A fibromialgia é uma condição crônica caracterizada por dor generalizada e sensibilidade em pontos específicos do corpo, acompanhada por fadiga, distúrbios do sono, problemas de memória e humor. Esta síndrome dolorosa afeta principalmente as articulações, músculos e tendões, causando desconforto significativo e impacto na qualidade de vida dos pacientes.
Ela é considerada uma das causas mais comuns de dor crônica e a causa mais comum de dor musculoesquelética generalizada em mulheres na faixa etária de 20 a 55 anos.
Neste texto, iremos abordar detalhadamente o que é a fibromialgia, seus sinais e sintomas, possíveis causas, fisiopatologia, diagnóstico e opções de tratamento disponíveis para auxiliar os pacientes a lidar melhor com essa condição debilitante.
Etiologia
A causa exata da fibromialgia ainda não é totalmente compreendida. Alguns estudos mostram que esta síndrome pode estar associada a outras condições que também são responsáveis por causar dores musculoesqueléticas, como a perturbação do sono ou sintomas psiquiátricos, estresses físicos e/ou emocionais e traumas.
Há ainda estudos que mostram relação entre a fibromialgia e disfunções do sistema nervoso central, em que há alterações na hipersensibilidade da dor. Há ainda os que associam a infecções, como a doença viral ou a doença de Layme.
Os fatores genéticos também exercem um papel na predisposição do paciente em ter fibromialgia.
Fisiopatologia da fibromialgia
A fisiopatologia da fibromialgia, assim como a sua etiologia, não tem um consenso e não está muito bem esclarecida. Algumas teorias acreditam que esta é uma condição que envolve uma interação complexa entre múltiplos sistemas do corpo, incluindo o sistema nervoso central, sistema endócrino e sistema imunológico.
A principal teoria aceita, mas que também não explica toda a patologia, é de que a fibromialgia é considerada um distúrbio da regulação da dor, decorrente da sensibilização central.
A sensibilização central é uma amplificação da sinalização neural dentro do sistema nervoso central que produz uma hipersensibilidade da dor. Esta, por sua vez, pode ser acompanhada de mecanismos de dor periférica e mecanismos de dor nociceptiva.
Alguns dos principais mecanismos propostos incluem:
- Sensibilização central: alterações na maneira como o cérebro processa sinais de dor levam a uma maior sensibilidade à dor em pacientes com fibromialgia.
- Disfunção do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal): distúrbios no sistema responsável pela resposta ao estresse podem contribuir para a fadiga e outros sintomas observados na fibromialgia.
- Distúrbios do sono: a interrupção do ciclo sono-vigília pode levar a alterações na liberação de neurotransmissores e hormônios, contribuindo para a dor e a fadiga.
- Inflamação de baixo grau: embora a fibromialgia não seja considerada uma doença inflamatória, alguns estudos sugerem a presença de inflamação de baixo grau como um possível contribuinte para os sintomas.
Manifestações clínicas
Os principais sintomas que podemos observar no paciente com fibromialgia são:
- Dor musculoesquelética generalizada: às vezes, o paciente pode se queixar de uma dor localizada em região de pescoço e ombros
- Fadiga
- Rigidez matinal
- Distúrbios do sono: dificuldade em adormecer, sono interrompido ou não reparador.
- Sensação de exaustão
- Distúrbios cognitivos: dificuldade de concentração, perda de memória e “névoa cerebral”.
- Sintomas psiquiátricos, como ansiedade, irritabilidade e depressão
- Cefaleia
- Parestesias, principalmente em braços e pernas.
Em relação aos sinais encontrados nestes pacientes, o que mais temos de característicos é a sensibilidade aumentada à palpação da região de dor referida. Entretanto, não encontramos inflamação musculoesquelética e nem danos estruturais.
Diagnóstico da fibromialgia
O diagnóstico da fibromialgia pode ser desafiador devido à sobreposição de sintomas com outras condições e à falta de testes laboratoriais específicos para confirmar a presença da doença. O diagnóstico geralmente é baseado na avaliação clínica, incluindo a história clínica e o exame físico.
É importante caracterizar a dor. Geralmente é uma dor crônica generalizada por mais de 3 meses. Perguntar ativamente os sintomas associados. Um detalhe importante que se deve ter atenção é sobre o perfil psicológico deste paciente. Muitos autores consideram a fibromialgia uma doença psicossomática.
No exame físico, pode-se observar dor a palpação, entretanto, não é comum observar inchaço nas articulações e nem inflamação.
Em relação aos exames laboratoriais, são mais utilizados para excluir algumas condições clínicas. Pode-se solicitar provas inflamatórias, como o VHS e PCR, hemograma, TSH e T4L, além de enzimas musculares como CPK e LDH.
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial da fibromialgia é importante devido à sobreposição de sintomas com outras condições médicas. Alguns dos principais diagnósticos diferenciais incluem:
Artrite e Doenças reumáticas sistêmicas
A artrite reumatoide é uma doença autoimune que causa inflamação crônica das articulações, resultando em dor, rigidez e inchaço. Embora a dor seja um sintoma comum em ambas as condições, na AR, a inflamação das articulações é uma característica distintiva que geralmente não está presente na fibromialgia.
O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune que pode afetar várias partes do corpo, incluindo articulações, pele, rins e órgãos internos. Alguns sintomas, como fadiga, dor nas articulações e distúrbios do sono, podem ser semelhantes aos da fibromialgia.
No entanto, no lúpus, há frequentemente achados laboratoriais específicos, como anticorpos antinucleares (FAN) positivos, e envolvimento de órgãos que ajudam a distinguir a condição da fibromialgia.
Além deste dois mais comuns na nossa sociedade, podemos pensar ainda em:
- Síndrome de Sjogren
- Espondiloartrite
- Polimialgia reumática
- Osteoartrite
- Síndrome da hipermobilidade
Doença muscular e mialgia
Neste grupo de doenças podemos pensar como diagnósticos diferenciais da fibromialgia as seguintes patologias:
- Miopatias inflamatórias e metabólicas
- Miopatias por estatinas
- Mialgia
Doenças infecciosas, metabólicas e neurológicas
- Chikungunya
- Hepatite
- HIV
- Doença de Lyme
- Hipotereoidismo
- Hiperparatireoidismo
- Síndrome de Cushing
- Neuropatias periféricas
- Síndrome do túnel do carpo
- Esclerose múltipla
- Miastenia gravis
Dor regional em tecidos moles
- Síndrome da dor miofascial
- Distúrbio temporomandibular
- Síndrome de esforço repetitivo
- Tensão cervical
Leia mais: Dor miofascial: quando indicar tratamento por ondas de choque e como conduzir?
Transtornos que podem se sobrepor a fibromialgia
- Síndrome da Fadiga Crônica (SFC): é uma condição crônica caracterizada por fadiga persistente e incapacitante, semelhante à fibromialgia. No entanto, na SFC, a fadiga é o sintoma predominante, enquanto a dor generalizada é mais proeminente na fibromialgia.
- Transtornos psiquiátricos: depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático
- Distúrbios do sono: como apneia do sono e síndrome das pernas inquietas, podem causar fadiga e distúrbios do sono semelhantes aos observados na fibromialgia
- Síndrome do Intestino Irritável (SII): é uma condição gastrintestinal crônica que pode estar associada à fibromialgia em alguns pacientes. Ambas as condições compartilham sintomas como dor abdominal, distensão abdominal e alterações nos hábitos intestinais.
Como ajudar o seu paciente a ter mais qualidade de vida?
O tratamento da fibromialgia geralmente envolve uma abordagem multidisciplinar, que pode incluir medicamentos, terapias não farmacológicas e mudanças no estilo de vida. Cada tratamento deve ser personalizado, de acordo com a intensidade e características dos sintomas.
Ao médico cabe explicar sobre a patologia, os tipos de tratamento e, junto com o paciente, de maneira colaborativa, iniciar o tratamento que nem sempre é efetivo.
As opções de tratamento incluem:
Educação do paciente
Cabe ao profissional de saúde fornecer informações sobre a condição, estratégias de autocuidado e recursos de apoio que podem ajudar os pacientes a entender e lidar melhor com a fibromialgia no dia a dia.
É importante que o paciente compreenda que esta é uma doença que não tem cura e, devido ao fato de não se compreender bem sua etiologia e fisiopatologia, os tratamentos não estão muito bem consolidados
Atividade física
Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, o principal tratamento da fibromialgia é o exercício aeróbico. Exercícios de baixo impacto, como natação e ioga, podem ajudar a melhorar a flexibilidade, fortalecer os músculos e reduzir a dor. A fisioterapia também pode auxiliar neste processo.
Mudanças no estilo de vida
Manter uma rotina regular de sono, praticar técnicas de gerenciamento do estresse, adotar uma dieta saudável e evitar atividades que pioram os sintomas podem ajudar a melhorar a qualidade de vida dos pacientes com fibromialgia.
Terapias cognitivo-comportamentais
É importante que o médico forneça informações sobre técnicas de relaxamento, biofeedback e terapia cognitivo-comportamental. Estas podem ajudar os pacientes a desenvolver habilidades para lidar com a dor, melhorar o sono e gerenciar o estresse.
Medicamentos
Analgésicos, relaxantes musculares, antidepressivos e anticonvulsivantes podem ser prescritos para ajudar a controlar a dor, melhorar o sono e tratar sintomas associados, como ansiedade e depressão.
Os anti-inflamatórios não hormonais (AINH) são a primeira escolha para serem usados pelos pacientes com fibromialgia. A pregabalina e a duloxetina também são bastante utilizados. O corticóide não tem indicação de uso. Os antidepressivos tricíclicos (principalmente a amitriptilina e ciclobenzaprina) também auxiliam no tratamento medicamentoso deste paciente.
Atualização do tratamento da Fibromialgia
Desde 2018, pesquisas têm explorado uma nova abordagem de tratamento não invasivo para Fibromialgia, utilizando a ação combinada de recursos como Laser e Ultrassom.
Os lasers de baixa intensidade emitem luz vermelha e infravermelha, que são absorvidas por estruturas sensíveis à luz, como a citocromo C oxidase nas mitocôndrias, estimulando a produção de ATP e a regulação dos canais iônicos intracelulares. Isso resulta em efeitos anti-inflamatórios, imunomoduladores, analgésicos e de reparação tecidual.
Por outro lado, o ultrassom utiliza energia elétrica para gerar energia mecânica oscilatória, produzindo calor que induz respostas biológicas, como relaxamento muscular, regeneração de tecidos e redução da inflamação, complementando os efeitos do laser de baixa potência.
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Referências
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