Doppler de artéria uterina no 1º trimestre: como integrar ao rastreio combinado de pré-eclâmpsia

Profissional de saúde realiza exame de ultrassonografia obstétrica em gestante deitada na maca, enquanto ela segura a mão de um acompanhante durante o atendimento.

Índice

A pré-eclâmpsia é uma das complicações hipertensivas mais importantes da gestação, por estar associada a aumento de morbidade materna, prematuridade e desfechos perinatais adversos. Nos últimos anos, o rastreamento precoce ganhou destaque porque permite identificar gestantes com maior probabilidade de desenvolver a doença.

Dentro desse contexto, o Doppler das artérias uterinas realizado no primeiro trimestre tornou-se uma ferramenta importante, especialmente quando integrado a modelos combinados de predição de risco.

Por que a artéria uterina prediz pré-eclâmpsia

A relação entre o Doppler da artéria uterina e a pré-eclâmpsia está diretamente ligada à fisiopatologia da doença.

Em uma gestação normal, ocorre remodelamento das artérias espiraladas uterinas por invasão trofoblástica, transformando vasos de alta resistência em vasos de baixa resistência. Esse processo permite fluxo sanguíneo adequado para a placenta em desenvolvimento.

Entretanto, quando essa adaptação é incompleta, a circulação uteroplacentária permanece com resistência elevada, favorecendo hipoperfusão placentária, estresse oxidativo e liberação de fatores antiangiogênicos que contribuem para o surgimento da síndrome hipertensiva.

É justamente essa resistência aumentada que pode ser detectada pelo Doppler. O exame pode demonstrar padrões de fluxo anormais, como elevação do índice de pulsatilidade (PI) e, em alguns casos, presença de incisura protodiastólica, achados que representam indiretamente uma placentação inadequada.

Assim, o Doppler não “diagnostica” a pré-eclâmpsia, mas identifica alterações hemodinâmicas precoces que antecedem o quadro clínico.

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Técnica padronizada (transabdominal x transvaginal)

Para que o Doppler das artérias uterinas tenha valor reprodutível, a técnica deve ser padronizada.

Assim, no primeiro trimestre, entre 11 e 13 semanas + 6 dias, o exame pode ser realizado tanto por via transabdominal quanto transvaginal, mas a abordagem transabdominal é a mais utilizada na prática clínica e a preferida em protocolos internacionais.

Um ponto fundamental é que o local da medida interfere no resultado. Segmentos mais distais do vaso podem subestimar a resistência, enquanto ramos cervicais podem superestimá-la. Por isso, o exame precisa seguir o mesmo ponto anatômico de aferição.

Técnica transabdominal

Na técnica transabdominal, obtém-se inicialmente um corte sagital do útero, identificando o colo e o orifício cervical interno. Após isso, o transdutor é angulado lateralmente com Doppler colorido para localizar cada artéria uterina na região do colo.

Em seguida, aplica-se Doppler pulsado com amostra pequena, geralmente 2 mm, mantendo ângulo de insonação inferior a 30 graus. O ideal é registrar pelo menos três ondas semelhantes e de boa qualidade em cada lado.

Via transvaginal

Na via transvaginal, o princípio é semelhante, mas o transdutor é posicionado no fórnice vaginal anterior.

Embora seja tecnicamente possível e útil em algumas situações, estudos mostram que a medida transvaginal tende a gerar valores de índice de pulsatilidade mais altos, o que pode alterar a interpretação se os valores de referência não forem específicos para essa via. Por isso, a transabdominal costuma ser preferida para rastreamento populacional.

Índice de pulsatilidade médio e percentis

O parâmetro principal utilizado no rastreamento é o índice de pulsatilidade médio (PI médio), calculado a partir da média entre o PI da artéria uterina direita e esquerda. Esse valor reflete a resistência vascular uteroplacentária global.

Assim, valores mais altos indicam maior resistência ao fluxo e maior risco de distúrbios relacionados à placentação, especialmente pré-eclâmpsia e restrição de crescimento fetal.

Historicamente, utilizava-se um ponto de corte fixo, como o percentil 95. Entretanto, hoje sabe-se que isso é insuficiente, porque características maternas como etnia, peso, altura e idade influenciam os valores. Por isso, o ideal é interpretar o resultado em percentis ajustados para idade gestacional e características maternas.

Na prática, considera-se alterado um PI médio acima do percentil 95 para a idade gestacional, apesar de alguns protocolos utilizarem o percentil 90 em rastreamento de primeiro trimestre. Assim, quanto maior o percentil, maior o risco, especialmente quando associado a outros marcadores.

Por fim, a presença de incisura bilateral, embora classicamente descrita, tem valor isolado limitado no primeiro trimestre, pois pode ser observada em muitas gestações normais nessa fase.

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Algoritmo combinado Fetal Medicine Foundation

O grande avanço no rastreamento da pré-eclâmpsia veio com a proposta da Fetal Medicine Foundation (FMF), que integra diferentes marcadores em um algoritmo matemático de risco individual.

Esse modelo combina:

  • Fatores maternos e história clínica;
  • Pressão arterial média (PAM);
  • Índice de pulsatilidade médio das artérias uterinas;
  • Biomarcadores séricos, principalmente PlGF;
  • Alternativamente, PAPP-A, quando o PlGF não está disponível.

Nenhum marcador isolado possui desempenho ideal, mas a combinação melhora significativamente a sensibilidade. Por exemplo, enquanto o Doppler isolado detecta menos da metade dos casos, o algoritmo combinado pode identificar cerca de 75% dos casos de pré-eclâmpsia de início pré-termo com taxa de falso-positivo de aproximadamente 10%.

O PlGF tem papel importante porque reflete a angiogênese placentária. Portanto, valores reduzidos no primeiro trimestre estão associados a maior risco de pré-eclâmpsia. Já o PAPP-A pode ser usado como substituto em locais onde o PlGF não está disponível.

A PAM também melhora muito a performance do modelo, pois incorpora o componente hemodinâmico materno ao rastreamento.

ASPRE e o uso de aspirina baseada em risco

O estudo mais marcante nesse campo foi o ASPRE (Aspirina para Prevenção da Pré-eclâmpsia Baseada em Evidências), que consolidou a estratégia de rastreamento combinado seguido de profilaxia com aspirina em pacientes de alto risco.

Nesse ensaio, gestantes foram rastreadas entre 11 e 13+6 semanas pelo algoritmo FMF. As que apresentaram risco elevado (geralmente ≥1:100 para pré-eclâmpsia pré-termo) receberam aspirina 150 mg ao dia, iniciada ainda no primeiro trimestre, preferencialmente a partir de 12 semanas e antes de 16 semanas.

Os resultados mostraram redução expressiva da pré-eclâmpsia pré-termo, especialmente das formas mais graves. Esse achado reforçou um conceito essencial: não basta identificar risco; é preciso identificar cedo o suficiente para intervir.

Portanto, o Doppler do primeiro trimestre tem impacto clínico real apenas quando integrado ao rastreamento precoce e associado a uma conduta preventiva.

Como reportar no laudo

O laudo do Doppler das artérias uterinas deve ser claro, padronizado e útil para o obstetra que acompanha o pré-natal. Dessa forma, não basta apenas informar se está normal ou alterado, o ideal é descrever os dados quantitativos.

Assim, um relatório bem estruturado costuma incluir:

  • Idade gestacional no momento do exame;
  • Técnica utilizada;
  • PI da artéria uterina direita;
  • PI da artéria uterina esquerda;
  • PI médio;
  • Percentil correspondente para a idade gestacional;
  • Presença ou ausência de incisura protodiastólica bilateral;
  • Conclusão objetiva.

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Referências

  • Norwitz ER, Bellussi F. Prediction of preeclampsia in asymptomatic pregnant patients. UpToDate, 2026.
  • Pedroso MA, Palmer KR, Hodges RJ, Costa FDS, Rolnik DL. Uterine Artery Doppler in Screening for Preeclampsia and Fetal Growth Restriction. Rev Bras Ginecol Obstet. 2018 May;40(5):287-293. doi: 10.1055/s-0038-1660777. Epub 2018 Jun 18. PMID: 29913544; PMCID: PMC10316938.

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