A ecocardiografia pediátrica representa um dos principais pilares diagnósticos na avaliação de cardiopatias congênitas e adquiridas em crianças.
Nas últimas décadas, os avanços tecnológicos permitiram o desenvolvimento de ferramentas de imagem que vão além da tradicional ecocardiografia bidimensional (2D). Entre essas inovações, destacam-se a ecocardiografia tridimensional (3D) e o Strain Imaging, que têm transformado a forma como cardiologistas pediátricos avaliam e monitoram a função cardíaca.
Particularidades da ecocardiografia em crianças
A ecocardiografia pediátrica se diferencia significativamente da ecocardiografia em adultos. Primeiramente, a anatomia cardíaca das crianças é menor, o que exige maior resolução espacial. Além disso, a frequência cardíaca elevada dos recém-nascidos e lactentes demanda uma excelente resolução temporal para capturar eventos rápidos do ciclo cardíaco. Outro fator relevante é que muitos pacientes pediátricos apresentam cardiopatias congênitas complexas, as quais exigem reconstruções anatômicas mais detalhadas.
A avaliação do coração em crescimento também deve considerar aspectos como modificações fisiológicas normais com a idade, e como diferentes patologias interferem nesse processo. Por isso, as ferramentas tradicionais podem não ser suficientes para um acompanhamento completo e, sobretudo, individualizado.
Nessa perspectiva, a adoção de técnicas como a ecocardiografia 3D e o Strain Imaging surge como uma resposta natural à necessidade de uma avaliação mais precisa, sensível e adaptada à realidade pediátrica.
Ecocardiografia 3D: fundamentos e benefícios
A ecocardiografia tridimensional, baseia-se na aquisição volumétrica de imagens que, por sua vez, permitem a reconstrução de estruturas cardíacas em três dimensões. Isso elimina a dependência de suposições geométricas, frequentemente utilizadas nos modelos bidimensionais.
Ao contrário da ecocardiografia 2D, que fornece cortes isolados, o modo 3D permite a visualização simultânea de múltiplos planos. Consequentemente, o cardiologista pode analisar a anatomia cardíaca de forma mais completa e precisa, o que se reflete diretamente no planejamento terapêutico.
Avaliação de cardiopatias congênitas
A ecocardiografia 3D é especialmente útil na avaliação de cardiopatias congênitas. Em pacientes com comunicação interatrial (CIA), comunicação interventricular (CIV), atresias valvares ou anomalias do retorno venoso pulmonar, a reconstrução tridimensional oferece uma visão anatômica clara e precisa da relação entre as estruturas.
Por exemplo, na tetralogia de Fallot, o 3D permite analisar não apenas o tamanho e a morfologia do septo interventricular, mas também o grau de obstrução da via de saída do ventrículo direito e a anatomia do arco aórtico. Isso é decisivo para o planejamento cirúrgico, principalmente em pacientes com anatomias complexas ou variantes raras.
Na imagem abaixo é possível visualizar:
- a. Vista subcostal direita oblíqua mostrando anatomia cardíaca normal.
- b. Mesma projeção em paciente com tetralogia de Fallot, evidenciando sobreposição da aorta sobre o septo interventricular (cavalgamento da aorta) e desvio anterossuperior do septo infundibular.
- c. Imagem com Doppler colorido demonstrando estenose no trato de saída do ventrículo direito (estenose infundibular).
Aplicações clínicas em neonatologia e UTI
Em unidades de terapia intensiva neonatal e pediátrica, a ecocardiografia 3D tem se mostrado extremamente vantajosa. Graças à sua capacidade de fornecer imagens rápidas e em tempo real, ela se adapta bem à rotina de pacientes críticos, onde a estabilidade hemodinâmica é instável.
Além disso, é possível avaliar o volume ventricular, a função biventricular, o diâmetro de grandes vasos e outras variáveis hemodinâmicas sem a necessidade de sedação ou transporte para o centro de imagem. Em recém-nascidos com persistência do canal arterial, por exemplo, a ecocardiografia 3D ajuda a mensurar a repercussão hemodinâmica da lesão com maior acurácia.
Aplicação da ecocardiografia avançada no fechamento percutâneo de CIV
A ecocardiografia pediátrica — especialmente com recursos tridimensionais e Doppler colorido — desempenha papel essencial no planejamento, na orientação intraoperatória e no acompanhamento pós-procedimento de fechamentos percutâneos de CIV, particularmente nos casos de CIV muscular.
Segundo diretrizes clínicas atualizadas, o fechamento transcateter é indicado quando a CIV muscular é de difícil acesso cirúrgico, apresenta repercussão hemodinâmica importante ou persiste após correção cirúrgica. Nessas situações, a ecocardiografia 3D permite visualizar com precisão a morfologia e a localização do defeito, enquanto o Doppler colorido e o Strain Imaging auxiliam na avaliação funcional antes e após a intervenção.
Além disso, o Strain Imaging pode ser utilizado no seguimento ambulatorial para avaliar possíveis impactos sutis do procedimento sobre a contratilidade ventricular, mesmo na ausência de alterações evidentes na fração de ejeção.
Strain Imaging na prática pediátrica
Enquanto a ecocardiografia 3D foca na anatomia, o Strain Imaging é uma ferramenta funcional. Assim, ele quantifica a deformação do miocárdio durante o ciclo cardíaco, avaliando com sensibilidade alterações subclínicas na contratilidade. Isso é possível através da tecnologia chamada speckle-tracking, que rastreia os movimentos dos pontos naturais do miocárdio em tempo real.
Detecção precoce de disfunção miocárdica
Diferente da fração de ejeção (FE), que pode permanecer normal mesmo diante de disfunção leve, o Strain Imaging detecta comprometimento miocárdico precoce. Crianças submetidas à quimioterapia, por exemplo, muitas vezes apresentam redução do strain antes que ocorra queda na FE, permitindo intervenção precoce com cardioprotetores.
Outros cenários incluem:
- Diagnóstico precoce de miocardites virais;
- Avaliação de cardiomiopatias hereditárias;
- Identificação de disfunção ventricular subclínica em pacientes com doenças sistêmicas (como lúpus ou distrofias musculares).
Além disso, o strain é menos dependente da geometria ventricular, sendo aplicável mesmo em ventrículos dilatados, hipoplásicos ou com remodelamento pós-cirúrgico.
Avaliação longitudinal e prognóstica
A mensuração do Strain Longitudinal Global (GLS) tem sido cada vez mais adotada para seguimento de pacientes pediátricos. Em crianças com histórico de cirurgia cardíaca, o monitoramento do strain permite identificar recaídas ou evolução para insuficiência cardíaca mesmo em pacientes assintomáticos.
Estudos mostram que alterações persistentes no strain, mesmo com FE preservada, estão associadas a pior prognóstico a longo prazo. Dessa forma, o Strain Imaging passa a ser não apenas um marcador diagnóstico, mas também uma ferramenta valiosa para estratificação de risco e tomada de decisão terapêutica.
Comparação entre técnicas convencionais e avançadas
Embora a ecocardiografia 2D convencional continue sendo a base da prática clínica, suas limitações são evidentes quando comparadas às abordagens avançadas. As técnicas tradicionais são altamente dependentes do operador, assumem modelos geométricos simplificados e, frequentemente, não conseguem detectar alterações funcionais discretas.
Em contrapartida, tanto a ecocardiografia 3D quanto o Strain Imaging proporcionam:
- Maior acurácia diagnóstica;
- Redução da variabilidade interobservador;
- Melhor visualização de estruturas complexas;
- Possibilidade de avaliação quantitativa objetiva.
Por isso, a integração dessas ferramentas na rotina hospitalar é uma tendência crescente nos centros de excelência em cardiologia pediátrica.
Integração ao diagnóstico e monitoramento clínico
A verdadeira eficácia dessas tecnologias está na sua integração ao raciocínio clínico. O uso combinado da ecocardiografia 3D e do Strain Imaging permite tanto o diagnóstico preciso quanto o acompanhamento longitudinal de pacientes pediátricos com cardiopatias complexas.
Além disso, essas técnicas auxiliam em decisões clínicas importantes, como a indicação de cirurgia, a escolha de medicamentos ou a alta hospitalar segura. Portanto, sua adoção deve ser incentivada não apenas nos centros terciários, mas também em unidades secundárias com acesso a formação continuada.
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Referências bibliográficas
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