Tudo que você precisa saber sobre o diabetes infantil!
O diabetes mellitus é uma doença crônica considerada uma epidemia global, podendo acometer todas as faixas etárias, incluindo crianças. Caracteriza-se como uma condição onde ocorre grande concentração de glicose no sangue.
Epidemiologia do diabetes infantil
O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma das doenças crônicas mais frequentes na infância, sendo três quartos dos casos de DM1 diagnosticados nesta fase.
Sua incidência depende de fatores como localização, idade, sexo, etnia e história familiar. Portanto, observa-se distribuição bimodal com relação a idade, com um primeiro pico entre quatro e seis anos de idade e um segundo pico durante a puberdade, entre 10 e 14 anos. Além isso, verifica-se uma maior incidência no sexo masculino.
Em 2019, o Brasil ocupava o terceiro lugar no ranking mundial, com 51.500 casos de diabetes infantil e 7.300 casos novos por ano. Ademais, sugere-se que a incidência de DM1 infantil tem aumentado em todo o mundo nos últimos anos.
Com relação à diabetes mellitus tipo 2, observa-se aumento da incidência em pacientes jovens desde o início dos anos 1990 e isso relaciona-se com o aumento da obesidade infantil em todo o mundo.
Apresentação clínica do diabetes infantil
Os sinais e sintomas típicos de hiperglicemia são:
- Poliúria;
- Polidipsia;
- Polifagia;
- Perda de peso inexplicada;
- Desidratação.
Entretanto, com frequência os sinais e sintomas sugestivos de hiperglicemia são ausentes em pacientes com diabetes infantil. Diante disso, testam-se os indivíduos assintomáticos apenas quando houver fatores de risco ou detecção de glicosúria em análise de urina como parte de um exame de rotina.
Ademais, o diabetes infantil também pode apresentar-se como cetoacidose diabética (CAD) ou estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH).
Cetoacidose diabética
Define-se a cetoacidose diabética (CAD) como uma associação de hiperglicemia, cetonúria e acidose. Essa complicação manifesta-se com poliúria, polidipsia, fadiga e letargia e, devido à sua gravidade, requer hospitalização, reidratação e reposição de insulina.
Estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH)
Considera-se o estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH), por sua vez, como uma emergência médica pouco comum em crianças e adolescentes com DM2.
Pacientes com esta condição apresentam-se com:
- Hiperglicemia acentuada – glicemia plasmática maior que 600 mg/dL;
- Hiperosmolalidade – osmolalidade sérica maior que 330 mOsm/kg;
- Desidratação grave;
- Pouca ou nenhuma cetonúria.
Diagnóstico do diabetes infantil
Estabelece-se o diagnóstico de diabetes infantil através da identificação de hiperglicemia e, para isso, utiliza-se os seguintes exames:
- Glicemia de jejum (GJ);
- Teste de tolerância à glicose por via oral (TTGO);
- Hemoglobina glicada (HbA1c).
Empregam-se os seguintes critérios para o diagnóstico de diabetes mellitus:
- GJ maior ou igual a 126 mg/dL;
- Glicemia do TTGO-1h maior ou igual a 209 mg/dL;
- Glicemia do TTGO-2h maior ou igual a 200 mg/dL;
- HbA1c maior ou igual a 6,5%.
Em caso de alteração de algum desses exames, repete-se o mesmo para confirmação do diagnóstico de diabetes mellitus. Entretanto, se houver presença de sintomas típicos de hiperglicemia, recomenda-se que o diagnóstico seja dado quando apenas uma glicemia plasmática ao acaso for maior ou igual a 200 mg/dL.
Além disso, estabelece-se o diagnóstico de DM quando há alteração na GJ e na HbA1c de forma simultânea, ou seja, GJ maior ou igual a 126 mg/dL e HbA1c maior ou igual a 6,5%.
Distinção entre DM1 e DM2
Difere-se o DM1 e o DM2 através da combinação entre apresentação clínica, histórico e exames laboratoriais.
Portanto, as principais diferenças na apresentação clínica são:
- Pacientes com DM2 normalmente têm obesidade, enquanto que crianças com DM1 frequentemente apresentam história de perda de peso;
- Além disso, o DM2 ocorre mais comumente após a puberdade, enquanto que o DM1 apresenta-se com maior frequência antes dos 10 anos de idade;
- Por fim, indivíduos com DM2 manifestam-se frequentemente com acantose nigricans, hipertensão, dislipidemia e síndrome do ovário policístico.
No que se refere ao histórico familiar, cerca de 10% dos pacientes com DM1 possuem um parente próximo afetado pela doença, enquanto que entre 75% e 90% dos pacientes com DM2 têm um familiar próximo que também é afetado. Ou seja, o histórico familiar é mais importante no DM2.
Por fim, inclui-se os seguintes testes laboratoriais na investigação acerca do tipo de diabetes:
- Autoanticorpos pancreáticos – autoanticorpos contra GAD65 (descarboxilase do ácido glutâmico 65), IA2 (o fragmento 40K da tirosina fosfatase), insulina e ZnT8 (transportador de zinco 8) podem estar presentes em pacientes com DM1.
- Nível de insulina e peptídeo C – altos níveis sugerem DM2.
Triagem
Indica-se triagem para crianças e adolescentes assintomáticos com os seguintes critérios:
- Sobrepeso ou obesidade (índice de massa corporal maior ou igual a percentil 85);
- Um ou mais dos seguintes fatores de risco adicionais: DM2 em familiar de primeiro ou segundo grau; grupo racial/étnico de alto risco (nativo americano, afro-americano, latino, asiático, entre outros); história de diabetes materno ou diabetes gestacional; sinais ou condições associadas à resistência à insulina; uso atual de antipsicótico atípico promotor de peso.
Começa-se a triagem no início da puberdade e, para a realização da mesma, utiliza-se HbA1c e/ou glicemia de jejum. Em pacientes com obesidade grave, evidência de resistência à insulina ou com resultados limítrofes, repete-se a triagem anualmente.
Importância do diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce de diabetes infantil, especialmente DM2, torna-se importante devido à necessidade de tratamento como forma de diminuir o risco de doença cardiovascular na vida adulta.
Além disso, a identificação precoce de crianças com pré-diabetes pode prevenir ou retardar o início do DM2 através de intervenções no estilo de vida.
Tratamento do diabetes infantil
Divide-se o tratamento do diabetes infantil em tratamento do DM1 e tratamento do DM2. Nos tópicos abaixo, veremos como é realizado o manejo em cada um dos tipos, bem como as peculiaridades do tratamento da criança com DM e as inovações em saúde.
Tratamento do DM1
A administração de insulina consiste no principal tratamento para os pacientes com DM1, devendo ser adaptada para cada paciente e ajustada conforme o teste de glicemia. Assume-se que 50% da secreção de insulina ocorre de forma basal, distribuída ao longo do dia, enquanto os outros 50% são pós-prandial, ou seja, em resposta às refeições.
Recomenda-se, portanto, o uso de insulinas basais para o componente basal e insulinas prandiais para o componente prandial, de preferência análogos de ação rápida ou ultrarrápida.
A abordagem para administração de insulina inclui:
- Múltiplas doses de insulina (MDI);
- Bomba de infusão de insulina (sistema de infusão contínua de insulina – SICI).
Metas
Recomenda-se uma meta de HbA1c menor que 7% para um controle glicêmico adequado. Para isso, as metas de glicemia são entre 70 e 144 mg/dL antes das refeições e entre 70 e 180 mg/dL no geral.
Peculiaridades do tratamento da criança com DM1
Alguns desafios apresentam-se como peculiares ao tratamento da faixa etária pediátrica, entre eles:
- Irregularidades no padrão de alimentação, sono e atividade física;
- Necessidade de doses menores de insulina;
- Maior risco de hipoglicemia noturna;
- Maior variabilidade glicêmica;
- Dificuldade de crianças menores referirem sintomas de hipoglicemia.
Bombas de infusão de insulina e monitoramento contínuo da glicemia
As bombas de infusão de insulina funcionam através da administração de uma taxa basal de insulina de ação rápida por via subcutânea e também da administração de bolus pré-refeição, minimizando o aumento da glicemia pós-prandial.

O monitoramento contínuo da glicemia (MCG), por sua vez, é realizado através de um sensor subcutâneo que mede de forma contínua os níveis de glicose do fluido intersticial, fornecendo um feedback de forma instantânea ao paciente/cuidador.
Os tipos de bomba de infusão de insulina incluem:
- Terapia de bomba autônoma sem monitoramento contínuo de glicose;
- Terapia de bomba combinada com monitoramento contínuo de glicose (bombas aumentadas por sensor) – o paciente/cuidador utiliza os valores de glicose para ajustar manualmente a dose de insulina administrada pela bomba.
- Bombas orientadas por algoritmo – sistemas que usam os valores de glicose do sensor e determinam automaticamente as taxas de administração de insulina.
Recomenda-se a utilização da bomba de insulina como método de preferência para crianças de todas as idades com DM1, devido ao melhor controle glicêmico e menor risco de hipoglicemia grave que este método pode proporcionar.
Por fim, o monitoramento contínuo da glicemia também é recomendado em todas as idades pediátricas, devido ao seu potencial de auxiliar no alcance das metas glicêmicas, melhorar o controle glicêmico e diminuir o risco de complicações como a cetoacidose diabética.
Outros tratamentos
O controle glicêmico pode ser afetado pelo estilo de vida adotado pelo paciente. Dessa forma, também recomenda-se para o tratamento mudanças no estilo de vida, ou seja, terapia nutricional e atividade física. Além disso, fatores psicossociais também são importantes na terapêutica do DM1.
Tratamento do DM2
Objetiva-se com o tratamento do DM2 em uma criança ou adolescente:
- Manter um controle glicêmico;
- Melhorar a sensibilidade à insulina;
- Identificar e tratar comorbidades, como, por exemplo, hipertensão, dislipidemia e doença hepática esteatótica;
- Prevenir complicações cardiovasculares.
Para isso, divide-se o tratamento em terapia não farmacológica e terapia farmacológica. É necessário, ainda, realizar monitoramento laboratorial da glicemia e ajustar as doses das medicações conforme necessário.
Terapia não farmacológica
O principal componente do tratamento do DM2 em crianças e adolescentes é a redução de peso corporal. Dessa forma, mudanças do estilo de vida devem ser iniciadas em pacientes pediátricos com essa doença e inclui:
- Terapia nutricional;
- Perda de peso, com uma meta de redução de 7 a 10% do peso corporal;
- Atividade física.
Saiba mais: Como fazer os cálculos de necessidades nutricionais pediátricas?
Terapia farmacológica
Recomenda-se iniciar o tratamento da DM2 através da monoterapia com metformina em pacientes com disglicemia moderada. Todavia, nos casos de hiperglicemia grave ou características mistas de DM2 e DM1, aconselha-se realizar a associação com insulina.
Os agonistas do peptídeo semelhante ao glucagon (GLP-1), por sua vez, consistem em agentes de segunda linha e apresentam benefícios na redução de peso e no controle glicêmico. São indicados, portanto, quando os pacientes não atingem as metas glicêmicas durante a monoterapia.
Impacto na vida das crianças com diabetes infantil
O diagnóstico de diabetes apresenta impacto em diversas áreas da vida das crianças. Psicologicamente, pode manifestar-se por depressão e ansiedade. Socialmente, as crianças também podem enfrentar desafios nas interações sociais por se sentirem diferentes dos demais.
Dessa forma, torna-se importante encorajar a participação em atividades escolares com o objetivo de promover relacionamentos normais com os colegas e assegurar a regularidade na frequência escolar. Além disso, recomenda-se a triagem para distúrbios comportamentais e discussão sobre questões psicossociais durante o atendimento dessas crianças.
Inovações e pesquisas no contexto do diabetes infantil
Devido ao seu alcance global, o diabetes contribui para a origem de um grande volume de informações e dados que podem ser armazenados na nuvem. Esses dados, quando conectados a uma plataforma digital, formam um Big Data que, ao ser analisado por Computação Cognitiva, cria algoritmos capazes de melhorar as intervenções em diabetes.
Nesse sentido, alguns exemplos de inovações no contexto do diabetes incluem:
- Monitorização contínua de glicose – captura dos dados pelo sensor e envio para a nuvem, podendo ser utilizados para a construção de sistemas.
- Telemedicina – prestação de serviços de saúde por profissionais utilizando tecnologias de informação e comunicação para compartilhar conhecimento.
- Retina Risk App – sistema para cálculo e estratificação do risco de desenvolvimento de retinopatia diabética.
- Terapias digitais – plataformas para gestão de cuidados em diabetes, que podem ser autônomas ou supervisionadas por profissionais de saúde, utilizando websites, aplicativos e smartphones.
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