Strain miocárdico: quando solicitar e como interpretar

Profissional de saúde segurando um transdutor de ultrassom diante de um aparelho de ecocardiografia.

Índice

O strain miocárdico, também conhecido como deformação miocárdica, é uma ferramenta avançada na avaliação da função cardíaca que vem ganhando destaque na prática clínica.

Esse parâmetro baseia-se no conceito físico de strain, que corresponde à quantidade de deformação de uma estrutura em relação à sua forma original, sendo expresso como o percentual de encurtamento ou alongamento das fibras miocárdicas durante o ciclo cardíaco.

Na cardiologia, essa medida pode ser aplicada tanto a regiões específicas do miocárdio (strain regional) quanto à totalidade de uma câmara cardíaca (strain global), oferecendo uma análise mais sensível da contratilidade do que a tradicional fração de ejeção.

Obtido por meio da ecocardiografia, o strain permite detectar disfunções subclínicas do miocárdio, sendo especialmente útil em cenários como cardiotoxicidade, doenças valvares e miocardiopatias. Com isso, torna-se essencial saber quando solicitá-lo e como interpretar seus achados corretamente.

Princípios do strain miocárdico

O strain miocárdico, na ecocardiografia, refere-se à avaliação do encurtamento, espessamento e alongamento do miocárdio como indicadores da função contrátil regional do ventrículo esquerdo (VE).

Esse conceito vem da mecânica dos materiais, onde a deformação tridimensional (3D) de um objeto é expressa por um tensor de strain, com seis componentes que descrevem alterações ao longo dos eixos espaciais e nos planos entre eles. No coração, essa representação é simplificada por questões práticas, adotando-se um sistema de coordenadas anatômico, com foco nos eixos longitudinal, circunferencial e radial.

A deformação ao longo de cada direção pode ser quantificada com base na variação do comprimento de um segmento miocárdico em relação ao seu tamanho inicial, geralmente medido no início da sístole.

Como o strain miocárdico é realizado

Realiza-se o strain miocárdico por meio da ecocardiografia com análise por speckle tracking, uma técnica que avalia a deformação do miocárdio ao longo do ciclo cardíaco. Essa análise rastreia pontos naturais no músculo cardíaco (“speckles”) em sequências de imagens bidimensionais, permitindo medir a contração em diferentes direções: longitudinal, radial e circunferencial.

O resultado é expresso em porcentagem de deformação, auxiliando na detecção precoce de disfunções cardíacas, mesmo quando a fração de ejeção ainda está preservada.

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Aplicações clínicas em cardiopatias

O uso do strain miocárdico por ecocardiografia tem consolidado-se como uma ferramenta sensível na avaliação da função contrátil do miocárdio.

Ao quantificar alterações sutis na deformação do músculo cardíaco, essa técnica permite detectar disfunções precoces, avaliar a viabilidade miocárdica e monitorar o impacto de doenças e tratamentos sobre o coração.

A seguir, são descritas suas principais aplicações clínicas com base em evidências e diretrizes recentes.

Detecção de isquemia miocárdica e avaliação da viabilidade

O strain miocárdico pode identificar áreas isquêmicas ao demonstrar alongamento sistólico e encurtamento pós-sistólico, características clássicas de disfunção isquêmica.

Além disso, o strain também tem valor na estratificação de risco de pacientes com angina estável e pode auxiliar na identificação de infarto sem supradesnivelamento do ST, situação em que o ECG é menos sensível.

Cardiomiopatias e disfunção subclínica do ventrículo esquerdo

Em fases precoces de cardiomiopatias, quando a ecocardiografia convencional ainda mostra achados normais, o strain miocárdico pode revelar disfunções subclínicas. Dessa forma, pode contribuir para avaliação diagnóstica e definição do prognóstico.

Cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito

Na cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito, alterações no padrão de deformação da parede livre do ventrículo direito, como redução da tensão e contração dissíncrona, podem ser indicativas da doença em seus estágios iniciais.

Disfunção miocárdica em pacientes com diabetes mellitus

Mesmo em estágios assintomáticos, indivíduos com diabetes mellitus podem apresentar redução do strain longitudinal do VE, enquanto o strain radial tende a permanecer preservado.

Cardiotoxicidade induzida por quimioterapia

O strain miocárdico é um dos principais métodos para monitorar toxicidade cardíaca em pacientes submetidos à quimioterapia, especialmente com agentes como antraciclinas e trastuzumabe. Nesse contexto, uma queda relativa na deformação longitudinal global em relação à linha de base é considerada um sinal precoce de disfunção subclínica do VE, frequentemente precedendo alterações na fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE).

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp)

A aplicação do strain miocárdico na IC com fração de ejeção preservada representa uma importante evolução na avaliação funcional do miocárdio, sobretudo em casos em que a fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) está dentro da normalidade, mas há sintomas sugestivos de disfunção.

O strain longitudinal global tem demonstrado utilidade na identificação de disfunção sistólica leve em pacientes com ICFEp, mesmo quando a FEVE permanece preservada. Estudos comparativos mostram que indivíduos com ICFEp apresentam valores mais baixos de strain longitudinal e circunferencial, quando comparados a controles saudáveis ou a pacientes com disfunção diastólica sem insuficiência cardíaca manifesta.

Doença valvar cardíaca

A definição do melhor momento para intervenção cirúrgica em valvopatias assintomáticas de moderada a grave intensidade continua sendo um desafio. Tradicionalmente, a decisão é baseada em sintomas, gravidade da lesão e impacto sobre volumes e função ventricular. Contudo, a fração de ejeção reduzida, frequentemente usada como critério, tende a surgir tardiamente, quando já pode haver lesão miocárdica irreversível.

Nesse contexto, o uso do strain miocárdico tem se mostrado promissor, especialmente em valvopatias regurgitantes (como insuficiência mitral ou aórtica) e na estenose aórtica. Estudos recentes apontam que a quantificação da função miocárdica por meio do strain pode detectar disfunção subclínica, mesmo com FEVE normal, e assim ajudar a antecipar intervenções que podem prevenir a progressão do dano miocárdico.

Interpretação dos resultados: valores normais e alterados

A interpretação do strain miocárdico requer compreensão das faixas de valores que indicam normalidade ou comprometimento da função cardíaca. Além disso, considera-se variações decorrentes do método utilizado e características individuais dos pacientes.

Estudos demonstram que o strain longitudinal global (SLG) do ventrículo esquerdo em indivíduos saudáveis varia entre 18% e 25%. Entretanto, as variações nos valores normais podem ocorrer conforme o equipamento e o software utilizados para o processamento das imagens, o que torna importante a padronização e a definição de valores de referência específicos para cada laboratório.

Em geral, valores de SLG inferiores a 16% sugerem comprometimento da função sistólica, mesmo quando a fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ainda esteja preservada. Essa redução no strain pode indicar disfunção miocárdica precoce, antes da manifestação de alterações estruturais ou clínicas evidentes.

Ademais, valores de SLG inferiores a 12% associam-se a disfunção sistólica significativa e indicam comprometimento severo da contratilidade.

Por fim, destaca-se que a interpretação dos resultados deve considerar a qualidade da imagem, a experiência do operador e a correlação com dados clínicos e outros exames complementares, pois ruídos e artefatos podem interferir nas medições.

Comparação com fração de ejeção convencional

O strain longitudinal global mostrou-se significativamente mais sensível do que a  fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ao detectar comprometimento da função sistólica em estágios iniciais, identificando disfunção subclínica antes que ocorra qualquer alteração na fração de ejeção.

Dessa forma, o strain longitudinal global tem utilidade comprovada em cenários como cardiomiopatias e na avaliação de pacientes durante quimioterapia, pois pode indicar queda da função miocárdica antes mesmo da FEVE mostrar sinais de disfunção.

Embora amplamente utilizada, a FEVE depende de parâmetros geométricos do ventrículo, bem como da pré-carga, pós-carga e ritmo cardíaco. Isso pode resultar em resultados normais mesmo na presença de disfunção, como em casos de hipertrofia concêntrica ou miocardiopatia hipertrófica.

Quando e por que solicitar o exame

O strain miocárdico deve ser solicitado em situações específicas com potencial de disfunção miocárdica sutil, como:

  • Cardio-oncologia: monitoramento de pacientes antes e durante o uso de fármacos cardiotóxicos para detecção precoce de comprometimento contrátil, muitas vezes ainda sem alteração na FEVE.
  • Doenças valvares (regurgitações mitral ou aórtica e estenose aórtica): para identificar disfunção miocárdica subclínica antes da queda da fração de ejeção.
  • Cardiomiopatias: detecção de comprometimento funcional regional ou global ainda não evidente pela FEVE.
  • Doença arterial coronariana: avaliação de isquemia silenciosa ou subclínica, auxiliando na estratificação de risco em pacientes com dor torácica ou angina estável.

Nesse contexto, as vantagens de solicitar o strain miocárdico associam-se a maior sensibilidade para detectar disfunção sistólica inicial, mesmo quando a fração de ejeção está preservada, acrescentando informação complementar à ecocardiografia convencional.

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Referências

  • Sociedade Brasileira de Cardiologia. Posicionamento do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre o Uso do Strain Miocárdico na Rotina do Cardiologista – 2023. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2023.
  • Smiseth, O. A.; et al. Myocardial strain imaging: how useful is it in clinical decision making?. European Heart Journal, 2015.

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