Neurossonografia fetal: protocolo, cortes axiais e quando indicar além do morfológico

Médico realizando exame de ultrassom obstétrico enquanto mostra a imagem do feto no monitor para uma gestante durante consulta pré-natal.

Índice

As malformações do sistema nervoso central fetal representam importante causa de morbimortalidade perinatal, tornando a avaliação ultrassonográfica do encéfalo fetal parte essencial do exame morfológico obstétrico.

Assim, diante de achados suspeitos, fatores de risco ou limitações do exame morfológico convencional, torna-se necessária a realização da neurossonografia fetal direcionada, método mais detalhado e voltado para aprofundar a investigação do sistema nervoso central do feto.

O que é neurossonografia fetal e como ela difere do morfológico

A neurossonografia fetal é um exame ultrassonográfico especializado voltado para a avaliação detalhada do sistema nervoso central do feto.

Diferentemente do ultrassom morfológico convencional, que realiza uma análise global da anatomia fetal durante o rastreamento pré-natal, a neurossonografia tem como objetivo aprofundar a investigação das estruturas cerebrais e da coluna fetal quando existe suspeita de anormalidade, fatores de risco ou necessidade de melhor definição diagnóstica.

No exame morfológico de rotina, realiza-se a avaliação neurológica principalmente por meio de cortes axiais padronizados, como os planos transventricular, transtalâmico e transcerebelar. Em gestações de baixo risco, quando esses achados estão normais e as medidas estão dentro dos parâmetros esperados para a idade gestacional, considera-se baixa a probabilidade de uma malformação significativa do sistema nervoso central.

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Entretanto, algumas alterações cerebrais podem ser discretas, evolutivas ou difíceis de identificar apenas pelo exame básico. Nesses casos, a neurossonografia fetal amplia a investigação utilizando uma abordagem multiplanar, com cortes coronais e sagitais obtidos por via transabdominal ou transvaginal, frequentemente associados ao Doppler colorido e, em situações selecionadas, à ressonância magnética fetal.

Outra diferença importante é que a neurossonografia geralmente é realizada por profissionais com treinamento específico em medicina fetal e neuroimagem fetal, utilizando equipamentos de alta resolução. Dessa forma, o exame apresenta maior capacidade para diagnosticar malformações complexas, alterações do desenvolvimento cortical, distúrbios da linha média cerebral e anomalias da fossa posterior. Assim, contribui para o aconselhamento pré-natal, definição prognóstica e planejamento do seguimento gestacional e neonatal.

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Quando indicar a neurossonografia fetal

Indica-se a neurossonografia fetal principalmente quando existe maior risco de alterações do SNC fetal ou quando o exame morfológico convencional identifica achados suspeitos que necessitam de investigação complementar.

Entre as principais indicações estão:

  • Presença de ventriculomegalia;
  • Suspeita de anomalias da linha média cerebral;
  • Alterações da fossa posterior;
  • Cistos intracranianos;
  • Assimetrias ventriculares;
  • Microcefalia ou macrocefalia;
  • Achados sugestivos de distúrbios do desenvolvimento cortical.
  • Situações em que o exame básico apresenta limitação técnica ou dificuldade de visualização adequada das estruturas cerebrais.

Além disso, gestantes com infecções congênitas, especialmente aquelas relacionadas ao grupo TORCH e ao vírus Zika, merecem atenção especial devido ao risco aumentado de lesões cerebrais fetais, calcificações e ventriculomegalia.

Da mesma forma, fetos com restrição de crescimento intrauterino (RCIU) podem apresentar maior risco de comprometimento neurológico.

Ademais, histórico familiar de malformações do sistema nervoso central, alterações cromossômicas, síndromes genéticas ou exposição materna a teratógenos são fatores que aumentam a necessidade de investigação especializada.

Por fim, embora a idade materna avançada, isoladamente, não seja uma indicação absoluta para neurossonografia, ela pode estar associada a maior risco de alterações cromossômicas e, consequentemente, de anomalias estruturais fetais, principalmente quando acompanhada de outros marcadores ultrassonográficos suspeitos.

Diretriz ISUOG para neurossonografia

A International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology (ISUOG) recomenda que a avaliação básica do sistema nervoso central fetal faça parte do exame morfológico de rotina. No exame utilizam-se principalmente os planos axiais transventricular, transtalâmico e transcerebelar.

Segundo a ISUOG, recomenda-se a neurossonografia fetal detalhada quando houver suspeita de anormalidade cerebral, presença de fatores de risco ou necessidade de caracterização anatômica.

As recomendações também destacam que a interpretação adequada depende do conhecimento do desenvolvimento normal do cérebro fetal em cada idade gestacional, já que algumas estruturas podem estar fisiologicamente ausentes ou incompletamente desenvolvidas em fases precoces da gravidez.

A ISUOG também reforça que a neurossonografia deve ser realizada por profissionais experientes. Além disso, orienta o uso de equipamentos de alta resolução e, quando necessário, Doppler colorido, ultrassonografia tridimensional e ressonância magnética fetal.

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Cortes axiais obrigatórios

Realiza-se a avaliação ultrassonográfica básica do sistema nervoso central fetal principalmente por meio de três cortes axiais fundamentais: os planos transventricular, transtalâmico e transcerebelar.

Esses planos fazem parte do protocolo padrão do exame morfológico fetal e permitem a análise das principais estruturas intracranianas. Portanto, auxiliam na identificação precoce de malformações cerebrais e alterações do desenvolvimento neurológico.

Plano transventricular

O plano transventricular permite a visualização dos ventrículos laterais, especialmente seus cornos posteriores. Também se realiza a medida do átrio ventricular nesse nível, sendo considerada normal quando inferior a 10 mm.

Plano transtalâmico

Portanto, a avaliação desse plano é essencial para rastrear ventriculomegalia, assimetrias ventriculares e alterações das estruturas da linha média cerebral.

Utiliza-se o plano transtalâmico, por sua vez, para biometria craniana. Nesse corte, visualizam-se os tálamos, o cavum do septo pelúcido, os cornos frontais dos ventrículos laterais e o giro hipocampal.

É nesse plano que normalmente são medidos o diâmetro biparietal e a circunferência craniana. Tais parâmetros são importantes para avaliação do crescimento fetal e investigação de alterações como microcefalia e macrocefalia.

Plano transcerebelar

Já o plano transcerebelar é realizado em um nível mais inferior e posterior da cabeça fetal, permitindo a análise da fossa posterior. Nesse corte, é possível visualizar o cerebelo, o vermis cerebelar, a cisterna magna, além do cavum do septo pelúcido e parte dos ventrículos laterais.

O cerebelo apresenta aspecto característico em “borboleta”, formado pelos hemisférios cerebelares unidos pelo vermis. Já a cisterna magna é considerada normal quando mede entre 2 e 10 mm.

Alterações nesse plano podem sugerir malformações da fossa posterior, como malformação de Dandy-Walker, hipoplasia vermiana e mega cisterna magna.

Cortes coronais e sagitais avançados

Quando há suspeita de alteração no sistema nervoso central fetal, a avaliação não deve limita-se aos cortes utilizados no exame morfológico de rotina.

Nesses casos, a neurossonografia fetal amplia a investigação por meio de planos coronais e sagitais. Esses cortes permitem uma análise mais detalhada da anatomia cerebral e aumentam a capacidade diagnóstica de malformações.

Cortes coronais

Os cortes coronais oferecem uma visualização frontal do encéfalo fetal, permitindo examinar com mais precisão a simetria dos hemisférios cerebrais, os ventrículos laterais, a fissura inter-hemisférica e a disposição do córtex.

Também ajudam na identificação de alterações como ventriculomegalia, fusão anômala de estruturas da linha média e malformações relacionadas à holoprosencefalia.

Em algumas situações, esses planos tornam mais evidente a separação anormal dos ventrículos ou sinais indiretos de agenesia do corpo caloso, como o aspecto verticalizado dos ventrículos laterais.

Cortes sagitais

Já os cortes sagitais, especialmente o plano sagital mediano, são considerados um dos principais diferenciais da neurossonografia avançada.

Esse plano permite a avaliação direta de estruturas centrais como o corpo caloso, tronco encefálico e fossa posterior.

É justamente nesse corte que se torna possível analisar de forma mais confiável anomalias da linha média. Além disso, o plano sagital mediano é essencial para distinguir alterações que podem parecer semelhantes no rastreio básico.

Achados que mudam conduta

Alguns achados na avaliação do sistema nervoso central fetal têm impacto direto no seguimento da gestação porque podem indicar anomalias estruturais relevantes, necessidade de investigação complementar e mudança no aconselhamento pré-natal.

Entre os principais estão a ventriculomegalia, a agenesia do corpo caloso e as malformações da fossa posterior, alterações que frequentemente justificam encaminhamento para neurossonografia especializada.

Ventriculomegalia

A ventriculomegalia é um dos sinais mais importantes no rastreio cerebral fetal e costuma ser definida quando o átrio dos ventrículos laterais mede 10 mm ou mais.

Mesmo quando discreta, ela pode representar um achado isolado ou ser o primeiro marcador de alterações mais complexas do desenvolvimento cerebral, infecções congênitas, síndromes genéticas ou lesões adquiridas durante a gestação.

Por isso, sua identificação geralmente muda a conduta, exigindo avaliação detalhada de todo o encéfalo, acompanhamento seriado e investigação de possíveis causas associadas.

Agenesia de corpo caloso

A agenesia do corpo caloso também é um achado de grande relevância clínica, pois o corpo caloso é uma das principais estruturas de conexão entre os hemisférios cerebrais.

Sua ausência total ou parcial pode estar relacionada a alterações genéticas, infecções congênitas, síndromes e outras malformações do sistema nervoso central.

Quando há suspeita, a neurossonografia com cortes sagitais e coronais torna-se fundamental para confirmação, e a avaliação costuma ser complementada com testes genéticos e ressonância magnética fetal.

Malformações da fossa posterior

As malformações da fossa posterior também merecem atenção especial porque incluem condições com prognósticos bastante variados, desde variantes benignas até alterações associadas a comprometimento neurológico importante.

Entre elas estão a malformação de Dandy-Walker, a hipoplasia do vermis cerebelar, a mega cisterna magna e a persistência da bolsa de Blake.

Como redigir o laudo neurossonográfico

A elaboração do laudo de neurossonografia fetal deve ser clara, sistematizada e descritiva, refletindo a complexidade da avaliação do sistema nervoso central sem perder objetividade.

Como esse exame costuma ser realizado quando há suspeita de anormalidade ou maior risco fetal, o relatório precisa registrar não apenas a presença de alterações, mas também os planos examinados, as estruturas avaliadas e o grau de confiabilidade dos achados observados.

Passo a passo

Em geral, inicia-se o laudo informando a idade gestacional, a via utilizada para o exame (transabdominal ou transvaginal) e se a avaliação foi feita como estudo complementar ao ultrassom morfológico.

Em seguida, descrevem-se os cortes obtidos, especialmente os axiais obrigatórios (transventricular, transtalâmico e transcerebelar) e, quando aplicável, os cortes coronais e sagitais.

A parte descritiva deve incluir as principais estruturas cerebrais avaliadas e sempre que houver alteração, o ideal é detalhar se o achado é isolado ou se há associação com outras anomalias intracranianas ou extracranianas.

Quando se identificam achados suspeitos, o laudo deve descrever de forma anatômica e evitar conclusões precipitadas sem correlação completa.

Ao final, a conclusão deve sintetizar os principais achados, indicando se o exame apresenta anatomia intracraniana dentro da normalidade para a idade gestacional ou se existem alterações que justificam investigação complementar.

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Referências

  • Milani HJF, Barreto EQS, Araujo Júnior E, Peixoto AB, Nardozza LMM, Moron AF. Ultrasonographic evaluation of the fetal central nervous system: review of guidelines. Radiol Bras. 2019 May-Jun;52(3):176-181. doi: 10.1590/0100-3984.2018.0056. PMID: 31210692; PMCID: PMC6561375.
  • Monteagudo, A; Timor-Tritsch, I. Prenatal diagnosis of CNS anomalies other than neural tube defects and ventriculomegaly. UpToDate, 2026.

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Dra. Michelle Vilas Boas
Dra. Michelle Vilas Boas

Médica graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), atualmente dedica-se à elaboração de textos informativos, contribuindo para a divulgação de informações confiáveis e para o fortalecimento da presença de profissionais da área da saúde no cenário digital.

CRM-BA: 49687

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