Conheça as principais hepatopatias e saiba como manejar seus pacientes. Continue a leitura e fique por dentro de tudo sobre essas patologias.
As hepatopatias constituem um amplo espectro de doenças que afetam o fígado, um órgão crucial para o funcionamento saudável do corpo humano. Assim, médicos, ao lidar com pacientes que apresentam sintomas hepáticos, devem ter um entendimento aprofundado dessas condições, desde a etiologia até as estratégias de diagnóstico e tratamento.
Dessa forma, este texto busca fornecer uma visão abrangente das hepatopatias, incluindo definições, sintomas característicos, métodos de diagnóstico e opções terapêuticas.
O que são as hepatopatias?
O termo “hepatopatias”, ou doenças hepáticas, engloba uma variedade de condições que afetam o fígado, um órgão multifuncional vital. Estas condições podem resultar de fatores diversos, incluindo infecções virais, exposição a substâncias tóxicas, consumo excessivo de álcool, distúrbios genéticos, distúrbios autoimunes e desordens metabólicas.
Anatomia e fisiologia hepática
O fígado desempenha papéis cruciais no metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas (ex.: albuminas), armazenamento de nutrientes, produção de bile e desintoxicação, tornando a compreensão das hepatopatias essencial na prática clínica.
Ele está localizado no quadrante superior direito do abdômen, abaixo do diafragma e envolvendo parte do estômago. É dividido em dois lobos principais: o lobo direito e o lobo esquerdo. Esses lobos são subdivididos em segmentos funcionais, cada um com seu próprio suprimento sanguíneo.
Em relação à vascularização, o fígado recebe sangue arterial oxigenado através da artéria hepática e sangue rico em nutrientes da veia porta hepática, que drena o sangue do trato gastrointestinal. Esses vasos sanguíneos ramificam-se pelos segmentos hepáticos, garantindo uma distribuição eficiente de oxigênio e nutrientes.
Epidemiologia e etiologia das hepatopatias
As doenças hepáticas representam um desafio significativo para a saúde pública em escala global, afetando milhões de pessoas em todo o mundo. A epidemiologia e etiologia dessas condições variam em diferentes regiões, influenciadas por fatores demográficos, sociais, culturais e econômicos.
De forma geral, as principais hepatopatias no Brasil e no mundo são:
- Hepatites Virais;
- A Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA) inclui a esteatose simples e a esteato-hepatite não alcoólica (NASH), forma mais grave, caracterizada por inflamação e fibrose;
- Cirrose Hepática e Carcinoma Hepatocelular (CHC);
- Doença Alcoólica do Fígado.
Abaixo abordaremos cada uma delas separadamente, apresentando os seus sinais e sintomas, diagnóstico e possíveis tratamentos.
Quando suspeitar de uma doença hepática?
O diagnóstico das hepatopatias vai variar de acordo com as suas etiologias. Entretanto, de uma forma geral, existem alguns sintomas, sinais e achados no exame físico, anamnese e exames complementares que podemos suspeitar da doença.
Anamnese
Como tudo na medicina, a história clínica do paciente é de fundamental importância para o diagnóstico. É importante questionar ao paciente sobre história familiar, doenças de base, hábitos de vida (consumo de álcool), vacinação contra hepatites A e B e vida sexual, transfusão sanguínea, uso de drogas.
Além disso, é importante questionar sobre alguns sinais e sintomas que são característicos das doenças hepáticas.
Sinais e sintomas das doenças hepáticas
Os sintomas das hepatopatias podem variar significativamente dependendo da condição específica e da progressão da doença. No entanto, alguns sintomas comuns incluem:
- Fadiga Persistente
- Icterícia: A coloração amarelada da pele e dos olhos, causada pelo acúmulo de bilirrubina, é uma característica marcante de muitas hepatopatias.
- Dor Abdominal: Desconforto ou dor na região abdominal, especialmente no lado direito, onde o fígado está localizado.
- Perda de apetite
- Prurido
- Náuseas e Vômitos
- Ascite: pode ser uma manifestação de doença hepática avançada.
Exame físico
No exame físico, o foco deve ser o abdome. Inicia-se com a inspeção, passando pela ausculta, percussão e palpação. Deve-se realizar a hepatimetria e investigar a macicez de Traube.
É importante observar a presença de dor à palpação, presença de massas, equimoses, palpação do fígado e se existe presença de ascite. Em caso positivo desta última, é importante realizar algum tipo de manobra para avaliá-la melhor, como a técnica de macicez móvel, semi-círculo de Skoda e o Sinal de Piparote.
Ainda é possível observar flapping, veias abdominais visíveis e dilatadas, hálito hepático (odor doce e picante), ginecomastia e atrofia testicular em homens, eritema palmar, telangiectasias, icterícia.
Exames complementares
Nos exames complementares, deve-se solicitar em caso de suspeita as sorologias para hepatites, tanto do IgM como IgG, principalmente dos vírus B e C. Deve-se ainda pedir o perfil e função hepática, que compreende:
- Alanina aminotransferase (ALT)
- Albumina
- Fosfatase alcalina (FAL)
- Aspartato aminotransferase (AST)
- Bilirrubina
- Gama-glutamil transpeptidase (GGT)
- Desidrogenase láctica (LDH)
- Tempo de protrombina (TP) e tempo de tromboplastina parcial (TTPA)
Já, em relação aos exames de imagem, pode ser solicitada uma ultrassonografia que cada vez mais tem sido utilizado como exame de escolha devido à sua praticidade e baixo custo. É possível ainda solicitar a tomografia computadorizada, principalmente em casos de suspeita de tumores hepáticos.
Hepatites virais: tipos, transmissão e tratamento
As hepatites são inflamações do fígado que podem resultar de diferentes causas, incluindo vírus, toxinas, medicamentos e condições autoimunes. Existem vários tipos de hepatites e estas podem ser divididas entre as hepatites transmissíveis e as não transmissíveis.
A primeira delas é representada pelas hepatites virais e a segunda, temos a hepatite autoimune, alcóolica, medicamentosas, entre outras.
Devido à relevância epidemiológica, hoje abordaremos sobre as hepatites virais.
Vírus hepatotrópicos
Os principais vírus hepatotrópicos são os vírus A, B, C, D e E. No Brasil, as mais comuns são causadas pelos vírus A, B e C.
Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais de 2022, da Secretaria de Vigilância e Saúde do Ministério da Saúde, foram notificados 781.651 casos de hepatites virais confirmados entre os anos de 2000 a 2021 no Brasil. Destes, 23,4% correspondiam ao vírus A, 36,8% ao vírus B, 38,9% ao C e apenas 0,6% ao vírus D.
Hepatite A
A Hepatite A tem maior predomínio nas áreas de menor desenvolvimento, principalmente na região nordeste. É mais prevalente em crianças de 0 a 9 anos e em homens de 20 a 39 anos.
Sua forma de transmissão é oral-fecal e possui um período de incubação de 15 a 50 dias. Na grande maioria das vezes se apresenta de forma assintomática, tendo manifestações clínicas em apenas 10% dos pacientes com este vírus.
O diagnóstico pode ser dado através da história clínica e epidemiológica e pode utilizar exames complementares, como o perfil e função hepática, bem como o marcador viral VHA IgM.
Diferente da hepatite B e C, principalmente esta última, a hepatite A não cronifica. Tem quadros apenas agudos (<6 meses).
O tratamento é sintomático, pois não há antivirais específicos para a hepatite A.
Hepatite B
É o segundo tipo de hepatite mais comum no Brasil. Sua transmissão pode ser pela via sexual (principal), vertical entre mãe e filho e percutânea.
A história natural da doença é a seguinte:
- Hepatite B aguda → 1% se torna fulminante
- 5% nos adultos evoluem para hepatite B crônica
- Desses 20 a 50% podem ir para cirrose
- E desses, 10% da cirrose pode ir para o carcinoma hepatocelular. Apesar disso, o paciente pode evoluir da fase crônica diretamente para o carcinoma hepatocelular.
Formas de apresentação
- Hepatite aguda:
- AgHBs, AntiVHB-IgM positivos
- AgHBe e HBV – DNA positivos
- Imunizados:
- anti-BHs positivo
- Hepatite crônica:
- AgHBs, AgHBe, HBV DNA positivos →marcadores de inflamação
- Portador crônico inativo:
- AgHBs e anti HBe positivos
- HBV-DNA negativo
- Formas mutantes do VHB.
Tratamento
Na fase aguda, o tratamento é mediante sintomáticos. Já na fase crônica, tem-se como medicamentos de escolha o tenofovir. A sua profilaxia também é mediante a vacinação.
Hepatite C
Este é o principal tipo de hepatite no Brasil. Sua transmissão se dá por drogas injetáveis, sexual, perinatal e familiar (compartilhamento de objetos perfurocortantes).
A sua história natural da doença é um pouco diferente da do vírus B:
- Hepatite C aguda → 80% se torna Hepatite C crônica
- Dessas, 20 a 30% evolui para cirrose
- E dessas, 10% evolui para carcinoma hepatocelular.
Diagnóstico
- Exame inicial: anti-HCV (+)
- Pode indicar hepatite, cura ou um falso positivo.
- Confirmação: HCV-RNA (carga viral)
- Inicial se <30d ou imunodeprimido.
Tratamento
O tratamento em caso de hepatite C é sempre indicado, apesar de não conferir imunidade duradoura. O objetivo, entretanto, é negativar a carga viral.
Os medicamentos de escolha costumam ser o sofosbuvir + velpatasvir e a duração é de 12 a 24 semanas.
Doença parenquimatosa crônica do fígado (Cirrose hepática)
A cirrose hepática é uma condição médica caracterizada pela cicatrização irreversível do fígado. Isso ocorre quando o tecido hepático saudável é substituído por cicatrizes, resultando em uma perda progressiva da função hepática.
A cirrose é uma resposta a lesões crônicas no fígado, que podem ser causadas por diversas condições, como hepatites crônicas, como a B e C que já abordamos acimas e ainda:
- Infiltração gordurosa: Alcoólica e não alcoólica
- Depósito: Wilson (cobre) e hemocromatose (ferro)
- Autoimunidade: colangite biliar primária, hepatite autoimune.
Manifestações clínicas da cirrose hepática
- Hipertensão porta: varizes de esôfago, ascite, esplenomegalia, circulação colateral.
- Insuficiência hepática: icterícia, albumina/coagulopatia, ginecomastia, telangiectasia, eritema palmar.
Doença hepática gordurosa alcoólica
Está diretamente relacionada com pacientes que possuem consumo de álcool, maior que 21 U/semana para o sexo masculino e 14 U/semana do sexo feminino, sendo 1 lata iguala 1,7 U.
Da esteatose hepática alcoólica, caso o paciente continue o uso do álcool, pode evoluir para hepatite alcoólica e então para a cirrose hepática.
O paciente que está com hepatite alcoólica se apresenta com febre, icterícia, dor e TGO>TGP (AST>ALT). Pode ainda apresentar leucocitose.
Doença gordurosa não alcoólica do fígado (NASH)
A NASH é uma doença muito prevalente na nossa sociedade. Está relacionada com a obesidade, dislipidemia e síndrome metabólica.
A primeira fase é a esteatose, seguida da esteato-hepatite, podendo evoluir para a cirrose.
Geralmente é assintomática, sendo descoberta em investigação laboratorial (TGP>TGO) ou com exame de imagem, como o USG que mostra a esteatose.
Leia mais: Detecção da esteatose hepática: achados ultrassonográficos e elastográficos
Doenças de depósitos de metais e doenças autoimunes
Além dessas hepatopatias, ainda temos as doenças genéticas, conhecidas como doenças de acúmulo e as doenças autoimunes. São elas:
- Doença de Wilson
- Hemocromatose
- Colangite biliar primária
- Hepatite Autoimune
Continue estudando com o Cetrus
Conheça o curso ofertado pelo Cetrus em Ultrassonografia Hepática ministrado pela Dra. Fernanda Schild Branco de Araújo, hepatologista referência na área. Com ele, o médico é capaz de detectar previamente algumas patologias hepáticas.
Aproveite e assista ao vídeo com Dra. Fernanda: “Hepatopatias são cada vez mais comuns – A importância do US no diagnóstico”
Referências
- BRASIL. Boletim Epidemiológico. Hepatites Virais 2022. Secretaria de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde, jun de 2022.
- FRIEDMAN, L.S. Approach to the patient with abnormal liver biochemical and function tests. UpToDate, 2023
- FRIEDMAN, L.S. Management and prognosis of alcoholic hepatitis. UpToDate, 2023
- Hepatites Virais – Ministério da Saúde
- HENEGHAN, M.A. Overview of autoimmune hepatitis. UpToDate, 2023.
- Diretrizes da Sociedade Brasileira de Hepatologia & Colégio Brasileiro de Radiologia sobre o emprego da Elastografia nas Doenças do Fígado.
- LOK, A. SF. Hepatitis B virus: Overview of management. UpToDate, 2023.
- MARTINELLI, A. L. C. et al. Complicações agudas das doenças hepáticas crônicas. Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio: URGÊNCIAS E EMERGÊNCIAS DIGESTIVAS 36: 294-306, abr./dez. 2003







