Ultrassom point-of-care (POCUS): o essencial para o intensivista

Profissional de saúde segurando um transdutor de ultrassom ao lado de um aparelho de ultrassonografia.

Índice

O ultrassom point-of-care (POCUS) tornou-se uma ferramenta indispensável na prática da medicina intensiva moderna. Realizado à beira-leito pelo próprio intensivista, o POCUS permite uma avaliação rápida, dinâmica e dirigida do paciente crítico, otimizando o raciocínio clínico e auxiliando em decisões terapêuticas imediatas.

Com ele, é possível monitorar com maior precisão a resposta a intervenções e identificar, em tempo real, alterações que colocam a vida do paciente em risco. Além disso, o POCUS vai muito além do papel diagnóstico, sendo também uma ferramenta fundamental para procedimentos invasivos guiados por imagem.

Portanto, é essencial que o intensivista conheça os principais usos, limitações e interpretações do POCUS no ambiente de cuidados críticos.

Princípios básicos de ultrassonografia

A ultrassonografia utiliza ondas sonoras de alta frequência que interagem com os tecidos do corpo para formar imagens em tempo real.

Dessa forma, a interpretação correta dessas imagens exige conhecimento de conceitos como impedância acústica (resistência à propagação do som no tecido), amplitude, frequência e velocidade, sendo esta última essencial para medir estruturas com base na distância percorrida pela onda sonora.

Natureza do som e características das ondas

O som é uma onda mecânica longitudinal que necessita de um meio físico (sólido, líquido ou gasoso) para se propagar.

O ultrassom, por sua vez, é um tipo de onda sonora com frequência superior a 20 kHz, ultrapassando os limites da audição humana. Para aplicações clínicas, as frequências utilizadas geralmente variam entre 2 e 10 MHz.

Formação da Imagem

As imagens de ultrassom resultam da interação das ondas sonoras com os diferentes tecidos corporais. Portanto, cada tipo de tecido reage de maneira distinta ao feixe sonoro, o que resulta em variações na imagem gerada.

Propriedades como reflexão, refração e atenuação influenciam a formação da imagem e a visualização de estruturas. Dessa forma, artefatos gerados por essas interações são frequentemente úteis para o diagnóstico clínico.

Tipos de transdutores

Os transdutores são componentes essenciais do aparelho de ultrassom, funcionando por meio da emissão de ondas sonoras que atravessam os tecidos e retornam em forma de ecos após encontrar interfaces entre diferentes estruturas. Esses ecos são captados pelo próprio transdutor, que os converte em sinais elétricos para formar a imagem na tela.

O formato e o tipo de cada transdutor determinam suas aplicações clínicas, influenciando diretamente quais estruturas podem ser visualizadas com maior clareza e precisão.

Portanto, os principais tipos e suas aplicações incluem:

  • Linear: alta frequência, ideal para avaliar estruturas superficiais como a pleura.
  • Setorial: usado em situações específicas, como exames cardíacos e neurológicos.
  • Convexo: possui formato curvo, útil para visualizar estruturas abdominais profundas.

Conceitos importantes para interpretação

Ecogenicidade refere-se à tonalidade apresentada nas imagens de ultrassom, indicando como os tecidos refletem as ondas sonoras.

Essa característica permite classificar as estruturas conforme sua aparência na tela e reflete diferentes densidades e composições dos tecidos examinados.

  • Hiperecogênicas aparecem em branco;
  • Hipoecogênicas aparecem em tons de cinza;
  • Anecogênicas aparecem em preto.

Por fim, os eixos correspondem aos planos de posicionamento dos transdutores durante o exame, sendo responsáveis por oferecer diferentes perspectivas das imagens obtidas na ultrassonografia. Cada orientação do transdutor revela ângulos distintos das estruturas avaliadas:

  • Axial: transdutor posicionado lateralmente.
  • Longitudinal: transdutor alinhado no sentido craniocaudal.

Ultrassom com Doppler

O modo Doppler é uma tecnologia complementar que permite avaliar o fluxo sanguíneo dentro dos vasos. Ele estima a velocidade com base em frequências refletidas, mas pode ser afetado por fatores como ângulo de insonação.

Portanto, esse recurso é fundamental na análise da perfusão tecidual e em diagnósticos vasculares e cardíacos.

As vantagens do ultrassom point-of-care na Terapia Intensiva

O ultrassom point-of-care (POCUS) oferece diversas vantagens na Terapia Intensiva, sendo a principal a possibilidade de integrar, em tempo real, os achados de imagem com o exame clínico e a história do paciente diretamente à beira do leito. Essa abordagem facilita decisões rápidas e mais assertivas, especialmente em pacientes críticos.

Além disso, o POCUS elimina a necessidade de deslocamento do paciente para setores de imagem e reduz a dependência de outros profissionais, promovendo maior autonomia ao intensivista.

Trata-se também de uma ferramenta custo-efetiva, que contribui para a redução de gastos com saúde.

Aplicações clínicas do ultrassom point-of-care no dia a dia do intensivista

O ultrassom point-of-care é uma ferramenta essencial no cuidado intensivo, com aplicações clínicas diversas que auxiliam no diagnóstico e na tomada rápida de decisões.

Nesse bloco, veremos as principais indicações do POCUS na UTI, divididas por áreas de aplicação clínica, incluindo avaliação torácica, abdominal, vascular e o uso como guia em procedimentos invasivos.

Leia mais sobre “O uso do POCUS em diferentes especialidades: aplicações na prática médica”.

Avaliação torácica

A ultrassonografia point-of-care para avaliação torácica, que inclui avaliação pulmonar e pleural, é uma ferramenta fundamental na prática intensiva. Em pacientes críticos, é utilizada para investigar causas de insuficiência respiratória aguda, como pneumotórax e derrame pleural, além de ajudar na avaliação da etiologia cardiopulmonar.

Além do diagnóstico, a ultrassonografia é fundamental para guiar procedimentos invasivos como toracocentese, tornando-os mais seguros, especialmente em pacientes ventilados mecanicamente.

Além disso, existem também aplicações investigacionais promissoras, como:

  • Monitorização do recrutamento pulmonar em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA);
  • Previsão de falha no desmame ventilatório;
  • Acompanhamento da resolução de pneumonia associada à ventilação;
  • Identificação de complicações pulmonares após trauma torácico.

Avaliação abdominopélvica

No contexto da Terapia Intensiva, a ultrassonografia point-of-care pode ser utilizada para investigação de dor abdominal aguda, suspeita de sepse e outras condições potencialmente graves. Seu uso à beira do leito permite avaliações rápidas e eficazes, mesmo em pacientes instáveis ou sob ventilação mecânica.

Portanto, algumas aplicações incluem:

  • Pesquisa de doenças da vesícula biliar, como colecistite aguda e litíase biliar;
  • Detecção de obstrução do trato urinário;
  • Identificação de aneurismas de aorta abdominal;
  • Avaliação de líquido livre abdominal;
  • Identificação de ar intraluminal ou intraparenquimatoso.

Leia mais sobre “Emergências abdominais: quando utilizar ultrassonografia point-of-care?”

Avaliação vascular

A ultrassonografia point-of-care também é uma ferramenta fundamental na avaliação vascular. Entre os principais usos, destaca-se a investigação de trombose venosa profunda (TVP) nos membros superiores e inferiores, além da detecção de síndromes relacionadas à aorta abdominal.

Na avaliação da TVP, a ultrassonografia permite a identificação de trombos por meio da técnica de compressão venosa. Dessa forma, veias que não colabam durante a compressão indicam presença de trombo, sendo o exame feito com transdutor linear de alta frequência, preferencialmente em cortes transversais.

Na avaliação de síndromes da aorta abdominal, como aneurismas rotos ou dissecções, o ultrassom é a primeira escolha em pacientes instáveis, com alta sensibilidade e especificidade, sendo capaz de detectar dilatações da aorta e acúmulo de líquidos associados a ruptura.

Por fim, a ultrassonografia também pode ser usada como recurso auxiliar na avaliação do estado volêmico, ajudando na monitorização hemodinâmica de pacientes com choque.

Guia de procedimentos invasivos

O uso do ultrassom point-of-care como ferramenta de guia para procedimentos invasivos tem consolidado-se como uma prática essencial nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

Entre os procedimentos mais comumente realizados com auxílio do ultrassom estão:

  • Toracocentese.
  • Paracentese.
  • Punções venosas e arteriais.
  • Drenagem de abscessos.

A principal vantagem do uso do POCUS nesses contextos é a visualização em tempo real das estruturas anatômicas, o que proporciona uma abordagem mais precisa, segura e eficiente.

Por exemplo, o uso da ultrassonografia para guiar o acesso venoso central tem demonstrado reduzir complicações como punções arteriais inadvertidas e pneumotórax. Da mesma forma, a ultrassonografia também auxilia na colocação segura de cateteres arteriais, aumentando a taxa de sucesso e diminuindo riscos.

Por que o intensivista precisa dominar o ultrassom point-of-care?

O domínio do ultrassom point-of-care pelo intensivista é essencial por diversas razões. Primeiramente, permite a avaliação imediata e dinâmica de condições críticas, favorecendo diagnósticos mais rápidos e decisões terapêuticas mais precisas, sem a necessidade de transferir pacientes instáveis para setores de imagem.

Além disso, o POCUS é fundamental na monitorização contínua do estado hemodinâmico, volume intravascular, função cardíaca e avaliação pulmonar, abdominal e vascular. Na prática diária, também auxilia na realização de procedimentos com maior segurança, como acessos vasculares e drenagens, reduzindo complicações.

Ao dominar o POCUS, o intensivista ganha autonomia, agiliza condutas e melhora o cuidado centrado no paciente. Portanto, o conhecimento e uso adequado do ultrassom à beira do leito são competências indispensáveis ao profissional de terapia intensiva moderna.

Domine o POCUS e revolucione sua prática na UTI

Na Terapia Intensiva, cada segundo conta e cada decisão precisa ser baseada em dados rápidos, precisos e confiáveis. O POCUS (Ultrassom Point-of-Care) é hoje uma das ferramentas mais poderosas nas mãos do intensivista.

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Referências

  • HASHIM, A. et al. The utility of point of care ultrasonography (POCUS). Ann Med Surg (Lond). 2021.
  • HUGGINS, J. T.; MAYO, P. H. Indications for bedside ultrasonography in the critically ill adult patient. UpToDate, 2025.
  • Medicina USP. Point-of-care-ultrassound. Disponível em: https://pocus.fob.usp.br/principios-de-us/. Acesso em: 01 jun 2025.

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