Ecocardiografia fetal: quando indicar, como é realizada e o que avaliar

Profissional de saúde realiza exame de ultrassonografia em uma gestante deitada em maca. A médica segura o transdutor de ultrassom e um frasco de gel, posicionando o equipamento sobre o abdômen grávido da paciente.

Índice

A ecocardiografia fetal é um exame ultrassonográfico especializado que avalia a anatomia e a função do coração do feto. Diferente do ultrassom morfológico convencional, este exame exige treinamento específico e segue protocolos detalhados de varredura para identificar cardiopatias congênitas antes do nascimento. Dessa forma, a indicação precoce e a interpretação correta das imagens podem definir condutas obstétricas, planejamento do parto e intervenções neonatais imediatas.

O que é ecocardiografia fetal e para que serve?

A ecocardiografia fetal é um exame de imagem não invasivo que utiliza ultrassom para estudar o coração do feto em desenvolvimento. Sua principal finalidade é diagnosticar precocemente as cardiopatias congênitas, que afetam cerca de 1% dos recém-nascidos e representam a principal causa de óbito neonatal por malformações.

O exame avalia a estrutura cardíaca, a função contrátil, o ritmo e o fluxo sanguíneo pelas câmaras e vasos. Com equipamentos modernos e operador capacitado, é possível identificar desde alterações sutis até malformações complexas que exigem intervenção logo após o parto.

A ecocardiografia fetal não substitui o ultrassom morfológico de segundo trimestre, mas o complementa. Ambos os exames têm objetivos distintos e devem ser interpretados em conjunto.

Qual a diferença entre ecocardiograma morfológico e ecocardiograma fetal especializado?

O ecocardiograma morfológico é parte integrante do ultrassom obstétrico de rotina. Durante a varredura anatômica, o examinador avalia a presença das quatro câmaras cardíacas e, quando possível, visualiza as vias de saída. Este é um rastreamento básico que identifica as cardiopatias mais evidentes.

Já o ecocardiograma fetal especializado, por sua vez, é um exame direcionado e completo. Ele segue um protocolo específico que inclui:

AspectoEcocardiograma morfológicoEcocardiograma fetal especializado
IndicaçãoRotina em toda gestanteGestantes de alto risco ou alterações suspeitas
Estruturas avaliadasQuatro câmaras, vias de saída (quando possível)Todas as câmaras, vias de saída, arco aórtico, Doppler colorido e pulsado
Tempo de exame5 a 10 minutos30 a 60 minutos
Capacitação do examinadorMédico generalista ou obstetraEspecialista em medicina fetal ou ecocardiografia pediátrica
Sensibilidade para cardiopatias50% a 70%Cerca de 90%

O exame especializado utiliza cortes específicos, como o plano das quatro câmaras, o plano das vias de saída, o plano dos três vasos e o arco aórtico. Cada um desses cortes permite avaliar estruturas anatômicas distintas e identificar alterações que passariam despercebidas no rastreamento básico.

Por que a ecocardiografia fetal é importante no pré-natal de alto risco?

Embora não seja obrigatória para todas as gestantes em todos os países, recomenda-se a ecocardiografia fetal como exame de rotina para gestantes de alto risco. A razão principal é a elevada prevalência de cardiopatias congênitas e o impacto que o diagnóstico pré-natal tem no prognóstico.

O diagnóstico precoce permite planejar o parto em centro terciário com unidade de terapia intensiva neonatal e cardiopediatra disponível. Isso reduz a morbimortalidade associada a cardiopatias críticas que dependem do canal arterial para sobrevivência imediata.

Além disso, o exame possibilita identificar arritmias fetais que podem ser tratadas ainda durante a gestação. Também orienta os pais sobre a condição do bebê antes do nascimento, permitindo decisões informadas sobre a continuidade da gestação e o planejamento familiar.

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Quando indicar ecocardiografia fetal: critérios clínicos e de risco

A indicação da ecocardiografia fetal segue critérios bem estabelecidos por diretrizes nacionais e internacionais. Conhecer esses critérios é essencial para que o médico solicitante encaminhe corretamente a gestante e para que o especialista realize o exame no momento adequado.

As indicações podem ser agrupadas em fatores maternos, fatores fetais e achados no ultrassom morfológico.

Quais fatores maternos indicam o exame?

Os fatores maternos são condições pré-existentes ou adquiridas durante a gestação que aumentam o risco de cardiopatia fetal. Entre os principais, destacam-se:

  • Diabetes mellitus pré-gestacional ou gestacional mal controlado
  • Lúpus eritematoso sistêmico com anticorpos anti-Ro/anti-La
  • Fenilcetonúria materna
  • Infecções gestacionais como rubéola, citomegalovírus e toxoplasmose
  • Uso de medicamentos teratogênicos (lítio, anticonvulsivantes, isotretinoína)
  • Exposição a álcool ou drogas ilícitas
  • Idade materna avançada associada a alterações cromossômicas fetais ou outros fatores de risco
  • História familiar de cardiopatia congênita em parente de primeiro grau

A presença de diabetes mellitus tipo 1, por exemplo, eleva em até cinco vezes o risco de cardiopatia fetal, especialmente a cardiomiopatia hipertrófica e a transposição das grandes artérias.

Quais achados no ultrassom morfológico indicam ecocardiografia fetal?

Durante o ultrassom morfológico, alguns achados devem acionar o alerta para a realização da ecocardiografia fetal especializada. Os principais são:

  • Suspeita de alteração cardíaca nas quatro câmaras ou vias de saída
  • Hidropsia fetal
  • Aumento da translucência nucal no primeiro trimestre (acima do percentil 99)
  • Alterações de ritmo cardíaco fetal (bradicardia, taquicardia ou arritmia)
  • Malformações extracardíacas (por exemplo, onfalocele, hérnia diafragmática e alterações renais)
  • Crescimento intrauterino restrito
  • Alteração no volume de líquido amniótico (polidrâmnio ou oligoidrâmnio)

A associação entre translucência nucal aumentada e cardiopatia congênita é uma das mais estudadas na medicina fetal. Assim, quanto maior a medida da translucência nucal no primeiro trimestre, maior a probabilidade de cardiopatia estrutural, independentemente do risco cromossômico.

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Com quantas semanas deve ser realizada?

A ecocardiografia fetal pode ser realizada a partir da 12ª semana com equipamentos de alta resolução e operador experiente. Entretanto, o exame ideal é feito entre 18 e 24 semanas de gestação. Isso porque, neste período, o coração fetal tem tamanho suficiente para avaliação detalhada e as estruturas anatômicas já estão formadas.

Todavia, em gestantes de alto risco, recomenda-se o exame precoce entre 12 e 16 semanas, especialmente quando há suspeita de cardiopatia grave no primeiro trimestre. Em casos de alterações identificadas tardiamente, pode-se realizar o exame em qualquer idade gestacional, respeitando sempre as limitações técnicas impostas pelo tamanho fetal e pela posição do feto.

Ademais, indica-se o exame de repetição quando as imagens iniciais são insuficientes, quando há suspeita de progressão de uma lesão ou quando se deseja reavaliar a função cardíaca após intervenção fetal.

Como realizar a ecocardiografia fetal na prática?

A ecocardiografia fetal segue um protocolo sequencial que garante a avaliação completa de todas as estruturas cardíacas. Assim, o examinador utiliza cortes padronizados e combina a imagem em modo B com o Doppler colorido e pulsado.

O exame começa com a identificação da posição fetal e da orientação do coração no tórax. Em seguida, o examinador percorre os planos de varredura, do mais simples ao mais complexo.

Quais são os planos de varredura do coração fetal?

Os planos de varredura são cortes ultrassonográficos que permitem visualizar diferentes partes do coração fetal. Os principais planos incluem:

  • Plano das quatro câmaras
  • Plano das vias de saída (ventrículo direito e ventrículo esquerdo)
  • Plano dos três vasos (traqueia e vasos do mediastino superior)
  • Plano do arco aórtico e do ducto arterioso

Cada plano fornece informações específicas sobre a anatomia e a função cardíaca. Portanto, o examinador deve obter todos os planos em todos os exames, independentemente da indicação inicial.

Como avaliar as quatro câmaras?

O plano das quatro câmaras é o primeiro e mais importante corte da ecocardiografia fetal. Ele mostra os átrios direito e esquerdo e os ventrículos direito e esquerdo em um único plano.

Neste corte, o examinador avalia:

  • Tamanho e simetria das câmaras cardíacas
  • Espessura e mobilidade das paredes ventriculares
  • Posição e funcionamento do septo interventricular e interatrial
  • Inserção das valvas atrioventriculares (tricúspide e mitral)
  • Integridade do septo primum e septo secundum

Alterações como hipoplasia ventricular, dilatação atrial ou comunicação interventricular são facilmente identificadas neste plano.

Como são avaliadas as vias de saída e o arco aórtico?

Após a avaliação das quatro câmaras, o examinador obtém os planos das vias de saída. O plano da via de saída do ventrículo direito mostra o tronco pulmonar e sua bifurcação, enquanto o plano da via de saída do ventrículo esquerdo mostra a aorta ascendente e sua continuidade com o arco aórtico.

No plano do arco aórtico, o examinador avalia a morfologia, o calibre e as ramificações da aorta. Além disso, identifica-se a presença de coarctação aórtica, arco aórtico direito ou duplo arco aórtico neste corte.

O plano dos três vasos, por sua vez, mostra a traqueia e os grandes vasos do mediastino superior: veia cava superior, aorta e artéria pulmonar. Alterações na disposição desses vasos sugerem cardiopatias complexas, como transposição das grandes artérias ou tetralogia de Fallot.

Qual a importância do Doppler na ecocardiografia fetal?

O Doppler colorido e pulsado complementa a avaliação anatômica com informações hemodinâmicas. Assim, ele permite visualizar o fluxo sanguíneo pelas câmaras e vasos, identificando áreas de turbulência ou regurgitação valvar.

Já o Doppler pulsado, por sua vez, mede velocidades específicas do fluxo em pontos determinados, como nas valvas atrioventriculares e nos vasos da base. A análise das ondas de fluxo ajuda a identificar estenoses, regurgitações e alterações na função diastólica.

Na avaliação do ducto venoso, o Doppler pulsado permite detectar alterações na onda A que indicam disfunção cardíaca direita e risco aumentado de cardiopatia.

O que avaliar e como identificar as cardiopatias congênitas mais frequentes?

A identificação das cardiopatias congênitas na ecocardiografia fetal exige conhecimento detalhado da anatomia cardíaca normal e das alterações típicas de cada condição. Algumas cardiopatias são mais prevalentes e devem ser reconhecidas por qualquer examinador.

Como identificar comunicação interventricular e interatrial?

A comunicação interventricular (CIV) é a cardiopatia congênita mais frequente. Na ecocardiografia fetal, a CIV aparece como uma solução de continuidade no septo interventricular, visível no plano das quatro câmaras.

A avaliação cuidadosa inclui:

  • Localização da comunicação (perimembranosa, muscular, infundibular)
  • Tamanho do defeito
  • Fluxo através da comunicação ao Doppler colorido
  • Sinais de sobrecarga cardíaca

Comunicações grandes podem evoluir para insuficiência cardíaca fetal. Entretanto, comunicações pequenas podem ser de difícil visualização no feto devido à resolução limitada do equipamento.

A comunicação interatrial (CIA) é mais difícil de diagnosticar no pré-natal porque o forame oval é uma estrutura normal do coração fetal. Assim, a diferenciação entre CIA patológica e forame oval dilatado depende do tamanho do defeito e do fluxo Doppler.

Como identificar tetralogia de Fallot no ultrassom?

A tetralogia de Fallot é uma cardiopatia complexa que combina quatro alterações: comunicação interventricular, estenose pulmonar, cavalgamento aórtico e hipertrofia ventricular direita.

Portanto, na ecocardiografia fetal, os achados característicos incluem:

  • Comunicação interventricular grande no plano das quatro câmaras
  • Aorta dilatada que parece “cavalgar” sobre o septo interventricular
  • Via de saída do ventrículo direito estreita
  • Fluxo turbulento na artéria pulmonar ao Doppler

Em alguns casos, a estenose pulmonar é tão grave que o fluxo pulmonar é mantido exclusivamente pelo ducto arterioso. Por isso, nestes fetos, a administração de prostaglandina após o nascimento pode ser necessária para manter a perfusão pulmonar.

Como identificar transposição das grandes artérias?

A transposição das grandes artérias (TGA) ocorre quando a aorta se origina do ventrículo direito e a artéria pulmonar do ventrículo esquerdo. No ultrassom, isso se traduz por vasos paralelos no plano dos três vasos, em vez da disposição cruzada normal.

O diagnóstico pré-natal da TGA é extremamente importante porque estes bebês dependem do ducto arterioso e do forame oval para sobreviver nas primeiras horas de vida. Se o ducto se fecha antes da correção cirúrgica, o recém-nascido desenvolve hipóxia grave.

Na ecocardiografia fetal, identifica-se a TGA por:

  • Dois vasos paralelos saindo do coração
  • Artéria pulmonar se bifurcando em ramos
  • Aorta sem bifurcação visível
  • Padrão anatômico compatível com circulação em paralelo

Como identificar síndrome do coração esquerdo hipoplásico?

A síndrome do coração esquerdo hipoplásico (SCEH) é uma cardiopatia grave caracterizada por hipoplasia do ventrículo esquerdo e da aorta ascendente. O ventrículo direito assume a função de bombear sangue para a circulação sistêmica através do ducto arterioso.

Na ecocardiografia fetal, os achados típicos são:

  • Ventrículo esquerdo pequeno ou ausente no plano das quatro câmaras
  • Átrio esquerdo pequeno
  • Valva mitral atrésica ou estenótica
  • Aorta ascendente hipoplásica
  • Fluxo reverso no arco aórtico ao Doppler

O diagnóstico precoce permite planejar o parto em centro especializado e o manejo neonatal, incluindo avaliação para o procedimento de Norwood nas primeiras semanas de vida. Sem intervenção, a mortalidade é de quase 100% nos primeiros dias após o fechamento do ducto arterioso.

Quais são as limitações do exame e quando repetir?

A ecocardiografia fetal, apesar de sua elevada sensibilidade, tem limitações importantes que o examinador deve conhecer.

A principal limitação é a dependência da posição fetal. Um feto em posição posterior ou com a coluna voltada para o transdutor dificulta a obtenção dos planos de varredura. Nestes casos, o exame pode ser repetido em outra ocasião.

Outra limitação é a resolução espacial do equipamento. Cardiopatias com alterações sutis, como comunicação interventricular pequena ou estenose valvar leve, podem não ser detectadas no pré-natal.

A idade gestacional também influencia a acurácia do exame. Antes de 16 semanas, o coração fetal é muito pequeno para avaliação detalhada. Após 30 semanas, a ossificação fetal e a compressão uterina podem limitar a qualidade das imagens.

Dessa forma, o exame deve ser repetido quando:

  • As imagens iniciais são insatisfatórias por posição fetal
  • Há suspeita de progressão de uma lesão (por exemplo, estenose pulmonar que pode evoluir para atresia)
  • A gestante apresenta novo fator de risco durante a gestação
  • Se deseja reavaliar a função cardíaca após terapia fetal

A repetição do exame não deve ser vista como falha, mas como parte do cuidado contínuo com a gestante de alto risco.

Leia também “A importância das medidas corretas nos parâmetros fetais e a escolha de profissionais especializados: o papel da Fetal Medicine Foundation“!

Como se especializar em ecocardiografia fetal?

A ecocardiografia fetal é uma área que exige treinamento estruturado e prática supervisionada. O médico interessado em se especializar deve buscar formação teórica sólida e experiência prática em centros de referência.

Portanto, os principais pilares da formação incluem:

  • Domínio da anatomia cardíaca fetal normal e patológica
  • Conhecimento detalhado dos protocolos de varredura
  • Capacitação em Doppler colorido e pulsado
  • Habilidade para identificar as cardiopatias congênitas mais frequentes
  • Atualização constante com as diretrizes da ISUOG e da AIUM

O Cetrus oferece programas de formação em Medicina Fetal, Ultrassonografia Obstétrica e Ecocardiografia Fetal. A formação combina aulas teóricas com prática supervisionada em equipamentos modernos, sob orientação de especialistas experientes.

O aprendizado prático intensivo, com alta carga de exames supervisionados, é essencial para desenvolver a confiança necessária para interpretar imagens cardíacas fetais. A progressão estruturada, do básico ao avançado, permite que o médico construa competências de forma consistente.

Pontos-chave

  1. A ecocardiografia fetal é o padrão-ouro para diagnóstico pré-natal de cardiopatias congênitas e deve ser indicada em gestantes de alto risco.
  2. O exame especializado difere do ultrassom morfológico e inclui planos específicos de varredura, Doppler colorido e Doppler pulsado.
  3. Fatores maternos como diabetes, lúpus e história familiar aumentam a indicação do exame.
  4. Achados no ultrassom morfológico, como alteração nas quatro câmaras, hidropsia fetal e translucência nucal aumentada, indicam ecocardiografia fetal.
  5. O exame ideal é realizado entre 18 e 24 semanas, podendo ser feito mais precocemente em casos de alto risco.
  6. Cardiopatias como CIV, tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias e síndrome do coração esquerdo hipoplásico têm achados ecográficos característicos.
  7. Limitações do exame incluem posição fetal, resolução do equipamento e idade gestacional.
  8. A especialização em ecocardiografia fetal exige treinamento estruturado com alta carga prática supervisionada.

Referências

ISUOG. ISUOG Practice Guidelines (updated): fetal cardiac screening. Ultrasound in Obstetrics and Gynecology, v. 61, n. 6, p. 788-803, 2023. Acesso em: 15 jan. 2025.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 118, n. 5, p. 925-958, 2022. Acesso em: 15 jan. 2025.

American Institute of Ultrasound in Medicine. AIUM Practice Parameter for the Performance of Fetal Echocardiography. Journal of Ultrasound in Medicine, v. 39, n. 2, p. E1-E10, 2020. Acesso em: 15 jan. 2025.

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