O dedo em gatilho, também conhecido como tenossinovite flexora estenosante, ocorre devido a um desequilíbrio entre o tamanho dos tendões flexores e a estrutura de polias ao redor da primeira polia anular (A1), localizada sobre a articulação metacarpofalângica (MCP).
Essa discrepância leva ao travamento do tendão flexor ao passar por uma bainha estreitada, dificultando o movimento suave de flexão e extensão do dedo. Nos casos mais graves, o dedo pode permanecer fixo em uma dessas posições, exigindo manipulação passiva para restaurar o movimento.
Epidemiologia do dedo em gatilho
O dedo em gatilho apresenta dois picos de incidência: o primeiro ocorre antes dos 8 anos em crianças, enquanto o segundo acontece em adultos entre 40 e 50 anos.
No geral, a condição é mais frequente em adultos. Em crianças, a probabilidade de acometimento é semelhante entre meninos e meninas, sendo o polegar o dedo mais afetado. Já em adultos, a condição é mais comum em mulheres e tende a ocorrer na mão dominante.
Fisiopatologia do dedo em gatilho
O uso repetitivo ou a aplicação de forças de compressão podem gerar microtraumas que resultam em inflamação e lesão no complexo formado pelo tendão flexor e sua bainha. A polia A1 é a estrutura mais comumente acometida, pois suporta a maior carga de força.
Com a inflamação persistente, o tendão pode aderir à bainha, causando uma sensação de “travamento” no paciente. Como o sistema do tendão flexor é mais forte que o do tendão extensor, a flexão dos dedos geralmente não é prejudicada. Entretanto, a inflamação faz com que o tendão flexor fique preso na bainha durante a extensão, resultando em uma dificuldade ao tentar estender os dedos.
Para saber mais sobre outras patologias, recomendamos o conteúdo “Manifestações clínicas de pacientes com patologias de mão e punho“.

Fatores de risco e condições associadas ao dedo em gatilho
Em adultos, o dedo em gatilho pode estar relacionado a comorbidades específicas, como diabetes, amiloidose, síndrome do túnel do carpo, gota, disfunções da tireoide e artrite reumatoide.
A exposição a forças traumáticas contribui para a hipertrofia e inflamação do tendão e de sua bainha, dificultando seu deslizamento suave e resultando em episódios de bloqueio e estalidos. Além disso, alterações anatômicas locais, como a inserção anômala de um lumbrical na polia A1, também podem desencadear a condição.
Em crianças, por sua vez, acredita-se que a origem do problema esteja relacionada ao desenvolvimento, sendo causada por um desajuste entre o tamanho do tendão flexor do polegar e sua bainha tendinosa. A proliferação excessiva de fibroblastos gera um desequilíbrio entre as dimensões do tendão e da bainha da polia A1.
Ademais, apesar de a maioria dos casos infantis ocorrer sem causa específica, algumas condições metabólicas congênitas, como a síndrome de Hurler, e inflamatórias, como a artrite reumatoide juvenil, podem estar associadas ao quadro.
Diagnóstico do dedo em gatilho
O diagnóstico de dedo em gatilho é fundamentado, principalmente, no histórico de travamento ou estalido ao movimentar o dedo, o que pode ser evidenciado no exame físico. Para isso, solicita-se que o paciente abra e feche completamente a mão, com as palmas voltadas para cima, enquanto flexiona e estende ativamente os dedos, tentando reproduzir o travamento.
Caso o bloqueio ativo não esteja presente, o examinador pode palpar a articulação interfalângica proximal durante o movimento, buscando identificar qualquer perda de fluidez ou sensação de estalido. Além disso, vale ressaltar que o travamento pode não ocorrer a cada repetição do movimento.
Outros achados clínicos incluem dor ou sensibilidade na base do dedo, especialmente sobre o tendão ao nível da articulação metacarpofalângica. Também pode haver a presença de um nódulo sensível, indicativo de espessamento do tendão.
Exames de imagem
O ultrassom é a principal modalidade de imagem para avaliar essa condição, permitindo tanto a análise estática quanto dinâmica do dedo em gatilho e possibilitando a comparação com os dedos normais adjacentes.
Embora essa técnica identifique espessamento da polia, inflamação e irregularidades no tendão flexor, sua precisão na determinação exata da localização pode ser limitada. Além disso, o ultrassom dinâmico pode demonstrar os fenômenos de captura e estalido durante o movimento do tendão.
Já as radiografias simples são úteis para excluir outras possíveis causas, como fraturas ocultas, tornando a ressonância magnética (RM) e a tomografia computadorizada (TC) geralmente dispensáveis para o diagnóstico do dedo em gatilho.
Tratamento do dedo em gatilho
Os principais objetivos do tratamento do dedo em gatilho são aliviar a dor e restaurar a mobilidade normal do dedo, permitindo flexão e extensão suaves. Para isso, as opções terapêuticas variam desde abordagens conservadoras até intervenções mais invasivas, dependendo da gravidade dos sintomas.
Abordagens conservadoras
O tratamento geralmente começa com medidas conservadoras, como modificação de atividades, imobilização e o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) por um curto período.
Se não houver melhora após quatro a seis semanas de terapia conservadora, recomenda-se uma injeção de glicocorticoide. Essa injeção, geralmente composta por um glicocorticoide de ação intermediária associado a um anestésico local, pode ser repetida após seis semanas caso os sintomas não tenham melhorado em pelo menos 50%. No entanto, o máximo recomendado é de três aplicações.
As injeções de glicocorticoide podem causar efeitos adversos, como atrofia do tecido, alterações na coloração da pele, hipopigmentação e infecção. Além disso, aplica-se essas injeções com base em marcos clínicos, sem auxílio de imagem, ou com orientação por ultrassonografia, que proporciona melhores desfechos clínicos e permite um retorno mais rápido às atividades profissionais.
Técnicas cirúrgicas
Recomenda-se a cirurgia apenas para aqueles pacientes que não apresentam melhora após o tratamento conservador e uma ou duas injeções de glicocorticoide. As principais técnicas cirúrgicas incluem a liberação cirúrgica aberta e a liberação percutânea da polia A1.
Liberação aberta
O tratamento cirúrgico padrão para o dedo em gatilho é a liberação aberta da polia A1, indicada principalmente quando não há melhora com medidas conservadoras, quando o dedo está irredutivelmente travado ou em casos pediátricos, especialmente no polegar, para evitar deformidades fixas.
O procedimento consiste em uma incisão cutânea transversal para expor a polia flexora, afastamento cuidadoso dos nervos digitais e secção longitudinal da polia para liberar o tendão. Após sutura, aplica-se um curativo estéril, sem necessidade de imobilização.
Liberação percutânea
A liberação percutânea da polia A1, por sua vez, surge como uma alternativa, exigindo precisão anatômica para evitar complicações, como danos aos nervos digitais e liberação incompleta. Embora tenha uma taxa de sucesso de 87%, apresenta maiores chances de falha nos dedos indicador, médio e anular.
A técnica percutânea envolve a posição do paciente com a mão em supinação, marcação da pele, infiltração de anestésico local e a inserção de uma agulha hipodérmica perpendicular à polia A1. Confirma-se o posicionamento correto da agulha pela movimentação do dedo, seguido por movimentos longitudinais para seccionar a polia. A liberação é confirmada por flexoextensão ativa do dedo, repetindo o procedimento se necessário. Após a retirada da agulha, um curativo é aplicado sem necessidade de imobilização, recomendando-se repouso da mão e aplicação de gelo.
Complicações cirúrgicas
As complicações cirúrgicas são raras, mas podem incluir infecção, lesão do nervo digital, aderências tendinosas e cicatrização anormal.
Reabilitação e recuperação funcional
A maioria dos pacientes retorna a atividades leves, como vestir-se, comer ou realizar trabalho sedentário, em poucos dias após a cirurgia, enquanto atividades mais intensas podem levar uma ou duas semanas. O tempo médio de recuperação total pode chegar a seis meses.
Prognóstico
O prognóstico do dedo em gatilho é positivo quando o tratamento é adequado. Embora muitos pacientes apresentem uma boa resposta às injeções de corticosteroides, alguns casos podem regredir espontaneamente caso a condição subjacente seja controlada.
Pacientes diabéticos tendem a responder de forma menos satisfatória ao tratamento com corticosteroides e, frequentemente, necessitam de intervenção cirúrgica.
Ademais, a liberação cirúrgica da polia A1 possui uma elevada taxa de sucesso e é recomendada para aqueles que não obtêm melhora com as injeções.
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Referências
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