A medicina intervencionista da dor amplia as possibilidades de tratamento para pessoas que convivem com dor persistente e já apresentam impacto significativo na funcionalidade, no sono, no trabalho e na qualidade de vida.
Mais do que realizar procedimentos, essa abordagem busca identificar os mecanismos envolvidos na dor e selecionar, para cada paciente, a estratégia mais adequada dentro de um plano terapêutico individualizado.
Nesse contexto, bloqueios, infiltrações, procedimentos ablativos e técnicas de neuromodulação podem fazer parte do tratamento de pacientes selecionados, sempre integrados às demais medidas necessárias para o controle da dor e a recuperação funcional.
O que diferencia a atuação do médico intervencionista
O trabalho do médico intervencionista começa muito antes da realização de um procedimento. Isso porque é necessário compreender onde a dor se localiza, como ela se manifesta, quais fatores a desencadeiam ou aliviam e, principalmente, quanto ela interfere na vida do paciente.
Essa abordagem é importante porque a intensidade da dor, isoladamente, não traduz toda a dimensão do problema. Por exemplo, dois pacientes podem apresentar a mesma pontuação em uma escala de dor e ter repercussões completamente diferentes em sua rotina. Por isso, o objetivo do tratamento não deve ser apenas reduzir a intensidade do sintoma, mas favorecer a recuperação funcional e qualidade de vida.
Além disso, o intervencionista acrescenta ao tratamento a possibilidade de realizar intervenções direcionadas a estruturas ou vias relacionadas à dor, principalmente quando medidas conservadoras não foram suficientes ou quando existe uma indicação específica para determinada técnica.
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Bloqueios diagnósticos e terapêuticos
Os bloqueios estão entre os procedimentos utilizados na medicina intervencionista da dor e podem exercer funções diagnóstica e terapêutica.
A técnica consiste na aplicação de medicamentos em uma estrutura específica, como um nervo ou região relacionada à dor, com o objetivo de produzir um efeito anestésico e/ou terapêutico sobre estruturas relacionadas à dor. A escolha do local depende da avaliação clínica e da hipótese sobre os mecanismos envolvidos.
Em determinadas situações, a aplicação de anestésico em uma estrutura específica pode ajudar a esclarecer se aquela região participa efetivamente da geração da dor. Quando há melhora após a intervenção, essa resposta pode acrescentar uma informação relevante à avaliação clínica. No entanto, o resultado do bloqueio deve ser interpretado em conjunto com a história, o exame físico e os demais achados, não sendo suficiente, isoladamente, para confirmar ou excluir uma fonte de dor.
Além do papel diagnóstico, bloqueios nervosos e outras infiltrações podem proporcionar alívio da dor. Entre as possibilidades estão bloqueios de nervos, infiltrações epidurais com corticosteroides, injeções em pontos-gatilho e procedimentos articulares.
Procedimentos ablativos
Entre as técnicas disponíveis está a ablação por radiofrequência, utilizada em situações selecionadas para atuar sobre estruturas relacionadas à transmissão da dor.
Em determinados quadros de dor no joelho, por exemplo, considera-se a técnica após a avaliação das estruturas envolvidas e, quando apropriado, a realização de bloqueios direcionados.
Diferentemente dos medicamentos analgésicos sistêmicos, que produzem efeitos de maneira mais ampla, a radiofrequência permite uma abordagem localizada, buscando modificar a transmissão dos estímulos dolorosos em estruturas selecionadas.
Neuromodulação
A neuromodulação também é uma estratégia intervencionista considerada em pacientes com dor crônica persistente, especialmente quando outras abordagens não proporcionaram controle adequado dos sintomas.
Entre as possibilidades está a estimulação da medula espinhal, que busca modificar a transmissão dos sinais relacionados à dor por meio de estímulos elétricos aplicados ao sistema nervoso.
Utiliza-se essa abordagem em situações selecionadas, incluindo alguns casos de dor persistente após cirurgia da coluna, síndrome dolorosa regional complexa e neuropatia diabética. A indicação, porém, depende de uma avaliação individualizada, considerando as características da dor, sua repercussão funcional e a resposta aos tratamentos realizados anteriormente.
Infiltrações
As infiltrações também fazem parte do arsenal intervencionista e são utilizadas em diferentes contextos, incluindo aplicações articulares, epidurais e em pontos-gatilho. A escolha depende da avaliação clínica e da estrutura que se pretende abordar.
Essa técnica, porém, não deve ser encarada como uma solução isolada. Em pacientes com dor crônica, a combinação de estratégias pode ser necessária para alcançar resultados mais consistentes.
Assim, exercício, fisioterapia, medicamentos e acompanhamento de aspectos psicológicos podem complementar o tratamento intervencionista.
Perfil do paciente que chega ao consultório
O paciente encaminhado para um especialista em dor não é necessariamente aquele que apresenta apenas uma intensidade elevada de dor. Em geral, é alguém cuja dor persiste e passou a interferir de maneira significativa na vida cotidiana.
A dor crônica pode comprometer mobilidade, sono, produtividade, capacidade de trabalho e relações sociais, além de estar associada a alterações emocionais. Por isso, como já mencionado, o médico precisa olhar para o paciente de maneira integral, avaliando não apenas quanto dói, mas o que a dor está impedindo essa pessoa de fazer.
Entre os pacientes que podem se beneficiar de uma avaliação especializada estão aqueles com dor neuropática, musculoesquelética ou com diferentes mecanismos associados, especialmente quando o tratamento inicial não proporcionou controle adequado dos sintomas.
Além disso, também podem chegar ao consultório pessoas que já passaram por diferentes tratamentos e continuam apresentando limitações importantes. Nesses casos, o papel do especialista é reorganizar a compreensão do quadro, identificar os principais mecanismos envolvidos e definir quais estratégias podem ser utilizadas.
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Quando o tratamento precisa ser multimodal
A complexidade da dor crônica explica por que uma única intervenção raramente deve ser encarada como suficiente para todos os pacientes.
Assim, o tratamento pode envolver medicamentos, fisioterapia, exercício, estratégias psicológicas e procedimentos intervencionistas, escolhidos de acordo com as características e necessidades individuais.
Além disso, a abordagem multidisciplinar ganha importância nos quadros mais complexos. A participação de profissionais especializados, associada à continuidade do cuidado, pode ajudar o paciente a desenvolver estratégias para lidar com a dor e participar ativamente do próprio tratamento.
Nesse contexto, o procedimento deixa de ser o ponto final da consulta e passa a ser uma ferramenta dentro de um planejamento maior. Em alguns casos, o bloqueio pode permitir que o paciente avance na fisioterapia; em outros, uma intervenção pode oferecer alívio suficiente para melhorar os movimentos e permitir a retomada de atividades que estavam limitadas pela dor.
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Acompanhamento e definição de objetivos
A realização de um procedimento não significa o fim do tratamento. Isso porque o acompanhamento permite avaliar se a intervenção produziu o resultado esperado e, principalmente, se houve melhora na funcionalidade do paciente.
O sucesso pode significar conseguir voltar a caminhar, dormir melhor, realizar determinadas tarefas, retomar atividades profissionais ou melhorar a capacidade funcional.
Essa perspectiva também ajuda a evitar expectativas irreais. Em muitos casos, uma redução parcial dos sintomas associada à recuperação funcional já representa uma mudança significativa na vida do paciente.
Mais do que realizar procedimentos
A medicina intervencionista da dor não se resume a uma lista de técnicas. Bloqueios, infiltrações, radiofrequência e neuromodulação são ferramentas que ganham sentido quando estão inseridas em uma estratégia de cuidado individualizada.
O diferencial está em compreender quando intervir, qual estrutura abordar, qual objetivo se pretende alcançar e como integrar o procedimento às demais formas de tratamento. Essa abordagem evita que a intervenção seja vista como uma solução isolada e aproxima o cuidado de uma perspectiva mais ampla, centrada na funcionalidade e na qualidade de vida.
A dor crônica pode transformar profundamente a rotina de uma pessoa, afetando não apenas seu corpo, mas também sua autonomia, produtividade, relações e bem-estar. Por isso, o papel do especialista é ampliar as possibilidades terapêuticas sem perder de vista aquilo que realmente importa: ajudar o paciente a recuperar o máximo possível de sua função e qualidade de vida.
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A dor crônica exige uma abordagem cada vez mais especializada e o médico que deseja atuar nessa área precisa estar preparado para reconhecer diferentes mecanismos de dor, selecionar estratégias terapêuticas e executar procedimentos com segurança.
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Referências
- Stretanski MF, Kopitnik NL, Matha A, et al. Dor Crônica. [Atualizado em 28 de setembro de 2025]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; janeiro de 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK553030/
- Tauben D, Stacey BR. Approach to the management of chronic non-cancer pain in adults. UpToDate, 2026.





