Ultrassonografia transvaginal avançada na detecção precoce da endometriose: limites e possibilidades na prática clínica

A imagem mostra um profissional da saúde segurando um transdutor de ultrassom endovaginal, coberto por uma proteção (geralmente um preservativo ou capa específica para uso médico), provavelmente antes de realizar um exame de ultrassonografia transvaginal.

Índice

A ultrassonografia transvaginal avançada tem se consolidado como uma ferramenta essencial na detecção precoce da endometriose, permitindo a avaliação detalhada da anatomia pélvica e a identificação de lesões que muitas vezes passam despercebidas em exames de imagem convencionais.

Apesar de suas evidentes vantagens, incluindo praticidade, baixo custo e ausência de radiação, o exame apresenta limites relacionados à experiência do operador e à localização das lesões, especialmente em casos profundos ou atípicos.

Nesse contexto, compreender essas possibilidades e limitações é fundamental para otimizar o diagnóstico precoce, orientar decisões terapêuticas e melhorar o manejo clínico das pacientes com suspeita de endometriose.

Endometriose: panorama clínico e desafios diagnósticos

A endometriose é uma condição ginecológica complexa e multifacetada, caracterizada pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina. Apesar de benigna, sua manifestação clínica é extremamente variável, podendo afetar múltiplos órgãos e sistemas, gerando desde sintomas leves até dor crônica intensa e infertilidade.

Epidemiologia e impacto na saúde da mulher

A endometriose afeta principalmente mulheres em idade reprodutiva, com pico de prevalência entre 25 e 35 anos. Além disso, a doença pode surgir antes da menarca, na adolescência, e até mesmo após a menopausa, embora em menor frequência.

Como já mencionado, apesar de não ser maligna, pode gerar sintomas debilitantes, incluindo dor pélvica crônica, dismenorreia intensa, dispareunia e infertilidade. Dessa forma, a presença de endometriose impacta significativamente a qualidade de vida, podendo resultar em limitações físicas, emocionais e sociais.

Sintomatologia e heterogeneidade clínica

Os sintomas da endometriose são variados e dependem da localização das lesões.

Os sintomas pélvicos, por exemplo, incluem:

  • Dor crônica;
  • Dor durante a relação sexual;
  • Sangramento menstrual intenso;
  • Infertilidade.

Além disso, lesões intestinais podem causar diarreia, constipação e dor ao evacuar, enquanto lesões vesicais ou ureterais podem levar a urgência urinária, dor ao urinar ou hematúria. Lesões em locais mais incomuns, como parede abdominal ou tórax, podem apresentar massa dolorosa, sangramento cíclico ou sintomas respiratórios catameniais, incluindo pneumotórax.

Ademais, nem todos os indivíduos apresentam sintomas e casos assintomáticos podem ser identificados incidentalmente durante procedimentos cirúrgicos.

Diagnóstico

O diagnóstico da endometriose combina avaliação clínica, exame físico detalhado, exames de imagem e, quando indicado, confirmação cirúrgica com biópsia.

Nesse contexto, a ultrassonografia transvaginal é geralmente o exame inicial, permitindo identificar endometriomas e lesões profundas, enquanto a ressonância magnética é útil em casos de suspeita de doença intestinal, vesical ou torácica. Ademais, o diagnóstico cirúrgico, preferencialmente por laparoscopia, continua sendo o padrão-ouro, permitindo tanto a confirmação quanto o tratamento das lesões.

Todavia, o diagnóstico presuntivo baseado em sintomas e achados de imagem tem consolidado-se como abordagem menos invasiva para iniciar terapias de baixo risco.

Dificuldades na detecção precoce

O atraso no diagnóstico é uma preocupação importante, com intervalos médios de 7 a 8 anos entre o início dos sintomas e a confirmação da doença. Fatores que contribuem incluem a sobreposição dos sintomas com outras condições ginecológicas ou gastrointestinais, variação na apresentação clínica e limitações das modalidades de exame não invasivo.

Nesse contexto, o reconhecimento precoce permanece um desafio clínico relevante, reforçando a necessidade de avaliação criteriosa e abordagem individualizada do paciente.

Ultrassonografia transvaginal e endometriose: princípios e técnicas

A ultrassonografia transvaginal (USTV) é o exame de imagem de escolha na avaliação de pacientes com suspeita de endometriose, permitindo identificar a causa dos sintomas, mapear a localização da doença e determinar sua extensão.

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Preparação da paciente e protocolo de exame

Antes do exame, a paciente deve ser informada sobre a natureza do procedimento e seu consentimento deve ser obtido. Recomenda-se esvaziar a bexiga, posicionar adequadamente a paciente com quadris e joelhos flexionados, e utilizar protocolos de higiene para a sonda transvaginal.

Além disso, técnicas como a sonovaginografia, que envolve a injeção de gel no fórnice posterior, podem aumentar a sensibilidade na detecção de endometriose profunda.

Equipamentos e recursos tecnológicos avançados

O uso de sondas transvaginais de alta resolução e softwares de imagem adequados permite identificar estruturas anatômicas e lesões com maior precisão. Em casos específicos, a ultrassonografia transabdominal pode complementar a avaliação, especialmente para rins e parede abdominal anterior.

Técnicas de avaliação das lesões endometrióticas

Avaliação de ovários e endometriomas

Os ovários devem ser analisados quanto a tamanho, mobilidade e presença de lesões como endometriomas.

Os endometriomas ovarianos, também conhecidos como “cistos de chocolate”, estão presentes em 17–44% dos casos de endometriose e a ultrassonografia transvaginal permite diagnosticá-los com boa confiabilidade.

Normalmente, apresentam-se como cistos uniloculares ou multiloculares com ecogenicidade em vidro fosco e baixa vascularização, embora em 5–10% dos casos possam exibir projeções papilares correspondentes a fibrina ou coágulos. Além disso, o Doppler colorido ajuda a diferenciar endometriomas de possíveis malignidades ovarianas.

Esses cistos raramente ocorrem isoladamente e estão frequentemente associados a outras lesões endometrióticas, podendo aderir à parte posterior do útero ou a órgãos adjacentes, o que pode ser avaliado pelo “sinal de deslizamento”.

Quando os ovários bilaterais estão próximos ou em contato na bolsa de Douglas, fala-se em “ovários em beijo”, condição associada a maior probabilidade de endometriose intestinal ou tubária.

Endometrioma ovariano típico. Fonte: Daniilidis et al., 2022.

Detecção de endometriose peritoneal superficial

A endometriose peritoneal superficial tem sido tradicionalmente difícil de diagnosticar por métodos de imagem convencionais, como ultrassonografia transvaginal ou ressonância magnética. Entretanto, técnicas mais recentes, como a sonopodografia com infusão salina, permitem a visualização direta dessas lesões superficiais, apresentando precisão diagnóstica promissora.

Embora ainda sejam necessários estudos mais amplos, esse método tem potencial para facilitar o diagnóstico precoce da endometriose peritoneal superficial e reduzir a necessidade de laparoscopias puramente diagnósticas.

Detecção de endometriose profunda

A endometriose profunda é definida como lesões com profundidade superior a 5 mm e representa a forma mais grave de endometriose. Sua detecção requer uma abordagem sistemática e detalhada, dado seu potencial de causar sintomas clínicos intensos e impactar significativamente a qualidade de vida.

Para otimizar a detecção, recomenda-se dividir a pelve durante a varredura em dois compartimentos:

  • O anterior, abrangendo bexiga e ureteres,
  • O compartimento posterolateral, que inclui o toro uterino, ligamentos útero-sacros, paramétrio, vagina, septo retovaginal e reto-sigmóide.

Essa segmentação melhora a sensibilidade e a especificidade da ultrassonografia transvaginal no diagnóstico da endometriose profunda, permitindo uma avaliação mais completa da extensão da doença.

Nódulo de endometriose profunda na bexiga que manifesta-se como uma protuberância que se projeta da parede basal da bexiga em direção ao seu interior. Fonte: Daniilidis et al., 2022.

Avaliação do septo retovaginal e intestino

O exame detalha o septo retovaginal, fórnice vaginal posterior e intestino anterior, identificando lesões isoladas ou extensas.

A identificação precisa desses sítios é fundamental, pois lesões grandes podem não ser visíveis à laparoscopia, e o mapeamento ultrassonográfico auxilia na decisão de encaminhamento para cirurgiões especializados.

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Limites da ultrassonografia transvaginal na detecção precoce

Apesar da utilidade da ultrassonografia transvaginal no contexto da endometriose, o exame apresenta limitações importantes, especialmente na detecção precoce da doença.

Fatores como localização das lesões, experiência do operador e características anatômicas individuais podem reduzir sua sensibilidade e especificidade, tornando necessária a consideração de métodos complementares para uma avaliação diagnóstica mais completa.

Sensibilidade e especificidade por localização da lesão

A ultrassonografia transvaginal é altamente eficaz para detectar endometriomas ovarianos e lesões profundas no compartimento pélvico. No entanto, sua sensibilidade diminui para lesões superficiais ou localizadas em áreas de difícil acesso, como diafragma, intestino ou órgãos fora da pelve.

Assim, a capacidade do exame de identificar todas as formas de endometriose, especialmente nos estágios iniciais, é limitada.

Influência da experiência do operador

A precisão do ultrassom transvaginal depende significativamente do profissional que realiza o exame. Nesse contexto, a detecção de lesões sutis ou complexas requer treinamento específico e familiaridade com os padrões de imagem da endometriose. Portanto, profissionais menos experientes podem subestimar a extensão da doença ou deixar de identificar lesões importantes.

Fatores anatômicos e fisiológicos que dificultam a visualização

A anatomia individual e aspectos fisiológicos, como posição do útero, presença de gás intestinal ou variações anatômicas, podem dificultar a visualização completa das lesões. Além disso, lesões muito pequenas ou superficiais podem passar despercebidas, tornando o exame menos confiável como única ferramenta de diagnóstico precoce.

Integração com outros métodos diagnósticos

A avaliação da endometriose combina exame físico, exames laboratoriais, técnicas de imagem e, quando necessário, diagnóstico cirúrgico.

O exame físico, incluindo avaliação abdominal, bimanual e toque retal, pode revelar sinais sugestivos como sensibilidade focal, nódulos no fórnice posterior, massas anexiais ou alterações na mobilidade do útero, embora sua normalidade não exclua a doença.

Marcadores laboratoriais, como o CA 125, podem estar elevados em alguns casos, mas não são específicos nem suficientemente sensíveis para confirmar o diagnóstico, sendo pouco utilizados rotineiramente.

A ultrassonografia transvaginal é geralmente o primeiro exame de imagem na avaliação diagnóstica, devido à sua disponibilidade, custo relativamente baixo e capacidade de identificar lesões ovarianas (endometriomas), nódulos retovaginais ou parametriais e alterações sugerindo endometriose profunda. Além disso, técnicas adicionais, como avaliação do compartimento posterior, observação do posicionamento uterino e sinal de deslizamento, aumentam a precisão diagnóstica.

Para pacientes com suspeita de envolvimento intestinal, vesical ou ureteral, ou quando os achados ultrassonográficos são pouco claros, a ressonância magnética (RNM) pode fornecer informações complementares, especialmente sobre espessamento da parede retal, sinal de tração e obliteração da Bolsa de Douglas.

O diagnóstico clínico presuntivo, portanto, integra sintomas, achados físicos e resultados de USGTV ou RNM para iniciar terapias de baixo risco, evitando atrasos no tratamento. Entretanto, em casos de sintomas graves ou refratários, o diagnóstico cirúrgico por laparoscopia permite confirmação histológica e tratamento simultâneo, sendo considerado o padrão-ouro.

Portanto, a integração da ultrassonografia transvaginal com exame físico, marcadores laboratoriais e RNM, quando necessário, fornece uma abordagem menos invasiva e eficiente para o diagnóstico da endometriose, permitindo o planejamento terapêutico individualizado antes da confirmação cirúrgica.

Possibilidades clínicas e benefícios do diagnóstico precoce

O diagnóstico precoce da endometriose permite um planejamento mais preciso do tratamento, adaptado às características individuais de cada paciente, incluindo abordagens cirúrgicas e terapêuticas. Além disso, possibilita um acompanhamento contínuo da evolução da doença, ajudando a detectar alterações ou recidivas de forma antecipada.

Com isso, é possível reduzir o risco de complicações e melhorar a qualidade de vida, minimizando sintomas e impactos funcionais associados à condição.

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Referências

  • Berlanda N, Vercellini P. Endometriosis: Clinical manifestations and diagnosis of rectovaginal or bowel disease. UpToDate, 2025.
  • Daniilidis A, Grigoriadis G, Dalakoura D, D’Alterio MN, Angioni S, Roman H. Transvaginal Ultrasound in the Diagnosis and Assessment of Endometriosis-An Overview: How, Why, and When. Diagnostics (Basel). 2022 Nov 23;12(12):2912. doi: 10.3390/diagnostics12122912. PMID: 36552919; PMCID: PMC9777206.
  • de Oliveira JGA, Bonfada V, Zanella JFP, Coser J. Transvaginal ultrasound in deep endometriosis: pictorial essay. Radiol Bras. 2019 Sep-Oct;52(5):337-341. doi: 10.1590/0100-3984.2018.0019. PMID: 31656353; PMCID: PMC6808616.
  • Leonardi M, Condous G. How to perform an ultrasound to diagnose endometriosis. Australas J Ultrasound Med. 2018 Apr 22;21(2):61-69. doi: 10.1002/ajum.12093. PMID: 34760504; PMCID: PMC8409846.
  • Schenken RS. Endometriosis in adults: Clinical features, evaluation, and diagnosis. UpToDate, 2025.

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