A terapia com testosterona em mulheres é um tema complexo, cercado por mitos, dúvidas e um uso muitas vezes indiscriminado. Para esclarecer as evidências científicas mais recentes e trazer um norte seguro para os profissionais de saúde, o Cetrus realizou uma masterclass de alto nível com duas especialistas, a Dra. Aline Camacho Ambrósio e a Dra. Carolina Carvalho Ambrogini.
Este artigo resume os principais pontos discutidos nesse encontro exclusivo, abordando desde a fisiologia da resposta sexual feminina até os consensos internacionais mais atualizados sobre prescrição, segurança e monitoramento da testosterona. Se você perdeu a masterclass, quer entender melhor ou revisitar os conceitos, este resumo detalhado foi feito para você.
O cenário atual da terapia androgênica em mulheres
Segundo a Dra. Carolina Ambrogini, o uso de testosterona em mulheres não possui regulamentação no Brasil e, na maioria dos países, é considerado off label. A única exceção é a Austrália, onde a testosterona tem aprovação oficial e concentra grande parte das publicações científicas.
Essa ausência de padronização abre espaço para práticas inseguras, como manipulações variadas, doses inconsistentes e prescrição sem critérios clínicos claros. Por isso, sociedades médicas internacionais publicaram consensos (2019 e 2022) para oferecer orientação prática e reduzir o uso indiscriminado.
Critérios para diagnosticar disfunções sexuais femininas
A definição de disfunção sexual feminina deve seguir parâmetros clínicos claros, segundo o DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) e o CID-11 (Classificação Internacional de Doenças):
- Duração mínima: sintomas persistentes por pelo menos 6 meses.
- Impacto clínico: sofrimento pessoal ou interpessoal significativo.
Entre os sinais avaliados estão: perda de interesse ou de fantasias, ausência de receptividade, redução do prazer e da excitação genital, bem como dificuldade em responder a estímulos sexuais.
O ciclo da resposta sexual feminina
A Dra. Aline Ambrósio destacou que a resposta sexual da mulher é multifatorial, diferente do ciclo linear descrito nos homens.
Os principais determinantes podem ser agrupados em quatro dimensões:
| Dimensão | Aspectos principais |
|---|---|
| Biológica | Testosterona, estrogênio, neurotransmissores |
| Psicológica | Autoestima, estresse, percepção de si mesma |
| Relacional | Comunicação no casal, vínculo conjugal, projetos de vida |
| Social | Sobrecarga de tarefas, vida profissional, lazer |
Além disso, a erotização, a variedade de estímulos e a liberdade para fantasiar são elementos-chave para manter o desejo sexual feminino.
O papel da testosterona na saúde sexual
A testosterona atua principalmente no desejo sexual, estimulando a dopamina e ativando o sistema de recompensa cerebral. Os efeitos descritos em pesquisas incluem melhora na excitação, aumento da frequência de orgasmos, redução das preocupações sexuais e maior satisfação na vida íntima.
Entretanto, a testosterona não é suficiente isoladamente. Alterações psicossociais, problemas relacionais ou fatores emocionais precisam de intervenções complementares, como psicoterapia sexual, técnicas de erotização e mudanças no estilo de vida.
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Evidências científicas e consensos internacionais
A masterclass apresentou as evidências científicas mais robustas sobre o uso da testosterona, baseadas nos principais consensos internacionais.
Consenso de 2019
Uma metanálise publicada em 2019 avaliou ensaios clínicos randomizados sobre uso de testosterona em mulheres e concluiu:
- Os níveis de testosterona declinam ao longo da vida reprodutiva
- Nível de testosterona > 65 anos mantém-se estável, o benefício ainda é desconhecido
- Não houve impacto significativo em cognição, humor ou qualidade de vida geral.
- Os efeitos adversos esperados em doses fisiológicas são leves: acne e aumento de pelos.
- Não houve aumento comprovado de risco para câncer de mama em até 5 anos de uso.
Guia prático de 2022
Atualizações trouxeram considerações para uso em:
- Atualizou evidências e incluiu mulheres nos anos reprodutivos tardios como potenciais candidatas.
- Reforçou a necessidade de evitar formulações masculinas e doses supra fisiológicas.
- Destacou o implante como opção em casos específicos, mas não como primeira escolha.
Ainda assim, os consensos reforçam que a decisão deve ser individualizada e baseada em critérios clínicos sólidos.
Indicações e contraindicações
As evidências sustentam a indicação de testosterona em mulheres na pós-menopausa com queda significativa do desejo sexual. Em alguns casos, pode ser considerada também nos anos finais da vida reprodutiva, desde que a decisão seja individualizada.
| Indicações | Contraindicações |
|---|---|
| Pós-menopausa com desejo sexual hipoativo | Gravidez e lactação |
| Casos selecionados no fim da vida reprodutiva | Histórico de câncer de mama ou endométrio |
| Avaliação clínica criteriosa com análise biopsicossocial | Policitemia (hematócrito > 50%) |
| Acne severa ou alopecia androgenética avançada | |
| Risco cardiovascular aumentado |
Dosagem e monitoramento
A dosagem de testosterona não serve como diagnóstico de disfunção sexual, mas deve ser utilizada para segurança do tratamento.
| Etapa | Conduta recomendada |
|---|---|
| Antes do início | Dosar testosterona total (não livre) para ter um valor basal |
| Após 4 semanas | Reavaliar níveis e resposta clínica |
| Manutenção | Repetir dosagem a cada 6 meses |
| Meta | Níveis abaixo de 80 ng/dL |
Formas de administração
A via transdérmica (gel, creme ou adesivo) é a mais segura e fisiológica para mulheres. Os implantes podem ser utilizados em situações específicas, mas não devem ser a primeira opção. Já as formulações orais e injetáveis não são recomendadas, devido ao maior risco de efeitos adversos e impacto negativo sobre o perfil lipídico.
O que a testosterona não faz
É crucial entender os limites da terapia. Não há evidências suficientes para recomendar testosterona para:
- Melhorar cognição ou prevenir demência
- Tratar fadiga, cansaço ou depressão
- Melhorar a qualidade de vida de maneira geral (como um “rejuvenescimento”)
- Tratar outras disfunções sexuais como anorgasmia primária ou dor durante o sexo (dispareunia)
Terapia androgênica além da testosterona: o contexto biopsicossocial
Um dos pontos mais enfatizados na masterclass foi que a testosterona isolada não resolve disfunções sexuais complexas. A abordagem precisa ser biopsicossocial, envolvendo aspectos emocionais, relacionais e comportamentais. Intervenções como psicoterapia sexual, exercícios de erotização, mindfulness, fisioterapia pélvica, melhora da qualidade do sono, prática de atividade física e fortalecimento da autoestima são fundamentais para o sucesso terapêutico.
As especialistas por trás da Masterclass
As coordenadoras da masterclass são referências nacionais na área:
- Dra. Aline Camacho Ambrósio – Ginecologista e obstetra pela UNIFESP, doutora em Ciências, com especialização em Sexualidade Humana pela USP. Possui ampla experiência em terapia sexual e educação médica.
- Dra. Carolina Ambrogini – Ginecologista e obstetra pela UNIFESP, mestre em Ciências e especialista em Sexualidade Humana. Coordenadora do Projeto Afrodite no Laboratório de Sexualidade Feminina da UNIFESP.
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