A predição de pré-eclâmpsia no ultrassom morfológico do 1º trimestre tem ganhado destaque por seu impacto na prevenção e no manejo precoce dessa condição potencialmente grave.
Realizado entre 11 e 14 semanas, o exame não se limita à avaliação anatômica inicial do feto, mas incorpora protocolos que permitem identificar gestantes em maior risco para complicações. Nesse contexto, a associação entre análise morfológica, dopplerfluxometria das artérias uterinas e marcadores bioquímicos possibilita uma estratificação individualizada do risco, favorecendo intervenções preventivas oportunas e um pré-natal mais seguro e direcionado.
Introdução ao ultrassom morfológico do 1º trimestre
Tradicionalmente, a ultrassonografia para avaliação da morfologia fetal era realizada principalmente no segundo trimestre. No entanto, com a evolução tecnológica, tornou-se possível examinar o feto já no primeiro trimestre, entre 11 e 13+6 semanas, permitindo melhor acompanhamento da gestação e detecção precoce de alterações.
Papel do ultrassom na avaliação fetal e materna
O ultrassom do primeiro trimestre vai além da simples análise morfológica, permitindo a avaliação detalhada do feto e do risco materno para complicações gestacionais.
Ele possibilita a confirmação do número de fetos, vitalidade, datação gestacional e a detecção precoce de más-formações relevantes. Além disso, contribui para a predição de pré-eclâmpsia por meio da combinação de dopplerfluxometria das artérias uterinas, história clínica materna, marcadores bioquímicos como PAPP-A e PLGF, e aferição da pressão arterial.
Ultrassonografia no primeiro trimestre da gravidez
A ultrassonografia no primeiro trimestre da gestação é essencial para o rastreamento de anomalias cromossômicas e malformações fetais. Além disso, contribui para prever risco de complicações maternas, como a pré-eclâmpsia.
Durante este período, o feto apresenta comprimento cabeça-nádega (CCN) entre 45 e 84 mm, permitindo uma visualização detalhada das estruturas anatômicas e facilitando a identificação precoce de possíveis alterações.
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Translucência Nucal
A translucência nucal é a medida da espessura da região posterior do pescoço fetal. Um aumento nessa medida pode indicar risco elevado para anomalias cromossômicas, como, por exemplo, a trissomia 21 (síndrome de Down). Portanto, utiliza-se esse marcador em conjunto com outros parâmetros para calcular o risco global de aneuploidias.
Osso Nasal
A presença e a visualização do osso nasal também são avaliadas durante o exame. Dessa forma, a ausência ou hipoplasia do osso nasal pode estar associada a um risco aumentado para anomalias cromossômicas, especialmente a trissomia 21.
Ducto Venoso
O ducto venoso conecta a veia umbilical à veia cava inferior fetal. Diante disso, a avaliação do fluxo sanguíneo por esse vaso fornece informações sobre a circulação fetal e pode auxiliar na detecção de anomalias cardíacas ou circulatórias.
Regurgitação Tricúspide
A regurgitação da válvula tricúspide é a avaliação do fluxo sanguíneo reverso nesse vaso cardíaco. A presença de regurgitação pode indicar alterações na função cardíaca fetal e também está associada a maior risco para anomalias cromossômicas, como a trissomia 21.
Avaliação morfológica fetal
São avaliadas as principais estruturas anatômicas do feto, incluindo crânio, face, coluna vertebral, membros e órgãos internos. Isso permite identificar malformações estruturais e monitorar o desenvolvimento fetal.
Avaliação do risco de pré-eclâmpsia
Por fim, a ultrassonografia do primeiro trimestre também pode auxiliar na previsão do risco de pré-eclâmpsia. Nesse contexto, a análise do fluxo sanguíneo nas artérias uterinas, associada a outros marcadores maternos e bioquímicos, permite identificar gestantes com maior probabilidade de desenvolver a doença.
Diante disso, a detecção precoce possibilita medidas preventivas, como o uso de aspirina em baixas doses, contribuindo para reduzir complicações maternas e fetais.
Protocolos de exame do 1º trimestre
Orientações para aquisição de Imagens
Como já mencionado, realiza-se a ultrassonografia no primeiro trimestre entre 11+0 e 13+6 semanas de gestação, quando o comprimento cabeça-nádega (CCN) fetal varia entre 45 e 84 mm.
A via abdominal é preferencial, sendo a transvaginal indicada apenas em casos específicos, como obesidade materna, retroversão uterina, posição fetal persistente ou malformações.
Além disso, para uma avaliação morfológica eficaz, é essencial ajustar os parâmetros técnicos do aparelho de ultrassom. Portanto, escolhe-se a frequência do transdutor com base na profundidade e na qualidade da imagem desejada e adequa-se a ampliação da imagem para permitir a visualização detalhada das estruturas fetais.
Por fim, é importante otimizar o ganho e o contraste para melhorar a definição das imagens, facilitando a identificação de possíveis anomalias.
Checklist recomendado para avaliação morfológica
A avaliação morfológica no primeiro trimestre deve seguir um checklist padronizado para garantir a abrangência do exame. Dessa forma, avalia-se os seguintes itens:
- Número de fetos: confirmar se há um ou mais fetos na gestação.
- Vitalidade fetal: verificar a presença de atividade cardíaca e movimentos fetais.
- Datação da gestação: determinar a idade gestacional com base no comprimento cabeça-nádega (CCN).
- Localização da placenta: identificar a posição da placenta no útero.
- Volume de líquido amniótico: avaliar a quantidade de líquido amniótico presente.
- Translucência nucal: medir a espessura da região posterior do pescoço fetal.
- Osso nasal: verificar a presença do osso nasal.
- Ducto venoso: avaliar o fluxo sanguíneo através do ducto venoso.
- Regurgitação tricúspide: observar a presença de fluxo sanguíneo reverso na válvula tricúspide.
- Estruturas anatômicas fetais: examinar crânio, face, coluna vertebral, membros superiores e inferiores, abdômen e órgãos internos.
- Avaliação das artérias uterinas: medir o fluxo sanguíneo nas artérias uterinas para identificar gestantes com maior risco de desenvolver pré-eclâmpsia.
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Predição precoce de pré-eclâmpsia
A predição da pré-eclâmpsia (PE) no primeiro trimestre pode ser feita por meio de modelos de risco que integram:
- Dopplerfluxomteria de artérias uterinas;
- Histórico clínico materno;
- Marcadores bioquímicos;
- Medida da pressão arterial.
Portanto, ao combinar fatores maternos com resultados do ultrassom Doppler, pressão arterial e marcadores séricos como PAPP-A e PLGF, é possível calcular um risco individualizado de PE. Essa abordagem permite identificar gestantes com maior probabilidade de desenvolver a doença e potenciais complicações maternas e fetais.
Achados da ultrassonografia do 1º trimestre
O Doppler das artérias uterinas é a ferramenta de imagem mais promissora para rastrear risco de PE precoce.
Dessa forma, durante o exame, obtém-se uma secção sagital do corpo e colo uterino, e o Doppler colorido é usado para localizar as artérias uterinas com fluxo de alta velocidade lateralmente ao útero e ao colo.
O índice de pulsatilidade (IP) é medido quando pelo menos três ondas consecutivas semelhantes são obtidas, com ângulo de insonação <30° e pico de velocidade sistólica >60 cm/s, garantindo que o vaso examinado seja a artéria uterina. O IP médio das artérias uterinas é o índice Doppler preferencial para rastreamento no primeiro trimestre. Estudos mostram que valores acima do percentil 90–95 identificam aproximadamente 48% das mulheres que desenvolverão PE precoce e 26% das que terão PE em qualquer momento da gestação, com taxa de rastreamento positivo de cerca de 10%.
Além disso, incisuras bilaterais nas ondas Doppler, embora associadas a aumento significativo no risco de PE e restrição de crescimento fetal, apresentam especificidade baixa, sendo vistas em cerca de 50% das gestantes neste período.
Ademais, o Doppler deve ser interpretado considerando fatores maternos, como origem étnica, índice de massa corporal e história de PE prévia, pois eles influenciam o IP.
Benefícios da detecção precoce
A triagem precoce permite identificar gestantes com risco elevado para PE antes do início clínico da doença. Portanto, com essa informação, é possível implementar medidas preventivas, como o uso de aspirina em baixas doses, reduzindo a gravidade da doença, complicações maternas e fetais e a necessidade de parto prematuro.
Abordagens clínicas frente a pré-eclâmpsia predita
A pré-eclâmpsia é uma condição de alto risco para mãe e feto, sendo essencial a identificação precoce das gestantes com risco aumentado, além de intervenções não farmacológicas e farmacológicas.
Medidas não farmacológicas
As medidas não farmacológicas incluem, por exemplo, a prática de exercícios físicos moderados por pelo menos 140 minutos por semana, que aumentam a frequência cardíaca de forma segura para o feto e ajudam a reduzir a incidência de pré-eclâmpsia.
Medidas farmacológicas
O ácido acetilsalicílico (AAS) é a principal intervenção farmacológica para prevenção de PE em gestantes de alto risco.
Estudos demonstraram que doses ≥ 100 mg/dia iniciadas preferencialmente antes de 16 semanas reduzem significativamente o risco de PE pré-termo, sendo o tratamento seguro para mãe e feto, sem aumento de malformações ou complicações hemorrágicas importantes.
Em gestantes que apresentam contraindicações ao AAS, como alergias, distúrbios hemorrágicos ou asma grave, alternativas incluem suplementação de cálcio ou, em casos específicos, heparina de baixo peso molecular (HBPM).
Estratégias de acompanhamento e intervenção
Ademais, após a identificação de alto risco, gestantes devem ser monitoradas mais de perto durante a gestação, incluindo:
- Avaliação periódica da pressão arterial;
- Doppler das artérias uterinas;
- Controle clínico de possíveis sinais de PE.
Quando encaminhar para especialistas
Gestantes com alto risco para PE, identificadas por modelos de triagem combinados (fatores maternos, Doppler de artérias uterinas, marcadores bioquímicos e pressão arterial ), devem ser acompanhadas por especialistas em obstetrícia de alto risco.
Além disso, indica-se o encaminhamento também para casos de intolerância ou contraindicações ao AAS, surgimento de sinais precoces de PE ou complicações maternas e fetais.
Momento do parto
Por fim, em gestantes de baixo risco, a indução do parto entre 39 e 39 semanas e 4 dias mostrou reduzir os riscos de hipertensão gestacional e de PE em comparação à conduta expectante. Todavia, vale mencionar que a decisão do momento do parto deve ser individualizada.
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Referências
- Barmpas DBS et al. Protocolos de Prática ISUOG: papel da ultrassonografia no rastreamento e acompanhamento da pré-eclâmpsia. Ultrasound Obstet Gynecol 2018.
- Febrasgo. Predição e prevenção da pré-eclâmpsia. 2023. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/media/k2/attachments/Femina-01-2023-WEB.pdf. Acesso em: 02 out 2025.
- Poon LC, Nicolaides KH. Early prediction of preeclampsia. Obstet Gynecol Int. 2014;2014:297397. doi: 10.1155/2014/297397. Epub 2014 Jul 17. PMID: 25136369; PMCID: PMC4127237.
- Santana EF, Peixoto AB, Traina E, Barreto EQ. Ultrassonografia no primeiro trimestre da gravidez. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2018. (Protocolo FEBRASGO – Obstetrícia, no. 77/ Comissão Nacional Especializada em Ultrassonografia em GO).





