A sedação em UTI é uma prática essencial no manejo de pacientes críticos, especialmente aqueles submetidos à ventilação mecânica. A sedação visa proporcionar conforto, reduzir a ansiedade e permitir a realização de procedimentos terapêuticos necessários. No entanto, a sedação deve ser cuidadosamente monitorada para evitar complicações e otimizar os resultados clínicos.
Indicações clínicas para sedação em UTI
Indica-se a sedação em UTI para uma variedade de cenários clínicos, com o principal objetivo de melhorar o conforto e a tolerância dos pacientes ao tratamento intensivo. A sedação ajuda a reduzir o sofrimento, controlar a dor e facilitar os cuidados terapêuticos. Entre as principais indicações estão:
- Ventilação mecânica: pacientes que necessitam de ventilação mecânica muitas vezes enfrentam dificuldades em lidar com a sensação de desconforto, ansiedade, bem como dor relacionada ao ventilador. Nestes casos, utiliza-se a sedação para aliviar esses sintomas e facilitar a ventilação.
- Procedimentos invasivos: a sedação é fundamental durante a realização de procedimentos invasivos, como broncoscopias, cateterismos, drenagens torácicas e outras intervenções críticas. Dessa forma, sem a sedação adequada, esses procedimentos podem ser extremamente dolorosos e traumáticos para os pacientes.
- Controle de dor: a dor severa é um sintoma comum em pacientes críticos, e o controle adequado da dor é fundamental para evitar complicações adicionais. A sedação analgésica ajuda a controlar a dor, especialmente em casos de traumas, cirurgias e outras condições agudas.
- Agitação psicomotora: pacientes com agitação psicomotora podem precisar de sedação para prevenir complicações como autoextubação, falhas respiratórias e danos a dispositivos médicos. A sedação também pode ser útil em pacientes com delírio, uma condição comum na UTI.
Avaliam-se essas sedações com base no quadro clínico individual de cada paciente, além disso, deve-se ajustar a sedação conforme a resposta do paciente e o estágio de sua recuperação.
Fármacos para sedação em UTI: principais agentes e mecanismos de ação
A escolha do fármaco para sedação na UTI depende de uma série de fatores, como a condição clínica do paciente, a duração da sedação necessária e os efeitos colaterais desejados. Os principais fármacos utilizados incluem:
Benzodiazepínicos
Os benzodiazepínicos, como o midazolam e o lorazepam, são amplamente utilizados em UTI devido à sua ação eficaz e rápida. Assim, esses fármacos atuam no sistema nervoso central, amplificando os efeitos do GABA, um neurotransmissor inibitório, resultando em sedação, amnésia e relaxamento muscular.
São particularmente úteis quando é necessária uma sedação mais profunda e prolongada, embora a possibilidade de efeitos adversos como depressão respiratória exija cautela.
Propofol
O propofol é uma escolha popular devido à sua ação rápida e à curta duração de seus efeitos. Ele age nos receptores GABA, induzindo uma sedação profunda que permite uma recuperação rápida após a interrupção do fármaco.
Frequentemente utiliza-se esse agente em ambientes de UTI, onde mudanças rápidas no nível de sedação podem ser necessárias.
Dexmedetomidina
Os profissionais utilizam a dexmedetomidina, um agonista dos receptores α2 (receptores adrenérgicos do tipo alfa-2), para promover sedação leve a moderada.. Sua principal vantagem é a menor incidência de delírio em comparação com outros sedativos. Age nos receptores α2 adrenérgicos do sistema nervoso central, proporcionando sedação sem causar depressão respiratória significativa. No entanto, seu uso em doses mais altas pode levar a efeitos cardiovasculares, como bradicardia e hipotensão.
Opioides
Frequentemente utiliza-se opioides (como morfina e fentanila) em combinação com sedativos para controlar a dor em pacientes sedados. Eles agem nos receptores opióides, proporcionando alívio eficaz da dor e sedação adicional. No entanto, deve-se monitorar cuidadosamente o uso de opioides devido ao risco de depressão respiratória e tolerância a longo prazo.
Com isso, cada fármaco possui um perfil específico de eficácia, efeitos adversos e tempo de ação, o que torna a escolha de fármacos uma decisão fundamental para a sedação adequada e segura.
Avaliação da profundidade da sedação
A avaliação da profundidade da sedação é crucial para garantir que o paciente receba a quantidade adequada de sedativo, evitando tanto a sedação excessiva quanto a insuficiente. Dessa forma, existem várias escalas de avaliação utilizadas para monitorar a profundidade da sedação em UTI.
Escalas de sedação mais utilizadas
As duas principais escalas de sedação utilizadas em UTI são a Escala de Sedação de Ramsay e a Escala de Sedação de Richmond (RASS). Portanto, ambas são fundamentais para ajustar as doses de sedativos e para monitorar a resposta ao tratamento.
Escala de Sedação de Ramsay
A Escala de Ramsay é amplamente utilizada para avaliar a profundidade da sedação. Ela varia de 1 a 6, com o valor 1 indicando um paciente completamente acordado e o valor 6 indicando um paciente em coma profundo. Para pacientes em ventilação mecânica, é ideal uma pontuação de 3 a 4, que corresponde a um estado sedado, mas capaz de ser facilmente acordado com estímulos.
Escala de Sedação de Richmond (RASS)
A Escala de Sedação de Richmond varia de -5 a +4, com a pontuação -5 indicando sedação profunda e a pontuação +4 indicando agitação extrema. Uma pontuação entre -1 e -3 é geralmente considerada ideal para pacientes em ventilação mecânica, garantindo que estejam confortáveis, mas ainda capazes de responder a comandos simples quando necessário.
Monitorização contínua do paciente sedado
A monitorização contínua é uma parte essencial da sedação na UTI, permitindo ajustes rápidos conforme necessário e prevenindo complicações associadas à sedação excessiva ou insuficiente. Os parâmetros mais comumente monitorados incluem:
- Função respiratória: deve-se monitorizar a ventilação mecânica e a função respiratória de perto para garantir que o paciente esteja recebendo oxigênio suficiente. Isso inclui a monitorização da frequência respiratória, o padrão respiratório e a saturação de oxigênio
- Função cardiovascular: a pressão arterial, frequência cardíaca e outros parâmetros cardiovasculares devem ser monitorados para detectar possíveis efeitos adversos dos sedativos, como hipotensão e bradicardia
- Função neurológica: a avaliação da função cerebral é importante, e pode ser realizada por meio de escalas de sedação ou até mesmo EEG em casos mais complexos. Assim, o monitoramento da atividade cerebral ajuda a evitar sedação excessiva e a detecção precoce de complicações como o delírio.
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Complicações associadas à sedação prolongada
A sedação prolongada está associada a várias complicações que podem afetar a recuperação do paciente. Entre as mais comuns estão:
- Delirium: o delírio é uma complicação frequente em pacientes sedados na UTI e está associado a piores resultados clínicos, incluindo aumento do tempo de internação, comprometimento cognitivo a longo prazo e até maior mortalidade
- Fraqueza muscular: a imobilização prolongada e o uso de sedativos podem resultar em fraqueza muscular significativa, o que compromete a recuperação funcional do paciente. Dessa forma, a fisioterapia precoce pode ser uma abordagem eficaz para prevenir esse efeito
- Infecções: pacientes sedados por longos períodos estão mais propensos a infecções devido à redução da mobilidade e do estado imunológico. A sedação excessiva pode dificultar a mobilização precoce, que é crucial para a prevenção de complicações
- Dependência de sedativos: o uso contínuo de sedativos pode levar à dependência física e psicológica. Embora seja menos comum em ambientes de UTI, a interrupção abrupta dos sedativos pode causar sintomas de abstinência, o que torna o desmame gradual uma prática importante.
Estratégias para otimizar a sedação e reduzir riscos
Para reduzir os riscos associados à sedação prolongada e otimizar os resultados, algumas estratégias devem ser adotadas:
- Sedação leve a moderada: sempre que possível, deve-se optar por sedação leve a moderada. Estudos mostram que níveis mais baixos de sedação estão associados a melhores desfechos clínicos, como menor incidência de delírio e recuperação mais rápida
- Protocolos de sedação: protocolos de sedação bem definidos ajudam a garantir que os pacientes recebam a quantidade adequada de sedativo, minimizando o risco de sedação excessiva e suas complicações.
- Desescalonamento gradual: o desescalonamento gradual da sedação deve ser realizado sempre que possível, permitindo que o paciente recupere sua função neurológica de forma controlada
- Uso de medicamentos adjuvantes: a utilização de medicamentos como a dexmedetomidina pode ajudar a reduzir a necessidade de sedação profunda, minimizando assim os efeitos adversos e promovendo uma recuperação mais rápida.
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Referências bibliográficas
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