O que é a dopplervelocimetria fetal e para que serve?

Profissional de saúde opera um aparelho de ultrassom enquanto realiza exame obstétrico em uma gestante deitada na maca. Ao fundo, um acompanhante observa o procedimento.

Índice

A dopplervelocimetria fetal avalia o fluxo sanguíneo nos vasos fetais e materno-fetais por meio do efeito Doppler. Seu principal objetivo é identificar precocemente hipóxia fetal, restrição de crescimento intrauterino (RCIU) e insuficiência placentária, utilizando índices hemodinâmicos derivados da curva espectral e comparando-os a curvas de normalidade específicas para cada idade gestacional.

Diferença entre Doppler colorido, pulsado e power Doppler

A distinção entre as modalidades é fundamental para a prática clínica.

  • Doppler colorido: codifica em cores a direção e a velocidade do fluxo sanguíneo sobre a imagem em escala de cinza. Azul geralmente indica fluxo se afastando do transdutor; vermelho, fluxo se aproximando.
  • Doppler pulsado: permite mostrar o fluxo em um ponto específico e gerar uma curva espectral com velocidades ao longo do ciclo cardíaco. É a base para o cálculo dos índices hemodinâmicos.
  • Power Doppler: detecta a amplitude do sinal Doppler, sendo mais sensível a fluxos lentos, mas sem informações de direção. É útil para visualizar vasos de pequeno calibre.

Na prática, a combinação do Doppler colorido com o pulsado é o padrão para a avaliação dos principais vasos fetais.

Leia também “Diretrizes Práticas da ISUOG: uso de dopplervelocimetria em obstetrícia“!

Quais são os índices utilizados na dopplervelocimetria fetal?

Três índices derivados da curva espectral são empregados para quantificar a resistência vascular. Assim, a compreensão de suas fórmulas e da interpretação geral é essencial.

ÍndiceFórmulaInterpretação geral
Índice de resistência (IR)(VS-VD)/VSAumento indica maior resistência à passagem do fluxo
Índice de pulsatilidade (IP)(VS-VD)/VMMais sensível que o IR; amplamente utilizado nas curvas de normalidade
Relação S/D (sístole/diástole)VS/VDValores elevados sugerem resistência aumentada

Legenda: VS (velocidade sistólica máxima); VD (velocidade diastólica final); VM (velocidade média).

Quais vasos avaliar e como interpretar na prática clínica?

A avaliação sistemática inclui, no mínimo, a artéria umbilical e a artéria cerebral média (ACM). Além disso, em casos selecionados, avalia-se também o ducto venoso e a artéria uterina materna.

Artéria umbilical

A dopplervelocimetria da artéria umbilical reflete a resistência placentária. Em condições fisiológicas, o fluxo diastólico está presente e aumenta com a idade gestacional.

  • IR e IP elevados: indicam aumento da resistência placentária, frequentemente associado a insuficiência placentária e RCIU.
  • Diástole zero ou reversa: são marcadores de hipóxia fetal grave. A diástole zero representa ausência de fluxo ao final da diástole; a diástole reversa indica fluxo retrógrado, sinal de alto risco de óbito fetal.

Na prática, utiliza-se o IP da artéria umbilical corrigido pela idade gestacional, comparando o valor obtido com as curvas de normalidade do serviço.

Artéria cerebral média

A ACM avalia a circulação cerebral fetal. Em situações de hipóxia, ocorre vasodilatação cerebral compensatória para manter a perfusão dos órgãos nobres, fenômeno conhecido como centralização ou brain sparing effect.

  • IP da ACM: valores abaixo do percentil 5 para a idade gestacional indicam vasodilatação cerebral.
  • Relação cerebroplacentária (RCP): calculada pela divisão do IP da ACM pelo IP da artéria umbilical. RCP abaixo do percentil 5 sugere redistribuição hemodinâmica e risco de desfechos adversos, mesmo com IP umbilical ainda normal.

Ducto venoso

Avaliado em situações de RCIU grave ou suspeita de hipóxia fetal. O ducto venoso conecta a veia umbilical à veia cava inferior.

  • Onda A ausente ou reversa: sugere disfunção miocárdica fetal e acidose, sendo um marcador de risco elevado de morbimortalidade.

Artéria uterina

Avalia o componente materno da circulação útero-placentária. Na gestação normal, o IP diminui progressivamente, e a incisura protodiastólica (notch) desaparece após 24 semanas.

  • Persistência de notch bilateral ou IP elevado: está associada a pré-eclâmpsia e RCIU.

Quando indicar a dopplervelocimetria fetal?

A dopplervelocimetria não é um exame de rastreamento universal. É uma ferramenta diagnóstica indicada em situações específicas.

  • Restrição de crescimento fetal (RCIU): é a indicação mais frequente. A avaliação seriada permite monitorar a progressão da insuficiência placentária.
  • Hipertensão arterial gestacional ou pré-eclâmpsia: a avaliação da artéria uterina e umbilical auxilia na estratificação de risco materno-fetal.
  • Diabetes mellitus gestacional: especialmente quando associado a RCIU ou macrossomia, pode haver indicação de Doppler para avaliação de bem-estar fetal.
  • Oligoidrâmnio ou polidrâmnio inexplicados: podem refletir comprometimento da perfusão fetal.
  • Gestação múltipla: para monitorizar o crescimento e a hemodinâmica de cada feto, particularmente na síndrome de transfusão feto-fetal.
  • História obstétrica de óbito fetal prévio ou RCIU grave: justifica avaliação seriada.

Leia mais sobre “Restrição de Crescimento Intrauterino“!

Com quantas semanas a dopplervelocimetria deve ser realizada?

O exame pode ser realizado a partir de 20 a 22 semanas, quando a anatomia fetal já permite a identificação adequada dos vasos e as curvas de normalidade estão estabelecidas. Ademais, a periodicidade depende do quadro clínico.

  • RCIU leve a moderado: a cada 2 semanas.
  • RCIU grave com Doppler alterado: semanalmente ou com maior frequência.
  • Diástole zero na artéria umbilical: internação e monitoramento diário ou em dias alternados.

Como interpretar as curvas de normalidade?

Para interpretar corretamente, são necessárias três informações: o valor do índice medido, a idade gestacional no momento do exame e a curva de normalidade de referência. No Brasil, por exemplo, as curvas de normalidade mais utilizadas são as de Arduini e Rizzo (1990) e as tabelas do Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG).

Passo a passo para interpretação

  1. Medir o IP da artéria umbilical em três ciclos cardíacos consecutivos e calcular a média.
  2. Localizar na curva de normalidade o percentil correspondente ao IP obtido para a idade gestacional.
  3. IP umbilical acima do percentil 95 é considerado alterado.
  4. Medir o IP da ACM e calcular a relação cerebroplacentária.
  5. RCP abaixo do percentil 5 indica centralização, mesmo com IP umbilical normal.
  6. Se houver diástole zero ou reversa na artéria umbilical, prosseguir para avaliação do ducto venoso.
  7. Documentar todos os achados e comunicar o resultado ao médico assistente com a interpretação clínica.

Erros comuns e limitações da dopplervelocimetria fetal

Reconhecer as limitações e evitar erros é parte fundamental da capacitação profissional.

  • Ângulo de insonação inadequado: ângulos acima de 30 graus subestimam as velocidades e comprometem os índices.
  • Amostragem em local incorreto: na artéria umbilical, o ideal é amostrar próximo à inserção placentária ou em alça livre; na ACM, próximo à origem do polígono de Willis.
  • Movimentação fetal ou respiratória: interfere na obtenção de curvas estáveis. Assim, é importante aguardar períodos de apneia fetal.
  • Curvas de normalidade inadequadas: utilizar curvas não validadas para a população estudada pode levar a interpretações equivocadas.
  • Variabilidade intraobservador: a curva deve ser obtida de forma padronizada, com repetição de medidas para garantir consistência.

Atualizações e boas práticas

As diretrizes mais recentes da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) e do ACOG reforçam alguns pontos:

  • A relação cerebroplacentária deve ser incluída na avaliação de rotina em casos de RCIU, mesmo com Doppler umbilical normal.
  • O ducto venoso é recomendado apenas na avaliação de casos graves ou naqueles com Doppler umbilical já alterado.
  • A dopplervelocimetria seriada é superior a exames isolados para predizer desfechos adversos.
  • O uso de Doppler não está indicado para gestações de baixo risco, pois não reduz morbimortalidade materna ou perinatal.

Como se especializar em dopplervelocimetria fetal?

Dominar a técnica e a interpretação da dopplervelocimetria fetal exige treinamento supervisionado. Assim, não basta conhecer os conceitos teóricos; a prática guiada com supervisão de especialistas é o que permite desenvolver a acurácia e a confiança necessárias para tomar decisões clínicas.

O Cetrus oferece uma pós-graduação em Ultrassonografia Obstétrica com módulos dedicados à dopplervelocimetria fetal. O curso combina aulas teóricas com atendimento prático em ambiente ambulatorial, onde você aplica os protocolos em pacientes reais sob orientação de preceptores experientes.

Pontos-chave

  • A dopplervelocimetria fetal avalia a hemodinâmica placentária e fetal por meio dos índices de resistência e pulsatilidade.
  • Os vasos principais são artéria umbilical, artéria cerebral média e ducto venoso.
  • Curvas de normalidade específicas por idade gestacional são indispensáveis para interpretação.
  • A relação cerebroplacentária é um marcador precoce de centralização, mesmo com IP umbilical normal.
  • Diástole zero ou reversa na artéria umbilical e onda A ausente ou reversa no ducto venoso indicam risco elevado de hipóxia e acidose.
  • O treinamento prático supervisionado é essencial para reduzir erros e garantir a qualidade do exame.

Referências

ARDUINI, D.; RIZZO, G. Normal values of Pulsatility Index from fetal vessels: a cross-sectional study on 1556 healthy fetuses. Journal of Perinatal Medicine, v. 18, n. 3, p. 165-172, 1990. Acesso em: 12 jan. 2025.

FIGO Working Group on Good Clinical Practice in Maternal-Fetal Medicine. Good clinical practice advice: Doppler in obstetrics. International Journal of Gynecology & Obstetrics, v. 144, n. 3, p. 337-338, 2019. Acesso em: 12 jan. 2025.

ACOG Practice Bulletin No. 204: Fetal Growth Restriction. Obstetrics & Gynecology, v. 133, n. 2, p. e97-e109, 2019. “https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2019/02000/ACOGPracticeBulletinNo.204_FetalGrowth.40.a>Acesso em: 12 jan. 2025.

Cite este artigo no seu trabalho

Para citar este artigo em outro texto, clique e copie a referência em formatação ABNT.

Citação copiada!

Compartilhe esta publicação:

Cursos, masterclasses e e-books médicos gratuitos

Fique por dentro dos temas que realmente importam na prática médica atual.

Receba informações semanais sobre carreira, formação médica e novos conteúdos gratuitos.

CONFIRA NOSSA NEWSLETTER