 2025.

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