As doenças mais comuns na UTI estão em grande parte relacionadas a condições agudas graves que levam à instabilidade hemodinâmica, insuficiência respiratória, alterações neurológicas ou disfunções metabólicas importantes, exigindo monitorização contínua e suporte intensivo.
Entre os principais quadros observados destacam-se processos infecciosos sistêmicos, síndromes cardiovasculares agudas, comprometimento respiratório grave, insuficiência renal aguda e emergências neurológicas.
O reconhecimento rápido dessas condições, aliado à aplicação de protocolos baseados em evidências e à atuação multidisciplinar, é essencial para reduzir complicações e melhorar o prognóstico dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva adultas.
Sepse e choque séptico
A sepse é uma síndrome clínica que se caracteriza por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção, capaz de evoluir para disfunção orgânica potencialmente fatal.
Trata-se de um espectro de gravidade que varia desde a sepse até o choque séptico, condição associada à persistência de hipotensão e hipoperfusão tecidual mesmo após adequada reposição volêmica. O conceito atual de sepse enfatiza a disfunção orgânica decorrente de uma resposta inflamatória inadequada frente à infecção.
Principais focos infecciosos
Os focos infecciosos mais frequentemente associados à sepse incluem:
- Pneumonia (principal causa em pacientes críticos);
- Infecções do trato urinário;
- Infecções intra-abdominais;
- Infecções de pele e partes moles;
- Infecções relacionadas a dispositivos invasivos, como cateteres vasculares.
Os microrganismos mais comuns são bactérias gram-negativas e gram-positivas, destacando-se Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Klebsiella pneumoniae e Streptococcus pneumoniae, embora fungos e vírus também possam estar envolvidos em pacientes imunossuprimidos ou com sepse nosocomial.
Abordagem inicial
O manejo da sepse é tempo-dependente e deve ser iniciado imediatamente após a suspeita diagnóstica. As medidas iniciais seguem o princípio da estabilização das funções vitais e do controle da infecção, incluindo:
- Estabilização das vias aéreas e da respiração: A oxigenoterapia deve ser iniciada em pacientes com hipóxia, com monitorização contínua da saturação periférica de oxigênio. Ademais, em casos de insuficiência respiratória ou rebaixamento do nível de consciência, pode ser necessária intubação orotraqueal e ventilação mecânica.
- Estabelecimento de acesso venoso e ressuscitação volêmica: A reposição inicial recomendada consiste em cristaloides intravenosos na dose de aproximadamente 30 mL/kg nas primeiras horas, com reavaliação clínica frequente da perfusão tecidual.
- Coleta de exames laboratoriais e culturas: Devem ser solicitados rapidamente hemograma, eletrólitos, função renal, função hepática, lactato sérico e culturas (especialmente hemoculturas), sem atrasar o início do tratamento.
- Antibioticoterapia empírica precoce: A administração de antibióticos de amplo espectro deve ocorrer preferencialmente na primeira hora após a suspeita de sepse, sendo posteriormente ajustada conforme resultados microbiológicos e evolução clínica.
- Uso de vasopressores quando necessário: Nos casos de hipotensão persistente após reposição volêmica adequada, recomenda-se iniciar vasopressores, sendo a noradrenalina considerada agente de primeira linha.
Além disso, a identificação e o controle do foco infeccioso (como drenagem de abscessos ou retirada de dispositivos infectados) são etapas fundamentais para a resolução do quadro.
Nesse contexto, o reconhecimento precoce da sepse e a implementação rápida de protocolos estruturados continuam sendo determinantes para a redução da mortalidade, reforçando a importância da abordagem sistematizada no ambiente da terapia intensiva.
Insuficiência respiratória aguda
A insuficiência respiratória aguda é uma condição clínica grave que caracteriza-se pela incapacidade súbita do sistema respiratório de manter trocas gasosas adequadas, resultando em hipoxemia, hipercapnia ou ambas.
Esse quadro pode surgir rapidamente e representa uma emergência médica, pois compromete a oxigenação dos tecidos e o equilíbrio ácido-base, podendo evoluir para falência de múltiplos órgãos se não tratado precocemente.
Do ponto de vista fisiopatológico, a insuficiência respiratória aguda ocorre quando há falha em um ou mais componentes envolvidos na ventilação e na oxigenação, incluindo vias aéreas, parênquima pulmonar, circulação pulmonar, músculos respiratórios ou controle neurológico da respiração. Portanto, as causas são diversas e incluem doenças pulmonares infecciosas, processos inflamatórios difusos, exacerbações de doenças crônicas, eventos tromboembólicos e alterações neuromusculares.
A avaliação inicial deve ser rápida e sistematizada, com foco na estabilidade das vias aéreas, respiração e circulação. Dessa forma, a gasometria arterial é fundamental para confirmar o diagnóstico e diferenciar os tipos de insuficiência respiratória. Além disso, exames de imagem, especialmente radiografia ou tomografia de tórax, auxiliam na identificação da causa.
O tratamento baseia-se em duas estratégias principais: suporte ventilatório e abordagem da etiologia subjacente. Assim, a oxigenoterapia é frequentemente necessária, podendo evoluir para ventilação não invasiva ou ventilação mecânica invasiva nos casos mais graves.
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Pneumonia grave
A pneumonia grave representa uma forma crítica das pneumonias, especialmente as adquiridas na comunidade ou no ambiente hospitalar. Portanto, caracteriza-se por comprometimento intenso do parênquima pulmonar e risco elevado de insuficiência respiratória e sepse.
Nesses casos, a resposta inflamatória pulmonar é extensa, levando ao preenchimento dos alvéolos por secreções e células inflamatórias, o que reduz significativamente as trocas gasosas e pode provocar hipoxemia progressiva.
Clinicamente, os pacientes podem apresentar:
- Febre alta;
- Tosse produtiva;
- Dispneia importante;
- Dor torácica;
- Sinais de instabilidade sistêmica, como hipotensão, taquicardia e alteração do nível de consciência.
A presença de hipoxemia persistente, necessidade de ventilação mecânica ou suporte vasopressor indica maior gravidade e geralmente justifica internação em unidade de terapia intensiva.
O tratamento deve ser iniciado precocemente e inclui antibioticoterapia empírica de amplo espectro, suporte ventilatório conforme a necessidade e monitorização rigorosa das funções vitais. Ademais, a investigação microbiológica é particularmente importante nos casos graves para permitir o ajuste direcionado da terapia.
Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA)
A síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), por sua vez, é uma forma grave de insuficiência respiratória que caracteriza-se por início agudo de hipoxemia associada à presença de infiltrados pulmonares bilaterais, geralmente após uma agressão clínica importante, como sepse, pneumonia ou aspiração pulmonar. Trata-se de uma condição frequente em unidades de terapia intensiva, especialmente em pacientes idosos e com doenças graves, estando associada a elevada morbimortalidade.
A evolução da doença costuma ocorrer em três fases:
- Inicialmente, há um estágio exsudativo, marcado por edema pulmonar inflamatório;
- Em seguida, um estágio proliferativo, com tentativa de reparo tecidual;
- Por fim, em alguns casos, ocorre um estágio fibrótico, associado à fibrose pulmonar e maior comprometimento funcional.
Clinicamente, a SDRA deve ser suspeitada em pacientes com dispneia progressiva e necessidade crescente de suporte ventilatório após um evento desencadeante recente. O tratamento é principalmente de suporte, com destaque para a ventilação mecânica protetora e o manejo da causa de base.
Apesar dos avanços terapêuticos, a SDRA permanece uma condição crítica que exige reconhecimento precoce e abordagem intensiva multidisciplinar.
Síndromes cardiovasculares agudas
As síndromes cardiovasculares agudas estão entre as principais causas de internação em unidades de terapia intensiva, especialmente por sua associação com instabilidade hemodinâmica e elevado risco de complicações graves. Essas condições exigem monitorização contínua e intervenção rápida, uma vez que podem evoluir para falência circulatória, arritmias graves e disfunção de múltiplos órgãos.
Entre essas emergências, destacam-se o infarto agudo do miocárdio e o choque cardiogênico, por exemplo, frequentemente inter-relacionados na prática clínica intensiva.
Infarto agudo do miocárdio (IAM)
No contexto das doenças mais comuns na UTI, o infarto agudo do miocárdio (IAM) representa uma das principais emergências cardiovasculares, devido ao risco elevado de instabilidade hemodinâmica, arritmias graves e choque cardiogênico.
Na prática da terapia intensiva, os casos mais graves estão associados ao infarto com supradesnivelamento do segmento ST ou à presença de complicações, como insuficiência cardíaca aguda, edema pulmonar e disfunção de múltiplos órgãos. O quadro clínico costuma incluir dor torácica típica, dispneia, sudorese e instabilidade circulatória, embora apresentações atípicas sejam frequentes em idosos e pacientes críticos.
O diagnóstico baseia-se na associação entre sintomas clínicos, alterações eletrocardiográficas e elevação de biomarcadores cardíacos, especialmente a troponina. Além disso, exames complementares, como ecocardiograma e angiografia coronariana, são fundamentais para avaliar a extensão da lesão e orientar a estratégia terapêutica. Por fim, o tratamento é tempo-dependente e deve priorizar a rápida reperfusão miocárdica.
Choque cardiogênico
O choque cardiogênico é uma das complicações mais graves do infarto agudo do miocárdio e representa uma causa frequente de internação em UTI, devido ao alto risco de falência circulatória e disfunção de múltiplos órgãos.
Essa condição ocorre quando o coração perde a capacidade de bombear sangue de forma adequada, geralmente em decorrência de disfunção ventricular esquerda extensa, embora complicações mecânicas do infarto, como ruptura do septo interventricular ou insuficiência mitral aguda, também possam estar envolvidas.
Clinicamente, os pacientes costumam apresentar hipotensão persistente, extremidades frias, redução do débito urinário, alteração do nível de consciência e sinais de congestão pulmonar. O diagnóstico baseia-se na associação entre manifestações clínicas, alterações eletrocardiográficas e confirmação por ecocardiografia, que permite avaliar a função cardíaca e identificar possíveis complicações estruturais.
Assim como no IAM, o manejo é tempo-dependente e tem como principal objetivo restaurar a perfusão tecidual. Além disso, pode ser necessário suporte ventilatório, uso de vasopressores e inotrópicos para otimizar o débito cardíaco.
Lesão renal aguda (LRA)
A lesão renal aguda é uma complicação frequente e de grande impacto prognóstico, geralmente associada a condições graves como sepse, choque, uso de drogas nefrotóxicas e instabilidade hemodinâmica.
Caracteriza-se por uma redução abrupta da função renal, evidenciada pelo aumento da creatinina sérica e/ou pela diminuição do débito urinário, podendo resultar em retenção de líquidos, distúrbios eletrolíticos e alterações metabólicas importantes.
Em pacientes críticos, a LRA costuma ocorrer de forma multifatorial:
- As causas pré-renais são as mais comuns e relacionam-se à hipoperfusão renal, como em casos de hipotensão ou choque.
- As causas intrínsecas, por outro lado, envolvem lesões diretas do parênquima renal, especialmente a necrose tubular aguda associada à isquemia prolongada ou sepse.
- Já as causas pós-renais decorrem de obstruções do trato urinário, que devem ser sempre investigadas por serem potencialmente reversíveis.
O diagnóstico baseia-se na monitorização rigorosa da função renal e do débito urinário. No ambiente da terapia intensiva, essa vigilância contínua é essencial para reduzir complicações. Por fim, o manejo inclui otimização hemodinâmica, suspensão de agentes nefrotóxicos, controle de distúrbios metabólicos e, nos casos mais graves, terapia de substituição renal.
Acidente vascular cerebral (AVC)
O acidente vascular cerebral é uma das principais emergências neurológicas atendidas em ambientes de alta complexidade, incluindo unidades de terapia intensiva, devido ao risco de deterioração neurológica rápida e complicações sistêmicas. Na fase aguda, o objetivo principal é minimizar a lesão cerebral, estabilizar as funções vitais e identificar precocemente a etiologia do evento para orientar o tratamento específico.
Além da reperfusão quando indicada, o manejo inicial inclui controle rigoroso de parâmetros fisiológicos, como pressão arterial, glicemia, temperatura, oxigenação e estado volêmico, bem como prevenção de complicações frequentes em pacientes críticos, como pneumonia aspirativa e tromboembolismo venoso.
Assim, o tratamento em unidades especializadas ou em terapia intensiva está associado a melhores desfechos clínicos, reforçando a importância de protocolos estruturados e monitorização contínua.
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Considerações finais: perfil epidemiológico na UTI adulto
Estudos que investigam o perfil epidemiológico de pacientes internados na UTI adulto revelam um quadro clínico diverso e desafiador, com implicações diretas para o planejamento de cuidados e o uso de recursos intensivos.
Em um levantamento retrospectivo em um hospital de referência na região Norte do Brasil, por exemplo, observou-se um grande número de internações de adultos críticos de ambos os sexos, com predomínio de idades entre 58 e 65 anos. As causas de admissão apresentaram grande variedade, destacando-se procedimentos cirúrgicos complexos (como amputações), doenças vasculares e situações pós-operatórias, além de eventos neurológicos importantes como o acidente vascular encefálico.
Outro estudo realizado em uma unidade de um hospital universitário no noroeste do Paraná mostrou que a maioria dos internados era do sexo masculino, com idade entre 60 e 79 anos e presença de comorbidades como hipertensão arterial.
Em ambos os contextos, identificar o perfil epidemiológico dos pacientes críticos contribui para melhorar a organização dos serviços de UTI, otimizar protocolos de cuidado, ajustar estratégias de prevenção de complicações e apoiar decisões de gestão.
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