Dor crônica em pediatria: guia para pediatras

Médica em consulta com criança em ambiente clínico, com um sorriso atento e profissional, segurando prancheta.

Índice

Introdução

A dor crônica pediátrica é geralmente definida como aquela que persiste ou recorre por um período superior a 3 meses, ultrapassando o tempo esperado de cura de uma lesão ou doença aguda. Diferentemente da dor aguda (sinal de alerta associado a lesão recente), a dor crônica frequentemente deixa de ter valor protetivo ou biológico e pode persistir mesmo sem lesão ativa aparente. Estudos epidemiológicos indicam que cerca de 1 em cada 5 crianças e adolescentes experimenta dor crônica, com cefaleias e dores musculoesqueléticas entre as localizações mais comuns. Essas dores crônicas podem ser contínuas ou recorrentes (episódios repetidos separados por intervalos sem dor); define-se dor recorrente classicamente pela ocorrência de pelo menos três episódios de dor em um período de três meses, com intensidade suficiente para interferir nas atividades habituais da criança. Reconhecer e tratar a dor crônica em crianças não só melhora a qualidade de vida delas, mas também pode impactar positivamente seu desenvolvimento físico, emocional e social.

Fisiopatologia

A percepção dolorosa envolve componentes sensoriais, afetivos, cognitivos e sociais. Estímulos nocivos repetidos ou de grande intensidade podem levar a fenômenos de sensibilização periférica e central, reduzindo o limiar de ativação dos nociceptores e amplificando os sinais de dor no sistema nervoso. Isso resulta em hipersensibilidade (hiperalgesia e alodínia) e ajuda a explicar casos de dor crônica desproporcional à lesão inicial ou mesmo sem lesão ativa evidente. Evidências mostram que experiências dolorosas repetidas na infância podem induzir mudanças neurobiológicas persistentes (“memórias” de dor), aumentando a susceptibilidade a dor crônica no futuro. Além disso, a dor não manejada adequadamente, desde o período neonatal, pode impactar o desenvolvimento cerebral e mecanismos de enfrentamento da dor, favorecendo respostas disfuncionais e maior risco de dores crônicas na vida adulta.

Classificação

Existem diferentes formas de classificar a dor crônica. Do ponto de vista mecanístico, ela pode ser: nociceptiva, decorrente de lesão ou inflamação de tecidos somáticos ou viscerais (ativação persistente de nociceptores); neuropática, resultante de lesão ou disfunção primária do sistema nervoso (descrita classicamente como dor em choque, queimação, formigamento); ou mista, quando há sobreposição de mecanismos (ex.: dor oncológica pode ter componente nociceptivo e neuropático). Outra forma é a classificação proposta pela CID-11, que distingue: Dor Crônica Primária – condição de dor em si, não explicada por outra doença, persiste >3 meses associada a sofrimento emocional ou incapacidade funcional significativa; e Dor Crônica Secundária – quando a dor é consequência de uma condição subjacente identificável (por exemplo, dor crônica por câncer, por artrite, neuropática pós-lesão medular, cefaleia secundária, dor visceral de doença gastrointestinal, etc.). Em pediatria, essa distinção é útil para guiar o manejo: por exemplo, condições como fibromialgia juvenil ou enxaqueca primária podem ser vistas como dor primária, enquanto dores associadas a doenças (artrite idiopática juvenil, anemia falciforme, sequelas oncológicas) seriam secundárias.

Além do mecanismo e etiologia, classifica-se a dor pela duração e padrão temporal: aguda (duração inferior a ~1 mês, início súbito, típica de lesão ou procedimento, geralmente cede com a resolução da causa), crônica (persistente ou recorrente >3 meses) e formas intermediárias ou recorrentes conforme citado. Importante notar que em crianças a distinção nem sempre é clara apenas pelo tempo – muitas dores crônicas pediátricas manifestam-se em episódios (p.ex., dores de cabeça, dores abdominais) intercalados por períodos assintomáticos, o que as caracteriza como crônicas recorrentes.

Principais causas e síndromes de dor crônica na infância e adolescência (diferenciais)

Diversas condições podem estar associadas à dor crônica em pacientes pediátricos, desde lactentes até adolescentes. Estudos populacionais mostram que as queixas de dor crônica mais frequentes nessa faixa etária envolvem cefaleias, dor abdominal recorrente e dor em membros (musculoesquelética). Abaixo listamos as principais síndromes ou causas de dor crônica pediátrica – pelo menos oito tópicos relevantes – enfatizando aspectos de diagnóstico diferencial em cada caso:

  • Cefaleias crônicas (dores de cabeça): incluem cefaleias primárias – notadamente enxaqueca (migrânea) e cefaleia tensional, que são as causas mais comuns de dor de cabeça recorrente em crianças – e cefaleias secundárias a condições orgânicas (infecções, sinusites, hipertensão intracraniana, tumores, etc.). O desafio é diferenciar cefaleias benignas funcionais de sinais de alerta que indiquem doença estrutural do SNC. Histórico detalhado e exame neurológico são fundamentais para o diagnóstico diferencial.

  • Dor abdominal crônica recorrente: em sua maioria de causa funcional (sem doença orgânica identificada). Abrange entidades como a dor abdominal funcional inespecífica, a síndrome do intestino irritável, dispepsia funcional e outras desordens funcionais gastrointestinais. Deve-se distinguir de causas orgânicas de dor abdominal crônica, que embora representem apenas ~5–10% dos casos, incluem uma ampla gama de diagnósticos: constipação intestinal crônica, refluxo gastroesofágico, gastrites/úlcera péptica, intolerâncias/alergias alimentares, doenças inflamatórias intestinais, parasitoses, doenças hepato-biliares, litíase renal, infecções urinárias recorrentes, causas ginecológicas (em adolescentes), entre outras. A ausência de “sinais de alarme” sistêmicos (perda de peso, sangue nas fezes, vômitos persistentes, febre, atraso puberal) sugere etiologia funcional.

  • Dor musculoesquelética difusa (síndrome de dor crônica difusa): aqui destaca-se a Fibromialgia Juvenil, caracterizada por dor musculoesquelética generalizada por pelo menos 3 meses, associada frequentemente a fadiga, sono não reparador e sintomas como cefaleia e alterações de humor. O diagnóstico é clínico de exclusão, devendo descartar-se doenças inflamatórias (ex.: miopatias, hipotireoidismo, lúpus ou artrite reumatoide juvenil sistêmica, etc.). Diferenciais incluem também a Síndrome da dor musculoesquelética idiopática difusa e a Síndrome de amplificação dolorosa – termos usados para quadros de dor difusa sem base inflamatória.

  • Dor neuropática regional / Síndrome Dolorosa Regional Complexa (SDRC): dor crônica localizada a um membro (ou região) de característica neuropática, frequentemente desproporcional a um evento desencadeante menor (p. ex., entorse ou imobilização). Na SDRC há disfunção autonômica local, com sinais como alodínia intensa (toque leve provoca dor desproporcional), edema, alteração de cor e temperatura cutânea, distúrbios vasomotores e limitação do movimento no membro afetado. Afeta tipicamente pré-adolescentes e adolescentes, sobretudo meninas, e é fundamental distinguir de outras causas de dor em membros: descartar fraturas ocultas, osteomielite, artrites ou tumores ósseos. O diagnóstico da SDRC é clínico; exames de imagem podem ser normais ou mostrar alterações inespecíficas (ex.: osteopenia de desuso).

  • Dor articular inflamatória (Artrite crônica): a principal entidade é a Artrite Idiopática Juvenil (AIJ), grupo de doenças reumatológicas que causam inflamação articular crônica em crianças e adolescentes. Diferencia-se de outras causas de artrite pela duração ≥ 6 semanas e exclusão de infecções ou outras doenças sistêmicas. As dores articulares inflamatórias da AIJ caracteristicamente cursam com rigidez matinal prolongada, edema articular e limitação de movimentos – aspectos que ajudam distingui-la de dores mecânicas (como as causadas por sobrecarga esportiva ou hipermobilidade) e de doenças ortopédicas (ex.: epifisiólise, necrose avascular). No diagnóstico diferencial de artrite crônica entram também patologias como lúpus eritematoso sistêmico, febre reumática, artrites infecciosas subagudas (tuberculose), etc., de acordo com contexto clínico.

  • Dor crônica em hemoglobinopatias (Ex.: Anemia Falciforme): crianças com doença falciforme apresentam episódios recorrentes de dor vaso-oclusiva aguda (“crises de dor”) e também podem desenvolver dor crônica musculoesquelética e neuropática ao longo do tempo. É importante diferenciar crises álgicas agudas – desencadeadas tipicamente por infecções, frio, desidratação – de causas alternativas de dor: por exemplo, se uma dor óssea focal vem acompanhada de febre pode indicar osteomielite; dores crônicas em quadril podem sugerir necrose avascular da cabeça femoral (complicação falciforme). Cerca de 30% dos pacientes falcêmicos queixam-se de dor na maior parte do tempo, e as crises dolorosas de repetição acarretam absenteísmo escolar, distúrbios do sono e impacto psicossocial significativo. O manejo adequado requer identificar se a dor é parte de uma crise vaso-oclusiva aguda ou se é uma dor persistente, para traçar o melhor tratamento.

  • Dor de crescimento e dores benignas dos membros: “Dor de crescimento” é a denominação popular de uma dor musculoesquelética benigna e recorrente em crianças, geralmente localizada em membros inferiores. Típica em crianças de 3 a 12 anos, manifesta-se mais à noite (pode acordar a criança), acomete de forma bilateral e vaga (pernas, coxas ou panturrilhas, sem ponto específico) e melhora espontaneamente pela manhã. Não há evidência de que seja causada pelo crescimento em si, e sim possivelmente por fadiga muscular após atividades físicas. O exame físico é normal e não há sinais inflamatórios locais – fatores que ajudam a diferenciá-la de condições orgânicas como artrites, lesões ortopédicas ou mesmo leucemia (que também pode causar dor óssea noturna, porém costuma vir com outros achados). A síndrome da hipermobilidade articular benigna é outro diagnóstico comum nessa categoria, causando dores articulares ou musculares após esforço, em crianças com articulações muito flexíveis; é diferenciada de doenças do tecido conectivo mais graves (como Síndrome de Ehlers-Danlos) pela ausência de outras manifestações sistêmicas. Ambas as condições (dor de crescimento e hipermobilidade) são benignas e melhoram com medidas simples (massagem, calor local, repouso) e uso ocasional de analgésicos leves.

  • Dor pélvica crônica em adolescentes (dismenorreia e endometriose): em meninas pós-menarca, a cólica menstrual (dismenorreia) é causa muito frequente de dor recorrente. A dismenorreia primária causa dor cólica no baixo ventre durante a menstruação sem patologia pélvica subjacente – deve ser diferenciada da dismenorreia secundária, em especial causada por endometriose. Dor pélvica crônica não cíclica, dor menstrual incapacitante desde menarca precoce, ou associados como dispareunia e alterações intestinais durante a menstruação podem sugerir endometriose mesmo em adolescentes. Estima-se que até ~50% das adolescentes com dor pélvica crônica e dismenorreia intensa podem ter endometriose como causa subjacente. No diagnóstico diferencial, considerar também doença inflamatória pélvica crônica, aderências pós-cirúrgicas, anomalias uterinas (p. ex. outflow obstruction) ou síndrome do intestino irritável. A avaliação inclui exame ginecológico (se possível), ultrassonografia pélvica e eventualmente laparoscopia diagnóstica nos casos suspeitos de endometriose.

(Os tópicos acima não esgotam todas as causas – outras situações, como dores crônicas relacionadas a doenças neurológicas (por exemplo, espasticidade em paralisia cerebral), dor oncológica crônica (em sobreviventes de câncer infantil), cefaleias pós-trauma, entre outras, também podem ser encontradas, porém as listadas representam as síndromes mais comuns ou relevantes no contexto ambulatorial pediátrico.)

Conclusão

A dor crônica em pediatria, embora muitas vezes subestimada, é um desafio significativo que exige uma abordagem cuidadosa e multidisciplinar. Reconhecer os sinais e sintomas precoces e compreender as diversas etiologias da dor crônica é fundamental para garantir um manejo eficaz e minimizar os impactos negativos no desenvolvimento da criança. O diagnóstico precoce não apenas alivia o sofrimento físico, mas também contribui para o bem-estar emocional e psicológico do paciente, prevenindo possíveis consequências a longo prazo, como o impacto na qualidade de vida, no rendimento escolar e nas relações sociais.

É importante que os pediatras estejam atentos aos diferentes tipos de dor crônica — nociceptiva, neuropática ou mista — e saibam identificar as condições subjacentes, muitas vezes complexas, que podem estar gerando essas queixas. O trabalho conjunto com especialistas, como reumatologistas, neurologistas, psicólogos e fisioterapeutas, é crucial para desenvolver um plano terapêutico adequado, que envolva desde intervenções farmacológicas até abordagens não farmacológicas, como o manejo psicológico e a educação sobre dor.

Além disso, ao integrar o manejo da dor crônica nas estratégias de cuidados pediátricos, podemos não apenas tratar a dor, mas também melhorar o desenvolvimento físico, emocional e social das crianças. A abordagem cuidadosa e humana, com foco em escutar e envolver a criança e sua família, garante um atendimento de qualidade, capaz de transformar a experiência dolorosa em uma trajetória de superação e aprendizado.

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