Avanços no diagnóstico da doença arterial obstrutiva periférica com ecografia vascular
A doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) caracteriza-se pela obstrução progressiva das artérias dos membros, especialmente os inferiores.
Essa condição está associada a um risco aumentado de eventos cardiovasculares maiores, perda de funcionalidade e amputações, sendo um importante problema de saúde pública, principalmente em populações idosas e com fatores de risco como tabagismo, diabetes e hipertensão.
Nos últimos anos, os avanços nas técnicas de imagem não invasivas, especialmente na ecografia vascular com Doppler, têm revolucionado o diagnóstico da DAOP. Esse método destaca-se por ser acessível, seguro, de baixo custo e altamente sensível na identificação de estenoses e oclusões arteriais, permitindo uma avaliação detalhada da hemodinâmica e da anatomia vascular.
Introdução à DAOP
A doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) compromete a circulação sanguínea dos membros inferiores devido à redução da perfusão arterial, frequentemente referida como “má circulação”.
Na maioria dos casos, isso ocorre pela formação de placas ateroscleróticas que estreitam o lúmen das artérias, limitando o fluxo sanguíneo para as regiões distais. Essa limitação pode provocar dor na panturrilha ou coxa durante a caminhada, causada pela isquemia muscular induzida pelo esforço, quadro conhecido como claudicação intermitente.
Contudo, muitos pacientes não relatam sintomas típicos, podendo ter sinais atípicos ou mesmo serem assintomáticos, enquanto outros apresentam quadros mais graves que exigem intervenções emergenciais para preservar o membro afetado.
Mesmo sem sintomas, o diagnóstico de DAOP é de grande relevância clínica, pois indica a presença de aterosclerose sistêmica e associa-se a um risco cardiovascular semelhante ao de pessoas com infarto do miocárdio prévio. Por isso, é fundamental adotar estratégias intensivas de controle dos fatores de risco cardiovascular para melhorar o prognóstico desses pacientes.
Etiologia e fatores de risco da DAOP
A principal causa da DAOP é a aterosclerose, embora outras condições também possam estar envolvidas, como inflamações nos vasos sanguíneos, traumas ou até exposição à radiação.
Entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença estão:
- Presença de diabetes;
- Tabagismo;
- Obesidade;
- Hipertensão arterial sistêmica;
- Níveis elevados de colesterol;
- Envelhecimento, especialmente após os 50 anos;
- Histórico familiar de doenças cardiovasculares;
- Concentrações aumentadas de homocisteína, um aminoácido que, em concentrações elevadas, está associado à disfunção endotelial e ao aumento do risco cardiovascular.
Epidemiologia da DAOP
A DAOP afeta mais de 200 milhões de adultos no mundo, sendo especialmente comum em pessoas acima dos 70 anos, faixa etária na qual sua prevalência pode chegar a 20%.
Embora historicamente associada ao sexo masculino, estudos mostram que homens e mulheres idosos são afetados em proporções semelhantes.
Além disso, entre os fatores de risco, o tabagismo destaca-se por aumentar em até quatro vezes a chance de desenvolver a doença e por estar diretamente relacionado a quadros mais graves, incluindo isquemia crítica e amputações.
Manifestações clínicas da DAOP
As manifestações clínicas da DAOP variam amplamente, podendo incluir desde dor típica induzida por esforço até ausência completa de sintomas.
O sintoma mais clássico é a claudicação intermitente, caracterizada por dor ou desconforto muscular em regiões específicas dos membros inferiores durante a caminhada, aliviada com o repouso. Essa dor resulta de um desequilíbrio entre o suprimento e a demanda de oxigênio nos músculos, e sua localização pode indicar o ponto da obstrução arterial.
Nos casos mais avançados, pode ocorrer dor isquêmica em repouso, especialmente nos dedos e antepé, frequentemente à noite. Além disso, essa dor pode ser agravada por úlceras isquêmicas ou gangrena e tende a melhorar com o posicionamento do pé em declive.
Ademais, alguns pacientes apresentam sintomas atípicos ou permanecem assintomáticos. Isso é mais comum em pessoas com comorbidades como diabetes, neuropatias periféricas ou limitações funcionais, o que dificulta a percepção da dor típica de esforço.
Diagnóstico da DAOP
Para confirmar a presença de estenose ou oclusão arterial, geralmente decorrente da DAOP, recomenda-se a realização do índice tornozelo-braquial (ITB) em repouso.
Esse exame deve ser indicado tanto para pacientes que apresentam sintomas nos membros inferiores durante o esforço físico quanto para aqueles com fatores de risco para DAOP.
Todavia, apesar de simples, seguro, não invasivo e econômico, o ITB só apresenta resultados alterados quando há lesões arteriais avançadas que causam redução da pressão sistólica no tornozelo. Portanto, o uso da ecografia tem sido adotado para a investigação da doença em todos os estágios, incluindo os iniciais.
Nesse contexto, a ecografia vascular com Doppler (ecodoppler) é uma ferramenta altamente precisa para identificar quais vasos estão normais, estenóticos ou obstruídos. Ele é muito eficaz na determinação da localização exata e da gravidade da estenose arterial.
Fundamentos da ecografia vascular arterial
A ecografia duplex é a principal técnica inicial não invasiva para avaliar suspeitas de estenose ou obstrução arterial, especialmente nas artérias aortoilíacas e femorais. Ela permite identificar a gravidade, localização e extensão da lesão por meio da medição da velocidade sistólica de pico (PSV), análise das formas de onda e avaliação do fluxo sanguíneo.
Princípios gerais
A ecografia em tempo real utiliza ondas sonoras refletidas para gerar imagens e medir a velocidade do fluxo sanguíneo.
Os modos mais comuns empregados na avaliação vascular são o modo B (imagens em brilho) e o modo Doppler (que combina a imagem em modo B com a detecção do fluxo sanguíneo). Além desses, existem outras modalidades, como o Doppler de potência, o ultrassom tridimensional e o ultrassom com contraste.
Saiba mais em “Princípios do ecodoppler vascular em membros: como realizar um exame de qualidade“!
Modo B
O modo B utiliza ecos sonoros para formar imagens em escala de cinza e permite avaliar estruturas anatômicas e detectar estreitamentos (estenoses) ou interrupções do lúmen vascular (oclusões).
A qualidade das imagens obtidas no modo B está diretamente relacionada à intensidade dos ecos gerados pelo retorno das ondas sonoras e à medida que essas ondas atravessam os tecidos, sua intensidade é gradualmente reduzida e dispersa. Para otimizar a captação desses ecos, o ideal é utilizar um ângulo de insonação de 90°.
Ademais, ondas sonoras de maior frequência oferecem uma resolução lateral superior em relação às de menor frequência. Por isso, transdutores de alta frequência são preferidos para gerar imagens mais detalhadas de estruturas superficiais, especialmente quando utilizados com um ângulo de insonação de 90°.
Modo Doppler
O modo Doppler na ecografia colorida mostra o movimento do sangue em diferentes direções, usando cores para indicar o sentido do fluxo. Portanto, é essencial para identificar o fluxo sanguíneo dentro dos vasos, complementando a imagem anatômica do modo B.
Ele analisa a variação de frequência entre as ondas sonoras emitidas e refletidas, causada pelo movimento dos glóbulos vermelhos, o que permite estimar a velocidade do fluxo.
No padrão de cores, o fluxo que se aproxima do transdutor aparece em vermelho, enquanto o que se afasta é mostrado em azul, sendo essas cores indicativas e ajustáveis pelo operador, sem representar com exatidão se o fluxo é arterial ou venoso.
Além disso, as formas de onda Doppler incluem: monofásica, bifásica e trifásica.
Sinais ultrassonográficos da DAOP
Estenoses e oclusões
Na ecografia, estenoses são identificadas por um estreitamento do lúmen arterial no modo B, associado a aumento da velocidade do fluxo sanguíneo no modo Doppler.
Já nas oclusões arteriais, observa-se ausência de fluxo no modo colorido e no Doppler espectral, com possível visualização de colaterais ao redor da lesão.
Velocidade e turbulência do fluxo
A velocidade do fluxo sanguíneo é um dos principais indicadores de estenose. Com o uso do modo Doppler, observa-se que o aumento da velocidade no ponto de estreitamento do vaso é proporcional à gravidade da obstrução.
Além disso, a turbulência do fluxo, percebida tanto visualmente nas imagens coloridas quanto auscultada por meio do Doppler espectral, é um sinal clássico de alterações hemodinâmicas significativas, especialmente nas áreas de transição entre segmentos normais e estenosados.
Ademais, a presença de fluxo reverso diminuído ou ausente e aumento do fluxo diastólico tardio distal à estenose sugerem uma vasodilatação compensatória e redução da resistência periférica
Classificação da gravidade pela ecografia
A gravidade da estenose pode ser quantificada comparando a velocidade do fluxo no ponto de estreitamento com uma área normal do vaso. Portanto, quando essa razão é superior a 4, isso sugere uma obstrução maior que 75% nas artérias periféricas.
Além disso, a análise das formas de onda Doppler fornece pistas sobre a gravidade e extensão da doença arterial:
- Trifásica: padrão normal, com fluxo pulsátil característico.
- Bifásica: indica obstrução em um único nível arterial.
- Monofásica: sugere obstrução em múltiplos níveis, com perda da pulsatilidade e ausência de reversão do fluxo.
Avanços tecnológicos: Doppler colorido e espectral
Os avanços tecnológicos na ultrassonografia vascular incluem o uso do modo Doppler colorido e espectral, que ampliam significativamente a capacidade diagnóstica do exame.
O Doppler colorido permite a visualização do fluxo sanguíneo em tempo real, sobrepondo informações de movimento à imagem em modo B. Como já mencionado, essa técnica diferencia o sentido do fluxo com cores convencionais: vermelho para o fluxo em direção ao transdutor e azul para o fluxo afastando-se dele.
Já o Doppler espectral fornece uma análise detalhada da velocidade e padrão do fluxo sanguíneo ao longo do tempo. Ele transforma as mudanças de frequência geradas pelo movimento das células sanguíneas em formas de onda que indicam se há alterações hemodinâmicas, como aumento da velocidade, perda de componentes de fluxo reverso ou padrões anormais de pulsação, que ajudam na classificação da gravidade de estenoses ou oclusões.
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Referências
- MITCHELL, E. L. Noninvasive diagnosis of upper and lower extremity arterial disease. UpToDate, 2025.
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- ZEMAITIS, M. R.; BOLL, J. M.; DREYER, M. A. Peripheral Arterial Disease. National Library of Medicine, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430745/. Acesso em 07 jun 2025.






